O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 79 de 83

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O Historiador

Capítulo 76

A última parte da minha história é para mim talvez a mais difícil de contar, já que começa com tanta felicidade, apesar de tudo. V oltamos discretamente para a universidade e retomamos o nosso trabalho. Fui interrogado pela polícia outra vez, mas pareciam satisfeitos pelo fato de a minha viagem ao estrangeiro estar relacionada com pesquisa e não com o desaparecimento de Rossi. P or essa altura, os jornais já se tinham apoderado do seu desaparecimento, transformando-o num mistério local, que a universidade fez o possível por ignorar. O meu diretor também me interrogou, evidentemente, e é claro que não lhe contei nada, apenas lhe disse que lamentava muito o que acontecera a Rossi, como toda a gente. H elen e eu casamo-nos naquele Outono na igreja dos meus pais em B oston no meio da cerimônia, não pude deixar de reparar como era despojada e insípida, como o incenso fazia falta.

Os meus pais ficaram um pouco atordoados com tudo isto, mas por fim não puderam deixar de gostar de H elen. N ada da sua aspereza natural se manifestava quando estava perto deles e, quando os visitávamos em B oston, costumava encontrar H elen a rir-se com a minha mãe na cozinha, ensinando-a a preparar pratos da culinária húngara, ou a discutir antropologia com o meu pai no escritório atravancado dele. Quanto a mim, mesmo sentindo a dor da morte de Rossi e a melancolia frequente que parecia provocar em H elen, achei aquele primeiro ano cheio de uma felicidade transbordante. Acabei a minha tese com um segundo orientador, cujo rosto foi para mim uma espécie de mancha indistinta durante todo o processo. N ão é que me interessasse já pelos mercadores holandeses; só queria completar a minha formação para nos podermos instalar confortavelmente num lugar qualquer. H elen publicou um longo artigo sobre as superstições nas aldeias da Valáquia, que foi bem recebido, e iniciou uma tese sobre os vestígios dos costumes da T ransilvânia na Hungria.

E screvemos ainda outra coisa, assim que voltamos para os E stados Unidos: um bilhete para a mãe de H elen, ao cuidado da tia E va. H elen não se atreveu a incluir muitas informações no bilhete, mas contou à mãe em poucas linhas que Rossi morrera recordando-a e amando-a. Helen fechou a carta com uma expressão de desespero no rosto.

— Um dia hei-de contar-lhe tudo — disse —, quando puder segredar ao ouvido dela.

N unca tivemos certeza se a carta chegou ao seu destino, porque nem a tia E va nem a mãe de Helen responderam e, naquele ano, as tropas soviéticas invadiram a Hungria.

E u pretendia firmemente ser feliz para sempre, e disse a H elen logo depois do nosso casamento que esperava que tivéssemos filhos. A princípio, ela sacudia a cabeça, tocando de leve com os dedos a cicatriz no pescoço. E u sabia o que ela queria dizer. M as fora exposta a uma contaminação mínima, lembrei; estava bem, forte e saudável. À medida que o tempo passava, parecia mais tranquila com a sua completa recuperação e eu via-a a olhar, pensativa, para os carrinhos de bebê que passavam por nós na rua.

H elen terminou o doutoramento em Antropologia na P rimavera depois de nos termos

casado. A rapidez com que escreveu a sua tese embaraçou-me; muitas vezes naquele ano, eu acordava às cinco da manhã e descobria que ela já se levantara da nossa cama e fora para a secretária trabalhar. E stava pálida e cansada e, no dia seguinte à defesa da tese, acordei com os lençóis cheios de sangue e H elen deitada a meu lado, fraca e torcida com dores: um aborto. T inha esperado para me surpreender com a boa notícia. Depois disso ficou doente durante semanas, e muito calada. A sua tese recebeu os maiores louvores, mas ela nunca falou sobre o assunto.

Quando consegui o meu primeiro emprego como professor, em N ova I orque, ela

insistiu para que o aceitasse e mudamo-nos. Fomos morar em B rooklyn H eights, num browmtone, um prédio de tijolos de arenito castanho, agradavelmente antiquado. Fazíamos caminhadas à beira da água para ver os rebocadores a navegar pelo porto e os grandes navios de passageiros os álamos da sua estirpe a partir para a E uropa. H elen dava aulas numa universidade tão boa como a minha e os alunos adoravam-na; havia um equilíbrio magnífico nas nossas vidas, e ganhávamos o nosso sustento fazendo aquilo de que mais gostávamos.

