O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 46 de 83

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O Historiador

Capítulo 43

Acho que se eu não tivesse sacudido B arley para o acordar, ou se ele estivesse sozinho,

teria passado a dormir pela fronteira com a E spanha, e o funcionário da alfândega espanhola tê-lo-ia acordado de forma rude. M as o fato foi que descemos na gare de P erpignan ainda meio adormecidos, por isso fui eu que perguntei o caminho para a rodoviária. O condutor vestido de azul franziu o sobrolho, como se achasse que àquela hora crianças como nós deviam estar a dormir, mas foi suficientemente educado para encontrar as nossas malas abandonadas atrás do balcão da estação. P ara onde íamos? Disse-lhe que queríamos um autocarro para L ês B ains, e ele sacudiu a cabeça. P ara isso, teríamos de esperar até à manhã seguinte eu não sabia que era quase meia-noite? H avia um hotel asseado no cimo da rua onde eu e o meu... "irmão", acrescentei depressa, poderíamos encontrar um quarto. O condutor olhou-nos de cima a baixo, ao ver-me tão morena e tão nova, supus, enquanto B arley era loiro e alto, mas limitou-se a dar um estalo com a língua e seguiu o seu caminho.

 

A manhã seguinte surgiu ainda mais clara e mais bonita do que a do dia anterior e,

quando encontrei H elen na sala do hotel para o pequeno-almoço, os maus presságios da noite anterior já eram um sonho distante. O sol entrava através das janelas empoeiradas e iluminava as toalhas de mesa brancas e as grossas chávenas de café. H elen estava a tomar notas num pequeno caderno sobre a mesa.

— B om — dia disse afavelmente, enquanto eu me sentava e me servia de café. — E stá

pronto para conhecer a minha mãe?

— N ão penso noutra coisa desde que chegamos a B udapeste — confessei. — C omo

vamos chegar até lá?

— A aldeia fica no percurso de um autocarro que passa a norte da cidade. Só há um

autocarro para lá nas manhãs de domingo; portanto, não podemos perdê-lo. A viagem dura cerca de uma hora, e atravessa subúrbios muito maçadores.

Duvidava de que alguma coisa nessa viagem me pudesse maçar, mas fiquei calado. N o

entanto, havia uma coisa que ainda me incomodava.

— H elen, tem a certeza de que quer que eu vá? P odia ir falar com ela sozinha. Talvez

assim seja menos embaraçoso para ela do que se aparecer com um completo desconhecido e americano, ainda por cima. E se a minha presença lhe causar problemas?

— É exatamente a sua presença que tornará mais fácil para ela falar — disse H elen

com firmeza. — É muito reservada comigo, sabe. Você vai deixá-la encantada.

— B em, nunca fui acusado de ser encantador antes. — Servi-me de três fatias de pão

e de um pires de manteiga.

— N ão se preocupe; não é. — H elen fez-me o seu sorriso mais sardônico, mas pensei ter visto um lampejo de afeição nos seus olhos. — É que a minha mãe é fácil de encantar.

N ão acrescentou: "Rossi encantou-a, por que não você?" Achei melhor deixar o assunto como estava.

— Espero que a tenha avisado de que vamos visitá-la.

P ensava, olhando para ela do outro lado da mesa, se contaria à mãe o ataque do bibliotecário. O lencinho estava enrolado firmemente em volta do pescoço, e esforcei-me para não olhar para ele.

— A tia E va mandou-lhe um recado ontem à noite — disse H elen calmamente, e passou-me as compotas.

