O Historiador
Capítulo 25
A estação de caminho-de-ferro de Amsterdã era um lugar que conhecia bem já passara por lá dezenas de vezes. M as nunca tinha estado ali sozinha. N unca tinha viajado para sítio nenhum sozinha e, quando me sentei num banco à espera do expresso da manhã para P aris, senti a minha pulsação acelerar-se, o que não era inteiramente apreensão pelo meu pai — era simplesmente uma subida de seiva, o primeiro momento de liberdade completa que já sentira. M rs. C lay, que naquele momento devia estar em casa a lavar a louça do pequeno-almoço, pensava que eu ia a caminho da escola. B arley, garantidamente despachado para o ferry, também pensava que eu ia a caminho da escola. Sentia-me mal por ter enganado a boa e enfadonha M rs. C lay, e ainda pior por me ter separado de B arley, que me beijara a mão com repentina galanteria à porta de casa e me dera um dos seus chocolates, embora eu lhe tivesse lembrado que podia comprar doces holandeses a qualquer momento que quisesse. P ensei que podia escrever-lhe uma carta quando todos aqueles problemas tivessem acabado mas eu não conseguia ver tão longe.
P or enquanto, a manhã de Amsterdã cintilava, reluzia, movimentava-se à minha volta. M esmo naquela manhã, quando fui da nossa casa até à estação, encontrei algo de reconfortante na caminhada ao longo dos canais, o perfume do pão acabado de cozer, o cheiro úmido dos canais, a limpeza aplicada e não muito elegante de tudo. N um banco da estação, revi a minha bagagem: uma muda de roupa, as cartas do meu pai, pão, queijo e embalagens de sumo de fruta que tirara da cozinha. Também tinha saqueado a confortável reserva de dinheiro da cozinha — já que ia fazer uma coisa feia, também podia fazer outras para completar o que tinha na carteira. I sso faria com que M rs. C lay percebesse depressa demais o que acontecera, mas não havia outra maneira — eu não podia esperar que os bancos abrissem para tirar dinheiro das minhas pequenas e infantis poupanças. T razia uma camisola quente e um impermeável, o meu passaporte, um livro para as longas viagens de comboio e o meu dicionário de bolso de Francês.
E tinha roubado mais outra coisa. N a sala, pegara numa faca de prata que estava numa vitrina no meio de lembranças das primeiras e prolongadas missões diplomáticas do meu pai, as viagens que tinham sido as primeiras tentativas de estabelecer a sua fundação. N essa altura, eu era demasiado nova para o acompanhar e tinha-me deixado nos E stados Unidos ao cuidado de vários parentes. A faca era sinistramente afiada, com um cabo decorado em relevo. Repousava numa bainha, também profusamente decorada. E ra a única arma que eu alguma vez vira na nossa casa o meu pai não gostava de armas de fogo, e os seus gostos de colecionador não incluíam espadas nem machados de guerra. N ão tinha a menor idéia de como me defender com a pequena lâmina, mas sentia-me mais segura sabendo que estava na minha bolsa.
Quando o comboio expresso chegou, a estação já estava cheia de gente Senti, então, como sinto ainda hoje, que não há alegria como a da chegada de um comboio, por mais perturbadora que seja a situação da pessoa principalmente quando se trata de um comboio europeu, e sobretudo se for um comboio europeu que nos leve para o Sul. Durante aquele período da minha vida, no último quartel do século vinte, ouvi o apito das últimas locomotivas a vapor que cruzavam regularmente os Alpes e esse som perdura nos meus ouvidos como o canto de uma sereia. Subi para o comboio agarrada à minha mochila da escola, quase a sorrir. Teria muitas horas à frente, e precisava delas, não para ler o meu livro, mas para examinar novamente as preciosas cartas do meu pai. Acreditava ter escolhido o meu destino corretamente, mas precisava de refletir por que razão estava correto.
Encontrei um compartimento tranquilo e fechei as cortinas que davam para o corredor
junto ao meu assento, esperando que não entrasse mais ninguém. I nstantes depois, uma senhora de meia-idade, com um casaco azul e chapéu, acabou por entrar também, mas sorriu-me e instalou-se com umas revistas holandesas de moda no colo. C onfortável no meu canto, observando a velha cidade e depois os pequenos subúrbios verdes a passarem, desdobrei novamente a primeira das cartas do meu pai. Já sabia de cor as primeiras linhas, a forma das palavras, o lugar e a data surpreendentes, a letra firme e apressada.
