O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 77 de 83

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O Historiador

Capítulo 74

H elen tocou na testa do pai com dois dedos, como se o abençoasse. L utava contra os soluços.

— Como é que podemos tirá-lo daqui? Quero enterrá-lo.

— N ão há tempo — disse eu, com amargura. — E le preferia que saíssemos vivos daqui, tenho certeza.

T irei o meu casaco e abri-o suavemente por cima dele, cobrindo-lhe o rosto. A tampa de pedra era demasiado pesada para voltar a ser posta no seu lugar. H elen pegou na sua pequena pistola, verificando-a com cuidado mesmo no meio da sua emoção.

— A biblioteca — sussurrou. — P recisamos encontrá-la imediatamente. E não ouviste qualquer coisa agora mesmo?

Fiz que sim com a cabeça.

— Acho que ouvi, mas não sei de onde veio o ruído.

Ficamos imóveis, atentos, à escuta. O silêncio pairava imperturbado acima de nós. H elen estava a tentar encontrar alguma coisa nas paredes, apalpando-as, com a pistola na outra mão. A luz das velas era imprecisa demais, frustrante. Fomos de um lado para o outro, pressionando, batendo. N ão havia reentrâncias, nem pedras salientes, nenhuma possível abertura, nada que parecesse suspeito.

— Já deve estar escuro lá fora — murmurou Helen.

— Eu sei. Temos provavelmente só mais dez minutos, e a partir daí não devíamos estar aqui, tenho certeza absoluta.

P ercorremos o pequeno aposento de novo, verificando cada centímetro. O ar estava frio, sobretudo agora que já não tinha o meu casaco, mas o suor começou a escorrer-me pelas costas.

— Talvez a biblioteca fique noutra parte da igreja, ou nas fundações.

— Tem de estar completamente escondida, provavelmente debaixo do chão — sussurrou H elen. — De outra maneira, alguém já teria conhecimento dela há muito tempo. Além disso, se o meu pai está nesta tumba... — não terminou a frase, mas aquela era a pergunta que me tinha atormentado mesmo no primeiro momento de choque, ao ver Rossi, onde estava Drácula?

— N ão há aqui alguma coisa fora do comum? — H elen olhava para o teto baixo e abobadado, tentando alcançá-lo com as pontas dos dedos.

— N ão vejo nada — mas uma idéia repentina fez-me tirar uma vela do suporte e agachar-me. Helen imitou-me, ligeira.

— Isso mesmo — murmurou.

E u estava a tocar no dragão esculpido na parte vertical do degrau mais baixo. T inha passado um dedo sobre ele de leve durante a nossa primeira visita à cripta; desta vez, empurrei-o com força, usando todo o meu peso. E stava firme na parede. M as as mãos sensíveis de H elen tatearam nas pedras à volta e encontraram uma pedra solta; veio simplesmente na mão dela, como um dente, do sítio onde estava encaixada junto ao dragão entalhado. Uma pequena abertura escura apareceu. Introduzi a mão lá dentro e rodei-a em volta, mas só encontrei espaço vazio. H elen fez a dela deslizar, entretanto, e introduziu-a na direção do dragão, atrás do entalhe.

— Paul! — exclamou, baixinho.

Segui a indicação dela no escuro. H avia ali uma maçaneta, uma grande maçaneta fria

de ferro, e, quando a empurrei, o dragão deslocou-se facilmente para fora do seu espaço sob o degrau sem afetar nenhuma das outras pedras à sua volta nem o degrau que ficava por cima. E ra uma peça habilmente cinzelada, víamos agora, com uma maçaneta de ferro em forma de um animal com chifres presa nela, presumivelmente para que se pudesse fechar a abertura atrás de si ao descer os estreitos degraus de pedra que se abriam diante de nós. H elen pegou numa segunda vela e eu peguei nos fósforos. E ntramos de gatas lembrei-me do aspecto de Rossi, arranhado e contuso, com as roupas rasgadas, e imaginei que tivesse sido arrastado mais de uma vez através daquela abertura, mas logo a seguir conseguimos ficar de pé nos degraus.

