O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 54 de 83

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O Historiador

Capítulo 51

H elen e eu recuamos ao mesmo tempo. P or um segundo, pensei que Turgut e Selim

pudessem estar associados a algum poder oculto, e lutei contra a tentação de agarrar a minha pasta e o braço de H elen e sair a correr do apartamento. C omo, a não ser através de forças ocultas, podiam aqueles dois homens, que eu considerava nossos amigos, trabalhar para um sultão morto há tanto tempo? N a realidade, há muito tempo que todos os sultões estavam mortos, portanto qualquer um a que Turgut se estivesse a referir já não podia ser deste mundo. E não nos teriam também mentido sobre uma quantidade de outros assuntos?

A minha confusão mental foi interrompida pela voz de H elen. I nclinou-se para a

frente, pálida, os olhos muito abertos, mas fez uma pergunta calma e eminentemente prática, dada a situação — tão prática que levei uns instantes para a compreender.

— Professor Bora — disse ela, devagar —, que idade tem? Ele sorriu-lhe.

— Ah, minha querida senhora, se quer saber se tenho quinhentos anos, a resposta é,

felizmente, não. T rabalho para o M ajestoso e E splêndido Refúgio do M undo, o sultão Mehmed II, mas nunca tive a honra incomparável de o conhecer.

— Então, que diabo de história é esta? — explodi. Turgut sorriu de novo e Selim inclinou gentilmente, a cabeça na minha direção. — N ão pretendia contar-lhes nada disto — disse Turgut. — C ontudo, depositaram

tanta confiança em nós em tantas coisas, e como fez essa pergunta tão perspicaz, cara amiga, vamos explicar-lhes tudo. N asci normalmente em 1911 e espero morrer normalmente na minha cama em... digamos, por volta de 1985. — Deu uma risadinha. — N o entanto, a minha família vive sempre muito, muito tempo, por isso vou ser condenado a ficar sentado neste divã quando for velho demais para ser respeitável. — P assou um braço em torno dos ombros de M rs. B ora. — M r. Aksoy também tem a idade que aparenta. N ão há nada de estranho em nós. O que vamos contar-lhes, que é o maior segredo que eu podia confiar a alguém e que devem guardar aconteça o que acontecer, é que somos parte da Guarda do Crescente do sultão.

— Creio que nunca ouvi falar dela — disse Helen, franzindo o sobrolho. — Não, Senhora Professora, de fato nunca ouviu. Turgut lançou um olhar a Selim, que estava a ouvir pacientemente, tentando

acompanhar a nossa conversa, os olhos verdes tranquilos como um lago.

— Acreditamos que ninguém ouviu falar de nós, exceto os nossos membros. Formamos

uma guarda secreta com membros selecionados nas unidades de elite dos janízaros.

V ieram-me à mente aqueles rostos jovens de olhos brilhantes e duros como pedra que

eu vira nas pinturas do T opkapi Saray, as suas sólidas fileiras agrupadas junto do trono do sultão, suficientemente próximos para saltar sobre um potencial assassino ou, já agora, sobre qualquer um que repentinamente perdesse as graças do sultão.

Turgut pareceu ler-me os pensamentos, pois abanou a cabeça.

— Vejo que já ouviram falar dos janízaros. B em, meus caros, em 1477, M ehmed, o M agnífico e G lorioso, reuniu vinte oficiais que eram os mais dignos de confiança e os mais instruídos de todas as suas tropas, e concedeu-lhes secretamente o novo símbolo da Guarda do C rescente. Receberam uma única missão, que deveriam cumprir mesmo que lhes custasse a vida. A missão era evitar que a Ordem do Dragão trouxesse mais sofrimentos ao nosso grande Império, e perseguir e matar os seus membros onde quer que se encontrassem.

H elen e eu tomamos fôlego ao mesmo tempo para falar, mas por uma vez falei antes dela.

— A G uarda do C rescente foi formada em 1477, no mesmo ano em que os monges vieram para I stambul! — Tentei encaixar os fatos à medida que ia falando. — M as a Ordem do Dragão foi fundada muito antes disso, pelo imperador Segismundo em 1400, não é assim?