Minha querida filha:
Se estiveres a ler esta carta, perdoa-me. P arti para procurar a tua mãe. Durante muitos
anos, acreditei que estivesse morta, mas agora não tenho a certeza. E sta incerteza é quase pior
do que a dor, como talvez um dia compreendas; tortura-me o coração noite e dia Nunca te falei
muito sobre ela, o que foi uma fraqueza minha, eu sei, mas a nossa história era dolorosa demais
para ser contada com facilidade. Sempre tive a intenção de te contar mais à medida que crescesses
e pudesses percebê-la melhor sem ficares terrivelmente assustada embora na verdade me tenha
assustado a tal ponto, e tão interminavelmente, que esta tem sido a mais fraca das desculpas que
dou a mim mesmo sobre este assunto.
Durante os últimos meses, tentei compensar a minha fraqueza contando-te, aos poucos, o
que podia contar-te sobre o meu passado, e pretendia incluir gradualmente a tua mãe na história,
ainda que ela tenha entrado na minha vida de modo muito repentino. A gora, receio não
conseguir contar-te tudo o que devias saber sobre a tua herança antes de ser eu próprio silenciado
e literalmente incapaz de te transmitir pessoalmente as informações ou ficar outra vez prisioneiro
dos meus próprios silêncios.
Descrevi-te um pouco da minha vida como estudante universitário antes de tu nasceres, e
falei-te das estranhas circunstâncias do desaparecimento do meu orientador depois das revelações
que me fez. Também te contei como conheci uma jovem chamada Helen, tão interessada como eu
em encontrar o professor Rossi, talvez até mais. E m cada oportunidade tranquila que tivemos,
tentei fazer essa história avançar, mas agora sinto que devia começar a escrever o resto dela,
confiá-la com segurança ao papel Se tiveres de a ler, em vez de me ouvires contar-ta numa colina
rochosa ou piazza sossegada, num porto abrigado ou numa confortável mesa de café, a culpa é
minha por não tê-la contado mais depressa, ou mais cedo.
E nquanto escrevo esta carta, olho lá para fora e vejo as luzes de um velho porto e tu estás a
dormir, serena e inocente, no quarto ao lado. E stou cansado depois de um dia de trabalho, e
cansado só de pensar no início desta longa narrativa uma obrigação triste, uma triste precaução.
Creio que tenho algumas semanas, talvez meses, durante os quais conseguirei decerto continuar a
minha história pessoalmente; por isso, não vou voltar ao que já te contei durante as nossas
andanças por tantos países. P ara além desse período de tempo semanas ou meses, já não tenho
tanta certeza. E stas cartas são o meu seguro contra a tua solidão. Na pior das hipóteses,
herdarás a minha casa, o meu dinheiro, os meus móveis e livros, mas quase posso apostar que
vais dar mais valor a estes documentos escritos com o meu próprio punho do que a qualquer das
outras coisas, porque eles vão conter a tua história pessoal, a tua História.
P or que razão não te revelei todos os fatos desta história de uma vez só, para acabar com
isto, para te contar tudo o que havia a contar? M ais uma vez, a resposta está na minha própria
fraqueza, mas também no fato de que uma versão abreviada seria exatamente isso um golpe.
Não posso de modo algum desejar-te tanta dor, mesmo sendo apenas uma fração da minha
própria dor. A lém disso, se te contasse tudo de uma só vez, poderias não acreditar, assim como
eu não acreditei completamente na história do meu orientador Rossi antes de percorrer devagar
as suas reminiscências. E , por fim, que história pode ser de fato reduzida aos seus elementos
factuais? P or isso, vou contar-te a minha história passo a passo. Também vou tentar adivinhar
o que já terei conseguido contar-te se estas cartas te chegarem às mãos.
A previsão do meu pai não tinha sido muito exata, e começou a sua história um pouco além do que eu já sabia. P rovavelmente, nunca chegaria a saber qual fora a reação dele a espantosa decisão de H elen Rossi de o acompanhar nas suas buscas, pensei com tristeza, ou os pormenores interessantes da viagem deles da N ova I nglaterra para I stambul. C omo, perguntei a mim própria, de que modo teriam conseguido obter toda a papelada necessária, superar os obstáculos da hostilidade política, os vistos, as alfândegas. Teria o meu pai contado aos seus pais, gentis e sensatos hostomanos, alguma mentira inocente sobre os seus repentinos planos de viagem? Teriam ele e H elen ido para N ova I orque imediatamente, como ele tinha planejado? E teriam dormido no mesmo quarto de hotel? A minha cabeça de adolescente não conseguia resolver aquela charada e também não conseguia deixar de pensar nela. Finalmente, tive de me contentar com uma imagem dos dois como personagens de um filme do tempo da juventude deles; H elen discretamente estendida sob a colcha da cama de casal, o meu pai a dormir num sofá, desconsolado e sem sapatos apenas sem os sapatos e as luzes de T imes Square a piscar um sórdido convite mesmo do lado de fora da janela.
