O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 72 de 83

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O Historiador

Capítulo 69

Aqueles dois dias passados em Bachkovo foram dos mais compridos da minha vida. Por

mim, teria corrido para a tal festa imediatamente, queria que estivesse a acontecer naquele exato momento, para podermos tentar seguir aquela única palavra da cantiga dragão até ao seu antro. Também receava o momento que, pensava eu, chegaria inevitavelmente, quando também essa pista se dissipasse como fumo ou acabasse por não se relacionar com coisa nenhuma. H elen já me advertira de que as canções folclóricas eram notoriamente ardilosas neste sentido; as suas origens costumavam perder-se nos séculos, as suas letras mudavam e evoluíam, os seus cantores raramente sabiam de onde ou de que época datavam.

— É o que faz delas canções folclóricas — resumiu, melancólica, alisando o colarinho

da minha camisa enquanto estávamos sentados no pátio, no nosso segundo dia no mosteiro.

E la não era dada a pequenas carícias domésticas como aquela, portanto deduzi que

devia estar preocupada. Os olhos ardiam-me e a cabeça doía-me quando olhava em volta para o chão de seixos rolados batidos pelo sol onde as galinhas debicavam. E ra um lugar lindo, raro e, para mim, exótico, e ali estávamos nós vendo a sua vida fluir como sempre desde o século onze: as galinhas procuravam insetos para comer, o gatinho rebolava aos nossos pés, a luminosidade brilhante pulsava no primoroso trabalho de cantaria em vermelho e branco que nos rodeava. E u já quase não conseguia aperceber-me da sua beleza.

N a segunda manhã, acordei muito cedo. P areceu-me que talvez tivesse ouvido os

sinos da igreja a tocar, mas não conseguia decidir se isso tinha feito parte do meu sonho. Da janela de minha cela, com a sua cortina tosca, vi quatro ou cinco monges a caminho da igreja. Vesti as minhas roupas. — M eu Deus, estavam um bocado sujas, mas não podia preocupar-me com a lavagem de roupas e desci sem fazer barulho as escadas da galeria para o pátio. E ra mesmo muito cedo, ainda madrugada lá fora, e a L ua estava a desaparecer por cima das montanhas. P or um momento, pensei em entrar na igreja e parei junto da porta, que estava aberta; de dentro, derramava-se a luz das velas e um cheiro a cera e incenso a arder, e o interior do santuário, que me parecera profundamente escuro ao meio-dia, estava aconchegante e caloroso àquela hora. Ouvi os monges entoarem os seus cânticos. A melancolia ondulante do som penetrou no meu coração como uma adaga. Os monges deviam estar a fazer exatamente o mesmo na penumbra de uma certa manhã em 1477, quando os irmãos K iril e Stefan e os outros monges deixaram para trás os túmulos dos seus amigos mortos estariam no ossário? E partiram através das montanhas, protegendo o tesouro na sua carroça. M as que direção teriam tomado? V irei-me para leste, depois para oeste — onde a L ua desaparecia muito depressa, e então para sul. Uma brisa começara a agitar de leve as folhas das tílias e, minutos depois, vi os primeiros raios de sol alcançarem as encostas distantes e o alto dos muros do mosteiro. E ntão, atrasado, um galo cantou algures nos confins do mosteiro. Aquele teria sido um momento de intenso prazer, o tipo de imersão na história com que sempre sonhei, se tivesse ânimo para isso. Dei comigo a virar-me devagar, forçando-me a adivinhar para que direção seguira o irmão K iril. N um lugar qualquer havia talvez uma tumba cuja localização se perdera há tanto tempo que até o conhecimento dela desaparecera. P odia estar a um dia de viagem a pé, ou três horas, ou uma semana. "N ão muito mais longe e sem incidentes", dissera Zacharias. Quão longe seria "não muito mais longe"? Aonde eles teriam ido? A terra estava agora a despertar aquelas montanhas e os seus bosques, os seus afloramentos de rocha cobertos de pó, o pátio de seixos rolados aos meus pés, a quinta e os prados do mosteiro, mas guardava o seu segredo.

