O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 82 de 83

Páginas do PDF

O Historiador

Capítulo 79

O hotel em L ês B ains orgulhava-se da sua sala de estar com pé-direito alto e lareira, e o maître acendeu a lareira e teimou em fechar as portas para impedir a entrada de outros hóspedes.

— A viagem ao mosteiro cansou-o — foi tudo o que disse, colocando uma garrafa de conhaque junto do meu pai e copos: cinco, notei, como se o nosso companheiro que faltava ainda estivesse ali para beber conosco, mas vi, pelo olhar que o meu pai trocou com ele, que muito mais que isso se tinha passado entre ambos.

O maître passara a noite ao telefone e, de certa forma, acertara as coisas com a polícia, que nos interrogara apenas no hotel e nos libertara sob o seu olhar benevolente. Suspeitava também que ele tinha entrado em contato com uma morgue ou com uma sala de funerais, qualquer que fosse o costume numa aldeia francesa. Agora que todas as autoridades oficiais se tinham ido embora, eu estava sentada no desconfortável sofá de damasco com H elen, que de vez em quando estendia a mão para me afagar o cabelo, e tentava não pensar no rosto bondoso e no sólido corpo do reitor J ames inertes sob um lençol. O meu pai sentava-se numa cadeira funda junto à lareira e não tirava os olhos dela, de nós. B arley esticara as suas pernas compridas em cima de uma otomana e tentava, pareceu-me, não olhar fixamente para o conhaque, enquanto o meu pai se recompunha e servia um copo a cada um. Os olhos de B arley estavam vermelhos de chorar em silêncio e aparentemente queria ficar sozinho. Quando olhava para ele, também os meus olhos se enchiam de lágrimas, incontrolavelmente.

O meu pai olhou para Barley e por um momento pensei que ele também fosse chorar.

— E le foi muito corajoso — disse o meu pai, suavemente. — Foi o ataque dele que permitiu a H elen disparar como disparou. E la não teria conseguido acertar-lhe no coração se o monstro não tivesse sido apanhado de surpresa. C reio que J ames, nos últimos momentos, deve ter sabido a diferença que isto fez. E vingou a pessoa que mais amou, além de muitas outras.

B arley assentiu com um gesto, ainda incapaz de falar, e fez-se um curto silêncio entre nós.

— P rometi que contaria tudo a vocês quando pudéssemos nos sentar sossegados — disse Helen por fim, pousando seu copo.

— tem certeza que não preferem que os deixe sozinhos? — falou Barley, relutante.

H elen deu uma risada, e fiquei surpresa com a melodia de seu riso, tão diferente de sua voz ao falar. M esmo naquele aposento onde pairava uma certa tristeza, sua risada não destoava.

— Não, não, meu caro — disse a Barley. — Não podemos passar sem você.

E u adorava seu sotaque, aquele inglês dela ao mesmo tempo áspero e doce, que eu achava que já conhecia de tanto tempo que nem lembrava mais desde quando. E la era uma mulher alta e magra em um vestido preto, um vestido meio antiquado, com um torcido de cabelo grisalho em torno da cabeça. Seu rosto era admirável — marcado, gasto, mas com olhos juvenis. Vê-la era um choque para mim cada vez que eu me virava — não só porque ela estava ali, de verdade, mas porque eu sempre imaginara somente a jovem Helen. Nunca incluíra em minha imaginação todos os anos que passara longe de nós.

— C ontar tudo vai levar muito tempo — disse baixinho —, mas posso adiantar

algumas coisas agora, ao menos. P rimeiro, que sinto muito. C ausei-lhe muita dor, P aul, eu sei. — Olhou para meu pai com a claridade do fogo entre eles. B arley ameaçou levantar-se mas ela o impediu com um gesto firme. — C ausei uma dor ainda maior a mim mesma. Segundo, eu já deveria ter dito isto a você, mas agora nossa filha — sorriu com doçura e as lágrimas brilharam em seus olhos —, nossa filha e nosso amigo podem ser minhas testemunhas. Estou viva, não morta-viva. Ele nunca me atacou uma terceira vez.

E u queria olhar para meu pai, mas não consegui nem virar a cabeça. O momento era só

dele. Não o ouvi chorar alto, porém. Ela parou e respirou fundo.