De vez em quando, pegávamos na Vida de São Jorge e folheávamo-lo devagar, e chegou

o dia em que o levamos a uma discreta casa de leilões, e o inglês que o abriu quase desmaiou. Foi vendido particularmente, mas acabou por ir parar ao museu The Cloisters, na parte alta de M anha an, e uma grande quantia em dinheiro acabou por ir parar a uma conta bancária que abrimos para esse fim. H elen, tal como eu, gostava de viver de maneira simples e, além da tentativa de enviar pequenas quantias para os seus parentes na Hungria, não mexemos no dinheiro naquela época.

O segundo aborto de H elen foi mais dramático que o primeiro, e mais perigoso. V oltei

para casa um dia e encontrei pegadas de sangue no soalho da entrada. H elen conseguira chamar uma ambulância e estava quase fora de perigo quando cheguei ao hospital. M ais tarde, a lembrança daquelas pegadas fazia-me acordar várias vezes a meio da noite. Comecei a recear que nunca tivéssemos um filho saudável e a imaginar como isso iria afetar a vida de H elen em particular. E ntão, ela ficou grávida de novo e os meses seguintes sucederam-se sem qualquer incidente. O olhar de H elen suavizou-se, como o de uma madona, as formas arredondaram-se sob o vestido azul de lã, o andar ficou um pouco pesado. Estava sempre a sorrir: este, dizia, era o que vinha para ficar.

Tu nasceste num hospital que dava para o rio H udson. Quando vi que eras morena e

tinhas a bela testa da tua mãe, que era perfeita como uma moeda nova, e que os olhos de H elen estavam rasos de lágrimas de prazer e dor, peguei em ti, apertada no teu casulo de roupa, e mostrei-te os navios lá em baixo. Fiz isto, em parte, para esconder as minhas próprias lágrimas. Demos-te o nome da mãe de Helen.

H elen estava encantada contigo; gostaria que soubesses isto mais do que quase tudo

sobre as nossas vidas. E la tinha deixado de dar aulas durante a gravidez e parecia contente por passar horas em casa a brincar com os teus dedinhos e os teus pés, que dizia, com um sorriso travesso, serem completamente transilvanos, ou embalando-te na grande cadeira de balanço que lhe comprei. Tu sorriste cedo e os teus olhos seguiam-nos por toda a parte. E u às vezes deixava o gabinete num impulso para ir para casa e certificar-me de que vocês duas — as minhas mulheres morenas ainda estavam deitadas juntas a dormitar no sofá.

C erto dia, cheguei a casa cedo, às quatro, levando algumas caixinhas de comida chinesa e flores para tu ficares a olhar. N ão estava ninguém na sala de estar, e encontrei H elen debruçada sobre o teu berço enquanto dormias. A tua carinha estava perfeitamente tranquila no teu sono, mas o rosto de H elen estava banhado em lágrimas e, por um segundo, não pareceu aperceber-se da minha presença. Abracei-a e senti, com um arrepio, que só uma parte dela retribuía o meu abraço. N ão quis dizer-me o que a perturbava e, depois de algumas tentativas em vão, desisti de continuar a perguntar. À noite, já brincava a propósito da comida chinesa e dos cravos, mas na semana seguinte encontrei-a outra vez em pranto, outra vez calada, folheando um dos livros de Rossi, que ele me autografara logo que iniciamos o nosso trabalho juntos. E ra o seu enorme livro sobre a civilização minóica, e estava aberto no colo dela na página de uma das fotografias tiradas pelo próprio Rossi de um altar de sacrifícios em Creta.

— Onde está a bebê? — perguntei.

E la levantou a cabeça devagar e olhou fixamente para mim, como se tentasse lembrar-se em que ano estávamos.

— Está a dormir.

Dei por mim, estranhamente, a resistir à vontade de ir ao quarto ver como estavas.

— Querida, qual é o problema?