Helen concordou com um gesto.

— E m 1408, para ser mais preciso, meu amigo. E videntemente. P or volta de 1477, os sultões já estavam a ter problemas sérios com a Ordem do Dragão e com as suas guerras contra o I mpério. E m 1477, porém, o nosso G lorioso Refúgio do M undo concluiu que a Ordem do Dragão poderia vir a realizar ataques ainda piores no futuro.

— O que quer dizer com isso?

A mão de Helen estava imóvel dentro da minha, e fria.

— N em mesmo o nosso estatuto diz isso diretamente — admitiu Turgut, — mas estou certo de que não é coincidência o sultão ter fundado a G uarda poucos meses depois da morte de Vlad Tepes. — Juntou as mãos, como se rezasse, embora eu me lembrasse bem que os seus antepassados rezavam prosternados, com o rosto no chão. — O estatuto diz que Sua M agnificência fundou a G uarda do C rescente para perseguir a Ordem do Dragão, inimigos desprezíveis do seu majestoso império, por todos os tempos e lugares, por terra e por mar, mesmo para lá da morte.

Turgut inclinou-se para a frente, os olhos fulgurantes e a cabeleira prateada projetando-se para cima desordenadamente.

— A minha teoria é que o G lorioso teve o pressentimento, ou o conhecimento, do perigo que Vlad Drácula poderia representar para o I mpério depois da morte de Drácula. — P enteou o cabelo para trás com os dedos. — C omo vimos, o sultão também fundou nessa época o seu arquivo de documentos sobre a Ordem do Dragão, arquivo esse que não era secreto mas era usado em segredo pelos nossos membros, e ainda continua a ser. E agora, essa carta maravilhosa que Selim encontrou, e a sua canção folclórica, madame, são provas adicionais de que o Glorioso tinha boas razões para se preocupar.

A minha cabeça ainda fervilhava de perguntas.

— Mas como é que o senhor e Mr. Aksoy vieram a fazer parte dessa Guarda?

— O direito de pertencer à G uarda passa do pai para o filho mais velho. C ada filho faz

a sua... como se diz em inglês?... a sua iniciação aos dezenove anos. Se um pai tem apenas filhos indignos, ou se não tem filhos, deixa o segredo morrer com ele. — Turgut agarrou finalmente sua chávena de café esquecida e M rs. B ora levantou-se para a encher. — A G uarda do C rescente foi mantida de tal modo em segredo que nem os outros janízaros sabiam que alguns companheiros das suas fileiras pertenciam a tal grupo. O nosso amado fatih morreu em 1481, mas a sua G uarda continuou. Os janízaros tiveram um grande poder em certas épocas, sob sultões mais fracos, mas o sigilo foi mantido. Quando o I mpério finalmente se desvaneceu, mesmo de I stambul, ninguém sabia da nossa existência e assim permanecemos. O nosso estatuto foi mantido em segurança pelo pai de Selim Aksoy durante a P rimeira G uerra M undial e por Selim durante a Segunda. E le é agora o seu guardião, num lugar secreto que faz parte da nossa tradição.

Turgut respirou fundo e bebeu um gole do seu café. — J ulguei que tinha dito que o seu pai era italiano — disse H elen, um tanto

desconfiada. — Como poderia ele pertencer à Guarda do Crescente?

— Sim, minha senhora — Turgut assentiu com a cabeça por cima da chávena. O meu

avô materno, na realidade, era um membro muito ativo da G uarda e não se conformou que a linhagem terminasse com ele, já que só tinha uma filha. Quando viu que o I mpério acabaria para sempre durante a sua vida...

— A sua mãe! — exclamou Helen.