Seis dias após o desaparecimento de Rossi, partimos para I stambul do Aeroporto de I dlewild numa noite de neblina a meio da semana, mudando de avião em Frankfurt. O nosso segundo avião aterrou na manhã seguinte, e fomos conduzidos para fora em grupo com os outros passageiros. E u já estivera na E uropa Oriental duas vezes, mas essas viagens pareciam-me agora excursões a um planeta totalmente diferente daquele a Turquia, que em 1954 estava a ainda mais mundos de distância do que hoje. N um momento, estava encolhido na minha desconfortável poltrona de avião, limpando o rosto com uma toalha quente, e, no momento seguinte, estávamos os dois de pé lá fora, numa pista de aterragem igualmente quente, com odores desconhecidos que sopravam em volta, e poeira, e a écharpe esvoaçante de um árabe à nossa frente na fila — a écharpe insistia em entrar-me na boca. H elen ria-se ao meu lado, observando a minha perplexidade com tudo aquilo. N o avião, ela escovara o cabelo, pusera batom nos lábios e parecia surpreendentemente repousada depois da noite incomoda a bordo. Usava um pequeno lenço atado ao pescoço; eu ainda não vira o que estava por baixo dele, e não me atreveria a pedir-lhe que o tirasse
— Bem-vindo ao grande mundo, ianque — disse ela, sorrindo. Desta vez era um sorriso
verdadeiro, e não a sua habitual careta.
A minha perplexidade aumentou durante a viagem de taxi até à cidade. N ão sei
exatamente o que esperava de I stambul nada, talvez, já que tivera tão pouco tempo para antecipar a viagem, mas a beleza da cidade tirou-me a respiração T inha um caráter de Mil e Uma Noites que nem todos aqueles carros a buzinar ou os homens de negócios com fatos ocidentais conseguiam anular. A primeira cidade, C onstantinopla, capital de B izâncio e primeira capital da Roma cristã, deve ter sido inacreditavelmente deslumbrante, pensei um casamento entre a riqueza de Roma e o misticismo do cristianismo primitivo. Quando encontramos quartos no velho bairro de Sultanahmet, já tinha sido atingido por visões fugazes e estonteantes de dezenas de mesquitas e minaretes, de bazares exibindo tecidos finos, e até um lampejo de H agia Sophia, com as suas muitas cúpulas e quatro chifres enfunando-se acima da península.
H elen também nunca ali estivera e observava tudo com uma concentração silenciosa,
virando-se para mim uma única vez durante a viagem de táxi para comentar como era estranho para ela conhecer a nascente creio que foi essa a palavra que usou do I mpério Otomano, que deixara tantos vestígios no seu país natal. M ais tarde, isso tornar-se-ia um assunto habitual nos nossos dias ali as suas observações breves e sagazes sobre tudo o que já lhe era familiar: nomes de lugares em turco, uma salada de pepino num restaurante ao ar livre, o arco em ogiva de uma janela. E também teve um efeito singular sobre mim, uma espécie de duplicação da minha experiência, de maneira que eu parecia estar a ver I stambul e a Romênia ao mesmo tempo, e, à medida que a possibilidade de podermos ter de ir à Romênia surgiu gradualmente entre nós, tive a sensação de estar a ser levado até lá por relíquias do passado vistas através dos olhos de H elen. M as estou a desviar-me do assunto este é um episódio posterior de minha história.
O vestíbulo da nossa pensão era fresco, depois da forte claridade e da poeira das ruas.
Afundei-me com alívio numa cadeira na entrada, deixando H elen reservar dois quartos no seu francês excelente mas com um sotaque muito carregado. A senhoria uma armênia que gostava de viajantes e aparentemente aprendera as suas línguas também não conhecia o nome do hotel de Rossi, que talvez já não existisse há anos.
H elen gostava de mandar, pensei, então por que não lhe permitir essa satisfação?
E ntre nós, havia o acordo tácito, mas firme, de que mais tarde eu pagaria a conta. N os E stados Unidos, tinha retirado do banco a totalidade das minhas parcas economias; Rossi merecia todos os esforços que eu pudesse fazer, mesmo que fracassasse. Simplesmente teria de voltar para casa falido, se fosse caso disso. E u sabia que H elen, uma estudante estrangeira, tinha provavelmente menos do que nada, vivia com menos do que nada. J á notara que parecia possuir apenas dois conjuntos de saia e casaco, que variava com algumas blusas de corte severo.