O autocarro, que apanhamos no extremo norte da cidade, entrava e saía dos subúrbios, como H elen tinha previsto, passando primeiro pelos bairros antigos circundantes, muito danificados pela guerra, e depois por uma infinidade de novos edifícios, altos e brancos como pedras tumulares para gigantes. E ra aquele o progresso comunista do qual frequentemente se falava com hostilidade na imprensa ocidental, pensei a aglomeração de milhões de pessoas de todo o L este E uropeu em apartamentos insípidos construídos em altura. O autocarro parava em vários destes complexos habitacionais, e dei por mim a perguntar-me se seriam assim tão insípidos; junto de cada um deles havia jardins acolhedores cheios de vegetais e ervas aromáticas, flores de cores vivas e borboletas. N um banco no exterior de um desses edifícios, perto da paragem do autocarro, dois velhos de camisas brancas e coletes escuros jogavam um jogo de tabuleiro que não consegui identificar àquela distância. V árias mulheres entraram no autocarro com as suas blusas bordadas com cores alegres — seriam trajes domingueiros? e uma delas transportava uma gaiola com uma galinha viva. O motorista meteu a gaiola com a galinha lá dentro com o resto das pessoas e a mulher acomodou-se ao fundo do autocarro com o seu tricô.

Quando deixamos os subúrbios para trás, o autocarro arrastou-se por uma estrada rural, de onde vi campos férteis e estradas largas e poeirentas. Aqui e ali, passamos por uma carroça puxada por um cavalo a carroça feita como um simples cesto de ramos de árvores entrançados conduzidas por camponeses de chapéu de feltro e colete pretos. De vez em quanto, cruzávamo-nos com um automóvel que nos E stados Unidos estaria num museu. A terra era linda, verde e viçosa, e salgueiros de folhas amarelas curvavam-se sobre os riachos que a cortavam. De vez em quando, entrávamos numa aldeia; às vezes, conseguia ver as cúpulas em forma de bolbo de uma igreja ortodoxa no meio das torres de outras igrejas. Helen debruçava-se sobre mim para ver também.

— Se continuássemos nesta estrada, chegaríamos a E sztergom, a primeira capital dos reis húngaros. Vale com certeza a pena vê-la. Se tivéssemos tempo...

— Fica para a próxima — menti. — Por que é que a sua mãe escolheu viver aqui?

— M udou-se para cá quando eu ainda andava na escola, para ficar perto das montanhas. N ão quis vir com ela; fiquei em B udapeste com E va. A minha mãe nunca gostou da cidade, e dizia que as montanhas B órzsõny, a norte daqui, lhe lembravam a T ransilvânia. T odos os domingos vai para as montanhas com o clube de montanhismo, a não ser quando a neve está muito alta.

I sto juntou um outro pequeno fragmento ao retrato em mosaico da mãe de H elen que

eu ia construindo na minha cabeça.

— Por que não se mudou logo para as montanhas? — N ão há trabalho lá, é principalmente um parque nacional. Além disso, a minha tia

não teria permitido, e ela sabe ser muito rígida quando quer. Acha que a minha mãe já se isolou demais.

— Onde é que a sua mãe trabalha? — Olhei para fora, para a paragem de autocarro de

uma aldeia; a única pessoa que ali estava era uma velha toda vestida de preto, com um lenço preto na cabeça e um ramo de flores vermelhas e cor-de-rosa numa das mãos. N ão entrou no autocarro quando paramos nem cumprimentou nenhuma das pessoas que desceram. Quando voltamos a partir, pude vê-la a olhar para nós, segurando o seu ramo.

— T rabalha no centro cultural da aldeia, a preencher papelada, a datilografar umas

coisas e a fazer café para os presidentes das câmaras das cidades maiores, quando vêm em visita. J á lhe disse que é um trabalho degradante para alguém com a sua inteligência, mas ela encolhe os ombros e continua. A minha mãe fez da simplicidade uma carreira. — H avia uma nota de amargura na voz de H elen, e perguntei-me se ela pensaria que essa simplicidade prejudicara não só a carreira da mãe, como as oportunidades da filha. E stas tinham-lhe sido abundantemente proporcionadas pela tia Eva, refleti. Helen estava a sorrir o seu sorriso invertido, que era arrepiante. — Vai ver...

A aldeia da mãe de Helen estava indicada por uma placa nos limites da cidadezinha, e

em poucos minutos o nosso autocarro parou numa praça cercada de plátanos empoeirados, com uma igreja fechada com tábuas num dos lados. Uma velha, gémea daquela avó vestida de preto que vira na última aldeia, esperava sozinha sob o abrigo da paragem de autocarro. Olhei inquisitivamente para H elen, mas ela abanou a cabeça e, dito e feito, a velha senhora abraçou um soldado que desceu à nossa frente.

