O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 25 de 83

Páginas do PDF

O Historiador

Capítulo 23

N a confusão de ambulâncias, carros de polícia e espectadores que acompanharam a remoção do bibliotecário na rua em frente à biblioteca da universidade, fiquei paralisado por um instante. E ra horrível, impensável, que até a vida do homem mais desagradável terminasse de maneira tão inesperada, mas a minha preocupação seguinte era H elen. Uma multidão começava a juntar-se rapidamente e fui furando aqui e ali à procura dela. Senti um alívio infinito quando ela me encontrou primeiro, batendo-me ao de leve no ombro com a mão enluvada. E stava pálida, mas controlada. E nrolara a écharpe bem apertada em volta do pescoço e, quando a vi, tive um calafrio.

— E sperei uns minutos, depois desci as escadas atrás de si — disse ela, no meio do barulho da rua. Quero agradecer-lhe por ter vindo em meu auxílio. E sse homem era um bruto. Você foi realmente corajoso.

Surpreendeu-me ver como o rosto dela podia mostrar-se simpático, afinal.

— N a realidade, você é que foi corajosa. E ele feriu-a. Tentei não apontar em público para o seu pescoço. Ele chegou a...?

— Sim -respondeu ela, baixinho. I nstintivamente, aproximamo-nos um do outro, para que ninguém ouvisse a nossa conversa. — Quando se atirou a mim, lá em cima, mordeu-me no pescoço. — P or um segundo, os seus lábios tremeram, como se fosse chorar. — N ão chupou muito sangue, não teve tempo. E quase não me dói.

— Mas você... — gaguejei, incrédulo.

— N ão creio que vá infectar — disse ela. — Deitou muito pouco sangue e fechei a ferida o melhor que pude.

— N ão é melhor irmos a um hospital? — Arrependi-me da pergunta logo que a fiz, em parte por causa do olhar intimidante que ela me lançou. — Ou limpar a ferida de alguma forma? — Acho que, de certo modo, estava a imaginar que seria possível retirar o veneno, como se fosse uma mordidela de cobra. A dor repentina no rosto dela apertou-me o coração. Então, lembrei-me de que ela traíra o segredo do mapa. — Por que é que...?

— Sei o que está a pensar — interrompeu-me, apressada, o sotaque ainda mais acentuado. — M as não consegui pensar em nenhum outro isco para aquela criatura e queria ver a reação dele. N ão lhe teria dado o mapa nem qualquer outra informação, garanto-lhe.

Olhei-a atentamente, desconfiado. O seu rosto estava sério, a boca curvada para baixo, impiedosa.

— Não?

— Dou-lhe a minha palavra — disse simplesmente. — Além disso... — o seu sorriso sarcástico inverteu a careta, — não tenho necessariamente o hábito de partilhar com os outros o que posso usar em meu benefício, e você?

Deixei passar o argumento, mas algo no rosto dela acalmou de fato os meus receios.

— A reação dele foi extremamente interessante, não foi? — Helen concordou. — E le disse que deveria ter ido para uma tumba e que Rossi foi levado para lá por

alguém. É tudo muito misterioso, mas ele realmente parecia saber alguma coisa sobre o paradeiro do meu... do seu orientador. N ão consigo acreditar muito nessa história de Drácula, mas talvez algum estranho grupo ocultista tenha raptado o professor Rossi, qualquer coisa desse gênero.

Foi a minha vez de concordar, apesar de obviamente estar mais inclinado a acreditar

na informação do bibliotecário do que ela.

— O que pretende fazer agora? — perguntou ela, com uma estranha indiferença. Não tinha planejado a minha resposta antes de começar a falar. — I r para I stambul. E stou convencido de que há lá pelo menos um documento que

Rossi nunca teve oportunidade de examinar, e que pode conter informações sobre uma tumba, talvez a tumba de Drácula no lago Snagov.

— P or que não faz umas pequenas férias na minha linda Romênia nativa? perguntou

ela. — P oderia ir ao castelo de Drácula com uma estaca de prata na mão, ou visitá-lo pessoalmente em Snagov. Ouvi dizer que é um belo lugar para um piquenique.

— Ouça lá — disse eu, irritado, — sei que tudo isso é muito fora do comum, mas tenho

de seguir qualquer pista que puder sobre o desaparecimento de Rossi. E , como muito bem sabe, um cidadão americano não pode entrar na C ortina de Ferro só para procurar uma pessoa. — A minha lealdade deve tê-la envergonhado, porque não respondeu. — G ostaria de lhe perguntar uma coisa. Quando estávamos a sair da igreja, disse que a sua mãe podia ter alguma informação sobre o interesse de Rossi por Drácula. O que quis dizer com isso?

— Apenas que, quando se conheceram, ele disse que estava na Romênia para estudar

a lenda de Drácula, e que ela própria ainda hoje acredita na lenda. Talvez ela saiba mais sobre a pesquisa dele lá do que o que me contou, não sei. Ela não fala sobre esse assunto com muita facilidade, e eu tenho ido atrás desse interesse do velho e querido pater famílias através dos canais acadêmicos, não no seio da família. Devia ter-lhe perguntado mais coisas sobre a sua experiência pessoal.

