O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 76 de 83

Páginas do PDF

O Historiador

Capítulo 73

Maio, 1954

Não tenho ninguém a quem escrever isto e nenhuma esperança de que algum dia isto seja

encontrado, mas parece-me um crime não tentar registar aquilo que sei enquanto ainda sou

capaz de o fazer, e só Deus sabe por quanto tempo ainda serei.

Fui levado do meu gabinete na universidade há alguns dias não sei muito bem quantos, mas

suponho que ainda estejamos no mês de M aio. Nessa noite, despedi-me do meu querido aluno e

amigo, que me mostrou o seu exemplar do livro demoníaco que tentei esquecer durante anos. Vi-o

sair com toda a ajuda que me fora possível dar-lhe. Depois, fechei o meu gabinete e sentei-me um

pouco, tomado de grande remorso e medo. Sabia que era eu o culpado. Recomeçara em segredo a

minha pesquisa sobre a história dos vampiros e pretendia de fato recuperá-la gradualmente e

expandir os meus conhecimentos sobre a lenda de Drácula, talvez até resolver finalmente o

mistério da localização da sua tumba. Deixara que o tempo, a racionalidade e o orgulho me

iludissem e me fizessem acreditar que não haveria consequências se retomasse a minha

investigação. Admiti para mim mesmo a minha culpa logo naquele primeiro momento de solidão.

Custou-me terrivelmente dar a P aul as anotações da minha pesquisa e as cartas que

escrevera sobre as minhas experiências, não porque ainda as quisesse qualquer vontade de

continuar a pesquisa desapareceu no segundo em que ele me mostrou o seu livro. A penas

lamentava profundamente ter de passar todos aqueles conhecimentos horripilantes para as mãos

dele, apesar de ter certeza de que, quanto mais ele soubesse, melhor poderia proteger-se. Só

esperava que, se alguma punição houvesse, fosse eu a sofrê-la e não P aul, com o seu jovem

otimismo, o seu passo ligeiro, o seu brilhantismo ainda não posto aprova. Paul não deve ter mais

de vinte e sete anos; eu já vivi décadas de vida e de muita felicidade imerecida. E ste foi o meu

primeiro pensamento. Os seguintes foram de ordem prática. M esmo que quisesse proteger-me,

não tinha qualquer meio para fazer de imediato, a não ser a minha fé na razão. G uardara as

minhas notas, mas nenhum dos meios tradicionais para repelir o mal crucifixos, balas de prata,

alho. Nunca lançara mão de nenhum deles, mesmo no auge da minha pesquisa, mas agora

começava a arrepender-me de ter aconselhado P aul a usar apenas os recursos da sua própria

mente.

E sses pensamentos exigiram o espaço de um minuto ou dois, e, de fato, como as coisas

aconteceram, tive apenas um minuto ou dois à minha disposição. E ntão, com uma lufada

repentina de ar frio e fétido, uma imensa presença precipitou-se sobre mim, de tal modo que eu

mal podia ver, e o meu corpo inteiro pareceu soltar-se da sua carne, de tanto medo, envolvido,

ceguei por um instante, e pensei que devia estar a morrer, embora não soubesse de quê. No meio

disto, tive a mais estranha visão de juventude e beleza física, uma sensação mais do que uma

visão, uma noção de mim mesmo muito mais jovem e cheio de amor por alguma coisa ou por

alguém. Talvez seja assim que se morre. Se for, quando chegar a minha hora e virá em breve, de

uma forma terrível, não duvido, espero que essa visão esteja comigo outra vez no último

momento.

Depois disto, não me lembro de nada, mas um nada que se prolongou por um período que

não pude então, e ainda não posso, calcular. Quando voltei a mim, fiquei surpreendido ao

constatar que estava vivo. Não vi nem ouvi nada nos primeiros segundos. E ra como sair de uma

grande e brutal cirurgia, e o meu despertar foi imediatamente seguido da compreensão de que

sentia dor, de que todo o meu corpo estava extremamente fraco e me doía intensamente, que

tinha um ardor na perna direita, assim como na garganta e na cabeça. O ar era frio e úmido e o

lugar onde eu estava deitado, fosse qual fosse, era frio, de modo que me sentia completamente

gelado. A esta sensação, seguiu-se a da luz uma luz fraca mas suficiente para me convencer de

que não estava cego e de que os meus olhos estavam abertos. E ssa luz e a dor, mais do qualquer

outra coisa, foram a confirmação de que estava vivo. Comecei a recordar o que de início pensei ter

acontecido na noite anterior P aul a vir ao meu gabinete com a sua chocante descoberta. E então

compreendi, com um súbito aperto no coração, que devia estar prisioneiro do mal; era a razão

por que o meu corpo fora agredido e por que me parecia estar rodeado pelo próprio cheiro do mal.

M ovimentei os membros com a maior cautela possível e consegui, apesar de toda a minha

fraqueza, virar a cabeça, depois levantá-la. A minha visão estava bloqueada por uma parede

indistinta a menos de dez centímetros de distância, mas a luz ténue que eu já vislumbrara vinha

de algum ponto acima dela. Suspirei e ouvi o meu próprio suspiro; isto fez-me acreditar que

também ainda podia ouvir, e que tinha sido o fato de estar num lugar tão silencioso que me dera

a ilusão de surdez. Fiz um grande esforço para ouvir com a maior atenção possível e, não tendo

escutado nada, levantei o corpo com cuidado para me sentar. O gesto espalhou uma dor e uma

fraqueza atrozes por todos os meus membros, e senti a cabeça a latejar. Sentado, recuperei um

pouco o sentido do tacto e descobri que estava deitado em cima de uma superfície de pedra, e as

paredes baixas dos dois lados serviram-me de apoio para me soerguer Sentia um forte zumbido

na cabeça, que parecia encher todo o espaço à minha volta. E ra um espaço sombrio, como já

disse, silencioso, e mais escuro ainda nos cantos. Tateei à minha volta. Estava seminu.

E sta descoberta provocou-me uma onda de náusea, mas ao mesmo tempo reparei que ainda

usava a roupa que vestia no meu gabinete, embora a camisa e o casaco tivessem um rasgão numa

das mangas e a gravata tivesse desaparecido. O fato de estar vestido com as minhas próprias

roupas, porém, tranquilizou-me um pouco; aquilo não era a morte, nem mera insanidade, e eu

não despertara noutra era, a não ser que tivesse transportado as minhas roupas para lá comigo.

A palpei a roupa e encontrei a minha carteira no bolso da frente das calças. Foi um choque sentir

aquele objeto conhecido sob as minhas mãos O meu relógio, descobri com tristeza, não estava no

meu pulso, nem a minha caneta no bolso interior do casaco.

E ntão, levei a mão à garganta e ao rosto. O rosto parecia inalterado, a não ser por um

ferimento muito ligeiro na testa, mas no músculo da garganta encontrei uma perfuração funda,

pegajosa ao toque dos meus dedos. Quando virava a cabeça ou engolia com força, a ferida fazia

um ruído de sucção que me aterrorizava além de toda a racionalidade. A área perfurada estava

também inchada, e latejava e doía-me quando lhe tocava. P ensei que iria desmaiar de novo de

tanto horror e desesperança, mas lembrei-me de que tivera forças para me sentar. Talvez não

tivesse perdido tanto sangue como a princípio receara, e isto talvez significasse que apenas tivesse

sido mordido uma vez. Senti-me eu mesmo, não um demônio; não ansiava por sangue, não sentia

maldade no coração. E ntão, uma enorme tristeza abateu-se sobre mim. Que importava que eu

ainda não sentisse sede de sangue? Onde quer que estivesse, seria apenas uma questão de tempo

antes de ser completamente contaminado. A não ser, é claro, que conseguisse fugir.

Virei a cabeça devagar, olhando à minha volta, tentando ver com mais clareza, e então fui

capaz de distinguir a origem da luz. E ra um brilho avermelhado à distância no escuro embora eu

não conseguisse saber a que distância e entre mim e esse brilho havia grandes formas escuras.

Com as mãos pela face exterior da minha casa de pedra. O sarcófago parecia estar rente ao chão,

ou a um piso de pedra, e tateei em volta até concluir que poderia descer dali no escuro sem cair de

uma grande altura. E ra um longo passo até ao chão e as minhas pernas tremiam terrivelmente,

por isso caí de joelhos assim que saí do sarcófago. A gora também conseguia ver um pouco

melhor. Dirigi-me para a fonte de luz avermelhada com as mãos estendidas à frente, tropeçando

no caminho no que me pareceu ser outro sarcófago, que encontrei vazio, e num móvel de madeira.