H elen parecia encarar com naturalidade a nossa chegada solitária, e conduziu-me

rapidamente por ruas laterais, passando por casas silenciosas com flores nas floreiras das janelas e persianas fechadas contra a forte luz do sol. Um velho sentado numa cadeira de madeira do lado de fora de uma casa fez um gesto com a cabeça e levou a mão ao chapéu. P erto do fim da rua, um cavalo cinzento estava amarrado a um poste, a beber avidamente água de um balde. Duas mulheres com vestidos de trazer por casa e chinelos conversavam em frente de um café que parecia fechado. P ara lá dos campos, ouvia-se o toque dos sinos de uma igreja e, mais próximo, o canto dos pássaros nas tílias. H avia por toda a parte um sonolento rumorejar; a natureza estava apenas a um passo de distância, se soubéssemos que direção tomar.

E ntão, a rua terminou abruptamente num campo invadido por ervas daninhas, e

H elen bateu à porta da última casa. E ra muito pequena, uma casinha de estuque amarelo com um telhado de telhas vermelhas, e parecia acabada de pintar por fora. O telhado ultrapassava a frente da casa, formando um alpendre natural, e a porta da frente era de madeira escura, com uma grande aldraba enferrujada. A casa ficava ligeiramente afastada das casas vizinhas, e não havia nenhuma horta colorida ou caminho de pedras recém-colocadas que levassem até ela, ao contrário de muitas outras casas da rua. Devido à pesada sombra do beiral, no primeiro minuto não pude ver o rosto da mulher que respondeu à chamada de H elen. E ntão pude vê-la claramente, e um momento depois estava a abraçar H elen e a beijá-la no rosto, com calma, quase formalmente, e em seguida virou-se para me apertar a mão.

N ão sei exatamente o que esperava; talvez a história da deserção de Rossi e do nascimento de H elen me tivesse levado a imaginar uma beldade envelhecida e de olhos tristes, melancólica ou mesmo desamparada. A mulher real à minha frente tinha a postura direita de H elen, embora fosse mais baixa e mais pesada do que a filha, e um rosto firme e alegre, de faces redondas e olhos escuros. O cabelo escuro e liso estava preso num carrapito. Usava um vestido de algodão às riscas e um avental às flores. Ao contrário da tia E va, não usava maquiagem ou jóias, e as suas roupas eram semelhantes às das donas de casa que eu tinha visto na rua. T inha estado a fazer uma tarefa doméstica qualquer, de fato, porque tinha as mangas arregaçadas até aos cotovelos. Deu um aperto de mão amistoso, sem dizer nada mas olhando-me diretamente nos olhos. E , só por um momento, vislumbrei a rapariga tímida que ela devia ter sido duas décadas antes, escondida nas profundezas daqueles olhos escuros, rodeados de pés-de-galinha.

L evou-nos para dentro e indicou-nos por gestos que nos sentássemos à mesa, onde havia colocado três chávenas lascadas e um prato de pãezinhos.

Senti o aroma do café acabado de fazer. Também tinha estado a cortar verduras, e um forte cheiro a cebolas cruas e batatas flutuava no ar.

E ra a sua única divisão, reparei, tentando não olhar em volta de maneira muito evidente funcionava como cozinha, quarto de dormir e zona de estar. E stava imaculadamente limpa, a cama estreita num canto, coberta por uma colcha branca e enfeitada com várias almofadas brancas bordadas com cores vivas. J unto à cama, ficava uma mesinha onde havia um livro, um candeeiro com globo de vidro e uns óculos, e, ao lado dessa mesinha, uma cadeira pequena. Ao pé da cama, via-se um baú de madeira, pintado com flores. A área da cozinha, onde estávamos sentados, consistia num simples fogão e numa mesa com cadeiras N ão havia eletricidade nem casa de banho (só mais tarde fiquei a saber da casinha no jardim das traseiras). P endurado numa das paredes, havia um calendário com uma fotografia de operários numa fábrica, e, noutra parede, um bordado a vermelho e branco. H avia flores numa jarra e cortinas brancas nas janelas. Uma pequena salamandra ficava, próxima da mesa da cozinha, com toros de lenha cortados e empilhados ao lado