O ar que veio ao nosso encontro era frio, úmido e extremamente desagradável, e

esforcei-me por controlar um tremor ao entrarmos, e agarrar firmemente H elen, que também tremia, durante a descida íngreme. Ao fim de quinze degraus, havia um corredor infernalmente escuro, ainda que a luz das nossas velas revelasse candelabros de ferro presos no alto das paredes, como se um dia aquele lugar tivesse sido bem iluminado. N o fim do corredor mais uma vez, pareceu-me que tinha um comprimento de quinze passos, e tivera o cuidado de os contar, havia uma pesada porta de madeira visivelmente muito velha, já a lascar-se na parte de baixo, e outra vez aquela maçaneta lúgubre, uma criatura com longos chifres trabalhados em ferro. Senti, mais do que vi, H elen levantar a pistola. A porta estava firmemente trancada, mas, olhando de perto, descobri que a tranca ficava do lado em que nos encontrávamos. Fiz força com todo o meu peso por baixo da pesada tranca e depois empurrei e abri a porta, com um medo lento que quase me derretia os ossos.

L á dentro, a luz das nossas velas, embora fraca, projetou-se numa enorme câmara.

Havia mesas perto da porta, compridas mesas de uma solidez antiga, e estantes vazias. O ar era surpreendentemente seco depois do frio do corredor, parecendo ter alguma ventilação secreta ou ter sido escavado numa funda camada protegida da terra. P aramos, agarrados um ao outro, e ficamos à escuta, mas não havia qualquer som. Desejei ardentemente que pudéssemos ver para lá da escuridão. A próxima coisa que a nossa luz alcançou foi um candelabro com vários braços cheio de velas meio gastas, que acendi. I luminou vários armários altos e eu olhei cautelosamente para dentro de um deles. Estava vazio.

— Isto é a biblioteca? — perguntei. — Não há aqui nada. Ficamos parados de novo, à escuta, e a pistola de H elen reluziu com o aumento da luz.

P ensei que devia ter-me oferecido para lhe pegar e usá-la se fosse preciso, mas nunca tinha pegado numa arma e ela, como eu sabia muito bem, era uma atiradora exímia.

— Paul, olha — apontou com a mão livre e vi o que atraíra a sua atenção.

— Helen — chamei, mas ela afastara-se.

Um segundo depois, a minha luz alcançou uma mesa que não tinha sido iluminada antes, uma grande mesa de pedra. N ão era uma mesa, vi no instante seguinte, mas um altar não, não era um altar, mas um sarcófago. H avia outro junto dele, seria aquele lugar uma continuação da cripta do mosteiro, onde os abades podiam descansar em paz, longe das tochas bizantinas e das catapultas otomanas? E ntão, vimos mais adiante o maior sarcófago de todos. N um dos seus lados, havia uma palavra talhada na pedra: DRÁC UL A. H elen levantou a pistola e eu agarrei na minha estaca. E la avançou um passo e eu mantive-me junto dela.

Naquele momento, ouvimos uma agitação atrás de nós, à distância, barulho de passos e um atropelo de gente a correr, que quase escondeu o ligeiro ruído na escuridão atrás da tumba, o de terra seca a cair aos poucos. P recipitámo-nos ambos para a frente ao mesmo tempo e olhamos o sarcófago maior não tinha nenhuma lápide a cobri-lo e estava vazio, como os outros dois. E aquele ruído: algures nas trevas, uma pequena criatura abria caminho entre as raízes das árvores.

H elen disparou para o escuro e houve um estrondo de terra e pedras a deslocar-se, e corri nessa direção com a minha luz. O fundo da biblioteca não tinha saída, e algumas raízes saíam do teto abobadado. N um nicho na parede do fundo onde outrora talvez houvesse um ícone, vi um fio de limo negro nas pedras nuas, sangue? Uma infiltração de umidade vinda da terra?