Quando colidi com o móvel, ouvi algo macio cair, mas não pude ver o que era.

A quele tatear no escuro era assustador, e eu esperava a qualquer segundo ser atacado pela

Coisa que me trouxera ali. Considerei outra vez a possibilidade de estar mesmo morto se aquela

não seria alguma horrenda versão da morte, que eu momentaneamente confundira com uma

continuação da vida. M as nada me atacou, a dor nas minhas pernas era suficientemente

convincente e eu estava a chegar mais perto da luz, que dançava e tremeluzia numa extremidade

da longa câmara. A ntes do seu brilho, apercebia-me agora, sobressaía um volume imóvel e

escuro. Quando estava a poucos metros dele, vi um lume aceso, a arder baixo e vermelho. E stava

emoldurado por uma lareira em arco feita de pedra, e dava luz suficiente para revelar diversas

pesadas peças de mobiliário antigo uma grande escrivaninha coberta de papéis, uma arca

entalhada, uma ou duas cadeiras altas e angulosas. Numa das cadeiras, de costas para mim e de

frente para o fogo, alguém estava sentado muito quieto, vi um vulto escuro acima do encosto da

cadeira. Desejei então ter seguido na direção oposta, longe da luz e mais perto de algum ponto

por onde fosse possível fugir, mas estava tremendamente atraído por aquela forma escura e pela

majestosa cadeira em que se sentava e pelo vermelho suave do fogo. P or um lado, precisei de toda

a minha força de vontade para andar naquela direção, e, por outro, não poderia ter voltado

atrás ainda que tentasse.

A proximei-me devagar do fogo com as minhas pernas doloridas e, quando contornei a

grande cadeira, uma figura levantou-se lentamente e virou-se para mim. P orque ele estava de

costas para o fogo e porque havia tão pouca luz à nossa volta, não podia ver o seu rosto, ainda

que por um segundo tenha vislumbrado uma face branca como osso e um olhar rutilante. T inha

cabelos escuros compridos e crespos, que lhe caíam pelos ombros como um manto curto. Havia

algo nos seus movimentos que era diferente dos de um homem vivo, mas se eram mais rápidos ou

mais lentos, não sei. E ra só um pouco mais alto do que eu, mas dava uma impressão de grande

estatura e volume, e eu via como os seus ombros largos se destacavam contra a luz da lareira.

E ntão, ele pegou em qualquer coisa, curvando-se para o fogo. I maginei que estivesse prestes a

matar-me e permaneci muito quieto, esperando morrer com uma certa dignidade, o que quer que

acontecesse. M as ele estava apenas a acender no fogo uma vela fina e comprida e, quando o fez,

acendeu com ela outras num candelabro junto da sua cadeira, virando-se de novo de frente para

mim.

A gora, via-o melhor, embora o seu rosto ainda continuasse na sombra. Usava um chapéu

pontiagudo verde e ouro ornamentado com um pesado broche cravejado de pedras preciosas

sobre a testa e uma túnica de ombros muito volumosos feita de veludo dourado com uma gola

verde e alta atada sob o queixo largo. A jóia na sua testa e os fios dourados da gola cintilavam à

luz do fogo. Um manto de pele branca estava enrolado em volta dos seus ombros e preso com um

dragão de prata. Os seus trajes eram extraordinários; assustaram-me quase tanto como a sua

estranha presença de morto-vivo. E ra roupa de verdade, viva, nova, não as peças desbotadas de

uma exposição de museu. E le usava-as com um luxo e uma elegância excepcionais, parado em

silêncio à minha frente, de tal modo que o manto caía em torno dele como uma capa ondulada de

neve. A luz do fogo revelava a sua mão de dedos de pontas achatadas, cheia de cicatrizes,

apoiada no punho da adaga, e mais adiante uma perna vigorosa de calções verdes e pé calçado de

bota. Ele deslocou-se um pouco, virando-se para a luz, mas permaneceu calado. Agora, podia ver

melhor o seu rosto, e a sua força cruel fez-me recuar, os grandes olhos negros sob as vastas

sobrancelhas juntas, o nariz reto e comprido, as faces amplas e ossudas. A sua boca, via agora,

estava fechada com um sorriso duro, cor de rubi e curvada sob o bigode escuro e cerdoso. Num

dos cantos da sua boca, vi uma mancha de sangue seco, oh, meu Deus, como aquilo me abalou.

Só a visão do sangue naquela boca já era suficientemente terrível, mas a percepção imediata de

que era provavelmente meu, o meu próprio sangue, pôs-me a cabeça à roda.

E le levantou-se, ainda mais orgulhoso, e olhou-me diretamente no rosto através da

penumbra que nos separava.

Sou Drácula disse.

A s palavras soaram frias e claras. T ive a impressão de que vinham numa língua que eu não

conhecia, apesar de as compreender perfeitamente. I ncapaz de falar, fiquei a olhar para ele,

paralisado. O seu corpo estava apenas a três metros do meu e era inegavelmente real e poderoso,

quer estivesse vivo ou morto.

Venha disse ele no mesmo tom frio, puro. E stá cansado e com fome depois da nossa viagem.

P reparei-lhe uma ceia. Os seus gestos eram delicados, corteses mesmo, com um brilho de jóias nos

grandes dedos brancos.

Vi uma mesa perto do fogo cheia de travessas cobertas. Senti também cheiro a comida,

comida humana, boa, verdadeira e o aroma fez-me sentir fraco. Drácula dirigiu-se sem ruído

para a mesa e encheu um copo com um líquido vermelho de uma garrafa, algo que, pensei por um

instante, devia ser sangue,

Venha repetiu ele, mais suavemente.

A fastou-se e sentou-se na sua cadeira, como se pensasse que eu me aproximaria da mesa

com mais facilidade se ele se conservasse a uma certa distância. Dirigi-me, vacilante, para a

cadeira vazia junto da mesa, com as pernas a tremer de pura fraqueza e também de medo. Sentei-

me nas almofadas escuras, prostrado, e olhei para os pratos. P or que razão, refleti, queria tanto

comer quando poderia morrer a qualquer momento? E ra um mistério que só o meu corpo

compreendia. Drácula contemplava agora o fogo; vi o perfil agressivo, o nariz longo e o queixo

forte, o cabelo negro encaracolado por cima do ombro. A pertava as mãos uma na outra,

pensativo, de modo que o seu manto e as mangas bordadas pendiam, mostrando punhos de

veludo verde e uma grande cicatriz nas costas de uma das mãos. A sua atitude era calma e

melancólica; comecei a sentir que devia estar a sonhar, e não sob ameaça, e atrevi-me a levantar

as tampas de algumas travessas.

Subitamente, estava tão faminto que mal podia conter a vontade de comer selvaticamente

com as duas mãos, mas controlei-me e peguei no garfo de metal e na faca de osso que estavam em

cima da mesa para cortar primeiro uma fatia de galinha assada, depois um pedaço de uma carne

escura de caça. Havia tigelas decerâmica com batatas e papas, um pão rijo, uma sopa quente

cheia de verduras. Comi vorazmente, tentando não me apressar para evitar que o estômago me

doesse. A taça de prata junto ao meu cotovelo estava cheia de um forte vinho tinto, não de

sangue, e bebi-o todo. Drácula não se moveu durante a minha refeição, embora eu não pudesse

evitar olhar de relance para ele de vez em quando. Quando acabei, sentia-me quase pronto para

morrer, contente por um longo minuto. E ra então este o motivo por que se oferece uma última

refeição a alguém que vai ser executado. Foi a primeira coisa em que pensei com clareza desde que

acordara dentro do sarcófago. Devagar, voltei a colocar as tampas nas travessas vazias,

tentando fazer o mínimo de ruído, e recostei-me na cadeira, à espera.

Depois de um longo momento, o meu companheiro virou-se na cadeira. J á acabou o seu jantar disse calmamente. E ntão, talvez possamos conversar um pouco, e

vou contar-lhe por que o trouxe aqui. A sua voz era clara e fria como anteriormente, mas desta

vez percebi uma leve crepitação nas suas profundezas, como se o mecanismo que a produzia fosse

infinitamente velho e gasto. Ele permanecia sentado a olhar pensativamente para mim, e senti-me

encolher sob o seu olhar.