A mãe de H elen sorria-me, ainda um pouco tímida, e, pela primeira vez, vi a sua semelhança com a tia E va, e talvez também algo do que deve ter atraído Rossi. T inha um sorriso excepcionalmente caloroso, que começava devagar e depois se abria luminoso e completamente aberto para a pessoa a quem se destinava, quase radiante. O sorriso desapareceu também lentamente, enquanto ela se sentava para cortar mais verduras. Olhou para mim outra vez e disse qualquer coisa em húngaro a Helen.

— E la quer que eu lhe sirva o café. — H elen foi ocupar-se do fogão e encheu uma

chávena, tirando açúcar de uma lata e mexendo. A mãe de H elen pousou a faca para empurrar o prato de pãezinhos na minha direção. P eguei num educadamente e agradeci-lhe com as minhas duas desajeitadas palavras de húngaro. Aquele sorriso radioso e lento começou a brilhar novamente e ela olhou de mim para H elen, dizendo mais uma vez à filha algo que eu não conseguia entender. Helen corou e voltou ao café.

— O que foi.

— N ada. São só as idéias provincianas de minha mãe, mais nada. — Veio sentar-se à

mesa, colocando uma chávena em frente da mãe e enchendo a sua.

— Agora, P aul, se não se importar, vou perguntar à minha mãe como tem passado e as

novidades da aldeia.

E nquanto conversavam, H elen na sua rápida voz de contralto e a sua mãe em

respostas murmuradas, deixei o meu olhar passear novamente pela casa. Aquela mulher vivia não só com uma impressionante simplicidade talvez acontecesse o mesmo com os vizinhos, mas também imersa numa grande solidão. H avia só dois ou três livros à vista, nenhum animal, nem sequer uma planta num vaso. Era como a cela de uma freira.

V oltando a olhar para ela, reparei como era nova, muito mais do que a minha mãe. A

sua cabeleira tinha uns fios grisalhos no alto da cabeça, onde o cabelo se repartia, e o rosto estava marcado pelos anos, mas havia alguma coisa de extraordinariamente firme e saudável nela, uma capacidade de atração completamente independente da moda ou da idade. P odia ter-se casado muitas vezes, refleti, e no entanto escolhera viver naquele silêncio de convento. Sorriu para mim outra vez, e eu retribuí-lhe o sorriso; o seu rosto era tão caloroso que tive de resistir à vontade de estender a minha mão e segurar uma das dela, que descascava delicadamente uma batata.

— A minha mãe gostaria de saber tudo a seu respeito — disse-me H elen, e, com a

ajuda dela, respondi a todas as perguntas o melhor que pude. C ada pergunta foi-me feita em húngaro e em voz baixa, com um olhar inquisitivo da minha interlocutora, como se pudesse fazer-me entender através do poder do seu olhar. De que parte da América era eu? P or que viera até ali? Quem eram os meus pais? N ão se importavam que eu viajasse para tão longe? C omo conhecera H elen? N esse ponto, introduziu várias outras perguntas que H elen parecia relutante em traduzir, uma delas acompanhada por uma carícia maternal no rosto de H elen. H elen parecia indignada e eu não a pressionei para que se explicasse. E m vez disso, voltamos aos meus estudos, aos meus planos, aos meus pratos preferidos.