— Sim, ficaremos com os dois quartos separados mas contíguos — disse ela à senhora armênia, uma mulher idosa de traços finos. — O meu irmão — mon frère — ronfle terriblement.
— Ronfle? — perguntei, do vestíbulo.
— Ressona — respondeu ela, brusca. — Sabes muito bem que ressonas. N ão peguei olho em Nova Iorque.
— Preguei — corrigi.
— Ótimo — disse ela. — Limita-te a ficar calado, s’il te plait.
Ressonando ou não, tivemos de dormir um pouco para descansar do cansaço da viagem antes de conseguirmos fazer qualquer outra coisa. H elen queria começar imediatamente a procurar no arquivo, mas eu insisti que descansássemos um pouco e tomássemos uma refeição. De modo que a tarde já estava a acabar quando começamos a nossa primeira investida por aquelas ruas labirínticas, vendo de relance os seus jardins e pátios cheios de cores.
Rossi não tinha mencionado o nome do arquivo nas suas cartas, e, durante a nossa conversa, chamara-lhe simplesmente um "repositório pouco conhecido de material, fundado pelo sultão M ehmed I I ". A sua carta sobre a sua pesquisa em I stambul acrescentava que ficava ao lado de uma mesquita do século dezessete. Além disso, sabíamos que, de uma das janelas do arquivo, ele conseguia ver H agia Sophia, que o edifício do arquivo tinha mais que um andar e uma porta que comunicava diretamente com a rua no primeiro piso. E u tentara encontrar informações sobre um arquivo assim na biblioteca da universidade, nos E stados Unidos, antes da nossa partida, mas sem sucesso. Achava estranho que Rossi não tivesse citado o seu nome nas cartas; não era o seu gênero deixar de fora um pormenor como esse, mas talvez não quisesse lembrar-se. T inha todos os seus papéis comigo, na minha pasta, incluindo a lista dos documentos que encontrara lá, com aquela linha estranhamente incompleta no final: "B ibliografia, Ordem do Dragão." P rocurar numa cidade inteira, num emaranhado de minaretes e cúpulas, a origem daquela misteriosa frase escrita com a letra de Rossi era, no mínimo, uma perspectiva intimidante.
A única coisa que podíamos fazer era seguir para Hagia Sophia, originalmente a grande I greja B izantina de Santa Sophia. E , uma vez que nos aproximamos, foi impossível não entrar. Os portões estavam abertos e o imenso santuário puxou-nos para dentro juntamente com outros turistas, como se uma onda nos levasse para dentro de uma caverna. Durante mil e quatrocentos anos, pensei, os peregrinos tinham sido atraídos para ali, exatamente como nós. Uma vez lá dentro, caminhei lentamente até ao centro e inclinei a cabeça para trás para observar aquele vasto espaço divino, com o seu famoso turbilhão de cúpulas e arcos, a sua luz celestial derramando-se em volta, os escudos redondos cobertos de caligrafia árabe nos cantos superiores, a mesquita a cobrir a igreja, a igreja a cobrir as ruínas de um mundo antigo. Os arcos curvavam-se muito, muito acima de nós, uma réplica do cosmos bizantino. M al conseguia acreditar que estava ali. E stava completamente atordoado
H oje, ao reviver aquele momento, vejo que tinha vivido entre os livros durante tanto
tempo, no meu estreito ambiente universitário, que me tornara comprimido interiormente por eles. De repente, naquela ecoante casa de B izâncio uma das maravilhas da H istória —, o meu espírito extravasou para além dos seus limites. Soube naquele instante que, acontecesse o que acontecesse, nunca mais conseguiria voltar aos meus antigos grilhões. Queria seguir a vida para cima, expandi-la para fora, do mesmo modo que aquele enorme interior se dilatava para cima e para fora. O meu coração dilatava-se com ele, como jamais fizera em todas as minhas andanças pelo mundo dos mercadores holandeses.
Olhei para H elen e vi que também estava emocionada, a cabeça inclinada para trás
como a minha, de forma que os seus caracóis escuros caíam sobre a gola da camisa, o rosto normalmente reservado e cínico agora cheio de uma pálida transcendência. E stendi a mão num impulso e agarrei a sua. E la segurou a minha mão com força, com aquela firmeza quase dura que eu já conhecia do seu aperto de mão. N outra mulher, poderia ser um gesto de submissão ou sedução, uma entrega romântica; em H elen era um gesto tão simples e forte como o seu olhar ou a sua postura distante. Depois de um momento, pareceu tomar consciência de si mesma; largou a minha mão, mas sem embaraço, e passeamos pela igreja juntos, admirando o belo púlpito, o brilhante mármore bizantino. T ive de fazer um grande esforço para me lembrar de que poderíamos voltar a H agia Sophia em qualquer momento durante a nossa permanência em I stambul, e que a nossa tarefa prioritária naquela cidade era encontrar o arquivo. H elen aparentemente pensou a mesma coisa, pois dirigiu-se à entrada no mesmo momento que eu, e, esquivando-nos da multidão, voltamos à rua.
