O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 35 de 83

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O Historiador

Capítulo 32

Se eu esperava que o gabinete de Turgut fosse mais um sonho oriental, o refúgio de um

acadêmico turco, estava enganado. A divisão para onde nos levou era muito menor que a anterior, mas com o mesmo pé-direito alto, e a claridade que entrava através de duas janelas permitia ver nitidamente o mobiliário. Duas das paredes estavam cobertas de livros de alto a baixo. C ortinas de veludo negro pendiam até ao chão de cada lado das janelas, e uma tapeçaria representando uma caçada, com cavalos e cães, dava um certo esplendor medieval ao ambiente. H avia uma pilha de livros de referência ingleses numa mesa ao centro; uma imensa coleção de obras de Shakespeare ocupava sozinha uma curiosa estante ao lado da secretária.

Aliás a primeira impressão que tive do escritório de Turgut não foi causada pela

predominância da literatura inglesa; apercebi-me de imediato de uma presença mais sombria, uma obsessão que tinha gradualmente superado a influência mais suave das obras inglesas sobre as quais ele escrevia. Aquela presença saltou-me à vista repentinamente sob a forma de um rosto, um rosto que estava em toda parte, olhando-me com arrogância de uma gravura atrás da secretária, de um pedestal sobre a mesa, de um bordado antigo numa das paredes, da capa de uma pasta de papéis, de um desenho perto da janela. E ra sempre o mesmo rosto, em poses e em suportes diferentes, mas sempre a mesma fisionomia medieval de faces encovadas e bigode.

Turgut observava-me.

— Ah, sabe de quem se trata — disse, soturno. — C olecionei o retrato dele de várias

formas, como pode ver.

Ficamos lado a lado, olhando para a gravura emoldurada pendurada na parede por

detrás da secretária. E ra uma reprodução de uma xilogravura como a que eu vira nos E stados Unidos, mas o rosto estava todo de frente, de modo que os olhos, negros como a noite, pareciam penetrar nos nossos.

— Onde encontrou todas essas imagens diferentes? — perguntei. — P or todo o lado — Turgut fez um gesto para o fólio em cima da mesa. — N alguns

casos, mandei fazer cópias desenhadas a partir de livros antigos; noutros, encontrei-as em lojas de antiguidades ou em leilões. É extraordinário constatar a quantidade de representações desse rosto que ainda existem por aí na nossa cidade, quando andamos a procura. Achei que, se pudesse reuni-las todas, seria capaz de ler o segredo do meu estranho livro em branco nos olhos dele. — E suspirou. — M as essas xilogravuras são tão toscas, tão pouco sutis. N ão me satisfaziam, e por fim pedi a um amigo, que é artista, para mas juntar numa só.

L evou-nos até um nicho junto de uma janela onde havia cortinas curtas, também de

veludo negro, fechadas sobre alguma coisa. Senti uma certa apreensão antes mesmo de ele estender a mão para puxar o cordão e, quando fez a engenhosa cortina abrir-se, o meu coração deu um salto. O veludo abriu-se para revelar uma pintura a óleo em tamanho natural e esplêndido realismo, o busto de um homem jovem, com um pescoço largo, viril. O cabelo, comprido, caía-lhe em pesados caracóis sobre os ombros. O rosto era extremamente bonito e cruel, com a pele clara e luminosa, os olhos verdes de um brilho invulgar, um longo nariz reto com narinas salientes. Os lábios vermelhos curvavam-se, sensuais, sob o bigode escuro e comprido, mas apertavam se um contra o outro como para controlar uma crispação do queixo. T inha as maçãs do rosto salientes e espessas sobrancelhas negras sob um barrete pontiagudo de veludo verde escuro, com uma pena castanha e branca presa a frente. E ra um rosto cheio de vida, mas completamente desprovido de piedade, transbordando de força e vivacidade mas sem estabilidade de caráter. Os olhos eram o traço mais perturbador da pintura, fixavam-se em nós com uma penetração quase viva na sua intensidade, tanto que, um segundo depois, desviei o rosto em busca de alívio. H elen, de pé ao meu lado, aproximou-se de mim, mais para me oferecer solidariedade do que para procurar conforto para si própria