A porta atrás de nós abriu-se com violência e H elen e eu viramo-nos ao mesmo tempo, a minha mão no braço livre dela. A luz das nossas velas juntou-se à de um forte lampião, lanternas, formas apressadas, um grito. E ra Ranov, e com ele uma figura alta cuja sombra se projetou para a frente para nos engolir: G éza J ózsef, e, atrás dele, aterrorizado, o irmão I van. E ra seguido por um burocrata baixinho, magro e rijo, vestido com um fato e chapéu escuros, com um espesso bigode negro. H avia ainda outra figura, que se movimentava com passos incertos e cujo lento avanço, apercebia-me agora, devia ter sido um grande estorvo para os demais: Stoichev. O rosto dele era uma singular mistura de medo, pena e curiosidade, e tinha uma nódoa negra na face. Os seus velhos olhos encontraram os nossos durante um longo e penoso momento, e ele mexeu os lábios, como se agradecesse a Deus por estarmos vivos.

G éza e Ranov caíram sobre nós numa fração de segundo, Ranov apontando-me um revólver e G éza apontando outro a H elen, enquanto o monge assistia a tudo, boquiaberto, e Stoichev esperava, calado e cauteloso, atrás deles. O burocrata de fato escuro mantinha-se afastado da luz.

— L argue essa arma — disse Ranov para H elen, que deixou a pistola cair no chão, obediente.

P assei o meu braço à volta dela, mas lentamente. À luz fraca das velas, os rostos deles

pareciam mais do que sinistros, exceto o de Stoichev. V i que teria arriscado um sorriso para nós se não estivesse tão assustado.

— Que raio está a fazer aqui? — perguntou H elen a G éza antes que eu a pudesse

impedir.

Que raio está você a fazer aqui, minha cara? — Foi a sua única resposta. P arecia mais

alto do que nunca, vestido com uma camisa e calças claras e grossas botas de caminhar. N a conferência, não me apercebera como me era antipático.

— Onde está ele? — rosnou Ranov. Olhou de mim para Helen. — Está morto — disse eu. — Vocês vieram pela cripta. — Devem tê-lo visto. A expressão de Ranov endureceu.

— De que é que está a falar?

Alguma coisa, um instinto qualquer que aprendera com H elen, talvez, impediu-me de

falar mais.

— A quem se refere? — perguntou H elen, fria. G éza apontou melhor o revólver para

ela.

— Sabe muito bem a quem me refiro, Elena Rossi. Onde está Drácula? Isto era mais fácil de responder, e deixei Helen falar primeiro. — N ão está aqui, evidentemente — disse ela, com a sua voz mais ríspida. — P ode

examinar a tumba.

Com isto, o pequeno burocrata deu um passo à frente e pareceu prestes a dizer alguma

coisa.

— Fique com eles — disse Ranov a G éza. Ranov avançou com cuidado por entre as

mesas, olhando em volta para tudo; era claro que nunca estivera ali antes. O burocrata de fato escuro seguia-o sem dizer uma palavra. Quando chegaram ao sarcófago, Ranov levantou a lanterna e o revólver e percorreu com os olhos o interior.

Está vazio — gritou para Géza. Dirigiu-se para os dois sarcófagos menores. — O que é isto? Venham cá, ajudem-me.

O burocrata e o monge adiantaram-se, submissos. Stoichev aproximou-se mais devagar

e vislumbrei uma luz no seu rosto enquanto olhava para as mesas vazias e para os armários. Só podia imaginar o que ele pensava daquele lugar.

Ranov examinou o interior dos sarcófagos menores. — Vazios — disse, mal-humorado. — E le não está aqui. P rocurem na sala. — G éza já

percorria a sala a passos largos, passando entre as mesas, iluminando cada uma das paredes com a lanterna, abrindo armários.

— Vocês viram-no ou ouviram-no?

— Não — respondi, mais ou menos sinceramente. P rometi a mim mesmo que, se eles não ferissem H elen, se a deixassem partir, eu

consideraria aquela excursão um sucesso. N ão iria querer mais nada da vida. Também pensei, agradecido, que Rossi estava livre daquela situação.

G éza disse alguma coisa que deve ter sido um palavrão em húngaro, porque H elen quase sorriu, apesar do revólver apontado ao seu coração.

— É escusado — disse ele, depois de um momento. — A tumba da cripta está vazia e esta daqui também. E ele nunca mais vai voltar a este lugar, agora que o encontramos.