C oloquei o livro de lado e abracei-a, mas ela sacudiu a cabeça e não disse nada. Quando finalmente fui ver-te, estavas a acabar de acordar no teu berço, com o teu lindo sorriso, de barriga para baixo, e depois a tentares levantar a cabeça para olhar para mim.

E m breve H elen passou a ficar silenciosa quase todas as manhãs e a chorar sem razão aparente todas as noites. C omo se recusava a falar comigo, insisti para que fosse a um médico, e depois a um psicanalista. O médico disse que ela não tinha nada, que as mulheres às vezes ficavam deprimidas durante os primeiros meses de maternidade, que voltaria a ficar bem quando se habituasse ao fato. Descobri, tarde demais, quando um amigo nosso encontrou H elen na B iblioteca P ública de N ova I orque, que ela não tinha ido pura e simplesmente ao psicanalista. Quando a confrontei com isso, respondeu que decidira que um pouco de pesquisa lhe faria melhor, e que estava a usar o tempo da babysitter para isso, em vez de ir ao psicanalista. M as algumas noites estava tão desanimada que concluí que precisava desesperadamente de uma mudança de cenário. T irei algum dinheiro da nossa reserva e comprei passagens de avião para França, para o início da Primavera.

H elen nunca estivera em França, apesar de ter lido sobre o país a vida inteira e falar um excelente francês de colégio. M ostrou-se alegre em M ontmartre, comentando com um pouco da sua antiga ironia que o Sacré Coeur era ainda mais monumentalmente feio do que ela alguma vez sonhara. G ostava de empurrar o teu carrinho pelos mercados de flores e ao longo do Sena, onde nos deixávamos ficar, remexendo as mesas dos vendedores de livros enquanto tu olhavas para a água, sentada dentro do carrinho com o teu gorro vermelho na cabeça. E ras uma ótima viajante aos nove meses, e H elen dizia-te que aquilo era apenas o começo.

A concierge da nossa pensão era avó de muitos netos, e assim deixávamos-te a dormir

entregue aos cuidados dela enquanto brindávamos um ao outro num bar ou tomávamos café ao ar livre com as luvas calçadas. Acima de tudo, H elen e tu, com os teus olhos brilhantes gostava da abóbada ecoante de N otre Dame, e de vez em quando aventurávamo-nos mais para sul para ver outras cavernosas belezas — C hartres e os seus vitrais; Albi, com a sua peculiar igreja-fortaleza vermelha, centro de heresias; os edifícios públicos de Carcassonne.

H elen queria visitar o antigo mosteiro de Saint-M a hieu-des-P yrénées-Orientales, e

resolvemos passar lá um ou dois dias antes de voltar para P aris e apanhar o avião para casa. Achei que o rosto dela se animara consideravelmente durante a viagem, e gostava da maneira como ela se estendia na nossa cama de hotel em P erpignan, lendo uma história da arquitetura francesa que eu tinha comprado em P aris. O mosteiro fora construído no ano 1000, contou-me, embora soubesse que eu já lera toda aquela parte do livro. E ra o exemplo mais antigo da arquitetura românica na Europa.

Quase tão antigo como a Vida de São Jorge comentei, mas ao ouvir isto ela fechou o livro e

o rosto e ficou deitada a olhar avidamente para ti, a brincar na cama ao lado dela.

H elen insistiu que chegássemos ao mosteiro a pé, como peregrinos. Subimos a estrada

de L ês B ains numa fria manhã de P rimavera, com as camisolas amarradas à cintura à medida que aquecíamos. H elen levava-te num suporte de veludo cotelê junto ao peito e, quando ela se cansava, levava-te eu ao colo. A estrada estava deserta naquela estação, à exceção de um camponês silencioso de cabelos escuros que passou por nós no seu cavalo, subindo também. E u disse a H elen que devíamos ter-lhe pedido boleia, mas ela não respondeu; o seu humor depressivo voltara naquela manhã, e notei com ansiedade e frustração que de vez em quando os seus olhos se enchiam de lágrimas. J á sabia que, se lhe perguntasse o que tinha, sacudiria a cabeça e me sacudiria a mim também, portanto contentei-me em segurar-te com carinho enquanto subíamos, mostrando-te as paisagens quando dobramos uma curva na estrada, longas paisagens de campos e aldeias poeirentas lá em baixo. N o cimo da montanha, a estrada abria-se num largo estuário de pó, com um ou dois carros velhos estacionados e o cavalo do camponês aparentemente amarrado a uma árvore, embora o homem não se visse em sítio nenhum. O mosteiro erguia-se acima desta área, pesados muros de pedra erguendo-se até ao cume, e subimos até à entrada e à proteção dos monges.