Tem alguma idéia de onde está?

E u tinha esperado não ter de falar com ele, mas achei que não ganharia nada em ficar

calado, o que poderia irritá-lo, embora ele parecesse bastante calmo naquele momento. Também

me ocorrera que, se respondesse, se o entretivesse de alguma forma, poderia ganhar algum tempo

para avaliar o que me rodeava para uma possível fuga, ou para descobrir uma maneira de o

destruir, se tivesse coragem, ou até as duas coisas. Devia ser noite, ou ele não estaria acordado,

se a lenda estivesse certa. A manhã acabaria por chegar e, se eu estivesse vivo nessa altura, ele

teria de dormir enquanto eu ficaria acordado.

Tem alguma idéia de onde está? repetiu, quase pacientemente. Sim respondi. Não fui capaz de me dirigir a ele usando qualquer título. Pelo menos, acho que

sim. Esta é a sua tumba.

Uma delas sorriu. A favorita, em todo o caso.

Estamos na Valáquia? Não pude deixar de perguntar. E le abanou a cabeça e a luz do fogo passou-lhe pelo cabelo escuro e pelos olhos brilhantes.

Havia algo que não era humano naquele gesto, o que fez o meu estômago contrair-se. E le não se

movimentava como uma pessoa viva e, no entanto, mais uma vez, eu não sabia definir com

exatidão qual era a diferença.

A Valáquia tornou-se demasiado perigosa. E u devia ter podido descansar lá para sempre,

mas não foi possível. I magine: depois de lutar tanto pelo meu trono, pela nossa liberdade, não

pude sequer deixar lá os meus ossos.

Onde estamos, então? Tentei, mais uma vez em vão, considerar aquilo como uma conversa

normal. Depois apercebi-me de que não queria apenas fazer a noite passar depressa ou de modo

seguro, se houvesse alguma possibilidade disso.

Queria também aprender alguma coisa sobre Drácula. O que quer que aquela criatura fosse,

tinha vivido quinhentos anos. A s suas respostas morreriam comigo, é claro, mas este fato não

impedia que eu sentisse uma ponta de curiosidade.

A h, onde estamos repetiu Drácula. Não importa, penso eu. Não estamos na Valáquia, que

ainda é governada por loucos.

Olhei para ele, abismado.

Você... você conhece o mundo moderno?

E le olhou para mim com um ar de divertida surpresa que fez o seu rosto terrível crispar-se.

P ela primeira vez, vi os dentes compridos, as gengivas recuadas, que lhe davam a aparência de

um cão velho quando sorria. A visão foi-se tão depressa como viera, não, a sua boca era normal,

excetuando aquela pequena mancha do meu sangue, ou de alguém sob o bigode preto.

Sim disse ele, e por um segundo receei ter de ouvi-lo rir, conheço o mundo moderno. É o meu

orgulho, a minha obra favorita.

Senti que algum tipo de ataque frontal poderia ser do meu interesse, se o ocupasse. E ntão, o que quer de mim? E vitei a modernidade durante muitos anos; ao contrário de si,

vivo no passado.

A h, o passado e juntou as pontas dos dedos outra vez diante do fogo. O passado é muito

útil, mas só pelo que pode ensinar-nos sobre o presente. O presente é que eriço. M as gosto muito

do passado. Venha. Por que não mostrar-lhe, uma vez que já comeu e descansou?

Levantou-se, outra vez com aqueles movimentos que pareciam determinados por alguma

força que não a dos membros do seu corpo, e eu levantei-me depressa com ele, temendo que se

tratasse de um ardil, que ele fosse agora lançar-se sobre mim. M as ele virou-se devagar e tirou

uma das velas do suporte próximo da sua cadeira, erguendo-a bem alto.

Leve uma vela consigo disse, afastando-se da lareira e penetrando na escuridão do vasto

aposento.

P eguei numa segunda vela e segui-o, ficando longe dos seus estranhos trajes e arrepiantes

movimentos. Esperava que não fosse levar-me outra vez para o meu sarcófago.

À luz fraca das nossas velas, comecei a ver coisas que não pudera ver antes coisas

maravilhosas. Distinguia agora compridas mesas a minha frente, mesas de uma solidez antiga. E

em cima delas havia pilhas e pilhas de livros volumes velhíssimos e gastos encadernados em

couro, e capas cujos dourados captavam o brilho da chama da minha vela. Havia outros objetos

ainda eu nunca tinha visto um tinteiro como aquele, nem penas e aparos tão extravagantes.

Havia uma pilha de folhas de pergaminho, que vislumbrei à luz da vela e uma velha máquina de

escrever com um papel muito fino inserido nela. E ntrevi os reflexos de encadernações e caixas

recamadas de pedras preciosas, rolos de manuscritos pousadas em bandejas de latão dourado.

Havia grandes fólios e in-quartos revestidos de couro macio e filas de volumes mais modernos em

compridas estantes. Na realidade, estávamos cercados: todas as paredes pareciam estar cobertas

de livros. Segurando a minha vela, comecei a decifrar títulos aqui e ali, às vezes um elegante

desabrochar de escrita árabe no centro de uma capa de couro vermelho, às vezes uma língua

ocidental que eu conseguia ler. A maioria dos volumes, todavia, era antiga demais para ter

títulos. T ratava-se de um acervo incomparável, e, contrafeito, comecei a ansiar por abrir alguns

daqueles livros, por tocar os manuscritos nas suas bandejas.

Drácula voltou-se para mim, segurando a sua vela com o braço levantado, e a luz fez

cintilar as jóias no seu chapéu topázio, esmeralda, pérola. Os seus olhos estavam muito

brilhantes.

O que acha da minha biblioteca?

Parece ser uma... coleção excepcional. Um tesouro reconheci. Uma espécie de prazer passou pelo seu rosto terrível. Tem razão disse suavemente. E sta biblioteca é a melhor do seu gênero no mundo. É o

resultado de séculos de uma seleção cuidadosa. M as vai ter tempo de sobra para explorar as

maravilhas que reuni aqui. Agora, deixe-me mostrar-lhe outra coisa.

Dirigiu-se para um lado da sala de que ainda não nos tínhamos aproximado e ali dei com

uma prensa tipográfica muito antiga, como as que vemos em ilustrações do fim da I dade M édia

um pesado aparelho de metal negro e madeira escura com um enorme parafuso em cima. A placa

redonda era de obsidiana com o polimento da tinta, captava a nossa luz como um espelho

demoníaco. Havia uma folha de papel espesso estendida na prateleira da prensa. A proximei-me e

vi que estava impressa em parte, uma experiência posta de parte, e que estava escrita em inglês.

"O Fantasma na Ânfora", dizia o título. "Vampiros, da T ragédia G rega à T ragédia M oderna".

E o nome do autor: "Bartholomew Rossi."

Drácula devia estar à espera da minha manifestação de espanto, e eu não o decepcionei. Como vê, estou a par do que há de melhor em pesquisa moderna. B em informado, como se

diz. Quando não posso obter uma obra publicada ou quando a quero imediatamente, às vezes

imprimo-a eu mesmo. Mas eis uma coisa que sem dúvida lhe vai igualmente interessar.

A pontou para uma mesa atrás da prensa. E m cima dela, havia uma fila de blocos

xilográficos. O maior deles era o dragão dos nossos livros do meu e do de P aul invertido, é claro.

Com dificuldade, controlei-me para não soltar uma exclamação em voz alta.

E stá surpreendido disse Drácula, segurando a sua vela perto do dragão. A s linhas da figura

eram-me tão familiares que poderia tê-las talhado com as minhas próprias mãos. Conhece esta

imagem muito bem, presumo.

Sim segurei a minha vela com firmeza. I mprime os livros pessoalmente? E quantos deles

existem?

Os meus monges imprimiram alguns, e eu continuei o trabalho deles disse ele em voz baixa,

olhando para as matrizes. Quase realizei a minha ambição de imprimir mil quatrocentos e

cinquenta e três, mas devagar, para poder distribuí-los enquanto trabalhava. E ste número

significa alguma coisa para si?

Sim respondi, depois de um momento. É o ano da queda de Constantinopla Achei que saberia observou ele com o seu sorriso amargo. É a pior data da História. P arece-me que há muitas concorrentes a essa honra objetei, mas ele sacudiu a sua grande

cabeça sobre os seus grandes ombros.

