O Historiador
Capítulo 14
Deixara de frequentar a biblioteca da universidade por algum tempo, em parte porque
me tinha sentido singularmente nervosa em relação à minha pesquisa lá, e, em parte, porque tinha a impressão de que M rs. C lay andava desconfiada das minhas ausências depois da escola. Avisava-a sempre, como prometera, mas uma crescente timidez na sua voz ao telefone fazia-me imaginá-la a ter conversas constrangedoras com o meu pai. N ão conseguia imaginá-la a saber o suficiente sobre maus hábitos para suspeitar de alguma coisa em concreto, mas o meu pai poderia fazer conjecturas embaraçosas charros? Rapazes? E por vezes ele olhava para mim com tanta ansiedade que eu não queria inquietá-lo ainda mais.
P or fim, contudo, a tentação tornou-se grande demais e decidi, apesar do meu
desconforto, voltar à biblioteca. Dessa vez, inventei um cinema à noite com uma miúda idiota da minha sala — sabia que J ohan B innerts trabalhava na seção medieval nas noites de quarta-feira e que o meu pai estaria numa reunião no C entro — e saí com o meu casaco novo, antes que Mrs. Clay pudesse dizer alguma coisa.
E ra esquisito ir à biblioteca à noite, sobretudo porque encontrei o salão principal tão
cheio como sempre de estudantes universitários com ar cansado. A sala de leitura da seção medieval, porém, estava vazia. Dirigi-me calmamente para a mesa de M r. B innerts, que estava às voltas com uma pilha de livros novos nada que me interessasse, comunicou-me com o seu sorriso suave, uma vez que eu só gostava de coisas horríveis. M as tinha-me separado um livro por que demorara tanto a vir buscá-lo? Desculpei-me como pude e ele deu uma risadinha.
— E stava com receio de que lhe tivesse acontecido alguma coisa, ou que tivesse
seguido o meu conselho e encontrado um assunto mais apropriado para uma jovem. M as fez-me ficar interessado, também, e procurei-lhe isto.
P eguei no livro, agradecida, e M r. B innerts disse que iria para a sua sala de trabalho,
mas voltaria em breve para ver se eu precisava de alguma coisa. M ostrara-me a sala de trabalho uma vez, uma pequena divisão com janelas, nas traseiras da sala de leitura, onde os bibliotecários restauravam maravilhosos livros antigos e colavam cartões nos novos. A sala de leitura ficou mais silenciosa do que nunca quando ele se afastou, mas abri avidamente o livro que ele me tinha dado.
E ra um achado extraordinário, pensei então, embora hoje saiba que se trata de uma
fonte básica para a história bizantina do século quinze uma tradução da I stória Turco-Bizantina, de M ichael Doukas, que conta muita coisa sobre o conflito entre Vlad Drácula e M ehmed I I . Foi naquela mesa que li pela primeira vez a famosa descrição do que viram os olhos de M ehmed quando invadiu a Valáquia em 1462 e seguiu para T irgoviste, a capital abandonada de Drácula. Fora da cidade, segundo Doukas, M ehmed foi recebido por "milhares e milhares de estacas com mortos espetados em vez de frutos". N o centro deste jardim da morte, estava apièce-de-résistance de Drácula: o general favorito de M ehmed, Hamza, empalado juntamente com os outros no "seu fino traje de púrpura".
L embrei-me do arquivo do sultão M ehmed, aquele que Rossi fora pesquisar a I stambul. Que o príncipe da Valáquia tinha sido uma pedra no sapato do sultão, era indiscutível. Achei que seria boa idéia ler um pouco sobre M ehmed; talvez existissem fontes sobre ele que explicassem o seu relacionamento com Drácula. N ão sabia por onde começar, mas M r. Binnerts tinha dito que voltaria em breve para falar comigo.