N aquela época, Saint-M a hieu era um mosteiro muito mais ativo do que é hoje, e devia ter uma comunidade de doze ou treze monges, vivendo a mesma vida que os seus antecessores tinham vivido durante mil anos, à exceção da visita guiada que ocasionalmente ofereciam aos turistas e do automóvel que mantinham estacionado para seu uso fora dos portões. Dois monges acompanharam-nos pelo notável claustro lembro-me da minha surpresa quando me aproximei da extremidade aberta do pátio e vi aquele declive escarpado sobre afloramentos de rocha, aquele despenhadeiro a pique, as planícies lá em baixo. As montanhas em volta do mosteiro eram ainda mais altas do que o pico onde ele se alcandorava, e nas suas vertentes distantes víamos véus brancos que depois percebi serem quedas de água.

Sentamo-nos por algum tempo num banco perto daquele precipício, contigo aninhada entre nós, contemplando o enorme céu do meio-dia e ouvindo a água borbulhar na cisterna do mosteiro no centro do pátio, esculpida em mármore vermelho só Deus sabe como teria sido içada até ali séculos antes. H elen parecia mais alegre ainda, e notei com prazer que havia paz no seu rosto. E mbora de vez em quando ficasse triste, a viagem tinha valido a pena.

P or fim, H elen disse que queria ver o mosteiro. V oltamos a pôr-te no teu suporte e fomos visitar as cozinhas, o comprido refeitório onde os monges ainda comiam, a hospedaria onde os peregrinos ainda podiam dormir em catres e o scriptorium, uma das partes mais antigas do local, onde tantos grandes manuscritos tinham sido copiados e iluminados. H avia um deles, protegido por um vidro, um E vangelho de S. M ateus, aberto numa página cujas margens eram contornadas por minúsculos demônios, cada um incitando o seguinte a descer. H elen chegou a sorrir ao vê-los. A capela veio a seguir era pequenina, como tudo o resto no mosteiro, mas as suas proporções eram uma melodia em pedra; eu nunca tinha visto um românico assim, tão íntimo e encantador. O nosso guia turístico afirmava que a curvatura da abside era o primeiro momento do românico, um movimento repentino que trouxe luz para o altar. H avia alguns vitrais do século catorze nas janelas estreitas, e o altar em si estava perfeitamente engalanado para a missa, em vermelho e branco, com castiçais dourados. Saímos silenciosamente.

P or fim, o jovem monge que nos servia de guia disse que tínhamos visto tudo menos a cripta, e descemos para lá atrás dele. E ra uma pequena cavidade úmida ao lado do claustro, arquitetonicamente interessante por uma abóboda do românico primitivo sustentada por colunas atarracadas e por um sarcófago de pedra com uma ornamentação austera que datava do primeiro século de existência do mosteiro o local de repouso do primeiro abade, explicou o nosso guia. Ao lado do sarcófago, estava sentado um monge idoso absorto nas suas meditações; levantou os olhos, com uma fisionomia amável e confusa, quando entramos, e inclinou a cabeça para nós sem se levantar da cadeira

— Temos uma tradição aqui há séculos segundo a qual um de nós fica sentado junto ao abade — contou o jovem monge. — E m geral, é um monge mais velho que tem essa honra até ao fim da vida.

— B astante invulgar — disse eu, mas alguma coisa ali, talvez o frio, fez-te choramingar

e espernear junto ao peito de H elen e, vendo que estava cansada, ofereci-me para te levar para o ar livre. Saí daquela gruta úmida com uma sensação de alívio e fui mostrar-te a fonte do claustro.