— O meu amigo é um excelente artista — disse Turgut, baixinho. — E stão a ver por que razão mantenho este quadro atrás de uma cortina. N ão gosto de olhar para ele enquanto estou a trabalhar. — P oderia ter dito que, ao contrário, não gostava que o retrato olhasse para ele, pensei. — E sta é uma idéia da aparência que Vlad Drácula teria por volta de 1456, quando iniciou o seu mais longo governo da Valáquia. T inha então vinte e cinco anos e era instruído pelos padrões da sua cultura, além de muito bom cavaleiro. N os vinte anos seguintes, matou talvez mil e quinhentos dos seus próprios súditos, as vezes por razões políticas e frequentemente pelo prazer de os ver morrer

Turgut fechou a cortina e eu fiquei contente por ver aqueles olhos brilhantes, terríveis, apagarem se finalmente

— Tenho outras curiosidades para lhes mostrar — disse, indicando um armário de madeira junto a parede — I sto é um selo da Ordem do Dragão, que encontrei num mercado de antiguidades junto ao porto da cidade velha E isto é uma adaga, feita de prata, que vem do início da era otomana de I stambul. Sou da opinião que foi utilizada para matar vampiros, porque há palavras escritas na bainha que sugerem algo desse gênero. E stas correntes e espigões — indicou-nos outro armário — receio bem que fossem instrumentos de tortura, talvez oriundos da própria Valáquia. E aqui, meus caros amigos, temos uma preciosidade. — De uma ponta da secretária tirou uma linda caixa de madeira marchetada e abriu o fecho. Dentro dela, no meio das dobras do forro de cetim preto desbotado, viam-se vários utensílios pontiagudos parecidos com instrumentos cirúrgicos, assim como uma diminuta pistola de prata e uma faca também de prata.

— O que é isso? — H elen estendeu uma mão hesitante para a caixa, mas recolheu-a imediatamente.

— É um autêntico estojo de caça aos vampiros, com cem anos — declarou Turgut, orgulhoso. — Acredito que seja oriundo de B ucareste. Um amigo meu, que é colecionador de antiguidades, encontrou-mo há muitos anos. H á muitos estojos destes. E ram vendidos aos viajantes que iam para o L este E uropeu nos séculos dezoito e dezenove. H avia originalmente alho aqui dentro, neste espaço, mas prefiro pendurar o meu.

Fez um gesto e, com outro calafrio, vi compridas réstias de alho de cada lado da porta,

de frente para a secretária dele. Ocorreu-me, tal como me acontecera com Rossi apenas uma semana antes, que talvez o professor B ora fosse, não apenas meticuloso, mas também louco.

Anos mais tarde, compreendi melhor aquela minha primeira reação, a cautela que

manifestei quando vi o escritório de Turgut, que poderia ter sido um dos quartos do castelo de Drácula, um gabinete medieval cheio de instrumentos de tortura. É um fato que nós, historiadores, nos interessamos por aquilo que é um pouco um reflexo de nós próprios, talvez uma parte de nós que não gostaríamos de analisar a não ser através da erudição; também é verdade que, à medida que nos impregnamos dos nossos interesses, cada vez mais eles se tornam parte de nós. Ao visitar uma universidade norte-americana não a minha, muitos anos depois destes acontecimentos, fui apresentado a um dos primeiros grandes historiadores da Alemanha nazi. V ivia numa casa confortável nas imediações do campus, onde colecionava não só livros sobre o tema da sua especialidade, como também a porcelana oficial do Terceiro Reich. Os seus cães, dois enormes pastores alemães, patrulhavam dia e noite o espaço em frente da casa. E nquanto tomávamos uma bebida com outros professores da universidade na sua sala de estar, declarou-me categoricamente que desprezava H itler e os seus crimes e queria revelá-los ao mundo civilizado nos mais ínfimos pormenores. Saí cedo da festa, passando com o maior cuidado por aqueles cães enormes, incapaz de ultrapassar a minha aversão.

— Talvez ache isto excessivo — disse Turgut, quase em tom de desculpa, como se

tivesse captado a expressão do meu rosto. Ainda estava a apontar para o alho. — É apenas porque não gosto de me sentar aqui cercado por esses maus pensamentos do passado sem uma proteção, sábia? E agora, deixem-me mostrar-lhes aquilo que me fez trazê-los à minha casa.

C onvidou-nos a sentar-nos numas cadeiras desengonçadas com estofo de damasco.

