O Historiador
Capítulo 52
— Onde vamos dormir? — perguntou B arley, indeciso. E stávamos no nosso quarto de
hotel em P erpignan, um quarto de casal que nos foi dado pelo idoso funcionário da recepção quando lhe dissemos, também a ele, que éramos irmãos. Dera-nos o quarto sem titubear, embora lançasse olhares duvidosos de um para o outro. N ão tínhamos dinheiro para quartos separados, e ambos sabíamos isso.
— E então? — disse Barley, meio impaciente. Olhamos para a cama. N ão havia outro lugar, nem sequer um tapete no chão nu e
encerado. Finalmente, B arley tomou uma decisão — para si próprio, pelo menos. E nquanto eu permanecia paralisada, foi para a casa de banho com umas roupas na mão e uma escova de dentes, surgindo minutos depois vestido com um pijama de algodão de uma cor tão clara como o seu cabelo.
Algo sobre a cena toda e o esforço inútil dele para parecer descontraído fez-me rir alto,
mesmo com as faces coradas de embaraço, e ele começou a rir também. Rimo-nos até as lágrimas nos correrem pela cara, B arley com o corpo dobrado, os braços cruzados por cima da cintura magra e eu agarrada ao deprimente e velho guarda-fatos do quarto. Rindo histericamente, aliviamos toda a tensão da viagem, os meus receios, a desaprovação de B arley, as cartas angustiadas do meu pai, as nossas discussões. Anos mais tarde, aprendi a expressão founre um louco ataque de riso e aquele foi o meu primeiro, ali naquele hotel francês. O meu primeiro founre foi seguido de outras primeiras coisas quando caímos um por cima do outro. B arley agarrou-me pelos ombros com tão pouca elegância como eu me tinha agarrado ao guarda-fatos pouco antes, mas o seu beijo foi angelicamente gracioso, a sua jovem experiência pressionando suavemente a minha absoluta falta de experiência. Tal como as nossas gargalhadas, deixou-me sem fôlego.
T odo o meu conhecimento prévio das práticas amorosas fora tirado de filmes decentes
e livros confusos, e quase não sabia como continuar. Barley, entretanto, continuou por mim, e eu segui-o agradecida, embora desajeitada. Quando nos vimos deitados na cama bafienta, eu já tinha aprendido alguma coisa da negociação entre os amantes e as suas roupas. C ada peça parecia-me uma decisão importante, o casaco de pijama de B arley antes de tudo; ao tirá-lo, revelou um torso de alabastro e ombros surpreendentemente musculosos. O despir da minha blusa e do meu feio soutien branco foi uma decisão tanto minha como dele. E le disse que gostava muito da cor da minha pele porque era completamente diferente da dele, e era verdade que o meu braço nunca pareceu tão moreno como ao descansar ao lado do braço cor de neve de B arley. E le percorreu com a palma da mão o meu corpo e o que restava da minha roupa e, pela primeira vez, fiz-lhe o mesmo, descobrindo os contornos desconhecidos do corpo masculino; parecia estar a tatear timidamente as crateras da L ua. O coração batia-me com tanta força dentro do peito que tive medo de que ele o sentisse bater de encontro ao seu peito.
De fato, havia tanto a fazer, a ocupar-nos, que não tiramos mais nenhuma peça de roupa, e um grande período de tempo pareceu transcorrer até B arley se aconchegar a mim com um suspiro engasgado, murmurando:
— Tu és só uma miúda — e passou um braço possessivo sobre os meus ombros e pescoço.
Quando ele disse isto, dei-me conta de repente de que ele também era só um miúdo — um miúdo honesto. Acho que o amei mais naquele momento do que em qualquer outro.