O Historiador
Capítulo 18
O tempo claro, triunfal, os dias enormes como um céu de montanha acompanharam-nos com a P rimavera para o interior eslavo. Quando perguntei se teríamos tempo de ver outra vez a cidade de E mona — que para mim já estava associada a uma época anterior da minha vida, uma época com um sabor completamente diferente, e com um começo e, como já disse antes, queremos sempre revisitar esses lugares —, o meu pai disse apressadamente que estaríamos demasiado ocupados, instalados junto de um grande lago a norte de E mona para a conferência dele e tendo de voltar a correr para Amsterdã, antes que eu ficasse atrasada na escola. O que nunca acontecia, mas essa possibilidade preocupava o meu pai.
Quando chegamos, o lago B led não nos desapontou. Derramara-se para um vale alpino no final de uma das I dades do G elo e proporcionara aos primeiros nómadas da região um local de repouso em casas com telhados de colmo dentro de água. Agora, assentava como uma safira nas mãos dos Alpes, a sua superfície luzindo de ondas brancas na brisa do fim da tarde. De uma extremidade íngreme erguia-se uma escarpa mais alta do que o resto, e nela se aninhava um dos grandes castelos da E slovênia, restaurado pela secretaria de turismo com um bom gosto pouco comum. As ameias estavam viradas para uma ilha lá em baixo, onde um exemplar dessas modestas igrejas austríacas de telhados vermelhos flutuava como um pato, e havia barcos que faziam a ligação para a ilha com intervalos de poucas horas. O hotel, como de costume, era de aço e vidro, um cinco estrelas do turismo socialista, e fugimos dele no segundo dia para um passeio em volta da parte mais baixa do lago. Disse ao meu pai que achava que não aguentaria mais vinte e quatro horas sem ver o castelo que, a cada refeição, dominava a paisagem distante, e ele riu.
— Se achas que não aguentas, então vamos — brincou ele.
A nova detente era ainda mais promissora do que a equipa dele esperava e algumas das rugas da sua testa tinham-se suavizado desde a nossa chegada.
Assim, na manhã do terceiro dia, deixando uma reformulação diplomática do que fora reformulado no dia anterior, apanhamos um pequeno autocarro que contornou o lago e subiu quase até ao nível do castelo, depois saltamos para continuar a pé até ao cimo. O castelo era feito de pedras castanhas que faziam lembrar ossos descorados, cuidadosamente unidos depois de um longo período de deterioração. Quando passamos pela primeira galeria que desembocava num dos aposentos principais (presumi que fosse), quase perdi o fôlego: através de uma janela selada com chumbo, a superfície do lago cintilava uns trezentos metros abaixo, espraiando-se, branca, ao sol. O castelo parecia estar pendurado à beira do precipício, apenas com os dedos dos pés cravados no chão como apoio. A igreja amarela e vermelha na ilha, o alegre barco que naquele instante mesmo atracava entre minúsculos canteiros de flores vermelhas e amarelas, o vasto céu azul, tinham satisfeito centenas e centenas de turistas, pensei.
M as aquele castelo, com as suas pedras desgastadas e lisas desde o século doze, com os
seus tepes de machados de guerra, lanças e machadinhas armados em todos os cantos e prestes a cair com estrépito se lhes tocassem era a essência do lago. Os antigos moradores do lago, deixando para trás as suas cabanas de colmo que o fogo devorava facilmente, tinham subido rumo ao céu e escolhido empoleirar-se ali no alto com as águias, governados por um senhor feudal. M esmo tão habilmente restaurado, o lugar tinha um sopro de vida antiga. Deixei a deslumbrante janela e dirigi-me ao aposento seguinte, onde vi, num ataúde de vidro e madeira, o esqueleto de uma mulher pequena, morta muito antes do advento da C ristandade, o enfeite de bronze do seu manto pousado no esterno em pedaços, anéis de bronze esverdeado escorregando-lhe dos ossos dos dedos. Quando me inclinei para o caixão para olhar para ela, sorriu-me de repente, as suas órbitas profundas como dois poços.
N o terraço do castelo, o chá vinha em bules de porcelana branca, uma elegante
concessão à indústria do turismo. E ra forte e bom, e os cubos de açúcar, envoltos em papel, não eram velhos, para variar. O meu pai apertava as duas mãos juntas na mesa de ferro; os nós dos dedos estavam brancos. Desviei os olhos para o lago e depois servi-lhe outra chávena de chá.
— Obrigado — disse o meu pai.
H avia uma dor distante no seu olhar. Reparei mais uma vez como parecia cansado e
magro, ultimamente; não deveria consultar um médico?
— Ouve, querida — disse ele, virando-se um pouco, de modo que eu só podia ver o
seu perfil contra o fundo daquele espetacular penhasco e da água reluzente. E le fez uma pausa. — Já pensaste em escrevê-las?
— As histórias? — perguntei. Senti o coração contrair-se e depois disparar no meu
peito.
— Sim.
— Porquê? objetei finalmente.
E ra uma pergunta adulta, sem as barreiras dos artifícios infantis a rodeá-la. E le olhou
para mim e pensei que, por detrás da fadiga, os seus olhos estavam cheios de bondade e de tristeza.
— P orque, se não o fizeres, talvez eu tenha de o fazer — respondeu. Depois voltou ao
seu chá e vi que não falaria mais sobre esse assunto.
N aquela noite, no meu desconfortável quartinho de hotel contíguo ao seu, comecei a
escrever tudo o que me contara. E le dizia sempre que eu tinha uma excelente memória — boa demais, como às vezes a definia.