Demorei um instante a assimilar a informação. A tumba na cripta estava vazia? E ntão, onde estava o corpo de Rossi, que tínhamos acabado de deixar lá? Ranov dirigiu-se a Stoichev.

— Fale-nos sobre o que está aqui.

T inham finalmente baixado as armas e puxei H elen para junto de mim, o que fez G éza lançar-me um olhar azedo, embora sem dizer nada.

Stoichev levantou a lanterna, como se estivesse à espera daquele momento. Dirigiu-se para a mesa mais próxima e bateu nela com os nós dos dedos.

— E stas mesas são de carvalho, creio — disse lentamente, — e pelo seu desenho poderiam ser medievais. — Olhou para baixo da mesa, para o encaixe de um dos pés, tamborilou os dedos num armário. — Mas não sei muito sobre mobiliário.

Todos aguardamos, em silêncio.

Géza deu um pontapé na perna de uma das mesas antigas.

— O que é que eu vou dizer ao ministro da C ultura? Aquele Valáquio pertencia-nos. Era um prisioneiro húngaro e o seu país era território nosso.

— Por que não discutimos isso quando o encontrarmos? — resmungou Ranov.

Apercebi-me subitamente de que a única língua que tinham em comum era o I nglês, e que ambos se detestavam. E descobri quem é que Ranov me fazia lembrar. C om o seu rosto de traços largos e grossos bigodes, parecia-se com as fotografias que eu tinha visto do jovem Stalin. P essoas como Ranov e G éza só causavam danos mínimos porque tinham poderes mínimos.

— Diga à sua tia para ter mais cuidado com os telefonemas — G éza desferiu um olhar maldoso para H elen e senti-a contrair-se. — Agora, deixem esse maldito monge a tomar conta do lugar — acrescentou ele, falando com Ranov, que por sua vez deu uma ordem que fez o pobre irmão Ivan tremer.

N esse momento, a luz da lanterna de Ranov incidiu subitamente noutra direção. E le tinha estado a erguê-la de um lado para o outro, examinando as mesas. E a luz incidiu no rosto do pequeno burocrata vestido de escuro, com o seu chapéu austero, de pé em silêncio junto ao sarcófago vazio de Drácula. Talvez não tivesse reparado no rosto dele se não fosse a sua expressão bizarra um olhar de dor pessoal, que a lanterna de repente iluminou. V i claramente o rosto ossudo, o bigode desleixado e o conhecido brilho dos olhos.

— Helen! — gritei. — Olha! — e ela também viu.

— O quê? — Géza virou-se para ela no mesmo momento.

— Este homem... — Helen estava assustada, — aquele homem ali... é...

— É um vampiro — declarei, sem rodeios. — Seguiu-nos desde a nossa universidade,

nos Estados Unidos.

M al eu acabara de falar, a criatura levantou voo. Teve de vir diretamente na nossa

direção para sair, desviando-se de G éza, que tentou segurá-lo, e empurrando Ranov. Ranov foi mais rápido, agarrou o bibliotecário, os dois chocaram com força, depois Ranov afastou-se dele com um grito e o bibliotecário voou novamente. Ainda a poucos metros de distância, Ranov fez pontaria e disparou na direção da criatura, que não vacilou um segundo foi como se Ranov tivesse disparado para o ar. E o perverso bibliotecário desapareceu tão de repente que não tive certeza se chegara ao corredor ou se tinha desaparecido diante dos nossos olhos. Ranov correu atrás dele pela porta fora, mas voltou quase de imediato. Ficamos todos a olhar para ele; o seu rosto estava branco e, no ponto onde segurava o tecido rasgado do casaco, um fio de sangue escorria-lhe por entre os dedos.

— Que raio de coisa é esta? — exclamou com voz trémula. Géza sacudiu a cabeça. — M eu Deus — disse, — ele mordeu-lhe. Deu um passo para trás, afastando-se de

Ranov. — E eu fiquei sozinho com aquele homem várias vezes. Disse-me que sabia onde encontrar os americanos, mas nunca me disse que era...