— P aul, quando visitamos Saint-M a hieu e descobri sobre as tradições deles — o

abade que se levantara da morte e o irmão K iril, que o vigiava —, fui tomada pelo desespero mas também por uma terrível curiosidade. Achava que não podia ser coincidência eu querer conhecer o lugar, ansiar por ele. Antes de virmos para a França, eu fizera mais pesquisas em N ova York — sem contar a você, P aul —, esperando encontrar o segundo esconderijo de Drácula e vingar a morte de meu pai. M as nunca encontrei nada sobre Saint-M a hieu. M inha vontade de ir lá só começou quando li a respeito em seu guia turístico. Foi apenas uma vontade, sem nenhuma base acadêmica.

Olhou em torno para nós, inclinando seu belo perfil. — Eu retomei minha pesquisa em Nova York porque achava que fora a causa da morte

dele — com meu desejo de brilhar mais do que ele, de denunciar para todos sua traição à minha mãe — e não suportava pensar mais naquilo. E ntão, comecei a achar que era meu sangue ruim, o sangue de Drácula, que me fizera agir assim, e dei-me conta de que passara aquele sangue para meu bebê, mesmo parecendo estar curada do toque dos mortos-vivos.

E la fez uma pausa para afagar meu rosto e segurar minha mão na dela. E u estremecia

ao seu toque, à proximidade daquela mulher estranha e conhecida ao mesmo tempo encostada em meu ombro no diva.

— Sentia-me cada vez mais indigna, e quando ouvi a explicação do irmão K iril sobre a

lenda de Saint-M a hieu, percebi que não descansaria enquanto não soubesse mais. Achava que se encontrasse Drácula e o exterminasse, poderia ficar completamente bem outra vez, ser uma boa mãe, uma pessoa com uma vida nova. Quando adormeceste, P aul, fui para o claustro. T inha pensado descer à cripta de novo com o meu revólver e tentar abrir o sarcófago, mas achei que não conseguiria fazer isso sozinha. E nquanto estava a tentar decidir se te acordava ou não, para implorar que me ajudasses, sentei-me no banco do claustro, olhando para o precipício. Sabia que não devia estar ali sozinha, mas fui atraída pelo lugar. H avia um luar maravilhoso, e uma névoa subia devagar pelas encostas das montanhas.

Os olhos de Helen estavam estranhamente abertos, rememorando.

— Sentada ali, senti a pele das costas arrepiar-se, como se houvesse alguma coisa mesmo atrás de mim. V irei-me rapidamente e, do outro lado do claustro, onde não havia luar, pareceu-me distinguir um vulto escuro. O seu rosto estava na sombra, mas eu podia sentir, mais do que ver, uns olhos ardentes pousados em mim. E ra só questão de um instante mais antes de ele abrir as asas e alcançar-me, e eu estava completamente sozinha junto à balaustrada. De repente, pareceu-me ouvir vozes, vozes angustiadas na minha cabeça que me diziam que eu nunca poderia vencer Drácula, que aquele era o mundo dele, não o meu. Diziam-me para saltar enquanto ainda era eu própria, e então me levantei como uma pessoa em um sonho e pulei.

E la estava sentada muito ereta, a olhar para o fogo, e o meu pai passou a mão pelo rosto.

— E u queria cair livremente, como L úcifer, como um anjo, mas não tinha visto aquelas rochas. C aí em cima delas, e magoei a cabeça e os braços, mas também havia lá uma espessa camada de erva, e a queda não me matou nem me partiu nenhum osso. H oras depois, penso eu, acordei no frio da noite e senti sangue na cara e no pescoço, e vi a L ua a desaparecer e o abismo lá embaixo. M eu Deus, se eu tivesse rolado em vez de desmaiar... — Fez uma pausa. — Sabia que não te poderia explicar o que tinha tentado fazer, e a vergonha apossou-se de mim como uma espécie de loucura. Achava que, depois daquilo, nunca poderia ser digna de ti ou da tua filha. Quando consegui pôr-me de pé, descobri que não tinha sangrado assim tanto. E apesar de estar muito dolorida, não partira nada e sentia que ele não me atacara — deve ter-me dado como perdida, também, quando saltei. E stava terrivelmente fraca e com dificuldade em andar, mas contornei os muros do mosteiro e desci a estrada no escuro.

P ensei que o meu pai ia chorar de novo, mas ele estava quieto, sem tirar os olhos dos dela.