E sperava que H elen viesse logo atrás de mim, mas ela demorou-se e, quando subiu, o

seu rosto estava tão mudado que senti uma onda de preocupação. P arecia animada sim, mais cheia de vivacidade do que a vira nos últimos meses, mas também pálida e com os olhos muito abertos, concentrada em qualquer coisa que eu não via. Dirigi-me para ela da maneira mais natural que consegui; perguntei-lhe se havia alguma coisa interessante lá em baixo e ela respondeu "talvez", mas como se não me ouvisse bem por causa do clamor dos seus próprios pensamentos. Depois virou-se repentinamente para ti e tirou-te dos meus braços, abraçando-te e beijando-te a cabeça e as faces.

— Ela está bem? Ficou assustada?

— Está ótima — disse eu. — Talvez com um pouco de fome. H elen sentou-se num banco, tirou da bolsa um pote de comida de bebê e começou a

dar-te de comer, cantando uma daquelas cantiguinhas que eu não compreendia — em húngaro ou romeno — enquanto tu comias.

— Este lugar é lindo — disse ela, pouco depois. — Vamos ficar aqui uns dois dias. — Temos de estar em Paris na quinta à noite — objetei. — Ora, não faz muita diferença ficar uma noite aqui ou em L ês B ains — disse ela

calmamente. — P odemos descer a pé amanhã e apanhar o autocarro, se achas que temos de ir tão cedo.

C oncordei, pois ela parecia tão estranha, mas senti uma certa relutância mesmo

quando fui discutir o assunto com o nosso monge-guia. E ste consultou o seu superior, que disse que a hospedaria estava vazia e que éramos bem-vindos. E ntre o almoço simples e a ceia ainda mais simples, deram-nos um quarto perto da cozinha, passeamos pelo jardim de rosas, entramos no íngreme pomar do lado de fora dos muros e sentamo-nos ao fundo da capela para ouvir os monges cantar a missa enquanto tu dormias ao colo de H elen. Um monge fez-nos as camas com lençóis limpos e grosseiros. Depois de teres adormecido numa delas, com as nossas encostadas de cada um dos lados para não caíres, deitei-me a ler, fingindo não olhar para H elen. E la sentou-se na beira da cama, vestida com um vestido preto de algodão, o olhar voltado para a noite. Felizmente as cortinas estavam fechadas, mas ela acabou por se levantar para as abrir e ficou a olhar para fora.

— Deve estar escuro — comentei, — sem nenhuma povoação próxima. Ela concordou.

— Está muito escuro, mas aqui foi sempre assim, não achas? — P orque não vens deitar-te? — E stendi o braço por cima de ti e bati de leve com a

mão na cama dela.

— E stá bem — respondeu, sem qualquer sinal de protesto. N a realidade, sorriu-me e inclinou-se para me beijar antes de se deitar. Abracei-a por um momento, sentindo a força dos seus ombros, a pele macia do seu pescoço. Depois, ela estendeu-se na cama e tapou-se, e pareceu adormecer muito antes de eu acabar o meu capítulo e apagar a lanterna com um sopro.

Acordei ao amanhecer sentindo uma espécie de brisa passar pelo quarto. E stava tudo muito silencioso; tu respiravas ao meu lado debaixo do teu pequeno cobertor de lã, mas a cama de H elen estava vazia. L evantei-me sem ruído, calcei os sapatos e vesti o casaco. L á fora, o claustro estava na penumbra, o pátio cinzento, a fonte era um volume sombrio. Ocorreu-me que levaria algum tempo até o sol chegar ali, porque primeiro tinha de passar por cima daqueles picos descomunais a leste. Olhei em volta à procura de H elen sem a chamar, porque sabia que ela gostava de se levantar cedo e podia estar sentada num dos bancos, imersa nos seus pensamentos, esperando que o Sol nascesse. N o entanto, não havia sinais dela, e, à medida que o céu ia clareando, comecei a procurar mais rapidamente, indo uma vez ao banco onde nos tínhamos sentado no dia anterior e uma vez à capela deserta, com o seu fantasmagórico cheiro a fumo.

Finalmente, comecei a chamá-la em voz baixa, depois mais alto, depois já alarmado. P oucos minutos depois, um dos monges saiu do refeitório, onde deviam estar a tomar a primeira refeição silenciosa do dia, e perguntou-me se podia ajudar-me, se eu precisava de alguma coisa. E xpliquei que a minha mulher tinha desaparecido e ele começou a procurar comigo.