— Sim, minha cara — Turgut sorriu com ar melancólico. — N ão é a única entre nós

que pode gabar-se de ter uma mãe extraordinária. C omo julgo ter-lhes já dito, ela foi uma das mulheres mais instruídas do seu tempo no nosso país. N a verdade, uma das únicas a ter recebido uma educação verdadeiramente extraordinária. E o meu avô não se poupou a esforços para incutir nela todos os seus conhecimentos e ambições a fim de a preparar para servir na G uarda. E la interessou-se por engenharia quando isso ainda era uma ciência nova aqui e, depois da sua iniciação na G uarda, o meu avô permitiu que ela fosse estudar para Roma — ele tinha amigos lá. E la dominava a matemática mais avançada e sabia ler em quatro línguas, incluindo G rego e Árabe. — Turgut disse alguma coisa em turco para Selim e para M rs. B ora e ambos fizeram um gesto de concordância. — M ontava tão bem como qualquer cavaleiro dos sultões e, embora pouca gente soubesse, disparava igualmente tão bem como eles. — E le quase piscou o olho a H elen, e lembrei-me do pequeno revólver dela — afinal, onde é que ela o guardava? — Aprendeu muito com o meu avô sobre a lenda do vampiro e sobre como proteger os vivos das suas maléficas estratégias. Tenho um retrato dela aqui, se quiserem ver.

L evantou-se e trouxe o retrato, de uma mesa de madeira trabalhada, a um canto,

colocando-o com muito cuidado na mão de Helen. Era uma imagem admirável, com aquela maravilhosa e delicada nitidez dos retratos do princípio do século. A dama que posara para a prolongada sessão num estúdio fotográfico de I stambul tinha um ar paciente e composto, mas o fotógrafo, escondido debaixo do grande pano preto da máquina, captara um certo divertimento no seu olhar. O sépia da sua pele destacava-se, imaculado, acima do vestido escuro. O rosto era igual ao de Turgut, mas com o nariz e o queixo finos, enquanto os dele eram pesados, e abria-se como uma flor sobre o caule do seu pescoço esguio — o rosto de uma princesa otomana. O cabelo, sob um sofisticado chapéu de plumas, estava penteado para cima, formando ondas castanhas. Os seus olhos fitaram os meus com aquele lampejo de humor e subitamente lamentei os anos que nos separavam.

Turgut pegou outra vez com carinho na pequena moldura.

— O meu avô tomou uma sábia decisão quando rompeu com as tradições e a tornou um membro da G uarda. Foi ela que encontrou alguns documentos dispersos do nosso arquivo noutras bibliotecas e os trouxe de novo para a coleção. Quando eu tinha cinco anos, ela matou um lobo na nossa casa de Verão e, quando eu tinha onze, ensinou-me a montar e a disparar. O meu pai era-lhe muito devotado, embora ela o assustasse com o seu destemer — ele dizia sempre que viera atrás dela de Roma para a Turquia para a convencer a deixar de lado tanta bravura. Tal como as esposas mais fidedignas dos membros da nossa G uarda, o meu pai sabia do compromisso dela e preocupava-se constantemente com a sua segurança. E le está ali adiante — e apontou para um retrato a óleo em que eu reparara anteriormente, pendurado junto às janelas. O homem que nos olhava era uma pessoa sólida, segura de si, de uma elegância antiquada, vestido com um fato escuro, de olhos e cabelos negros e uma expressão de brandura no rosto, Turgut dissera nos que o pai tinha sido um historiador especializado na Renascença italiana, mas não era difícil imaginar o homem do retrato a jogar ao berlinde com o filho pequeno enquanto a mãe cuidava da parte mais séria da educação do rapaz.

Helen mexeu-se ao meu lado, estendendo discretamente as pernas

— Disse que o seu avô era um membro ativo da G uarda do C rescente O que é que isso significa? Quais são as vossas atividades?

Turgut sacudiu a cabeça, pesaroso

— Sobre isso, minha cara amiga, não posso entrar em pormenores, nem mesmo convosco. Algumas coisas têm de permanecer secretas. Se vos contamos tudo isto foi porque perguntaram, na verdade, quase adivinharam, e por que gostaríamos que confiassem plenamente na nossa ajuda. É de grande interesse para a G uarda que sigam para a B ulgária, e quanto mais cedo melhor. H oje em dia a G uarda é pequena, restam só poucos membros. — Suspirou. — P ela minha parte, infelizmente, não tenho filho nem filha a quem passar a minha missão, no entanto, M r Aksoy esta a educar um sobrinho dentro das nossas tradições. Mas podem estar certos de que toda a força da determinação otomana vos acompanhará, de uma forma ou de outra.