C erca das nove horas da manhã, partimos no carro de Ranov, tendo o irmão I van como co-piloto no banco da frente. T omamos a estrada ao longo do rio durante perto de dez quilômetros, e depois o rio pareceu desaparecer e a estrada acompanhou um comprido vale seco que serpenteava abruptamente em torno das colinas. A vista daquela paisagem agitou alguma coisa na minha memória. Dei uma leve cotovelada a H elen e ela olhou para mim com ar interrogador.

— Helen, o vale do rio.

O seu rosto desanuviou-se e ela deu uma pancadinha no ombro de Ranov.

— P ergunte ao irmão para onde foi o rio. Atravessamo-lo em algum lugar? — Ranov falou com o irmão Ivan sem se virar e transmitiu-nos a resposta.

— E le diz que o rio secou aqui. E stá atrás de nós agora, onde atravessamos a última ponte. Aqui era o vale do rio há muito tempo, mas já não há água no vale.

H elen e eu entreolhamo-nos em silêncio. À nossa frente, no final do vale, avistei dois picos agudos salientando-se das colinas, duas montanhas solitárias parecidas com asas angulosas. E entre elas, ainda distantes, víamos as torres de uma pequena igreja. Subitamente, Helen agarrou a minha mão com toda a força.

M inutos depois, enveredamos por uma estrada de terra batida por dentro de amplas colinas, seguindo uma placa para uma aldeia a que chamarei Dimovo. E m seguida, a estrada ficou mais estreita e Ranov parou o carro em frente da igreja, apesar de Dimovo não estar à vista.

— A igreja de Sveti P etko, o M ártir, era muito pequena — uma capela revestida de estuque e gasta pelo tempo — e erguia-se sozinha num prado onde devia ter havido uma ceifa tardia. Dois carvalhos retorcidos formavam um abrigo por cima dela e ao lado comprimia-se um cemitério de um tipo que eu ainda não vira túmulos de camponeses, alguns datados do século dezoito, como explicou Ranov cheio de orgulho.

— I sto é tradicional, há muitos lugares como este, onde os trabalhadores rurais ainda hoje são enterrados.

Os marcos das sepulturas eram de pedra ou de madeira com uma cobertura triangular no cimo, e muitas tinham pequenas lamparinas colocadas na base.

— O irmão I van disse que a cerimônia não vai começar antes das onze e meia — disse Ranov enquanto andávamos por ali. — E stão agora a preparar a igreja. E le vai levar-nos a visitar Baba Yanka primeiro, depois voltamos para assistir a tudo.

E olhou intensamente para nós, como se quisesse verificar o que nos interessava mais. — O que está a acontecer ali?

Apontei para um grupo de homens a trabalhar no campo junto à igreja. Alguns

estavam a arrastar madeira troncos e grandes ramos e a fazer uma pilha, enquanto outros dispunham tijolos e pedras em volta dela. Já tinham recolhido um vasto arsenal da floresta.

— O irmão I van diz que é para a fogueira. N ão me tinha apercebido, mas vai haver o

ritual de caminhar sobre o fogo.

— Caminhar sobre o fogo! — exclamou Helen. — Sim — disse Ranov, inexpressivo. — C onhece esse costume? É raro na B ulgária

nesta era moderna, e mais raro ainda nesta parte do país. Só ouvi falar deste ritual na região do mar N egro. M as esta é uma região pobre e supersticiosa que o P artido ainda está a trabalhar para desenvolver. N ão tenho dúvidas de que estas coisas acabarão por ser eliminadas.

— J á ouvi falar disso — H elen voltou-se entusiasmada para mim. — E ra um costume

pagão e tornou-se cristão nos B alcãs quando as pessoas se converteram. E m geral, é mais dançar do que caminhar. E stou muito contente por saber que vamos assistir a uma coisa dessas.