— O arquivo pode ficar muito longe — observou ela. — Santa Sophia é tão grande que
pode ser vista de praticamente qualquer edifício desta parte da cidade, acho eu, ou até mesmo do outro lado do Bósforo.
— E u sei. Temos de encontrar outra pista. As cartas diziam que o arquivo ficava anexo
a uma pequena mesquita do século dezessete.
— A cidade está cheia de mesquitas.
— É verdade — folheei o meu guia turístico, comprado à pressa. — Vamos começar
com esta, a G rande M esquita dos Sultões. M ehmed I I e a sua corte podem ter rezado lá algumas vezes. Foi construída no fim do século quinze; e seria lógico que a sua biblioteca ficasse nas redondezas, não acha?
H elen achava que valia a pena tentar e partimos a pé novamente. Durante o percurso, mergulhei novamente no guia.
— Ouça. Aqui diz que I stambul é uma palavra bizantina que significava "a cidade". Sabe, nem mesmo os Otomanos podiam demolir C onstantinopla, só mudar-lhe o nome, e mesmo assim para um nome bizantino. Aqui diz que o I mpério B izantino durou de 333 a 1453. Imagine só; que longo, longo ocaso de poder.
Helen concordou.
— N ão é possível pensar nesta parte do mundo sem B izâncio — disse ela gravemente. — E , sabe, na Romênia vêem-se traços do I mpério B izantino em toda a parte... em cada igreja, nos frescos, nos mosteiros, até nos rostos das pessoas, creio eu. L á, de certa maneira, Bizâncio está mais perto dos nossos olhos do que aqui, com todo esse... sedimento... otomano por cima. — O seu rosto ficou sombrio. — A conquista de C onstantinopla por M ehmed I I , em 1453, foi uma das maiores tragédias da H istória. Derrubou estas muralhas com os seus canhões e depois enviou os seus exércitos para pilharem e matarem durante três dias. Os soldados violaram meninas e meninos nos altares das igrejas, até em Santa Sophia. Os ícones e todos os outros tesouros sagrados foram roubados para o seu ouro ser derretido e as relíquias dos santos eram atiradas às ruas para os cães roerem. Antes disso, esta foi a cidade mais bonita da História. — A mão dela fechou-se, e apoiou o punho fechado na cintura.
E u fiquei em silêncio. A cidade ainda era linda, com as suas cores intensas e as suas cúpulas e minaretes elegantes, quaisquer que tivessem sido as atrocidades ali cometidas tanto tempo antes. C omeçava a compreender a razão por que um momento terrível de há quinhentos anos era tão real para H elen, mas o que tinha isso a ver com as nossas vidas, no presente! De repente, ocorreu-me que talvez eu tivesse vindo de tão longe para nada, para aquele lugar mágico com aquela mulher complicada, procurando um inglês que poderia perfeitamente estar num autocarro a caminho de N ova I orque. P us de lado esse pensamento e tentei provocá-la um pouco.
— Como é que sabe tanto de História? Julguei que era antropóloga.
— E sou — disse ela, séria. — M as não se pode estudar uma cultura sem conhecer a sua história.
— E ntão por que não é simplesmente historiadora? P odia ter estudado as culturas da mesma maneira, parece-me.
Talvez parecia ameaçadora agora, e o seu olhar evitava o meu.
— Mas eu queria uma área que o meu pai não tivesse já dominado.
A G rande M esquita ainda estava aberta à luz dourada do entardecer, tanto aos turistas como aos fiéis. Tentei usar o meu medíocre alemão com o guarda à entrada, um rapaz de pele cor de azeitona e cabelos encaracolados como teriam sido, fisicamente, os B izantinos, mas ele respondeu que não havia nenhuma biblioteca lá dentro, nenhum arquivo, nada desse tipo, e que nunca tinha ouvido falar de nenhuma nas redondezas. P erguntamos se ele tinha alguma sugestão. P odíamos tentar a universidade, sugeriu. Quanto a pequenas mesquitas, havia centenas delas na cidade.