V irei-me, impaciente, com a intenção de ir ver onde ele estava, quando ouvi um ruído no fundo da sala. Foi uma espécie de pancada seca, mais uma vibração através do chão do que propriamente um som, como o de um pássaro que choca com um vidro em pleno voo. Alguma coisa me fez levantar e ir na direção do impacto, o que quer que fosse, e dei comigo a correr para a sala de trabalho no fundo do salão. N ão via M r. B innerts através das janelas, o que por um momento foi um alívio, mas quando abri a porta de madeira havia uma perna no chão, uma perna dentro de umas calças cinzentas, ligada a um corpo contorcido, a camisola azul enviesada no tronco torcido, o cabelo grisalho emaranhado e ensanguentado, o rosto misericordiosamente meio escondido dilacerado, uma parte dele ainda na esquina da secretária. Um livro tinha aparentemente caído da mão de Mr. Binnerts. Na parede, por cima da secretária, havia uma mancha de sangue, com uma grande e bem definida marca de mão, como uma pintura infantil. E sforcei-me tanto por não fazer qualquer ruído que o meu grito, quando veio, parecia ter saído de outra pessoa.
P assei duas noites no hospital, o meu pai insistiu, e o médico que me atendeu era um velho amigo. O meu pai mostrava-se amável e sério, sentado na beira da cama ou de pé junto à janela com os braços cruzados enquanto o polícia me interrogava pela terceira vez. E u não tinha visto ninguém entrar na sala da biblioteca. T inha estado a ler em silêncio sentada à mesa. T inha ouvido um baque. N ão tinha conhecido o bibliotecário pessoalmente, mas gostava dele. O polícia garantiu ao meu pai que eu não estava sob suspeita; era apenas o que tinham à mão como testemunha. M as eu não testemunhara nada, ninguém entrara na sala de leitura tinha a certeza e M r. B innerts não gritara. N ão havia ferimentos em nenhuma outra parte do corpo; alguém simplesmente tinha esmagado a cabeça do pobre homem na esquina da secretária. Alguém com uma força prodigiosa.
O polícia abanou a cabeça, perplexo. A marca da mão na parede não fora feita pelo bibliotecário; não havia sangue nas suas mãos. Além disso, a marca não condizia com a mão dele, e era uma estranha marca, com as impressões digitais desgastadas de maneira invulgar. Teria sido fácil identificá-la — o polícia estava a ficar falador com o meu pai exceto pelo fato de não terem registro de nenhuma assim. Um caso difícil. Amsterdã já não era a cidade onde ele crescera agora, as pessoas deitavam bicicletas nos canais, para não falar já no terrível incidente do ano passado com a prostituta que... O meu pai interrompeu-o com um olhar.
Quando o polícia saiu, o meu pai sentou-se na beira da cama e perguntou-me pela
primeira vez o que é que eu estava a fazer na biblioteca. Expliquei-lhe que estava a estudar, que gostava de ir para lá depois da escola fazer os trabalhos de casa porque a sala de leitura era sossegada e confortável. T ive medo que ele me perguntasse porque escolhera a seção medieval mas, para meu alívio, calou-se. N ão lhe contei que, na confusão que se gerou na biblioteca depois do meu grito, eu enfiara instintivamente na mochila o livro que M r. B innerts segurava quando morreu. É claro que os polícias me revistaram a mochila quando entraram na sala, mas nada disseram sobre o livro e por que lhe dariam importância? N ão tinha qualquer vestígio de sangue. E ra um livro francês do século dezenove sobre as igrejas românicas e tinha caído aberto numa página sobre a igreja do lago Snagov, erguida com magnificência por Vlad III da Valáquia. A sua sepultura estava tradicionalmente localizada ali, em frente do altar, segundo um pequeno texto por baixo de um plano da abside. C ontudo, notava o autor, os camponeses perto de Snagov tinham outras histórias. Que histórias, interrogava-me, mas não havia mais nada sobre aquela igreja em particular. O desenho da abside também não tinha qualquer característica particular.
— Quero que estudes em casa de agora em diante — disse o meu pai calmamente.
P referia que ele não tivesse dito nada; de qualquer maneira, eu nunca entraria naquela biblioteca outra vez. — M rs. C lay pode dormir no teu quarto durante algum tempo, se te sentires inquieta, e podemos chamar o médico sempre que quiseres. Só tens de me dizer.
C oncordei, embora pensasse que quase preferia ficar sozinha com a descrição da igreja
de Sganov do que com M rs. C lay. C onsiderei a possibilidade de atirar o livro para o nosso canal — o destino das bicicletas que o polícia mencionara —, mas sabia que acabaria por querer abri-lo outra vez, à luz do dia, para voltar a lê-lo. P oderia querer fazer isto não só por mim, mas também por M r. B innerts, com os seus modos de avô, que agora jazia algures numa morgue da cidade.