Ranov encolheu os ombros e conduziu-nos para a igreja, mas não sem antes eu ter

visto um dos homens que trabalhavam perto do bosque inclinar-se e acender a pilha de lenha. O fogo pegou depressa, uma labareda subiu, depois espalhou-se e começou a rugir. A lenha estava seca e as chamas depressa atingiram o alto da pilha, fazendo todos os galhos faiscar. Até Ranov parou. Os homens que tinham preparado a fogueira recuaram uns passos, depois mais outros, e ficaram parados a limpar as mãos nas calças. Subitamente, o fogo cresceu de vez, vivo. As chamas eram quase tão altas como o telhado da igreja próxima, apesar de estarem a uma distância segura. C ontemplamos o fogo a devorar aquela enorme refeição até que Ranov se virou e recomeçou a andar.

— V ão deixá-la arder e apagar-se durante as próximas horas — disse ele. — N em os

mais supersticiosos dançariam ali agora.

Quando entramos na igreja, um homem novo, aparentemente o padre, adiantou-se

para nos cumprimentar. Apertou-nos a mão com um sorriso agradável e ele e o irmão I van curvaram-se cordialmente um para o outro.

— E le diz que é uma honra tê-los aqui para o dia do seu santo — transmitiu Ranov

com uma certa secura.

— Diga-lhe que é uma honra para nós poder assistir à festa. P ode perguntar-lhe quem

é Sveti Petko?

O padre explicou que se tratava de um mártir local, morto pelos Turcos durante a

ocupação por se recusar a abdicar da sua fé. Sveti P etko foi o padre de uma igreja anterior que havia naquele local e que os Turcos queimaram e, mesmo depois de a sua igreja ter sido destruída, negou-se a aceitar a fé muçulmana. E sta igreja foi construída mais tarde e as relíquias dele foram sepultadas na antiga cripta. N aquele dia, muita gente viria ajoelhar-se ali. O seu ícone e dois outros de grande poder seriam transportados em procissão em volta da igreja e através do fogo. Ali estava Sveti P etko, pintado na fachada da igreja e apontou para um fresco desbotado atrás dele, que mostrava um rosto barbado não muito diferente do seu. Devíamos voltar para visitar a igreja quando ele tivesse acabado todos os preparativos. Éramos bem-vindos para assistir a toda a cerimónia e receber a bênção de Sveti P etko. N ão seríamos os primeiros peregrinos de outras terras que tinham vindo até ele e recebido alívio de doenças e dores. O padre sorriu-nos docemente.

P or intermédio de Ranov, perguntei-lhe se já ouvira falar de um mosteiro chamado Sveti Georgi. Ele balançou a cabeça.

— O mosteiro mais próximo é Bachkovski — respondeu. — De vez em quando, ao longo dos anos, monges de outros mosteiros também vinham aqui em peregrinação; mas isso foi há muito tempo.

A minha interpretação era que as peregrinações tinham provavelmente cessado desde o domínio comunista, e tomei nota mentalmente para fazer a pergunta a Stoichev quando voltássemos para Sofia.

— Vou pedir-lhe que procure Baba Yanka — disse Ranov depois de um momento.

O padre sabia exatamente qual era a casa dela. Explicou que gostaria de ir conosco, mas a igreja ficara fechada durante meses ele só ali vinha nas festividades e, portanto, ele e o seu auxiliar tinham muito que fazer.