No dia seguinte, ao pequeno-almoço, o meu pai anunciou que gostaria de ficar sentado
sem fazer nada nos próximos dois ou três dias. E ra-me difícil imaginá-lo sentado sem fazer nada, mas ultimamente reparava nas suas olheiras escuras todas as manhãs e achei que seria boa idéia ele descansar. N ão podia deixar de sentir que lhe acontecera alguma coisa, que estava a carregar o peso de uma nova e silenciosa ansiedade. Mas limitou-se a dizer-me que estava outra vez com vontade de ir para as praias do Adriático. Apanhamos um comboio expresso para o Sul que passou por estações cujos nomes estavam escritos em caracteres latinos e cirílicos, depois por outras com nomes apenas em cirílico. O meu pai ensinou-me o novo alfabeto e divirto-me a tentar pronunciar em voz alta as palavras nas placas das estações, que me pareciam palavras em código capazes de abrir portas secretas. E xpliquei isto ao meu pai e ele achou graça, recostado confortavelmente na nossa carruagem, com um livro apoiado em cima da pasta. O seu olhar vagueava de vez em quando do trabalho para a janela, de onde avistávamos aldeias e campos.
A P rimavera estava no seu apogeu, vi rapazes a guiar tratores com arados atrás, as vezes um cavalo a puxar uma carroça carregada, mulheres idosas curvadas nas suas hortas, a regar, a arrancar ervas daninhas. Seguíamos outra vez para o Sul e a terra amadurecia em ouro e verde enquanto a atravessávamos correndo, depois elevara-se em montanhas de rochas cinzentas, depois descera à nossa esquerda para um mar cintilante. O meu pai suspirou profundamente, mas de satisfação, não era o leve arfar de cansaço que deixava escapar cada vez com mais frequência naqueles dias.
Apeámo-nos do comboio numa cidade movimentada onde havia um mercado e o meu pai alugou um carro pequeno que nos levasse pelas difíceis curvas da estrada costeira. Ambos esticávamos o pescoço para vislumbrar a água de um dos lados estendia-se até um horizonte cheio da bruma do fim de tarde e, do outro, as ruínas esqueléticas de fortalezas otomanas que escalavam íngremes alturas em direção ao céu.
— Os Turcos dominaram estas terras por muito, muito tempo — comentou o meu pai. — As invasões envolviam todo o gênero de crueldades, mas governaram com bastante tolerância depois da conquista, como costuma acontecer com os impérios, e também com eficiência, durante centenas de anos. A terra aqui é árida, mas deu-lhes o controle do mar. Precisavam destes portos e baías.
A cidade onde estacionamos o carro ficava rente ao mar; o pequeno porto estava coalhado de barcos de pesca, batendo ao de leve uns nos outros na rebentação transparente. O meu pai queria ficar numa ilha próxima e contratou um deles com um aceno para o proprietário, um velhote com uma boina preta no alto da cabeça. O ar estava quente, mesmo àquela hora da tarde, e os borrifos de água que me molhavam as pontas dos dedos eram frescos mas não frios. I nclinei-me para a frente do barco, sentindo-me como uma figura de proa, vendo o mosteiro da ilha aumentar de tamanho à medida que nos aproximávamos.
— Cuidado — disse o meu pai, segurando-me pela camisola.
O barqueiro estava a atracar o barco no porto de uma ilha, uma velha aldeia com uma elegante igreja de pedra. L ançou um cabo em volta de um pilar do cais de madeira e ofereceu-me uma mão nodosa para me ajudar a desembarcar. O meu pai pagou-lhe com uma daquelas coloridas notas socialistas e ele fez o gesto de tocar na boina, a agradecer. Quando estava a subir para o barco, virou-se.
— Sua menina? — gritou em inglês. — Filha? — Sim respondeu o meu pai, surpreendido. — E u te abençoo — disse o homem com simplicidade, e traçou uma cruz no ar perto
de mim.
O meu pai arranjou-nos quartos que davam para o continente e depois jantamos num
restaurante ao ar livre perto das docas. O crepúsculo instalava-se lentamente, e descobri as primeiras estrelas visíveis por cima do mar. Uma brisa, mais fresca que a da tarde, trouxe-me os aromas que eu já aprendera a amar: cipreste e lavanda, alecrim e tomilho.
— P or que é que os cheiros bons se tornam mais fortes quando escurece? — perguntei
ao meu pai.
E ra uma coisa que me intrigava genuinamente, mas servia também para adiar
qualquer outra conversa. E u precisava de tempo para recuperar num lugar onde houvesse luzes e pessoas a falar, precisava sobretudo de não olhar para aquele tremor de velho nas mãos do meu pai.
— T ornam? — perguntou, distraído, mas senti-me aliviada. Segurei a sua mão para
que parasse de tremer e ele fechou-a, ainda distraído, sobre a minha. E ra demasiado novo para ficar velho. N o continente, as silhuetas das montanhas dançavam até quase dentro de água, projetando-se sobre as praias e quase sobre a nossa ilha. Quando a guerra civil explodiu naquelas montanhas do litoral vinte anos depois, fechei os olhos e recordei-as, espantada. N ão podia imaginar que as suas encostas abrigassem pessoas em quantidade suficiente para travar uma guerra. T inham-me parecido absolutamente primitivas quando as vi, desprovidas de habitações humanas, abrigo de ruínas vazias, guardando apenas o mosteiro sobre o mar.