— Saí pelo mundo. N ão foi assim tão difícil. T inha levado a minha bolsa comigo, por hábito, suponho, e porque tinha lá dentro o meu revólver com as balas de prata. L embro-me de que quase me ri quando dei com a bolsa ainda presa no braço, no precipício. T inha dinheiro nela, também, uma quantidade de dinheiro no forro, e usei-o com critério. A minha mãe também andava sempre com todo o seu dinheiro. Suponho que era assim que faziam os camponeses na aldeia dela. N unca confiou em bancos. M uito mais tarde, quando precisei de mais dinheiro, tirei-o da nossa conta em N ova I orque e depositei algum num banco suíço. Depois parti da Suíça o mais depressa que pude, para o caso de você tentar me localizar, P aul. Ah, perdoa-me! — exclamou ela de repente, apertando-me mais os dedos, e eu sabia que ela se referia à sua ausência, e não ao dinheiro.

O meu pai cerrou as mãos uma na outra.

— Aquela retirada que você fez me deu esperanças durante uns meses, ou pelo menos

levantou-me uma dúvida, mas o meu banco não conseguiu descobrir onde fora feito. Recebi o dinheiro de volta. — M as não você, podia ter acrescentado, mas não o fez. O seu rosto brilhava, fatigado e contente.

Helen baixou os olhos.

— Seja como for, encontrei um lugar para ficar por uns dias, fora de L ês B ains, até as

minhas feridas sararem. Escondi-me até poder voltar ao mundo.

L evou os dedos ao pescoço e vi a pequena cicatriz branca em que já reparara muitas

vezes

— T inha o pressentimento de que Drácula não se esquecera de mim e poderia

procurar-me de novo. E nchi os bolsos de alho e a mente de força. C onservava o meu revólver sempre junto de mim, a minha adaga, o meu crucifixo. Onde quer que fosse, parava nas igrejas das aldeias e pedia uma bênção, embora por vezes só o fato de entrar nelas fizesse a minha cicatriz latejar. T inha o cuidado de manter o pescoço coberto. A certa altura, cortei o cabelo curto e pintei-o, mudei de roupas e passei a usar óculos escuros. Durante muito tempo, procurei ficar longe das cidades, e depois comecei pouco a pouco a frequentar os arquivos onde sempre tinha querido fazer a minha pesquisa

Fui meticulosa. E ncontrava-o onde quer que fosse em Roma na década de 1629, em

Florença sob os M édici, em M adrid, em P aris durante a Revolução. As vezes era o relato de uma estranha peste, outras um surto de vampirismo num grande cemitério o P ère L achaise, por exemplo. E le parecia ter sempre gostado de escribas, arquivistas, bibliotecários, historiadores quem quer que lidasse com o passado através dos livros. P rocurei deduzir, através dos seus movimentos, onde ficava a sua nova tumba, onde se escondera depois de termos aberto a sua tumba em Sveti G eorgi, mas não consegui descobrir qualquer padrão. E u pensava que, quando o encontrasse, quando o matasse, voltaria e dir-vos-ia como o mundo se tornara mais seguro. P assaria a ser digna de vocês. V ivia com medo de que ele me encontrasse antes de eu conseguir encontrá-lo. E , onde quer que fosse, sentia a vossa falta ah, sentia-me tão só.

E la pegou novamente na minha mão a acariciou-a como se fosse uma cartomante,

uma adivinha, e senti, contra a minha vontade, uma onda de ressentimento todos aqueles anos sem ela.

— P or fim, achei que mesmo não sendo digna, queria pelo menos ver-vos. Aos dois. E u

tinha lido sobre a tua fundação nos jornais, P aul, e sabia que estavas em Amsterdã. N ão foi difícil encontrar-te, nem sentar-me num café perto do teu escritório, nem seguir-te numa ou duas viagens — com muito cuidado, muito, muito cuidado. N unca me permiti ver nenhum de vocês frente a frente, receando que me vissem. I a e vinha. Se a minha pesquisa corria bem, concedia a mim própria uma visita a Amsterdã e seguia-os a partir de lá. E ntão, um dia — na I tália, em M onteperduto — eu o vi na piazza. E le estava seguindo vocês, também, observando-os. Foi quando me apercebi de que se tornara suficientemente forte para sair às vezes em pleno dia. E u sabia que vocês estavam em perigo, mas pensei que, se os abordasse para os prevenir, talvez levasse o perigo para mais perto. Afinal, ele podia estar à minha procura, e não à vossa, ou podia estar a tentar fazer com que o levasse até vocês. Foi uma agonia. E u sabia que tu devias estar a fazer algum tipo de pesquisa outra vez que devias estar interessado nele outra vez, P aul, para atrair a atenção dele. N ão conseguia decidir o que fazer.