A aldeia situava-se numa depressão do terreno mesmo por trás do prado onde ficava a igreja, e era a comunidade mais pequena que eu já vira desde que chegara ao B loco Oriental: não mais de quinze casas agrupadas quase medrosamente juntas, com macieiras e hortas verdejantes nas cercanias, caminhos de terra apenas suficientemente largos para deixar passar uma carroça, um poço antigo com um poste de madeira e um balde pendurado nele. A absoluta ausência de modernidade impressionou-me, e vi-me a esquadrinhar tudo à procura de sinais do século vinte. Tudo indicava que este século não estava a decorrer ali. Senti-me quase traído quando vi um balde de plástico branco no quintal de uma das casas de pedra. Aquelas casas pareciam ter crescido em cima das pilhas de pedra cinzenta, os andares de cima feitos de alvenaria como se resultassem de uma reflexão posterior, os telhados de finas e lisas telhas de ardósia. Algumas delas exibiam belas estruturas antigas de madeira aparente entre os vãos de alvenaria, que ficariam perfeitamente adequadas numa aldeia de estilo Tudor.

Quando entramos na única rua de Dimovo, as pessoas começaram a sair das suas casas e celeiros para nos cumprimentar na maior parte, anciãos, muitos inacreditavelmente deformados pelo trabalho duro, as mulheres de pernas grotescamente arqueadas, os homens curvados como se carregassem perpetuamente um saco invisível de qualquer coisa pesada. Os seus rostos eram morenos, com bochechas coradas sorriam e davam as boas-vindas, e eu via de relance as gengivas sem dentes ou as obturações de metal a brilhar-lhe nas bocas. P elo menos, tinham acesso a algum tratamento dentário, pensei, ainda que fosse difícil imaginar onde e como. Alguns adiantaram-se para se curvarem para o irmão I van, ele abençoou-os e parecia estar a fazer-lhes perguntas a respeito deles. Andamos até à casa de B aba Yanka no meio de uma pequena multidão, cujos membros mais novos deviam ter setenta anos, embora H elen me dissesse mais tarde que esses camponeses teriam talvez vinte anos menos do que aparentavam.

A casa de B aba Yanka era muito pequena, quase uma cabana, e apoiava-se

pesadamente num pequeno palheiro. E la própria viera à porta da frente para ver o que estava a acontecer; o que primeiro notei nela foi a mancha viva do seu lenço de cabeça estampado de flores vermelhas, depois o seu corpete e o avental às riscas. E la olhou para nós e alguns do aldeões gritaram o seu nome, o que a fez balançar rapidamente a cabeça. A pele do rosto dela era cor de mogno, tinha o nariz e o queixo pontiagudos, e os olhos à medida que chegávamos mais perto dela pareciam ser castanhos, mas estavam escondidos nas dobras das rugas.

Ranov gritou-lhe qualquer coisa eu só podia esperar que não fosse nada de autoritário

ou desrespeitoso e, depois de nos examinar durante uns instantes, fechou a porta de madeira. Esperamos em silêncio do lado de fora e, quando ela a abriu novamente, verifiquei que não era tão baixinha como eu imaginara; chegava solidamente ao ombro de H elen e os seus olhos eram alegres no rosto cauteloso. B eijou a mão do irmão I van e trocamos apertos de mão com ela, o que a princípio pareceu embaraçá-la. Depois, enxotou-nos para dentro da casa como se fôssemos um bando de galinhas.

A casa era muito pobre por dentro, mas limpa, e reparei com uma ponta de simpatia

que ela a enfeitara com uma jarra de flores silvestres frescas, colocada sobre a mesa riscada mas imaculada. A casa da mãe de H elen era uma mansão comparada com aquele aposento arrumado e decrépito, com uma escada para o piso superior pregada numa parede. P erguntei-me durante quanto tempo ainda B aba Yanka conseguiria usar a escada, mas ela movimentava-se pela casa com tanta energia que, gradualmente, comecei a compreender que não era de fato velha. Fiz esse comentário em voz baixa a Helen, que concordou.