Não disse ele. Levantou bem alto a vela e à sua luz vi os olhos dele inflamarem-se, vermelhos

nas suas profundezas, como os de um lobo, e cheios de ódio. Foi como ver um olhar morto de

repente ganhar vida; eu tinha achado os seus olhos brilhantes antes, mas agora estavam

ferozmente iluminados. E u não conseguia falar; não conseguia desviar os olhos. Depois de um

segundo, ele voltou-se outra vez para o dragão e, contemplando-o, disse, pensativo: Foi um bom

mensageiro.

Foi você que me levou o meu? O meu livro?

Digamos que tomei as providências para isso estendeu os dedos cheios de cicatrizes de

batalha para tocar no bloco entalhado. Sou muito cuidadoso quanto à sua distribuição. Vão

apenas para os acadêmicos mais promissores, e para aqueles que julgo serem suficientemente

persistentes para seguir o dragão até ao seu covil, E você foi o primeiro a fazê-lo, de fato.

Cumprimento-o por isso. Os meus outros assistentes, deixo-os no mundo, para fazerem a minha

pesquisa.

Não estou a perceber arrisquei-me a dizer. Foi o senhor que me trouxe para cá. A h... de novo aquela curvatura nos lábios cor de rubi, a contração do longo bigode. Você

não estaria aqui se não quisesse vir. Nunca ninguém ignorou a minha advertência duas vezes na

vida. Foi você que se trouxe a si mesmo.

Olhei para a prensa muito velha e para o bloco entalhado com o dragão. Por que me quer aqui?

E u não queria despertar a sua ira com as minhas perguntas; amanhã à noite ele poderia

matar-me, se quisesse, se eu não encontrasse nenhum meio de escapar durante as horas do dia.

Mas não podia deixar de lhe perguntar aquilo.

Há muito tempo que espero por alguém para catalogar a minha biblioteca disse ele, com

simplicidade. Amanhã, poderá ver tudo o que há nela à vontade. Esta noite, vamos conversar.

Dirigiu-se de novo para as nossas cadeiras com o seu passo imponente e lento. A s suas

palavras deram-me uma boa dose de esperança aparentemente, não pretendia matar-me naquela

noite e, além disso, a curiosidade crescia dentro de mim. E u não estava a sonhar, parecia-me;

estava a falar com alguém que vivera através de mais História do que qualquer historiador

poderia imaginar estudar numa só vida, mesmo que de modo rudimentar. Segui-o a uma

distância prudente e sentamo-nos diante do fogo outra vez. E nquanto me instalava, reparei que

a mesa com os pratos vazios da minha ceia desaparecera, e no seu lugar surgira uma confortável

otomana, sobre a qual apoiei os pés com cuidado. Drácula sentou-se majestosamente direito na

sua grande cadeira. E nquanto a cadeira dele era alta, de madeira medieval, a minha era

confortavelmente estofada, como a otomana, como se ele tivesse pensado em proporcionar ao seu

hóspede algo adequado à fraqueza moderna.

Ficamos sentados em silêncio durante longos minutos, e eu já começava a perguntar-me se

ele teria a intenção de ficar assim a noite inteira quando ele falou novamente.

E m vida, eu amava os livros disse. Virou-se um pouco para mim, e via o clarão do seu olhar

e o brilho da sua densa cabeleira. Talvez não saiba que eu era de certo modo um estudioso. I sso

não parece ser muito conhecido falava com indiferença. M as sabe que os livros da minha época

eram muito limitados quanto aos campos de interesse. Na minha vida mortal, vi sobretudo os

textos que a I greja sancionava os E vangelhos e o comentário ortodoxo deles, por exemplo. E ssas

obras não tinham qualquer utilidade para mim, no final. E quando ocupei pela primeira vez o

meu trono legítimo, as grandes bibliotecas de Constantinopla tinham sido destruídas. O que

restou delas, nos mosteiros, nunca pude ver com os meus próprios olhos o seu olhar estava

profundamente perdido no fogo. M as eu possuía outros recursos. M ercadores traziam-me livros

estranhos e maravilhosos de muitos lugares do E gito e da Terra Santa, dos grandes mosteiros do

Ocidente. Nesses livros, aprendi sobre o antigo ocultismo. Como sabia que não podia alcançar

um paraíso celestial de novo aquele tom de voz indiferente, tornei-me um historiador para

preservar a minha própria história para sempre.

Calou-se por algum tempo e eu tinha medo de lhe fazer mais perguntas. Finalmente, pareceu

sair da apatia, batendo com a mão larga no braço da cadeira.

Foi o princípio da minha biblioteca.

E u estava demasiado curioso para ficar calado, apesar de achar a pergunta extremamente

difícil de formular.

Mas depois da sua... morte, continuou a colecionar estes livros? Oh, sim. Virou-se então para olhar para mim, talvez por eu ter feito espontaneamente a

pergunta, e sorriu, soturno. Os seus olhos, encovados à luz da lareira, eram aterrorizadores de

fitar. Como já lhe disse, no fundo sou um estudioso, como sou um guerreiro, e aqueles livros

fizeram-me companhia durante os meus longos anos. Há também muita coisa de natureza

prática que se aprende nos livros a arte de governar, por exemplo, e as batalhas dos grandes

generais. Mas tenho muitos tipos de livros. Vai ver amanhã.

E o que deseja que eu faça pela sua biblioteca?

Como disse, catalogá-la. Nunca fiz um registro completo do que possuo, das suas origens e

do seu estado. E sta será a sua primeira tarefa, e vai realizá-la com mais rapidez e brilhantismo

do que qualquer outro o faria, devido ao seu domínio de muitas línguas e à vastidão dos seus

conhecimentos. No decorrer desse trabalho, vai manusear alguns dos livros mais maravilhosos e

mais poderosos alguma vez produzidos. M uitos deles já não existem em nenhum outro lugar.

Talvez saiba, professor, que só um milésimo da literatura já publicada até hoje ainda existe...

Empenhei-me na tarefa de elevar essa fração ao longo dos séculos.

E nquanto ele falava, notei outra vez a clareza e a frieza peculiares da sua voz, e também

aquele crepitar no fundo como o guizo de uma cobra, ou de água fria a correr sobre pedras.

A sua segunda tarefa será muito mais ampla. Na verdade, vai durar para sempre. Quando

conhecer a minha biblioteca e os seus objetivos tão intimamente como eu, irá pelo mundo, sob o

meu comando, à procura de novas aquisições e antigas também, porque nunca irei parar de

colecionar as obras do passado. Colocarei muitos arquivistas à sua disposição os melhores e você

trará outros mais para o nosso poder.

A s dimensões da sua visão e o seu pleno significado, se eu os compreendia corretamente,

caíram sobre mim como um suor frio. Recuperei a minha voz, mas insegura.

Por que não continua a fazer isso pessoalmente? Ele sorriu para o fogo e vi outra vez aquele lampejo de um rosto diferente o cão, o lobo. Vou ter outras coisas a que dar atenção agora. O mundo está a mudar e pretendo mudar

com ele. Talvez em breve não precise mais desta forma e mostrou com um gesto lento da mão a

sua elegância medieval, a grande força letal dos seus membros para realizar as minhas ambições.

M as a biblioteca é-me preciosa e gostaria de a ver crescer. A lém disso, há já algum tempo que

acho que está cada vez menos segura aqui. Vários historiadores quase a encontraram, e você

mesmo tê-la-ia encontrado se eu o tivesse deixado mais tempo entregue aos seus próprios

recursos. M as eu precisava de si aqui com urgência. P ressinto um perigo que se aproxima, e a

biblioteca tem de ser catalogada antes de ser levada daqui.

Ajudou-me, por um momento, fingir outra vez que estava a sonhar, e perguntei: Para onde vai levá-la? E a mim juntamente com ela, podia ter acrescentado. P ara um antigo lugar, mais velho ainda que este, do qual tenho excelentes lembranças. Um

lugar remoto, mas próximo das grandes cidades modernas, onde posso ir e vir com facilidade.

Vamos instalar a biblioteca, e vou ampliá-la imensamente olhou para mim com uma espécie de

confiança que poderia ser afeição num rosto humano. E ntão levantou-se, com os seus

movimentos vigorosos, peculiares.