— Fui eu, foi culpa minha — murmurei, apertando a mão dela, sem enfeites, enrugada. — Encontrei o livro.

Ela olhou para mim por um momento, a cabeça inclinada para um lado.

— Tu és uma historiadora — disse. Não era uma pergunta. Depois suspirou.

— Durante vários anos escrevi-te bilhetes-postais, filha, sem os enviar, é claro. Um dia, pensei que podia pôr-me em contato convosco à distância, para que soubessem que eu estava viva sem deixar ninguém ver-me. E nviei-os para Amsterdã, para a vossa casa, num pacote dirigido a Paul.

Desta vez, virei-me para o meu pai, surpreendida e zangada.

— Sim — disse-me tristemente. — Achei que não devia mostrar-los a você para não perturbá-la, já que não era capaz de encontrar a tua mãe. P odes imaginar o que esse período foi para mim.

E eu podia. L embrei-me subitamente do seu terrível cansaço em Atenas, na noite em que o vira meio morto diante da escrivaninha do seu quarto. M as ele sorriu para nós, e percebi que, de agora em diante, podia sorrir todos os dias.

— Ah! — e ela sorriu também. V i que tinha vincos fundos à volta da boca e os cantos dos olhos estavam marcados por rugas.

— E comecei a procurar-te. E a procurá-lo. — O seu sorriso tornou-se grave. E la olhava fixamente para ele. — E então concluí que tinha de parar com a minha pesquisa e simplesmente segui-lo seguindo-te a ti. V ia-te de vez em quando, e via-te a fazer a tua pesquisa novamente, observava-te a entrar em bibliotecas, P aul, ou a sair delas, e como eu desejava poder contar-te tudo o que aprendera. E ntão, foste para Oxford. E u não tinha estado em Oxford no decorrer das minhas buscas anteriores, apesar de ter lido que houvera lá um surto de vampirismo no fim do período medieval. E , em Oxford, deixaste um livro aberto...

— Mas fechou-o quando me viu — interrompi.

— E a mim — completou B arley com o seu sorriso luminoso. E ra a primeira vez que falava, e foi um alívio constatar que ainda podia parecer alegre.

— B em, da primeira vez que o examinou, esqueceu-se de o fechar. — H elen quase piscou o olho para nós.

— Tens razão — confirmou o meu pai. — Pensando bem, esqueci-me mesmo.

Helen voltou-se para ele com o seu lindo sorriso.

— Sabes que nunca tinha visto aquele livro antes? Vampires du Moyen Age?

— Um clássico — afirmou o meu pai, — mas muito raro — Acho que o reitor J ames também o deve ter visto — acrescentou B arley

pausadamente. — Sabe, eu vi-o lá logo depois de o surpreendermos na sua pesquisa, senhor. — O meu pai parecia perplexo. — Sim — prosseguiu B arley, — eu tinha deixado o meu impermeável no piso inferior da biblioteca e voltei para o ir buscar menos de uma hora depois. E vi o reitor J ames a sair da saleta na galeria, mas ele não me viu. Achei que parecia tremendamente preocupado, meio zangado e perturbado. Também pensei nisso quando decidi telefonar-lhe.

— V ocê telefonou ao reitor J ames? — E u estava surpreendida, mas longe de me sentir

indignada. — Porquê? Por que é que fez isso?

— Telefonei-lhe de P aris porque me lembrei de uma coisa — disse B arley com

simplicidade, esticando as pernas. T ive vontade de me levantar e pôr o braço a volta do pescoço dele, mas não em frente dos meus pais. E le olhou para mim. — E u disse-lhe, no comboio, que estava a tentar lembrar-me de uma coisa, uma coisa sobre o reitor J ames, e quando chegamos a P aris lembrei-me. T inha visto uma carta em cima da secretária dele certa vez, quando estava a arrumar uns papéis, um envelope, na realidade, e gostei do selo, por isso examinei-o mais de perto. Era da Turquia, e era antigo; foi o que me fez olhar para o selo. B em, tinha um carimbo do correio que datava de há vinte anos, de um professor B ora, e pensei para comigo que um dia gostaria de ter uma secretária bem grande, e receber cartas do mundo inteiro. O nome B ora ficou-me gravado na cabeça, mesmo naquela época , soava tão exótico. N ão abri o envelope nem li a carta, é evidente — acrescentou B arley apressadamente —, nunca faria isso.