— J á é tarde demais para irmos à universidade hoje — disse H elen, pensativa. E stava
a estudar o guia. — Amanhã, podemos visitá-la e pedir informações a alguém sobre arquivos que datem da época de M ehmed. Acho que será a maneira mais eficaz. Vamos ver as velhas muralhas de Constantinopla. Podemos ir a pé daqui até uma parte delas.
Acompanhei-a pelas ruas enquanto ela decidia o caminho a seguir, o guia na mão
enluvada, a pequena bolsa preta no braço. B icicletas passavam rápidas por nós, túnicas otomanas misturadas com roupas ocidentais, carros estrangeiros e carroças puxadas por cavalos misturando-se uns com os outros. P ara onde quer que eu olhasse, via homens de coletes escuros e pequenos gorros feitos de croché, mulheres com blusas de cores vivas por cima de calças largas, as cabeças envoltas em lenços. T ransportavam sacos de compras e cestos, trouxas de roupas, galinhas em gaiolas, pão, flores. As ruas transbordavam de vida — tal como haviam sido, pensei, há mil e seiscentos anos. Ao longo dessas ruas, imperadores romanos cristãos tinham sido transportados pelos seus séquitos, ladeados de sacerdotes, deslocando-se do palácio à igreja para receber o Santíssimo Sacramento. H aviam sido monarcas fortes, grandes patronos das artes, engenheiros, teólogos. E detestáveis, também, alguns deles com tendências para cortar aos bocados os seus cortesãos e cegar membros da família, na melhor tradição de Roma. Foi aí que a política bizantina original saiu de cena. Talvez não fosse um lugar tão estranho para um ou dois vampiros, afinal.
H elen parara diante de uma estrutura de pedra muito alta e parcialmente em ruínas,
para a qual apontava. N a sua base, amontoavam-se lojas e figueiras enterravam as raízes nos seus flancos; um céu sem nuvens desmanchava-se em cobre acima das ameias.
— Veja o que sobrou das muralhas de C onstantinopla — disse ela em voz baixa. —
Ainda se pode ver como eram enormes quando estavam intactas. O guia diz que o mar chegava até aqui naquela época, de modo que o I mperador podia usar um barco para sair do palácio. E, ali mais à frente, aquela parede fazia parte do Hipódromo.
Ficamos ali parados, a observar a muralha, e notei que voltara a esquecer-me de Rossi
durante uns bons dez minutos.
— Vamos procurar um sítio para jantar — disse eu, abruptamente. — J á passa das sete
horas e hoje precisamos de nos deitar cedo. E stou determinado a encontrar o arquivo amanhã. — H elen concordou e caminhamos amigavelmente de regresso ao coração da velha cidade.
P erto da nossa pensão, descobrimos um restaurante, com o interior decorado com
vasos de latão e adagas de prata, que tinha uma mesa próxima ao arco da janela da frente, uma abertura sem vidro onde nos podíamos sentar e observar as pessoas que caminhavam na rua. E nquanto esperávamos pelo nosso jantar, reparei pela primeira vez num fenômeno do mundo oriental que até ali me tinha passado despercebido: as pessoas que passavam não tinham pressa, caminhavam simplesmente. O que pareceria pressa, aqui, teria sido um passeio informal nos passeios de N ova I orque ou de Washington. C omentei isso com H elen e ela deu uma gargalhada cínica:
— Quando não há muito dinheiro a ganhar, ninguém vai a correr atrás dele — disse.
O criado trouxe-nos grandes pedaços de pão, um prato de iogurte batido salpicado de rodelas de pepino e chá forte e perfumado em copos de vidro.
Comemos com vontade depois do cansaço do dia, e tínhamos acabado de passar para o frango assado em espetos de madeira quando um homem de bigode e cabeleira prateados, vestindo um fato cinzento de boa qualidade, entrou no restaurante e olhou em volta. I nstalou-se numa mesa próxima de nós e pousou um livro ao lado do prato. P ediu a sua refeição em turco, em voz baixa, e então pareceu notar o nosso prazer com o jantar e inclinou-se na nossa direção com um sorriso amigável.
— Vejo que apreciam a nossa comida — disse num inglês excelente, embora com sotaque.
— Certamente — respondi, surpreendido. — É ótima.
— Deixem-me ver — continuou, virando um rosto belo e suave para mim. — N ão são de Inglaterra. América?
— Sim disse eu. — H elen estava calada, a cortar o seu frango e a observar o nosso companheiro com desconfiança.
Ah, sim, que bom Estão de visita à nossa linda cidade?
— Sim, exatamente — concordei, desejando que H elen tentasse pelo menos parecer simpática; a sua hostilidade poderia parecer suspeita, de certa forma.