Já conversamos o suficiente por uma noite vejo que está cansado. Vamos utilizar estas horas

para ler um pouco, como costumo fazer, e depois vou-me embora. Quando amanhecer, deve pegar

no papel e nas canetas que vai encontrar junto da prensa e começar o seu catálogo. Os meus

livros já estão separados por categorias, em vez de séculos ou décadas. Depois verá. Há uma

máquina de escrever, também, que providenciei para si. P ode querer compilar o catálogo em

Latim, mas deixo isso ao seu critério. E , claro, tem toda a liberdade, agora e em qualquer

ocasião, para ler o que desejar.

Com isto, afastou-se da cadeira e escolheu um livro em cima da mesa, depois voltou a

sentar-se com ele. T ive receio de não fazer o mesmo e peguei no primeiro livro que encontrei. E ra

uma das primeiras edições de O P ríncipe,de M aquiavel, acompanhado de uma série de discursos

sobre moral que eu nunca vira nem ouvira falar antes. Não consegui começar a decifrá-lo, no

estado de espírito em que me encontrava, e fiquei a olhar para as letras, ou virava uma página ao

acaso. Drácula parecia profundamente concentrado no seu livro. Lançando-lhe um olhar rápido,

perguntava a mim próprio como é que ele se habituara àquela existência noturna, subterrânea, a

vida de um estudioso, depois de uma vida inteira de batalhas e de ação.

Finalmente, levantou-se e pôs o livro de lado, silenciosamente. Sem dizer palavra, entrou na

escuridão da grande sala, e deixei de poder distinguir as suas formas. E ntão, ouvi um rangido

seco, como o de um animal a andar em cima de terra solta, ou de um fósforo a ser riscado,

embora nenhuma luz aparecesse, e senti-me imensamente sozinho. A purei os ouvidos, mas não

consegui saber para que lado ele fora. Não iria banquetear-se comigo naquela noite, pelo menos.

P erguntei-me, temeroso, com que objetivo estaria a poupar-me, quando poderia ter feito de mim

seu servo muito mais depressa e ao mesmo tempo saciado a sua sede. Fiquei algumas horas

sentado na minha cadeira, levantando-me de vez em quando para esticar o meu corpo dolorido.

Não me atrevi a dormir enquanto era noite, mas sem querer devo ter dormitado um pouco antes

do alvorecer, porque acordei de repente sentindo uma mudança no ar, embora nenhuma luz

penetrasse naquela câmara sombria, e vi o vulto de Drácula envolto no seu manto aproximando-

se da lareira.

B om dia disse ele, em voz baixa, e encaminhou-se para a parede escura onde ficava o meu

sarcófago. P usera-me de pé, impelido pela sua presença. E ntão, mais uma vez, deixei de o ver e

um profundo silêncio encheu-me os ouvidos.

M uito tempo depois, peguei na minha vela e voltei a acender o candelabro, assim como

algumas velas que encontrei em candelabros fixos nas paredes. E m cima das muitas mesas,

descobri candeeiros de cerâmica ou pequenas lamparinas de ferro, e acendi também alguns deles.

O fato de haver mais iluminação foi um alívio para mim, mas perguntei a mim mesmo se veria a

luz do dia outra vez, ou se já teria iniciado uma eternidade de trevas e chamas tremeluzentes de

velas, isto por si só estendia-se à minha frente como uma versão do inferno. P elo menos, podia

ver agora um pouco mais da sala; era muito funda em todas as direções e as paredes estavam

revestidas de grandes armários e prateleiras. P or toda aparte via livros, caixas, rolos de

pergaminhos, manuscritos, as pilhas e filas da vasta coleção de Drácula. A o longo de uma

parede, percebi as formas indistintas de três sarcófagos. A proximei-me com a minha luz. Os dois

menores estavam vazios um deles devia ter sido aquele em que eu acordara.

E ntão, vi o maior sarcófago de todos, um grande túmulo mais majestoso que tudo o resto;

imenso à luz das velas, e de nobres proporções. Num dos lados, havia apenas uma palavra,

escrita em caracteres latinos: DRÁCULA . E rgui a vela e olhei para dentro, quase contra a minha

vontade. O grande corpo jazia ali, inerte. P ela primeira vez, via com clareza o rosto fechado,

cruel, e fiquei a olhar para ele apesar da repulsa. O cenho estava ligeiramente franzido como se

um mau sonho o perturbasse, os olhos abertos e fixos, de tal modo que parecia mais morto do

que a dormir, a pele de um amarelado cor de cera, as longas pestanas negras imóveis, os traços

fortes, quase bonitos, translúcidos Um emaranhado de comprido cabelo escuro caía-lhe em torno

dos ombros, enchendo os lados do sarcófago. O mais impressionante para mim era o colorido

vivo das suas faces e lábios, e a aparência saciada que o rosto e o corpo não tinham à luz da

lareira. E le poupara-me por algum tempo, era verdade, mas lá fora, na noite, arranjara maneira

de se satisfazer. A pequena mancha de sangue desaparecera dos seus lábios; agora, vicejavam, cor

de rubi, sob o bigode escuro. P arecia tão cheio de uma vida e saúde artificiais que o meu sangue

gelou quando vi que não respirava o seu peito não subia nem descia um milímetro sequer. Outra

coisa estranha: usava um novo conjunto de roupas, tão rico e requintado como o que eu já vira,

uma túnica e botas de um vermelho intenso, um manto e uma boina de veludo púrpura. O manto

estava um pouco gasto nos ombros, o chapéu ostentava uma pluma castanha. A gola faiscava de

jóias.

Fiquei a olhar para ele até a estranheza da visão quase me fazer desfalecer, e recuei um passo

para tentar organizar os meus pensamentos. A inda era muito cedo eu dispunha de horas até ao

pôr do Sol. A ntes de mais nada, iria procurar uma forma de fugir e depois um meio de destruir a

criatura enquanto ela dormia, para poder fugir imediatamente, fosse ou não bem sucedido.

Segurei a minha luz com firmeza. Não é preciso dizer que esquadrinhei durante mais de duas

horas a grande sala de pedra sem encontrar uma única saída. Numa das extremidades, do lado

oposto à lareira, havia uma grande porta de madeira com uma tranca de ferro, que empurrei, e

puxei até ficar exausto e dolorido. Não se desviou um milímetro; de fato, acredito que estivesse

fechada há muitos anos talvez séculos. Não havia outras formas de saída nenhuma outra porta,

túnel, ou pedra solta, ou abertura de qualquer tipo. Não havia janelas, sem dúvida, e tinha

certeza de que nos encontrávamos num subterrâneo bastante fundo. O único nicho nas paredes

era aquele onde estavam os três sarcófagos, e, também lá, as pedras não saíam do lugar. Foi um

tormento para mim examinar aquela parede diante do rosto parado de Drácula com os seus

enormes olhos abertos; mesmo que os olhos nunca se mexessem, eu sentia que deviam ter um

poder secreto de vigiar e amaldiçoar.

Sentei-me de novo junto ao fogo para recuperar as minhas forças que se esvaíam. O lume

nunca estivera tão baixo, reparei, estendendo as mãos por cima dele, embora consumisse lenha de

verdade e produzisse um calor palpável e reconfortante. Reparei também pela primeira vez que

não deitava fumo; teria estado aceso a noite inteira? P assei a mão pela cara, para me aquecer.

P recisava da mais ínfima parcela da minha saúde mental. Na verdade naquele momento, tomei

uma decisão firme, empenhar-me-ia em manter intactas a minha mente e a minha fibra moral até

ao meu último momento. Seria o meu amparo, o último que merestava.

Quando me recompus, comecei a minha busca outra vez, sistematicamente, procurando uma

forma possível de destruir o meu monstruoso anfitrião. Se o conseguisse, evidentemente, morreria

de qualquer maneira sozinho aqui, sem escapatória, mas ele nunca mais sairia desta câmara para

se lançar como uma ave de rapina sobre o mundo exterior. P ensei fugazmente, e não pela

primeira vez, no conforto do suicídio mas não podia permitir-me isso. J á estava em risco de me

tornar igual a Drácula, e a lenda afirmava que qualquer suicida pode tornar-se um morto-vivo

mesmo sem a contaminação adicional que eu já recebera, uma lenda cruel, mas ainda assim eu

tinha de levá-la em conta. E sse caminho estava fechado para mim. I nvestiguei cada recanto e

cada fenda da sala, abrindo gavetas e caixas, verificando prateleiras, segurando a vela bem alto.