— C laro que não — o meu pai fungou levemente, mas pareceu-me que os seus olhos

brilhavam de afeto.

— B em, quando estávamos a descer do comboio em P aris, vi um homem de idade na

plataforma, um muçulmano, julgo eu, com um barrete vermelho escuro rematado por uma longa borla na cabeça e uma túnica comprida, como um paxá otomano, que me fez lembrar a carta. Depois foi a história do seu pai, com o nome do professor turco — lançou-me um olhar sombrio — e fui telefonar-lhe. P ercebi que o reitor devia ainda estar de alguma forma à caça dele.

— Onde é que eu estava? — perguntei, ciumenta. — N a casa de banho, suponho. As raparigas estão sempre na casa de banho. — E le

podia muito bem ter-me atirado um beijo, embora não diante dos outros. — O reitor ficou furioso comigo ao telefone, mas quando lhe contei o que se estava a passar, disse que eu podia contar com a gratidão dele para sempre. Os lábios vermelhos de B arley tremeram um pouco. — Não me atrevi a perguntar-lhe o que tencionava fazer, mas agora sabemos.

— Sim, sabemos — repetiu o meu pai tristemente. — E le também deve ter feito o

cálculo ao ler aquele velho livro e concluído que daí a uma semana faria dezesseis anos que Drácula visitara Saint-M a hieu pela última vez. E ntão deve ter descoberto para onde é que eu ia. P ossivelmente andava à minha procura quando entrou naquela sala de livros raros. Em Oxford, insistiu comigo várias vezes para que lhe dissesse o que se estava a passar, preocupado com a minha saúde e o meu estado de espírito. E u não queria metê-lo naquilo, sabendo os riscos envolvidos.

Helen concordou.

— Deve ter sido isso. J ulgo que estive lá pouco antes dele. E ncontrei o livro aberto e fiz o cálculo para mim mesma, depois ouvi passos na escada e escapei-me na direção oposta. Tal como o nosso amigo, vi que irias para Saint-M a hieu, P aul, tentar encontrar-me e encontrar aquele demônio, e dirigi-me para lá o mais depressa que pude. M as não sabia que comboio ias apanhar, e muito menos que a nossa filha também estava a tentar seguir-te.

— Eu vi-a — disse eu, admirada.

E la olhou para mim, e deixamos o assunto para depois. H averia tanto tempo para conversar. N otava que ela estava cansada, que estávamos todos exaustos, que nem sequer éramos capazes de começar a dizer uns aos outros, naquela noite, o triunfo que tudo aquilo havia sido. O mundo estaria mais seguro porque estávamos todos juntos ou porque ele finalmente já não fazia parte deste mundo? V islumbrei um futuro que nunca imaginara antes. H elen passaria a viver conosco e apagaria as velas da mesa da sala de jantar. I ria à minha formatura do curso secundário e ao meu primeiro dia na universidade, e ajudar-me-ia a vestir o vestido de casamento, se eu me casasse. I ria ler-nos em voz alta na sala da frente depois do jantar, voltaria a fazer parte do mundo e daria aulas novamente, iria comigo comprar sapatos e blusas, andaria com o braço à volta da minha cintura.

E u não podia saber então que de vez em quando ela se distanciaria de nós, sem falar durante horas a fio, a tocar o pescoço com os dedos, nem que uma doença devastadora a levaria definitivamente nove anos mais tarde muito antes de nos habituarmos ao fato de a ter de volta, embora talvez nunca nos habituássemos, nunca nos cansássemos da prorrogação da sua presença. E u não podia prever que o nosso último presente seria saber que ela repousava em paz, quando poderia ter sido de outra maneira, e que essa certeza seria ao mesmo tempo dolorosa e curativa para nós. Se eu tivesse sido capaz de prever todas essas coisas, também saberia que o meu pai iria desaparecer durante um dia depois do enterro dela, e que a pequena adaga na vitrina da nossa sala iria com ele, e que eu nunca, nunca lhe perguntaria nada sobre isso.

M as naquele dia, frente à lareira em L ês B ains, os anos que teríamos com ela estendiam-se à nossa frente numa bênção infindável. C omeçaram minutos mais tarde quando o meu pai se levantou e me beijou, apertou a mão de Barley calorosamente e puxou Helen do divã.

— Vamos — disse, e ela apoiou-se nele, a sua história acabada por agora, o rosto cansado cheio de alegria. Ele juntou as duas mãos dela nas suas. — Vamos para a cama.