— B em-vindos a I stambul — disse ele com um sorriso simpático, levantando o seu copo de vidro num brinde. Retribuí a saudação e ele sorriu. — P erdoem-me esta pergunta vinda de um estranho, mas o que é que lhes agrada mais na vossa visita?
— Bem, é difícil escolher. — Gostei do rosto dele; era impossível não lhe responder com sinceridade. — O que mais me impressiona é a sensação de Oriente e Ocidente misturados numa única cidade.
— Uma sábia observação, meu jovem amigo — disse ele, sério, limpando o bigode com um grande guardanapo branco. — Essa mistura é o nosso tesouro e a nossa maldição. Tenho colegas que têm passado uma vida inteira a estudar I stambul e dizem que nunca terão tempo de a explorar completamente, embora tenham vivido sempre aqui. É um lugar estupendo.
— Qual é a sua profissão? — perguntei com curiosidade, embora a atitude de H elen me desse a sensação de que estava prestes a pisar-me o pé por baixo da mesa a qualquer momento.
— Sou professor na Universidade de I stambul — disse, no mesmo tom cheio de dignidade.
— Ah, que sorte tremenda! — exclamei. — Somos... — neste ponto, o pé de H elen atingiu o meu. Usava saltos altos, como todas as mulheres daquela época, e o salto era bastante fino. — É um prazer conhecê-lo — concluí. — O que é que o senhor leciona?
— A minha especialidade é Shakespeare — respondeu o nosso novo amigo, servindo-se cuidadosamente da salada à sua frente. — E nsino literatura inglesa aos nossos estudantes dos últimos anos. São estudantes excelentes, devo dizer.
— Que maravilha — consegui dizer. — Também sou estudante universitário, mas de
História, nos Estados Unidos.
— Uma área muito interessante — afirmou ele gravemente. — E ncontrará muita coisa
que lhe interesse em Istambul. Qual é o nome da sua universidade?
Respondi, enquanto Helen praticamente serrava o seu jantar com ar soturno. — Uma excelente universidade. J á ouvi falar — observou o professor. B ebeu um gole
do seu copo e bateu com a ponta do dedo no livro ao lado do prato. — Ora, ora! — exclamou finalmente. — P or que não vêm conhecer a nossa universidade enquanto estão em I stambul? Também é uma instituição venerável, e seria um prazer para mim mostrar-lha e à sua adorável esposa.
Notei que Helen bufou levemente e apressei-me a dizer: — Minha irmã... minha irmã.
— Ah, perdoem-me. — O especialista em Shakespeare inclinou-se para H elen sobre a
mesa. — Sou o doutor Turgut Bora, ao seu serviço.
Apresentámo-nos — ou melhor, apresentei-nos, porque H elen permanecia num
silêncio obstinado. Percebi que não gostara quando usei o meu nome verdadeiro, então mais que depressa a apresentei como Smith, numa demonstração de estupidez que a fez franzir ainda mais a testa. Distribuímos apertos de mãos, e não havia outra coisa a fazer senão convidá-lo para juntar-se a nós à mesa.
E le protestou educadamente, mas só por um momento, e então sentou-se conosco,
trazendo a sua salada e o seu copo de vidro, que levantou imediatamente.
— Um brinde a ambos e bem-vindos à nossa bela cidade — entoou. — Saúde! Até mesmo Helen sorriu levemente, embora ainda sem dizer nada. — P eço que me perdoem a minha falta de discrição — desculpou-se Turgut, como se
pressentisse a desconfiança dela. — É muito raro ter a oportunidade de praticar o meu inglês com falantes nativos. — E le ainda não notara que ela não era uma falante nativa, embora no caso de H elen talvez nunca o viesse a notar, pensei, porque era bem possível que ela nunca lhe dissesse uma palavra.
— C omo foi que se especializou em Shakespeare? — perguntei-lhe enquanto
reatávamos o jantar.
— Ah! — disse Turgut delicadamente. — É uma história estranha. A minha mãe era
uma mulher muito singular... brilhante... uma grande amante de línguas, além de uma engenheira iminente. — Quereria dizer eminente?, perguntei a mim mesmo — e estudou na Universidade de Roma, onde conheceu o meu pai. Ele, um homem muito agradável, era um estudioso da Renascença Italiana, com uma particular atração por...
E xatamente neste ponto muito interessante, fomos subitamente interrompidos pela
aparição de uma mulher jovem que nos espreitava da rua através do arco da janela.