Não era provável que o astucioso príncipe tivesse deixado alguma arma que pudesse ser usada

contra ele, mas eu tinha de procurar. Não encontrei nada, nem um pedaço de madeira que pudesse

afiar e transformar numa estaca. Quando tentei puxar um toro de lenha da lareira, as labaredas

reanimaram-se subitamente, queimando-me a mão. Fiz a tentativa diversas vezes, sempre com o

mesmo resultado demoníaco.

Por fim, voltei ao grande sarcófago central, temendo o último recurso que havia ali: a adaga

que o próprio Drácula usava no cinto. A sua mão marcada por cicatrizes estava fechada no

punho da arma. A adaga podia muito bem ser de prata, e nesse caso enterrá-la-ia no coração

dele, se conseguisse tirar-lha do corpo. Sentei-me por um momento para reunir coragem para esse

esforço e para superar a minha aversão. E ntão levantei-me e pus a mão com cuidado perto da

adaga, segurando a vela bem alto na outra mão. O meu leve toque não causou nenhuma

palpitação de vida no rosto rígido, constatei, embora a crueldade da expressão, aprofunda

contração do nariz parecessem intensificar-se. M as descobri, para meu pavor, que a mão estava

fechada sobre a adaga por algum motivo. E u teria de a abrir à força para tirar a adaga.

Coloquei a minha mão sobre a de Drácula e a sensação foi tão medonha que não quero descrevê-

la aqui, nem que seja só para mim. A mão dele estava fechada como uma pedra sobre o punho da

adaga. E u não conseguia abri-la nem fazê-la mexer-se; seria o mesmo que tentar arrancar uma

adaga de mármore da mão de uma estátua. Os olhos mortos pareceram acender-se de ódio.

Lembrar-se-ia daquilo mais tarde, ao acordar? Caí para trás, exausto e enojado para lá das

minhas forças, e sentei-me outra vez no chão durante algum tempo com a minha vela.

P or fim, não vendo possibilidade de sucesso para os meus planos, decidi agir de outra

maneira. P rimeiro, tentaria dormir um pouco, já que devia ser perto do meio-dia, no máximo,

para poder acordar muito antes de Drácula, e para que ele não acordasse primeiro e me

encontrasse a dormir. A ssim fiz durante uma hora ou duas, creio tenho de encontrar uma

maneira melhor de calcular ou medir o tempo neste vácuo, deitando-me diante da lareira com o

casaco dobrado sob a cabeça. Nada me teria convencido a voltar para dentro daquele sarcófago,

mas consegui receber algum conforto do calor das pedras da lareira sob o meu corpo doído.

Quando acordei, fiquei atento aos sons, mas a câmara estava mortalmente silenciosa.

E ncontrei a mesa próxima da minha cadeira novamente abastecida com uma saborosa refeição,

embora Drácula ainda permanecesse no mesmo estado de paralisia dentro da sua tumba. E ntão,

fui procurar a máquina de escrever que vira mais cedo. A qui estou a escrever desde então, o mais

rapidamente possível, para registrar tudo o que observei. Desta maneira, reencontrei também

uma certa medida de tempo, pois conheço o ritmo do meu trabalho de dactilografia e sei quantas

páginas posso fazer numa hora. E stou agora a escrever estas últimas linhas à luz de uma vela,

apaguei as outras para as economizar. E stou faminto e enregelado, na fria umidade distante do

lume. A gora vou esconder estas páginas, comer alguma coisa e dedicar-me ao trabalho que

Drácula me determinou, para que ele me encontre ocupado nisso quando acordar. A manhã vou

tentar escrever mais, se ainda estiver vivo e ainda me sentir suficientemente eu mesmo para o

fazer.

Segundo Dia

Depois de ter escrito as minhas notas anteriores, dobrei as páginas e meti-as atrás de um

armário próximo, de onde posso tirá-las outra vez e onde não são visíveis de ângulo nenhum.

E ntão, peguei numa vela nova e avancei lentamente por entre as mesas. Haveria dezenas de

milhares de livros na sala grande, calculei talvez centenas de milhares, contando com todos os

rolos de pergaminho e outros manuscritos. E stavam não apenas sobre as mesas, mas em pilhas

dentro dos pesados armários antigos e ao longo das paredes em prateleiras toscas. Livros

medievais pareciam estar misturados com magníficos fólios renascentistas e publicações

modernas. Encontrei um antigo in-quarto de Shakespeare, histórias ao lado de um volume de São

T omás de A quino. Havia obras maciças sobre alquimia do século dezesseis ao lado de um

armário inteiro de rolos em escrita árabe com iluminuras otomanos, presumi, sermões puritanos

sobre bruxaria, e pequenos volumes de poesia do século dezenove, e longos trabalhos sobre

filosofia e criminologia do nosso século. Não, não havia um padrão de tempo, mas vi outro

padrão a emergir claramente.

Organizar os livros como deveriam estar arrumados na coleção de História de uma

biblioteca normal levaria semanas ou meses, mas, uma vez que Drácula os considerava já

organizados de acordo com os seus próprios interesses, deixá-los-ia como estavam e tentaria

apenas distinguir um tipo de coleção de outro. Deduzi que a primeira coleção começava na parede

da câmara perto da porta inamovível e espalhava-se por três armários e duas grandes mesas:

poderia classificá-la como a arte de governar e estratégia militar.

A li encontrei mais M aquiavel, em extraordinários fólios de P ádua e de Florença. E ncontrei

uma biografia de A níbal escrita por um inglês do século dezoito e um manuscrito grego enrolado,

datando talvez da época da B iblioteca de A lexandria: Heródoto, sobre as guerras de Atenas.

Comecei a sentir um novo arrepio à medida que ia de um livro para outro, de um manuscrito

para outro, cada um mais espantoso do que o anterior. Havia uma primeira edição muito

folheada de M ein Kampf e um diário em francês manuscrito, manchado aqui e ali com um bolor

castanho que parecia, pelas datas iniciais e relatos, ser uma Crônica do reinado do Terror do

ponto de vista de um funcionário do governo. Teria de examiná-lo melhor mais tarde

aparentemente, o autor não mencionava o nome em lugar algum. E ncontrei um grande volume

sobre as táticas das primeiras campanhas militares de Napoleão, impresso enquanto ele estava

em E lba, segundo os meus cálculos. Numa caixa em cima de uma das mesas, dei com um texto

datilografado no alfabeto cirílico num papel amarelado; o meu Russo é rudimentar, mas tinha a

certeza, pelos cabeçalhos, de que se tratava de um memorando interno de Stalin para alguém do

exército russo. Não fui capaz de perceber muita coisa, mas continha uma longa lista de nomes

russos e polacos.

Houve alguns livros que não consegui identificar; houve também muitos livros e manuscritos

cujos autores ou temas eram completamente novos para mim. T inha iniciado uma lista de tudo o

que pude identificar, fazendo uma divisão aproximada por século, quando senti o frio aumentar,

como um vento onde não havia vento, e, ao levantar a cabeça, vi a estranha figura a poucos

metros de distância, do outro lado de uma das mesas.

T rajava as esplêndidas roupas em tons de vermelho e violeta com as quais o vira dentro do

sarcófago e estava maior e mais sólido do que eu me lembrava da noite anterior. E sperei, sem

fala, para ver se me atacaria de imediato será que se lembrava da minha tentativa de lhe tirar a

adaga? Mas ele inclinou a cabeça ligeiramente, como se me cumprimentasse.

Vejo que iniciou o seu trabalho. Com certeza, deve ter perguntas a fazer-me. P rimeiro,

vamos tomar o pequeno-almoço e depois falaremos sobre as minhas coleções.

Vi uma centelha no seu rosto, na meia-luz do salão, talvez um lampejo do brilho dos seus

olhos. Seguiu à minha frente com o seu passo inumano, mas imperioso, na direção da lareira, e lá

encontrei de novo comida quente e bebidas, incluindo um chá fumegante que trouxe algum alívio

ao meu corpo gelado. Drácula sentou-se contemplando o fogo sem fumo, a cabeça ereta sobre os

ombros altivos. Sem querer, pensei na decapitação do seu cadáver sobre este ponto, todas as

narrativas da sua morte coincidiam. Como é que ele conservava a cabeça agora, ou era tudo uma

ilusão? A gola da sua bela túnica subia-lhe até ao queixo, e os caracóis escuros caíam à volta

dela até aos ombros.