— Deve ter uns cinquenta anos — respondeu ela. Fiquei impressionado. A minha mãe, em B oston, tinha cinquenta e dois anos, e poderia

passar por neta daquela mulher. As mãos de Baba Yanka eram tão nodosas como os seus pés eram ligeiros; observei-a a trazer pratos cobertos com panos e a colocar copos à nossa frente e imaginei o que teria feito com aquelas mãos a vida inteira para ficarem daquela maneira. Abatido árvores, talvez, cortado lenha, trabalhado nas colheitas, ao frio e ao calor. Deu uma ou duas olhadelas para nós enquanto trabalhava, cada uma acompanhada de um rápido sorriso, e por fim serviu-nos uma bebida — uma coisa branca e espessa que Ranov engoliu de um trago, sacudindo a cabeça para ela e limpando a boca com o lenço. E u fiz o mesmo e a bebida quase me matou; era morna e sabia nitidamente a estábulo. Fiz um esforço para esconder as náuseas enquanto B aba Yanka me piscava o olho. H elen bebeu a sua dose com dignidade e Baba Yanka afagou-lhe a mão.

— L eite de ovelha misturado com água — esclareceu H elen. — P ensa nisso como um batido de leite.

— Agora, vou pedir-lhe para cantar — disse-nos Ranov. — É isso que querem, não é?

C onferenciou com o irmão I van, que se dirigiu a B abaYanka. A mulher recusou-se, sacudindo a cabeça desesperadamente. N ão, não ia cantar; não queria, era evidente. Fez um gesto na nossa direção e pôs as mãos debaixo do avental. M as o irmão I van era persistente.

— Vamos pedir-lhe para cantar primeiro o que quiser — explicou Ranov. — Depois, podem pedir a canção que vos interessa.

B aba Yanka parecia ter-se resignado, e interroguei-me se todo aquele protesto não teria sido um ritual de modéstia, porque ela já estava a sorrir de novo. Suspirou, depois levantou os ombros sob a blusa bastante usada de flores vermelhas. Olhou para nós muito séria e abriu a boca. O som que saiu de lá era espantoso; antes de tudo, era espantosamente alto, tanto que todos os copos chocalharam sobre a mesa e as pessoas do lado de fora da porta aberta, metade da aldeia devia estar ali reunida puseram as cabeças para dentro. V ibrava das paredes e sob os nossos pés, e fazia as réstias de cebolas e pimentos balançarem por cima do fogão velho. Segurei a mão de H elen às escondidas. P rimeiro, uma nota atingiu-nos, depois outra, cada uma longa e lenta, cada uma um lamento de saudade e desesperança. L embrei-me da donzela que preferira saltar do alto de um penhasco a ser levada para o harém do paxá e imaginei que aquele fosse um tema semelhante. B aba Yanka, entretanto, sorria a cada nota, aspirando enormes quantidades de ar e sorrindo, exultante, para nós. Ouvimos num silêncio atordoado até que ela de repente acabou; a última nota pareceu perdurar muito tempo na casa pequenina.

— P or favor, peça-lhe para nos repetir a letra da música — disse H elen. C om um certo esforço aparente que não diminuiu o seu sorriso, Baba

Yanka recitou a letra da canção e Ranov traduziu.

O herói estava a morrer no alto da verde montanha, O herói estava a morrer com nove feridas no corpo. Ó falcão, voa até ele e diz-lhe que os seus homens estão salvos, Salvos nas montanhas, todos os seus homens.

O herói tinha nove feridas no corpo

Mas foi a décima que o matou.

Quando terminou, B aba Yanka esclareceu um ou outro ponto com Ranov, ainda a sorrir e sacudindo um dedo para ele. T ive a sensação de que ela lhe daria umas palmadas e o mandaria dormir sem jantar se ele fizesse alguma coisa errada na sua casa.

— Pergunte-lhe se a canção é muito antiga — pediu Helen — e onde a aprendeu. Ranov fez a pergunta e B aba Yanka explodiu em gargalhadas, fazendo um gesto por

cima do ombro, acenando com as mãos. Ranov chegou mesmo a sorrir.