E mbora nunca tivesse visto uma cigana, a não ser em fotografias, reconheci-a como tal; tinha a pele escura e os traços pronunciados, usava cores vivas e espalhafatosas e os seus cabelos negros, cortados irregularmente, emolduravam uns olhos escuros e penetrantes. P odia ter quinze anos ou quarenta; era impossível ler a idade no seu rosto magro. N os braços, carregava braçadas de flores vermelhas e amarelas, que aparentemente queria que comprássemos. E mpurrou algumas na minha direção por cima da mesa e começou uma ladainha aguda que eu não entendia. H elen parecia enfastiada e Turgut aborrecido, mas a mulher era insistente. E u já ia tirar a carteira, com a idéia de presentear H elen de brincadeira, é claro com um bouquet turco, quando a cigana de repente se virou para ela, apontando e falando com voz sibilante. Turgut sobressaltou-se e H elen, que normalmente não tinha medo de nada, encolheu-se.
I sto pareceu trazer Turgut de regresso à vida; soergueu-se e, com um olhar indignado, pôs-se a ralhar com a cigana. N ão era difícil entender o seu tom e os seus gestos, que pediam em termos bastante incisivos que ela se retirasse. E la fulminou-nos a todos com o olhar e desapareceu tão de repente como tinha aparecido, evaporando-se entre os outros transeuntes. Turgut sentou-se novamente, os olhos muito abertos voltados para H elen e, depois de um instante, começou a procurar alguma coisa no bolso do casaco, retirando um pequeno objeto, que colocou ao lado do prato dela. Era uma pedra azul achatada com cerca de dois centímetros e meio de comprimento, incrustada de amarelo e azul mais claro, como um olho tosco. H elen empalideceu quando a viu e estendeu a mão como que instintivamente para lhe tocar com o indicador.
— O que é que está a acontecer aqui? — Não pude evitar a irritação dos culturalmente excluídos.
— O que foi que ela disse? — H elen dirigiu-se a Turgut pela primeira vez. — Falava turco ou a língua dos ciganos? Não consegui entendê-la.
O nosso novo amigo hesitou, como se não quisesse repetir as palavras da mulher.
— Turco — murmurou. — Talvez não seja sensato que eu lhes conte. Foi muito grosseiro o que ela disse. E estranho. — Observava H elen com interesse, mas também com algo como um lampejo de medo, pensei, nos seus olhos cordiais. — E la usou primeiro uma palavra que não vou traduzir — explicou, falando devagar. — E depois disse: "V á-embora daqui, romena filha de lobos. V ocê e o seu amigo trazem a maldição do vampiro à nossa cidade."
Helen estava pálida até aos lábios, e contive o impulso de lhe pegar na mão.
— Foi uma coincidência — disse, para a confortar, o que a fez lançar-me um olhar feroz; eu estava a falar demais em frente do professor.
Turgut olhava de um para o outro.
— I sto é realmente muito estranho, amáveis companheiros — disse. — Acho que devíamos conversar mais, e sem demora.
E u estava quase a dormir no meu compartimento do comboio, apesar do extremo interesse que a história do meu pai me despertava; ler tudo aquilo pela primeira vez, durante a noite, mantivera-me acordada até tarde, e estava cansada. Uma sensação de irrealidade caiu sobre mim na cabina ensolarada e virei-me para contemplar pela janela os bem ordenados campos holandeses que se sucediam. Quando nos aproximávamos e nos afastávamos de cada cidade, o comboio passava por pequenas hortas, verdes novamente sob um céu nublado, os quintais de milhares de pessoas que se ocupavam das suas próprias vidas, as traseiras das suas casas viradas para a linha férrea. Os campos eram maravilhosamente verdes, um verde que na H olanda começa no início da P rimavera e perdura quase até que a neve caia novamente, alimentado pela umidade do ar e da terra e pela água que brilha em todas as direções em que se olhe. J á tínhamos deixado para trás uma vasta região de canais e pontes, e agora encontrávamo-nos entre vacas nas suas pastagens delimitadas com precisão. Um casal idoso e com ar digno surgiu de bicicleta numa estrada ao nosso lado e foi engolido no minuto seguinte por mais pastos. E m breve estaríamos na B élgica, que, como eu sabia por experiência própria, se podia falhar completamente durante uma curta sesta.
Segurava as cartas com firmeza no colo, mas as minhas pálpebras estavam a começar a
fechar-se. A mulher de rosto agradável, sentada na poltrona oposta, já dormitava, com uma revista nas mãos. Os meus olhos tinham-se fechado apenas por um segundo quando a porta do nosso compartimento se abriu. Ouviu-se uma voz irritada e uma figura desengonçada intrometeu-se entre mim e as minhas divagações.
— É preciso ter descaramento! E u bem imaginei. Tenho andado à procura em todas as
carruagens.
Era Barley, enxugando a testa e lançando-me um olhar ameaçador.