— Talvez a senhora tenha saído para dar um passeio.

M as não havia sinal dela no pomar, nem no estacionamento, nem na cripta escura. P rocuramos por toda a parte enquanto o Sol se elevava acima dos picos, em seguida ele foi buscar outros monges, e um deles disse que iria descer de carro até L ês B ains para investigar. P edi-lhe, num impulso, para trazer a polícia consigo quando voltasse. E ntão, ouvi-te chorar na hospedaria; corri para lá, com medo que tivesses caído das camas, mas estavas apenas a acordar. Dei-te rapidamente de comer e mantive-te nos braços enquanto procurávamos outra vez nos mesmos sítios.

P or fim, pedi que todos os monges fossem reunidos e interrogados. O abade deu prontamente autorização e levou-os para o claustro. N inguém vira H elen depois de termos saído da cozinha para a hospedaria na noite anterior. T odos estavam preocupados "La pauvre", disse um monge idoso, o que me provocou uma onda de irritação. P erguntei se alguém falara com ela na véspera ou notara alguma coisa estranha.

— Não falamos com mulheres, como regra geral — esclareceu o abade, delicadamente.

Mas um monge adiantou-se, e reconheci imediatamente o velho monge cuja tarefa era ficar sentado na cripta. O seu rosto estava tão sereno e bondoso como estivera à luz da lanterna dentro na cripta, com aquela expressão ligeiramente confusa que eu notara então.

— M adame parou para falar comigo — contou. — N ão queria quebrar a nossa regra, mas era uma senhora tão calma e educada que respondi às suas perguntas.

— O que é que ela lhe perguntou? — O meu coração já estava a bater com força, mas

naquele momento disparou dolorosamente.

— P erguntou quem estava enterrado ali e expliquei-lhe que era um dos nossos

primeiros abades, e que reverenciamos a sua memória. Depois, perguntou que grandes coisas ele tinha feito, e contei-lhe que temos aqui uma lenda... — neste ponto, olhou de soslaio para o abade, que lhe fez um sinal para continuar — temos uma lenda que diz que ele teve uma vida santa, mas foi a infeliz vítima de uma maldição na morte, de modo que se levantava do caixão para causar dano a outros monges, e o seu corpo teve de ser purificado. Quando foi purificado, uma rosa branca nasceu no seu coração, significando o perdão da Santa Mãe.

— É por que é que está sempre alguém de guarda ao túmulo? — perguntei,

desvairado.

O abade encolheu os ombros.

— É simplesmente a nossa tradição, para honrar a sua memória. — V irei-me para o

velho monge, refreando a vontade de o estrangular e ver o seu rosto amável ficar azul.

— Foi essa história que contou à minha mulher? — E la pediu-me para lhe contar a nossa história, monsieur. N ão vi nada de mal em

responder às suas perguntas.

— E o que é que ela lhe disse depois de a ouvir? Ele sorriu.

— Agradeceu-me com a sua voz doce e perguntou-me o meu nome, e eu disse-lhe,

Frère Kiril — e cruzou as mãos juntas na cintura.

L evei um momento para captar o sentido destes sons, o nome a soar diferente devido

à acentuação francófona na segunda sílaba, por aquele inocente frère. E ntão, apertei os meus braços à tua volta para não te deixar cair.

— Disse que o seu nome é K iril? Foi o que disse? Soletre-o! — O monge, espantado, fez

o que lhe pedi. — De onde veio esse nome? — interpelei-o. N ão conseguia controlar o tremor da minha voz. — É o seu nome verdadeiro? Quem é o senhor?

O abade interveio, talvez porque o velho estivesse genuinamente perplexo. — N ão é o nome de batismo dele — explicou. — T odos nós adotamos outros nomes

quando fazemos os nossos votos. Sempre houve um K iril, há sempre alguém com esse nome. E um Frère Michel, este aqui...

— E stá a querer dizer — disse eu, segurando-te firmemente — que houve um irmão

Kiril antes deste, e outro antes dele?

— Oh, sim — disse o abade, visivelmente intrigado com o meu interrogatório

arrebatado. — Até onde se sabe na nossa história. Temos orgulho nas nossas tradições, não gostamos de mudanças.