— C laro que nunca lhe disse — interrompeu H elen, com ar de desprezo, apesar de eu

tentar fazê-la calar-se. — Queria encontrar o seu senhor, seguir-nos para chegar até ele, e não matá-lo a si. Você era-lhe mais útil desta maneira. Ele deu-lhe as nossas anotações?

— C ale-se — G éza parecia estar com vontade de lhe bater, mas senti o medo e o

assombro na voz dele e levei-a silenciosamente para longe.

— Venham — Ranov arrebanhava o grupo com o seu revólver outra vez, uma das

mãos no ombro ferido. — V ocês ajudaram muito pouco. Quero-os de volta a Sofia e dentro de um avião o mais cedo possível. Têm sorte por não termos autorização para os fazermos desaparecer, seria demasiado inconveniente.

P ensei que fosse dar-nos um pontapé, como G éza fizera à perna da mesa, mas, em vez

disso, fez-nos sair da biblioteca com gestos bruscos. Obrigou Stoichev a ir à frente; imaginei, consternado, o que o velho devia ter passado no decorrer daquela caçada forçada. Claramente, Stoichev não tinha querido que fôssemos seguidos; tive certeza disso assim que o vi, pela aflição no seu rosto. Teria conseguido voltar para Sofia antes que o obrigassem a dar meia volta e vir atrás de nós? E sperava que a reputação internacional de Stoichev o protegesse contra futuros maus tratos, como no passado. M as Ranov era o pior de tudo. P rovavelmente voltaria, contaminado, para as suas obrigações na polícia secreta. G ostaria de saber se G éza pretendia tomar alguma providência em relação a isso, mas o húngaro estava com uma cara tão carrancuda que não me atrevi a perguntar.

Olhei uma vez para trás, da porta, para o principesco sarcófago que ali estivera

durante quase quinhentos anos. O seu ocupante podia estar em qualquer lugar agora, ou a caminho de qualquer lugar. N o topo da escadaria, arrastamo-nos, um a um, através da abertura eu rezava para que nenhum daqueles revólveres disparasse e, ao sair do outro lado, vi algo de muito estranho. O relicário de S. P etko estava aberto em cima do seu pedestal. E les deviam ter algumas ferramentas, pois tinham conseguido abri-lo onde nós não tínhamos conseguido. A lápide de mármore, por baixo do relicário, estava de novo no seu lugar e coberta com o seu pano bordado, imperturbada. H elen lançou-me um olhar desconcertado. Quando passamos pelo relicário, vi uns fragmentos de osso, um crânio lustroso tudo o que restava do mártir local.

Fora da igreja, na noite densa, havia uma confusão de carros e pessoas aparentemente, G éza chegara com uma comitiva, e dois dos homens estavam de guarda à porta da igreja. Drácula certamente não tinha fugido por ali, pensei. As montanhas elevavam-se em torno de nós, mais escuras do que o céu escuro. Alguns aldeões tinham tomado conhecimento da chegada daquelas pessoas todas e vindo para a igreja com tochas acesas; recuaram quando Ranov surgiu, pasmados com o casaco rasgado e sujo de sangue, os rostos tensos na luz incerta. Stoichev segurou-me no braço e aproximou a cabeça do meu ouvido.

— Nós fechamo-lo — murmurou.

— O quê? — curvei-me para o ouvir.

— O monge e eu descemos primeiro para a cripta, enquanto esses... esses sicários vasculhavam a igreja e os bosques à vossa procura. V imos o homem no túmulo não era Drácula e percebemos que vocês tinham estado ali. E ntão, fechamos o túmulo e, quando eles desceram, só abriram o relicário. E stavam tão zangados que achei que iriam atirar fora os ossos do pobre santo.

O irmão I van parecia bastante robusto, mas a fragilidade de Stoichev devia esconder uma força extraordinária. Stoichev virou-se para mim e perguntou, incisivo:

— Mas quem estava naquele túmulo, se não era...?

— Era o professor Rossi — murmurei.

Ranov estava a abrir as portas do carro, mandando-nos entrar. Stoichev deitou-me um olhar rápido, eloquente.

— Sinto muitíssimo.

E foi assim que deixamos o meu mais querido amigo a repousar na B ulgária, que possa dormir lá em paz até ao fim do mundo.