Resisti novamente ao impulso de suspirar alto. P oderia talvez discutir a questão com H elen, mas discutir com a força secreta do I mpério Otomano estava para lá da minha capacidade. Turgut levantou um dedo.

— Tenho de fazer lhes uma advertência, e muito séria, caros amigos Depositamos nas

vossas mãos um segredo que tem sido mantido com cuidado e com sucesso, quero crer durante quinhentos anos. N ão temos razões para suspeitar de que o nosso antigo inimigo tenha conhecimento dele, embora ele certamente odeie e tema a nossa cidade como o fez em vida. Nos estatutos da Guarda, Sua Magnificência estabeleceu a sua regra. Quem trair o segredo da G uarda aos nossos inimigos será punido com execução imediata. I sto nunca ocorreu, que eu saiba. M as peço lhes que tenham cuidado, tanto para o vosso bem, como para o nosso.

N ão havia qualquer vestígio de maldade ou de ameaça na sua voz, apenas uma

profunda gravidade, e percebi nela a inexorável lealdade que fizera do seu sultão o conquistador da G rande C idade, a antes inexpugnável e arrogante cidade dos B izantinos. Quando tinha dito "T rabalhamos para o sultão", queria dizer exatamente isso, mesmo tendo nascido meio milénio depois da morte de M ehmed. O Sol já ia baixo do lado de fora das janelas da sala de visitas e uma luz rosada banhava o rosto largo de Turgut, enchendo o subitamente de nobreza. Ocorreu-me que Rossi teria ficado fascinado por Turgut, que teria visto nele a história viva, e imaginei que perguntas, perguntas que eu não podia sequer começar a formular, Rossi lhe teria feito.

T odavia, foi H elen quem disse o que tinha de ser dito. P ondo-se de pé, o que fez com

que todos nos levantássemos com ela, estendeu a mão a Turgut.

— Sentimo-nos honrados pelo que nos contou — disse ela, olhando-o no rosto,

orgulhosa. — Vamos guardar o seu segredo e os desejos do sultão com as nossas próprias vidas.

Turgut beijou-lhe a mão, visivelmente emocionado, e Selim Aksoy curvou-se para ela. E u não precisava de acrescentar mais nada; pondo de lado momentaneamente o ódio

tradicional do seu povo pelos opressores otomanos, Helen falara por nós dois.

P odíamos ter ficado assim o resto do dia, olhando uns para os outros sem palavras

enquanto o crepúsculo caía, se o telefone de Turgut não tivesse subitamente tocado, estridente. E le inclinou-se, pedindo licença, e atravessou a sala para ir atender, enquanto Mrs. Bora começava a colocar os restos da nossa refeição numa bandeja. Turgut ouviu o seu interlocutor durante alguns minutos, falou com uma certa agitação, depois desligou de modo abrupto. Dirigiu a Selim rápidas palavras em turco e Selim vestiu rapidamente o seu casaco coçado.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.

— Sim, lamentavelmente — Turgut deu uma pancada no peito com a mão, punindo-

se. — Foi o bibliotecário, o meu bom amigo bibliotecário. O homem que deixei a tomar conta dele saiu por um momento e agora ligou a dizer que o meu amigo foi atacado de novo. E rozan está inconsciente e o homem vai à procura de um médico. I sto é muito sério. É o terceiro ataque, e exatamente ao pôr do Sol

Abalado, peguei também no meu casaco, e H elen calçou os sapatos, apesar de M rs.

B ora ter pousado a mão suplicante no seu braço. Turgut beijou a esposa e, quando saíamos, apressados, virei-me uma vez e vi-a, pálida e assustada, de pé à porta do apartamento.