A gora disse ele, vamos dar um breve passeio. A cendeu outra vez todas as velas e eu segui-o

de uma mesa para outra enquanto ele acendia as lanternas pousadas nelas. Vamos ter luz

suficiente para ler. Não gostei da maneira como a luz incidia no seu rosto quando se curvava

sobre cada nova chama, e procurei concentrar-me nos títulos dos livros em vez de olhar para ele.

Veio pôr-se ao meu lado quando parei diante dos rolos de pergaminhos e livros em escrita árabe

que anteriormente me tinham chamado a atenção. P ara meu alívio, ainda estava a cerca de um

metro e meio de distância, mas um cheiro acre emanava da sua presença e lutei contra uma leve

tontura. Tenho de manter as minhas faculdades mentais, refleti; não havia maneira de prever o

que a noite traria.

Vejo que encontrou uma das minhas preciosidades disse ele. Havia uma nota de satisfação

na sua voz fria. E stes são os meus bens otomanos. A lguns documentos são muito antigos, dos

primeiros dias desse império diabólico, e esta prateleira aqui contém volumes da sua última

década. E sorriu, à luz vacilante. Não pode imaginar a satisfação que foi para mim ver a

civilização deles morrer. A sua fé não está morta, é claro, mas os sultões foram-se para sempre, e

eu sobrevivi-lhes. P ensei por um instante que fosse dar uma gargalhada, mas as suas palavras

seguintes foram proferidas em tom grave. A qui estão grandes livros feitos para o sultão sobre as

suas muitas terras. A qui e tocou na ponta de um rolo de pergaminho está a história de M ehmed,

que ele apodreça no inferno, por um historiador cristão que se tornou um seu adulador. Que

também apodreça no inferno. Tentei encontrar pessoalmente esse historiador, mas morreu antes

que eu chegasse até ele. A qui estão os relatos sobre as campanhas de M ehmed pelos seus próprios

bajuladores, e sobre a queda da Grande Cidade. Você não lê árabe?

Muito pouco confessei.

A h parecia divertido. T ive a oportunidade de aprender a língua e a escrita deles quando fui

seu prisioneiro. Sabe que estive cativo lá?

Assenti com a cabeça, tentando não olhar para ele. Sim, o meu próprio pai entregou-me ao pai de M ehmed, como penhor de que não declararia

guerra ao I mpério. I magine, Drácula, um peão nas mãos do infiel. Não perdi o meu tempo:

aprendi tudo o que foi possível sobre eles para poder ultrapassá-los a todos. Foi quando jurei

fazer história, e não ser vítima dela. A voz soava tão feroz que instintivamente relanceei os olhos

para ele e vi o terrível fulgor do seu rosto, o ódio, a boca sinistramente curvada sob o bigode

longo. E de fato deu uma risada, e o som foi igualmente horripilante. T riunfei, e eles foram-se.

Pousou a mão numa capa de couro finamente trabalhada. O sultão tinha tanto medo de mim que

fundou uma ordem entre os seus cavaleiros para me perseguir. A inda existem uns quantos,

algures em Tsarigrado, um aborrecimento. M as são cada vez menos, as suas fileiras reduzem-se

a nada, enquanto os meus servos se multiplicam pelo globo. E ndireitou o corpo vigoroso. Venha.

Vou mostrar-lhe os meus outros tesouros, e tem de dizer-me como se propõe catalogá-los a

todos.

Conduziu-me de uma seção para outra, apontando algumas raridades especiais, e verifiquei

que a minha conjectura sobre os padrões da sua coleção estava correta. A li estava um grande

armário cheio de manuais de tortura, alguns datando do mundo antigo. I am desde as prisões da

I nglaterra medieval, passando pelas câmaras de tortura da I nquisição até às experiências do

Terceiro Reich, A lgumas obras da Renascença continham xilogravuras mostrando instrumentos

de tortura, outras, diagramas do corpo humano. Outra parte da sala era constituída pelos anais

das heresias religiosas para as quais muitos daqueles manuais de tortura haviam sido usados.

Um outro canto era dedicado à alquimia, outro à feitiçaria, outro à filosofia do gênero mais

inquietante.

Drácula parou diante de uma grande estante e pousou a mão sobre ela de modo afetuoso. E sta tem um especial interesse para mim, e terá para si também, penso. E stas obras são

biografias minhas.

Cada um dos livros estava de alguma forma relacionado com a sua vida. Havia obras de

historiadores bizantinos e otomanos algumas delas originais muito raros e as suas muitas

reimpressões através dos tempos. Havia opúsculos medievais da A lemanha, Rússia, Hungria e

Constantinopla, todos documentando os seus crimes. M uitos deles nunca os tinha visto nem os

vira referidos no decorrer da minha pesquisa, e senti uma onda irracional de curiosidade antes de

me lembrar que já não tinha motivo, nesta altura, para completar a pesquisa. Havia também

numerosos volumes sobre folclore, a partir do século dezessete, que se referiam à lenda dos

vampiros — achei estranho e terrível que os incluísse tão abertamente entre as suas próprias

biografias. A poiou a mão larga numa das primeiras edições do romance de B ram Stoker e sorriu,

mas nada disse. Depois passou em silêncio para outra seção.

I sto é de especial interesse para si também disse. São obras de História sobre o seu século, o

século vinte. Um ótimo século, aguardo ansioso pelo seu final. Na minha época, um príncipe só

conseguia eliminar os elementos indesejáveis um de cada vez. Vocês fazem isso com um alcance

infinitamente maior. P ense, por exemplo, no aperfeiçoamento que houve desde o maldito canhão

que derrubou as muralhas de Constantinopla até ao fogo divino que o seu país de adoção lançou

contra as cidades japonesas há alguns anos. E esboçou uma vénia, cortês, congratulatório. J á leu

muitas dessas obras, professor, mas talvez vá examiná-las agora sob uma nova perspectiva.

Finalmente, convidou-me a sentar novamente junto ao fogo, e encontrei mais chá quente à

minha espera. Quando estávamos ambos a descansar nas nossas cadeiras, virou-se para mim.

Daqui a pouco, devo alimentar-me também disse, com calma. M as antes, vou fazer-lhe uma

pergunta. A s minhas mãos começaram a tremer contra a minha vontade. Até então, eu tentara

falar com ele o mínimo possível sem despertar a sua raiva. Você desfrutou da minha

hospitalidade, nas condições em que posso oferecê-la aqui, e da minha confiança ilimitada nos

seus talentos. Vai desfrutar da vida eterna que só uns poucos seres podem ambicionar. Tem livre

acesso àquele que é certamente o melhor arquivo do gênero à face da terra E stão à sua disposição

obras raras que, sem dúvida, não podem ser vistas em nenhum outro lugar. Tudo isto é seu.

M exeu-se na sua cadeira, sem conseguir manter o seu grande corpo morto-vivo completamente

parado muito tempo. A lém do mais, você é um homem de uma sensibilidade e imaginação sem

paralelo, de grande rigor e de profunda capacidade de julgamento. Tenho muito a aprender com

os seus métodos de pesquisa, a sua síntese das fontes, a sua imaginação. Foi por todas essas

qualidades, bem como pela grande erudição que delas resulta, que o trouxe para aqui, para o

depósito dos meus tesouros.

Fez uma nova pausa. Observei o seu rosto, incapaz de desviar o olhar. E le contemplava o

fogo.

Com a sua inflexível honestidade, pode ver qual é a lição da História disse. A História

ensinou-nos que a natureza do homem é má, de uma maldade sublime. O bem não é aperfeiçoável,

o mal sim P or que não pôr a sua mente privilegiada ao serviço do que é aperfeiçoável? P eço-lhe,

meu amigo, que se junte a mim por vontade própria na minha pesquisa. Se o fizer, vai evitar uma

grande angústia para si mesmo e vai poupar-me um considerável aborrecimento. J untos, vamos

fazer o trabalho do historiador avançar para lá de qualquer coisa que o mundo alguma vez já

viu. Não há pureza como a pureza dos sofrimentos da História. Terá o que todo o historiador

quer: a história será realidade para si. Limparemos as nossas mentes com sangue.