N as costas da minha, havia o que parecia ser um embutido feito de... seria osso? N ão quis apoiar-me nele. Turgut tirou uma pesada pasta de papéis de uma das estantes. De dentro dela, tirou cópias feitas a mão dos documentos que tínhamos examinado nos arquivos — desenhos semelhantes aos de Rossi, só que executados com maior cuidado e depois uma carta, que me passou para as mãos. Fora datilografada em papel timbrado de uma universidade e estava assinada por Rossi não podia haver dúvida quanto à assinatura, reconhecia perfeitamente as curvas do B e do R. E Rossi estava realmente a lecionar nos E stados Unidos na época em que a carta tinha sido escrita. O breve texto da carta correspondia ao que Turgut dissera: ele, Rossi, nada sabia sobre o arquivo do sultão M ehmed. L amentava decepcionar o professor B ora e esperava que o seu trabalho progredisse. Era realmente uma carta desconcertante.

E m seguida, Turgut trouxe um livro pequeno encadernado em couro antigo. Foi difícil não estender imediatamente a mão para lhe pegar, mas esperei, com um febril autocontrole, enquanto Turgut o abria com grande delicadeza e nos mostrava, primeiro as folhas em branco a frente e atrás, e depois a xilogravura no centro aquele desenho já familiar, o dragão coroado com as suas perversas asas abertas, as garras segurando o estandarte com aquela única e ameaçadora palavra. Abri a minha pasta, que levara comigo, e tirei dela o meu livro. Turgut colocou os dois volumes lado a lado em cima da secretária. C ada um de nós comparou o seu tesouro com o maléfico presente do outro, e vimos juntos que os dragões eram iguais, que ocupavam as páginas até às margens, a imagem do livro dele mais escura, a minha mais desbotada, mas a mesma imagem, exatamente a mesma. H avia até uma pequena mancha idêntica perto da ponta da cauda do dragão, como se a matriz de madeira tivesse uma aresta que fizesse a tinta manchar um pouco o papel em cada impressão. Helen contemplava-os em silêncio, ensimesmada.

— É extraordinário — murmurou Turgut, por fim. — N unca sonhei que pudesse chegar um dia em que veria um segundo livro igual a este.

— E seria informado da existência de um terceiro — lembrei-lhe. — É o terceiro destes livros que vejo com os meus próprios olhos, não se esqueça. A xilogravura do livro de Rossi também era igual.

Ele concordou com um gesto de cabeça.

— E, meus amigos, qual será o significado disto?

Turgut espalhava já as suas cópias dos mapas junto aos nossos livros e comparava, com o dedo largo, os contornos dos dragões, do rio e das montanhas.

— E spantoso — murmurou. — E pensar que nunca reparei nisto. E xiste de fato uma semelhança. Um dragão que é um mapa. M as um mapa de onde? — Os seus olhos brilhavam.

— E ra o que Rossi estava a tentar descobrir no arquivo daqui — disse eu, com um suspiro. — Se ao menos tivesse continuado, mais tarde, para encontrar o significado...

— Talvez tenha sido o que ele fez.

A voz de H elen soou pensativa, e virei-me para ela para lhe perguntar o que queria dizer com aquilo. N aquele momento, a porta entre as duas estranhas réstias de alho escancarou-se e ambos nos sobressaltámos. E m vez de uma aparição horrível, porém, surgiu na entrada uma senhora baixinha e sorridente, com um vestido verde. E ra a mulher de Turgut, e todos nos levantámos para a receber.

— B oa tarde, minha querida — Turgut apressou-se a fazê-la entrar. — E stes são os meus amigos, os professores dos Estados Unidos, de que te falei.

E le fez as apresentações com galanteria e a senhora B ora apertou-nos a mão com um sorriso afável. T inha exatamente metade da altura de Turgut, com olhos verdes de pestanas compridas, um nariz delicadamente aquilino e uma profusão de caracóis avermelhados na cabeça.

— Sinto muito não encontrar vocês aqui antes. — Falava inglês devagar, mas com a

pronúncia correta. — Talvez meu marido não deu comida nenhuma a vocês, não?

Protestamos que tínhamos sido muito bem alimentados, mas ela abanou a cabeça. — M r. B ora nunca dá um jantar bom para nossos hóspedes. E u vou... ralhar com ele!

— E sacudiu o punho minúsculo para o marido, que tinha um ar satisfeito.

— Tenho um medo terrível da minha mulher — disse ele, complacente. — É feroz

como uma Amazona.

Helen, altíssima ao lado de Mrs. Bora, sorriu para os dois; eram de fato irresistíveis. — E agora — continuou M rs. B ora, — ele aborrece vocês com suas coleções horríveis.