— E la diz que a canção é velha como as montanhas e nem a sua bisavó sabia quão

velha era. Aprendeu-a com a bisavó, que viveu até aos noventa e três anos.

E m seguida, B aba Yanka quis fazer-nos perguntas. Quando fixou os olhos em nós, vi

que eram maravilhosos, amendoados, sob o desgaste do sol e do vento, e castanho-dourados, quase cor de âmbar, mais claros sob o vermelho do lenço. Sacudiu a cabeça, incrédula, quando soube que éramos da América.

— Amérika? — Pareceu ponderar. — Isso deve ser para lá da montanha. — E la é uma velha muito ignorante — comentou Ranov. — O governo está a fazer o

melhor que pode para elevar o padrão de educação aqui. É uma prioridade importante.

Helen tinha pegado num papel e depois agarrou na mão da mulher. — P ergunte-lhe se conhece uma canção com esta letra. Vai ter de lha traduzir. "O

dragão desceu ao nosso vale. E queimou as colheitas e tomou as donzelas."

Ranov traduziu as palavras para Baba Yanka. Ela ouviu, atenta, por um momento, mas

depois o seu rosto contraiu-se de medo e desagrado; recuou na cadeira de madeira e fez rapidamente o sinal da cruz.

— Ne! disse com veemência, tirando a mão da mão de Helen. — Ne, ne. Ranov encolheu os ombros.

— Vocês compreenderam. Ela não a conhece. — É claro que conhece — disse eu, baixo. — P ergunte-lhe por que está com medo de

nos falar sobre isso.

Desta vez, o rosto da mulher assumiu um ar severo. — Ela não quer falar sobre isso disse Ranov. — Diga-lhe que lhe daremos uma recompensa. As sobrancelhas de Ranov ergueram-se outra vez, mas apresentou a proposta a B aba

Yanka.

— E la diz que temos de fechar a porta. — Ranov levantou-se e fechou sem ruído as

portas e as janelas de madeira, isolando-nos dos espectadores na rua. — E la vai cantar agora.

N ão podia haver maior contraste entre o desempenho de B aba Yanka da primeira

canção e o da segunda. T ínhamos a impressão de que ela se encolhia na cadeira, baixando-se no assento e olhando para o chão. O seu sorriso jovial desaparecera e os seus olhos ambarinos estavam fixos nos nossos pés. A melodia que produzia era certamente melancólica, embora a última frase da estrofe parecesse terminar numa nota de desafio. Ranov traduziu meticulosamente. P or que razão, perguntei-me de novo, estaria a ser tão colaborante?

O dragão desceu ao nosso vale.

E queimou as colheitas e tomou as donzelas,

E assustou o turco infiel e protegeu as nossas aldeias. O seu sopro secou os rios e nós atravessámo-los a pé. Agora, temos de nos defender.

O dragão era o nosso protetor,

Mas agora defendemo-nos dele.

— Bem — disse Ranov. -Não é o que queriam ouvir?

— Sim — H elen acariciou a mão de B aba Yanka e a velha começou a falar em tom de repreensão. — P ergunte-lhe de onde é esta canção e por que motivo ela a receia tanto — pediu Helen.

Ranov precisou de alguns minutos para se desenvencilhar das queixas de Baba Yanka.

— E la aprendeu esta canção em segredo com a bisavó, que lhe disse para nunca a cantar depois de escurecer. É uma canção que traz má sorte. N ão parece, mas é. E les nunca a cantam aqui, a não ser no dia de São J orge. É o único dia em que pode ser cantada sem perigo, sem atrair a má sorte. E la espera que vocês não tenham feito a sua vaca morrer, ou coisa pior, por causa disto.

Helen sorriu.