Quando a mãe de H elen se deu por satisfeita, levantou-se e começou a dispor numa travessa grande vegetais e pedaços de carne, que temperou com uma coisa vermelha saída de uma jarra que estava por cima do fogão e depois meteu no forno. L impou as mãos ao avental e sentou-se, olhando de mim para H elen sem dizer nada, como se tivéssemos todo o tempo do mundo. P or fim, H elen mexeu-se e, pelo modo como limpou a garganta, adivinhei que pretendia abordar o objetivo da nossa visita. A mãe observava-a em silêncio, sem alterar a expressão, até que H elen apontou para mim e disse a palavra "Rossi". T ive de recorrer a toda a minha coragem, sentado à mesa de uma aldeia longe de tudo o que me era familiar, para fixar o meu olhar naquele rosto tranquilo sem vacilar. A mãe de H elen pestanejou, uma vez, quase como se alguém tivesse ameaçado bater-lhe, e por um segundo os seus olhos desviaram-se rapidamente para o meu rosto. E ntão, abanou a cabeça, pensativa, e fez uma pergunta a Helen.

— Ela está a perguntar há quanto tempo conhece o professor Rossi.

— Há três anos -respondi.

— Agora — disse Helen — vou contar-lhe o desaparecimento dele.

G entil e determinadamente, não tanto como se estivesse a falar com uma criança, mas como se estivesse a forçar-se a continuar contra a sua própria vontade, H elen falou com a mãe, às vezes fazendo um gesto na minha direção e outras vezes formando um desenho no ar com as mãos. Finalmente, captei a palavra "Drácula" e, ao ouvir este som, vi a mãe de H elen empalidecer e segurar a borda da mesa. H elen e eu levantámo-nos e H elen trouxe depressa um copo de água de um jarro. A mãe de H elen disse qualquer coisa rápida e áspera. Helen virou-se para mim.

— Ela diz que sempre soube que isto aconteceria.

Fiquei ali sem saber o que fazer mas, depois de ter bebido uns goles de água, a mãe de H elen parecia ter recuperado. Olhou para mim e, para minha surpresa, pegou-me na mão, como eu tivera vontade de fazer com a sua minutos antes, e fez-me sentar de novo. Segurava-me na mão com ternura, com simplicidade, acariciando-a como se estivesse a confortar uma criança. N ão conseguia imaginar nenhuma mulher do meu país a fazer aquilo a primeira vez que encontrava um homem, e, no entanto, nada me parecia mais natural. C ompreendi o que H elen tinha querido dizer quando me avisou que, das duas mulheres mais velhas da sua família, seria da mãe que eu gostaria mais.

— A minha mãe quer saber se acredita honestamente que o professor Rossi tenha sido raptado por Drácula.

Inspirei profundamente.

— Acredito.

— E quer saber também se gosta muito do professor Rossi. — A voz de H elen era levemente desdenhosa, mas o seu rosto revelava expectativa. Se pudesse ter segurado sem correr risco a mão dela com a minha outra mão, tê-lo-ia feito.

— Daria a vida por ele — disse eu.

H elen repetiu a minha resposta para a mãe, que subitamente apertou a minha mão

com toda a força, mais tarde, percebi que aquela força era o resultado de trabalhos infindáveis. Senti a aspereza dos dedos, os calos nas palmas, as articulações inchadas. Olhando para aquela mão pequena mas vigorosa, vi que era muitos anos mais velha do que a mulher a que pertencia.

Depois de alguns instantes, a mãe de Helen soltou-me a mão e foi até ao baú aos pés da

cama. Abriu-o lentamente, mexeu em várias coisas no interior, e tirou o que imediatamente identifiquei como um maço de cartas. Os olhos de H elen arregalaram-se e fez uma pergunta em tom ríspido; a mãe não disse nada, limitou-se a voltar em silêncio para a mesa e pôs-me o maço de cartas na mão.

As cartas estavam em envelopes, sem selos, amarelecidas pelo tempo e atadas juntas

com um cordão vermelho esfiapado. E nquanto me dava as cartas, a mãe de H elen fechou-me os dedos sobre o cordão com ambas as mãos, como se me exortasse a cuidar delas com carinho. B astou olhar um segundo para a caligrafia no primeiro envelope para ver que era de Rossi, e para ler o nome a quem estavam endereçadas. O nome já eu conhecia, nos recessos da minha memória, e o endereço era T rinity C ollege, Universidade de Oxford, Inglaterra.