Sinto muito.

M inutos depois, estávamos de novo instalados nos suntuosos divãs, com M rs. B ora a

servir-nos café e a sorrir, radiante, para nós. V i que era muito bonita, de uma beleza delicada de passarinho, uma mulher de maneiras calmas, com uns quarenta anos, talvez. O seu inglês era limitado, mas exibia-o com graça e bom humor, como se o marido frequentemente arrastasse para casa visitantes de língua inglesa. O seu vestido era simples e elegante e os seus gestos requintados. I maginei as crianças da escola infantil, onde ensinava, reunidas em volta dela deviam ficar-lhe à altura do queixo, calculei. G ostaria de saber se ela e Turgut tinham filhos; não havia fotografias de crianças na sala, ou qualquer outro sinal delas, e não tive coragem de perguntar.

— M eu marido passeou muito com vocês por nossa cidade? — perguntou M rs. B ora a

Helen.

— Sim, um pouco — respondeu H elen. — Receio que lhe tenhamos tomado muito

tempo, hoje.

— N ão, fui eu que tomei o vosso — e Turgut bebericou o seu café com prazer

evidente. — Mas ainda temos muito trabalho a fazer. Minha querida — disse ele, dirigindo-se à mulher, — vamos procurar um professor desaparecido, portanto vou estar muito ocupado durante alguns dias.

— Um professor desaparecido? — M rs. B ora sorriu para ele calmamente. — E stá bem.

Mas, primeiro, temos de jantar. Espero que jantem conosco? — disse, virando-se para nós.

A idéia de mais comida era impensável, e procurei não trocar um olhar com H elen.

Esta, entretanto, parecia achar tudo normal.

— Obrigada, M rs. B ora, a senhora é muito gentil, mas creio que temos de voltar para o

hotel, porque temos um compromisso lá às cinco horas.

— Temos? — Fiquei meio desnorteado, mas entrei no jogo. — É verdade. Outros

americanos vão encontrar-se conosco no hotel para uma bebida. M as esperamos vê-los ambos de novo em breve.

Turgut concordou, balançando a cabeça.

— V ou começar imediatamente a examinar tudo o que na minha biblioteca nos possa ajudar. Temos de pensar na possibilidade de a tumba de Drácula estar aqui em I stambul; se esses mapas se referem a uma área da cidade. Tenho aqui alguns livros antigos sobre a cidade, e amigos que possuem excelentes coleções de livros sobre I stambul. V ou vasculhar tudo hoje à noite.

— Drácula. — M rs. B ora abanou a cabeça. — G osto mais de Shakespeare do que de Drácula. Um interesse mais saudável. Também — e lançou-nos um olhar malicioso — é Shakespeare que paga as nossas contas.

Acompanharam-nos à porta com grande cerimónia e Turgut fez-nos prometer que nos encontraríamos com ele no vestíbulo da nossa pensão na manhã seguinte, às nove horas. L evaria novas informações, se pudesse, e visitaríamos outra vez o arquivo para saber se acontecera mais alguma coisa. Até lá, aconselhou-nos, devíamos usar da maior cautela, sempre atentos a qualquer indício de estarmos a ser seguidos ou a outros perigos. Turgut queria acompanhar-nos de volta à pensão, mas garantimos-lhe que podíamos perfeitamente apanhar o ferry sozinhos — partiria dentro de vinte minutos, frisou ele. Os B ora foram connosco até à entrada e ficaram juntos no cimo da escada, de mãos dadas, acenando em despedida. V irei-me uma ou duas vezes para olhar enquanto atravessávamos o túnel formado pelas figueiras e choupos da rua.

— É um casamento feliz, na minha opinião — comentei com H elen, e lamentei imediatamente ter feito o comentário, porque ela fez o seu característico resmungo de desdém.

— Vamos, ianque — disse. — Temos mais que fazer.

N ormalmente, teria achado graça ao epíteto que usava para mim, mas desta vez alguma coisa me fez olhar para ela com um estremecimento íntimo. H avia outro pensamento que fazia parte daquela inusitada visita vespertina e que eu reprimira até ao último instante. Quando Helen se virou para mim, os seus olhos ao nível dos meus, chocou-me inevitavelmente a semelhança entre os seus traços vincados, embora bonitos, e aquela imagem ao mesmo tempo luminosa e horrível por detrás da cortina negra de Turgut.