E ntão concentrou todo o fluxo do seu olhar em mim, os olhos resplandecentes de um antigo

conhecimento, os lábios entreabertos. Teria sido um rosto refinadamente inteligente, ocorreu-me

de repente, se não estivesse deformado por tanto ódio. Lutei para não fraquejar, para não

concordar com ele no mesmo instante e atirar-me de joelhos aos seus pés, para não me colocar

sob o seu poder. E ra um líder, um príncipe. Não tolerava desobediências. I nvoquei o amor por

tudo o que tivera na minha vida e pronunciei a palavra com a maior firmeza que pude:

Nunca.

O seu rosto inflamou-se, pálido, as narinas e os lábios contraídos. Vai morrer aqui, professor Rossi disse, como se tentasse controlar a voz. Nunca vai sair

vivo destas câmaras, embora vá deixá-las numa nova vida. Não seria melhor poder escolher?

Não respondi o mais suavemente que pude. Ele levantou-se, ameaçador, e sorriu. Então, vai trabalhar para mim contra a sua vontade declarou. Uma escuridão começou a tomar forma diante dos meus olhos e agarrei-me interiormente à

minha reserva de... de quê? A minha pele começou a formigar e apareceram estrelas à minha

frente nas paredes indistintas do aposento. Quando ele se aproximou, vi o seu rosto sem máscara,

uma visão tão hedionda que não consigo lembrar-me dela agora, embora tenha tentado. Depois,

perdi a consciência por longo tempo.

A cordei no meu sarcófago, no escuro, e pensei de novo que fosse o primeiro dia, o meu

primeiro despertar ali, até que me apercebi de que desta vez tinha sabido imediatamente onde

estava. Sentia-me muito fraco, muito mais fraco desta vez, e a ferida no meu pescoço sangrava e

latejava. T inha perdido sangue, mas não tanto que me incapacitasse completamente. Depois de

algum tempo consegui movimentar-me e sair, a tremer, da minha prisão. Lembrei-me do

momento em que perdera os sentidos. À luz das velas que restavam, vi que Drácula dormia

novamente na sua grande tumba. Os olhos estavam abertos, vidrados, os lábios vermelhos, a

mão fechada na adaga virei-lhe as costas, imerso no mais profundo horror de corpo e alma, e fui

agachar-me junto ao fogo e tentar comer a refeição que lá encontrei.

Tudo indica que pretende destruir-me gradualmente, talvez deixar-me em aberto até ao

último momento a opção que me apresentou ontem à noite, para que eu possa ainda trazer-lhe

todo o poder de uma mente que trabalha de boa vontade. Tenho agora apenas um propósito não,

dois: morrer com o máximo de mim intacto, na esperança de que isso sirva mais tarde para

refrear um pouco os atos execráveis que cometerei quando for um morto-vivo, e ficar vivo tempo

suficiente para registrar aqui tudo o que puder, embora pense que provavelmente estes papéis se

transformarão em pó sem ser lidos. E stas ambições são agora o meu único sustentáculo. É um

destino muito para lá de qualquer coisa pela qual pudesse chorar.

Terceiro Dia

J á não estou absolutamente certo do dia em que estou; começo a sentir que podem ter

passado mais dias, ou que sonhei durante várias semanas, ou que o meu rapto ocorreu há um

mês. Seja como for, esta é a terceira vez que escrevo. P assei o dia a examinar a biblioteca, não

com a intenção de aceder aos desejos de Drácula para que a catalogue, mas para aprender o que

puder sobre ela que possa ser benéfico a alguém, mas é inútil. Vou apenas assinalar que descobri

hoje que dois dos generais de Napoleão foram assassinados durante o seu primeiro ano como

imperador, mortes essas que nunca vi registradas em sítio algum. "Também analisei uma breve

obra de A nna Comnena, uma historiadora bizantina, intitulada A T ortura E ncomendada pelo

I mperador para o B em do P ovo se o meu G rego estiver correto. E ncontrei um volume

fabulosamente ilustrado da cabala, talvez oriundo da P érsia, na seção de alquimia. E ntre as

prateleiras da coleção sobre heresias, deparei com um E vangelho de S. J oão da época bizantina,

mas há qualquer coisa de errado no começo do texto é sobre as trevas, não sobre a luz. Vou ter

de examiná-lo com cuidado. E ncontrei também um livro inglês de 1521 está datado chamado

Filosofia do Terror, uma obra a respeito dos Cárpatos sobre a qual tinha lido mas que pensava já

não existir.

E stou demasiado cansado e alquebrado para estudar estes textos como devia ou queria,

mas, sempre que vejo algo novo ou extravagante, agarro-o com uma urgência desproporcionada

ao meu total desamparo aqui. A gora preciso dormir um pouco outra vez, enquanto Drácula

também dorme, para poder enfrentar a minha próxima provação mais repousado, aconteça o que

acontecer.

Quarto Dia?

Sinto que o meu espírito começa também a desintegrar-se; por mais que tente, não consigo

manter uma noção satisfatória do tempo ou dos meus esforços para examinar o conteúdo da

biblioteca. Não só me sinto fraco mas também doente, e hoje tive uma sensação que trouxe um

novo sofrimento ao que resta do meu coração. E stava a olhar para uma obra no incomparável

arquivo de Drácula sobre a tortura e encontrei, num excelente in-quarto francês, o projeto de

uma nova máquina destinada a separar instantaneamente cabeças dos respectivos corpos. Havia

uma gravura a ilustrar isto as partes da máquina, o homem em trajes elegantes cuja cabeça

teoricamente acabara de ser separada do corpo. E nquanto olhava para o desenho, senti não

apenas repugnância pela sua finalidade, não apenas admirei o maravilhoso estado em que se

encontrava o livro, mas também senti um desejo súbito de assistir à cena verdadeira, de ouvir os

gritos da multidão e ver o sangue jorrar sobre aquela gola de renda e aquele casaco de veludo.

Qualquer historiador conhece a ânsia de ver a realidade do passado, mas isto era qualquer coisa

de novo para mim, uma espécie diferente de avidez. Atirei o livro para o lado, apoiei a cabeça

latejante em cima da mesa e chorei pela primeira vez desde o início do meu encarceramento. Há

anos que não chorava, de fato, desde o funeral da minha mãe. O sal das minhas lágrimas

reconfortou-me, de tão vulgar que era.

Dia

O monstro dorme, mas não falou comigo ontem, durante todo o dia, exceto para perguntar

como vai o catálogo e para examinar o meu trabalho durante alguns minutos. Neste momento

estou demasiado cansado para continuar a tarefa, ou sequer para datilografar muito. Vou

sentar-me em frente do fogo e tentar reunir um pouco do meu velho eu.

Dia

A noite passada ele sentou-se outra vez comigo diante do fogo, como se ainda

mantivéssemos um diálogo civilizado, e contou-me que vai mudar a biblioteca em breve, mais

cedo do que pretendia originalmente, porque se aproxima alguma coisa que a ameaça.

Esta será a sua última noite, e depois vou deixá-lo aqui por algum tempo disse, mas virá até

mim quando eu o chamar. Nessa altura, poderá retomar o seu trabalho num lugar novo e mais

seguro. Pense o mais que puder em quem vai trazer-me, para nos ajudar na nossa tarefa. Para já,

em todo o caso, vou deixá-lo onde não será encontrado. Sorriu, o que me toldou a visão, e tentei

desviar a vista para o fogo. — Tem sido muito obstinado. Talvez seja melhor disfarçá-lo de

relíquia sagrada.

Não tinha qualquer desejo de lhe perguntar o que queria dizer com isso. P ortanto, é só uma questão de tempo antes que ele acabe com a minha vida mortal. A gora,

toda a minha energia vai ser canalizada para me fortalecer para os últimos momentos. Tenho o

cuidado de não pensar nas pessoas que amei, na esperança de que assim pense menos nelas no meu

próximo e amaldiçoado estado. Vou esconder este registro dentro do livro mais maravilhoso que

aqui encontrei uma das poucas obras da biblioteca que não me provoca um prazer sinistro — e

depois vou esconder também o livro, para que deixe de pertencer a este arquivo. Se ao menos eu

pudesse entregar-me ao pó com ele. Sinto o crepúsculo a aproximar-se, algures no mundo lá fora

onde luz e trevas ainda existem, e vou usar toda a energia que me resta para me manter eu

próprio até ao último momento. Se algum bem existe na vida, na História, no meu próprio

passado, invoco-o agora. Invoco-o com toda a paixão com que vivi.