Algumas semanas mais tarde, o meu pai disse-me que seria bom para os meus nervos
fazer uma viagem, e eu sabia que o que ele queria dizer era que seria melhor para ele não me deixar em casa. "Os Franceses", explicou-me, queriam reunir-se com representantes da sua fundação antes de iniciarem conversações na E uropa Oriental naquele I nverno, e iríamos encontrá-los uma última vez. Além disso, seria a melhor época na costa do M editerrâneo, depois de as hordas de turistas terem partido mas antes de a paisagem começar a parecer estéril, árida. E xaminámos o mapa com cuidado e ficámos satisfeitos que os franceses tivessem posto de parte a sua opção habitual por uma reunião em P aris e se tivessem decidido pela privacidade de uma estação balnear próxima da fronteira com a E spanha perto da pequena jóia que é C ollioure, regozijou-se o meu pai, ou talvez noutro lugar semelhante. Ali mesmo, mas no interior, ficavam L ês B ains e Saint-M a hieu-des-P irénées-Orientales, apontei-lhe no mapa, mas quando mencionei esses lugares o rosto do meu pai ensombrou-se e começou a procurar outros nomes interessantes ao longo da costa.
O pequeno-almoço no terraço de L ê C orbeau, onde ficámos, era tão bom ao ar fresco da manhã que permaneci lá quando o meu pai foi ao encontro dos outros homens de fatos escuros no salão de conferências, tirando relutantemente os meus livros da mochila e levantando os olhos muitas vezes para contemplar a água azul e transparente a poucas centenas de metros de distância. E stava na minha segunda chávena daquele amargo chocolat continental, que um cubo de açúcar e uma pilha de pãezinhos frescos tornava suportável. A luz do sol nas fachadas das velhas casas parecia eterna, sob o clima seco do M editerrâneo e a sua luz de uma clareza sobrenatural, como se nenhuma tempestade alguma vez tivesse ousado aproximar-se destas enseadas. Do sítio onde estava sentada, avistava dois veleiros matutinos na beira daquele mar maravilhosamente colorido e um grupo de crianças pequenas com a mãe e com os seus baldes e os seus fatos de banho fora do comum (para mim) descendo para a areia da praia abaixo do hotel. A baía fazia uma curva em volta de nós para a direita, na forma de colinas pontiagudas. N o alto de uma delas, havia uma fortaleza em ruínas da mesma cor das rochas e do restolho ressequido, com oliveiras tentando em vão subir até ela e o céu matinal de um azul delicado estendendo-se por trás.
T ive uma súbita sensação de não fazer parte de tudo aquilo, um sentimento de inveja daquelas crianças insuportavelmente felizes, acompanhadas pela sua mãe. E u não tinha mãe nem uma vida normal. N ão estava muito certa sobre o que considerava uma vida normal mas, enquanto folheava o meu livro de biologia à procura do princípio do terceiro capítulo, pensei vagamente que deveria significar viver num lugar com o pai e a mãe presentes todas as noites à hora do jantar, uma família em que viajar significava fazer férias na praia de vez em quando, e não uma interminável vida de nómada. T inha a certeza, vendo as crianças instalarem-se na areia com as suas pás, que também nunca seriam ameaçadas pelo lado sinistro da história.
Depois, olhando para os seus cabelos brilhantes, percebi que eram ameaçadas, sim; simplesmente, não tinham consciência disso. Éramos todos vulneráveis. E stremeci e olhei para o relógio. Dali a quatro horas, o meu pai e eu almoçaríamos naquele terraço. E m seguida, eu voltaria a estudar e, depois das cinco da tarde, daríamos um passeio até à fortaleza arruinada que ornamentava o horizonte mais próximo — de onde, segundo o meu pai, se podia ver a pequena igreja junto ao mar que ficava do lado oposto, em C ollioure. N o decurso daquele dia, aprenderia mais álgebra, alguns verbos alemães, leria um capítulo sobre a G uerra das Rosas e, depois... depois o quê? N o cimo do árido penhasco, ouviria a próxima história do meu pai. I ria contá-la de má vontade, olhando para baixo, para a areia do chão, ou tamborilando com os dedos nas pedras talhadas séculos atrás, perdido no seu próprio medo. E caber-me-ia a mim estudá-la outra vez, para juntar os pedaços. Uma criança gritou na praia lá em baixo e eu assustei-me, entornando o chocolate.