— Um estranho descuido para uma antropóloga — retorqui, mal-humorado. Agora,

que acreditava outra vez que ela estava do meu lado, senti toda a irritação do alívio. O rosto dela iluminou-se, divertido.

— Touché, Sherlock. Vou perguntar-lhe da próxima vez que estivermos juntas. — Quando será isso?

— Daqui a uns dois anos, creio. O meu precioso visto não me permite ir e vir à vontade

do Oriente para o Ocidente.

— Nunca lhe telefona ou escreve?

Ela encarou-me.

— Ah, o Ocidente é um lugar tão inocente — acabou por dizer. — Acha que ela tem

telefone? Não sabe que as minhas cartas são sempre abertas e lidas?

Calei-me, devidamente castigado.

— Que documento é esse que está tão ansioso por procurar, Sherlock? É aquela bibliografia, qualquer coisa sobre a Ordem do Dragão? Foi o que vi naquela última lista, nos papéis dele. A única coisa que ele não descreveu completamente. É isso que quer encontrar?

E la acertara, naturalmente. A sua capacidade intelectual cada vez me impressionava mais, e pensei, com uma certa melancolia, nas conversas que poderíamos ter em circunstâncias mais favoráveis. P or outro lado, não me agradava que tivesse tanta capacidade para adivinhar.

— Para que quer saber? — perguntei. — Para a sua pesquisa?

— Claro — disse ela, com ar severo. — Vai entrar em contato comigo quando voltar?

Senti-me subitamente abatido.

— V oltar? N ão tenho a menor idéia de onde me estou a meter, muito menos de quando vou voltar. P osso até vir a ser a próxima vítima do vampiro, quando chegar ao sítio para onde vou, seja lá onde for.

A minha intenção era ser irônico, mas a irrealidade de toda aquela situação abateu-se outra vez sobre mim enquanto falava; lá estava eu, de pé no passeio em frente da biblioteca como centenas de vezes antes, só que, desta vez, estava a falar de vampiros como se acreditasse neles com uma antropóloga romena, e estávamos diante de um cenário de morte no qual eu estivera envolvido, pelo menos indiretamente, fervilhando de condutores de ambulâncias e de polícias. Tentei não os ver, nem ao seu horrível trabalho. Ocorreu-me que devia sair dali o mais depressa possível, mas sem dar nas vistas. N ão podia dar-me ao luxo de ser levado pela polícia naquela altura, nem sequer para algumas horas de interrogatório. T inha coisas para fazer, e que precisavam de ser feitas imediatamente precisava de um visto para a Turquia, que talvez conseguisse obter em Nova Iorque, de um bilhete de avião, e de deixar em segurança uma cópia de todas as informações que já possuía. Felizmente, não daria aulas naquele semestre, mas teria de apresentar um motivo qualquer ao meu departamento, e dar uma explicação aos meus pais, para não ficarem preocupados. Voltei-me para Helen.

— M iss Rossi — disse eu. — Se prometer guardar este assunto para si, prometo entrar em contato consigo logo que regresse. H á mais alguma coisa que possa contar-me? H a alguma maneira de eu entrar em contato com a sua mãe antes de partir?

— N em mesmo eu tenho forma de comunicar com ela, a não ser por carta — respondeu ela, categórica. — Além disso, ela não fala inglês. Quando voltar para casa, daqui a dois anos, vou eu mesma perguntar-lhe o que sabe sobre esse assunto.

Suspirei. Dois anos seria tarde de mais, um tempo inimaginável. Sentia já uma certa ansiedade em separar-me daquela estranha companheira de alguns dias — de horas, na realidade, a única pessoa além de mim que sabia alguma coisa sobre a natureza do desaparecimento de Rossi. Depois disso, estaria por minha conta num país sobre o qual nem sequer pensara muito. Entretanto, aquilo tinha de ser feito. Estendi-lhe a mão.

— M iss Rossi, obrigado por ter suportado um lunático inofensivo durante dois dias. Se

voltar em segurança, fique certa de que será avisada... quero dizer, talvez... se eu trouxer o seu pai de volta em segurança...

Fez um gesto vago com a mão enluvada, como se o seu interesse não fosse de modo

algum o regresso de Rossi em segurança, mas apertou-me a mão com cordialidade. T ive a sensação de que a sua mão firme era o meu último contato com o mundo conhecido.

— Adeus — disse ela. — Desejo-lhe toda a sorte possível para a sua pesquisa — E

misturou-se à multidão os paramédicos estavam a fechar as portas da ambulância. Dei meia volta, também, e comecei a descer as escadas para atravessar o quadrângulo. A uns trinta metros da universidade, parei e olhei para trás, esperando entrever a sua figura vestida de escuro no meio dos que acompanhavam a atividade da ambulância. P ara minha surpresa, ela vinha a correr na minha direção, já quase a alcançar-me. C hegou rapidamente e vi que as suas faces tinham adquirido um vivo colorido de rubi. A sua expressão era ansiosa.

— Tenho estado a pensar — disse, e depois calou-se. P arecia estar a recuperar o fôlego.

— E sta questão diz respeito à minha vida mais do que qualquer outra coisa. — O seu olhar era direto, desafiador. — Não sei bem como, mas acho que vou consigo.