— De onde vem essa tradição? — Eu estava quase a gritar naquela altura. — N ão sabemos, monsieur — respondeu o abade, paciente. — Foi sempre o nosso costume aqui.

Dei um passo na sua direção e quase encostei o meu nariz ao dele.

— Quero que abra o sarcófago na cripta — exigi. Ele recuou, assustado.

— O que está a dizer? Não podemos fazer isso.

— Venha comigo. T ome — entreguei-te ao jovem monge que nos acompanhara na visita ao mosteiro no dia anterior, — por favor, pegue na minha filha. — E le pegou em ti, não tão desajeitadamente como seria de esperar. Tu começaste a chorar. — Venha — disse eu para o abade. P uxei-o na direção da cripta e ele fez um gesto para os outros monges não nos seguirem. Descemos os degraus rapidamente. N a gruta fria, onde o irmão K iril deixara duas velas acesas, virei-me para o abade e disse-lhe: — O senhor não precisa de contar isto a ninguém, mas tenho de olhar para dentro do sarcófago — fiz uma pausa, para dar ênfase às palavras seguintes. — Se não me ajudar, vou fazer cair todo o peso da lei sobre o seu mosteiro.

E le lançou-me um olhar rápido de medo? Rancor? P ena? E dirigiu-se sem falar para uma das extremidades do sarcófago. J untos, fizemos deslizar para um lado a pesada tampa, apenas o suficiente para ver o interior. L evantei uma das velas. O sarcófago estava vazio. Os olhos do abade estavam enormes, e fez a tampa deslizar outra vez com um vigoroso empurrão. E ncaramo-nos. E le tinha um belo e sagaz rosto gaulês de que eu poderia ter gostado imensamente noutra situação.

— P or favor, não conte isto aos irmãos — pediu em voz baixa, depois virou-me as costas e saímos da cripta.

Segui-o, esforçando-me por pensar o que faria em seguida. Pegaria em ti e voltaria para L ês B ains imediatamente, decidi, e verificaria se a polícia tinha de fato sido avisada. Talvez H elen tivesse resolvido voltar para P aris antes de nós porquê, não sabia ou até apanhar um avião de regresso a casa. Sentia um horrível latejar nos ouvidos, no coração e na garganta, um sabor a sangue na boca.

Assim que voltei ao claustro, onde agora o sol inundava a fonte e os pássaros cantavam e pousavam no velho pavimento, soube o que tinha acontecido. Durante uma hora, esforçara-me por não pensar naquela possibilidade, mas agora já nem precisava da notícia, de ver os dois monges a correr para o abade, chamando-o. L embrei-me de que aqueles dois tinham sido enviados para procurar fora dos muros do mosteiro, no pomar, nas hortas, nos pequenos bosques de árvores secas, nos afloramentos dos rochedos. T inham acabado de vir do lado escarpado um deles apontava para a extremidade do claustro onde H elen e eu nos tínhamos sentado num banco na véspera contigo entre nós, vendo do alto aquele despenhadeiro insondável.

— Senhor abade! — bradou um deles, como se não conseguisse dirigir-se diretamente a mim. — Senhor abade, há sangue em cima das pedras! Lá em baixo, ali!

N ão há palavras para momentos destes. C orri para a extremidade do claustro agarrado a ti, sentindo a pétala macia da tua face no meu pescoço. A primeira das minhas lágrimas encheu-me os olhos, quente e amarga para lá de qualquer coisa que eu tivesse conhecido. Olhei por cima do muro baixo. N uma saliência de rocha a cinco metros de distância, havia uma mancha escarlate não muito grande, mas nítida ao sol da manhã. E , abaixo dela, escancarava-se o abismo, pairavam as névoas, as águias caçavam, as montanhas recuavam até as suas próprias raízes. C orri para o portão principal, andei aos tropeções em volta da parede exterior dos muros. A encosta era tão íngreme que, mesmo que eu não estivesse contigo ao colo, não poderia ter descido com segurança até àquela primeira saliência. Fiquei parado a ver chegar a onda de perda que veio na minha direção pelo ar celestial, naquela linda manhã. Então a dor atingiu-me, um fogo inominável.