— Diga-lhe que tenho uma recompensa para ela, um presente que afasta a má sorte e traz boa sorte. — — Abriu a mão calejada de B aba Yanka e pôs dentro dela um medalhão de prata. — I sto pertence a um homem muito devoto e sábio, e ele mandou-o para a senhora, para a proteger. Mostra Sveti Ivan Rilski, um grande santo búlgaro.

P ercebi que deveria ser o objeto que Stoichev pusera na mão de H elen. B aba Yanka olhou para ele um instante, virando-o na grossa palma da mão, depois levou-o aos lábios e beijou-o. Em seguida, enfiou-o nalgum compartimento secreto do avental.

— Blagodarya — disse, e beijou a mão de H elen, também, afagando-a como se tivesse encontrado uma filha há muito perdida.

Helen dirigiu-se outra vez a Ranov.

— P or favor, pergunte-lhe só se sabe o que significa a canção e de onde veio, E por que é cantada no dia de São Jorge?

Baba Yanka encolheu os ombros.

— A canção não significa nada. É só uma velha canção que dá azar. A minha bisavó dizia que algumas pessoas achavam que tinha vindo de um mosteiro. M as não é possível, porque os monges não cantam canções como essa, cantam louvores a Deus. Nós cantamo-la no dia de São Jorge porque ela chama Sveti Georgi para matar o dragão e pôr fim às torturas que ele inflige ao povo.

— Que mosteiro? — perguntei, exaltado. — P ergunte-lhe se sabe de um mosteiro chamado Sveti Georgi, que desapareceu há muito tempo.

Mas Baba Yanka só balançou a cabeça e deu estalidos com a língua.

— N ão há nenhum mosteiro aqui. O mosteiro é em B achkovo. Só temos a igreja, onde

vou cantar com a minha irmã esta tarde.

Resmunguei e fiz Ranov tentar uma vez mais. Dessa vez, ele também estalou a língua. — E la diz que não. N ão conhece nenhum mosteiro. N unca houve nenhum mosteiro

aqui.

— Quando é o dia de São Jorge? — perguntei. — Dia seis de Maio — Ranov olhou-me com desdém. — Já passou, perderam-no, foi há

semanas.

Fiquei calado, mas entretanto B aba Yanka animou-se de novo. Apertou-nos as mãos,

beijou Helen e fez-nos prometer que iríamos ouvi-la cantar naquela tarde.

— É muito melhor com a minha irmã. Ela faz a segunda voz. Dissemos que estaríamos lá. E la insistiu em oferecer-nos do almoço que estava a

preparar quando chegamos; consistia em batatas, uma espécie de papa e mais leite de ovelha, a que eu pensei que poderia acabar por me habituar, se ficasse uns meses ali. C omemos tão agradecidos quanto foi possível, elogiando a sua habilidade culinária, até Ranov dizer que devíamos voltar para a igreja se quiséssemos ver o início da cerimónia. B aba Yanka separou-se de nós com relutância, apertando-nos as mãos e os braços e dando palmadinhas no rosto de Helen.

N aquela altura a fogueira junto à igreja tinha quase acabado de arder, embora alguns

troncos ainda chamejassem por cima das brasas, num fogo pálido sob o forte sol da tarde. Os aldeões já começavam a reunir-se perto da igreja, antes mesmo que os sinos começassem a tocar. E os sinos tocaram e tocaram no cimo da pequena torre de pedra, e o jovem padre veio à porta. E stava agora vestido de vermelho e ouro, com um comprido manto bordado por cima da túnica e um xale negro enrolado em volta do chapéu. Segurava um incensório preso a uma corrente de ouro, que balançou em três direcções fora da porta da igreja.

As pessoas ali reunidas mulheres vestidas como B aba Yanka, com riscas e flores ou de

preto dos pés à cabeça, os homens de calças e coletes de áspera lã castanha, com camisas brancas atadas ou abotoadas até ao pescoço recuaram quando o padre surgiu. E ste dirigiu-se para eles, abençoando-os com o sinal da cruz, e alguns deles curvavam a cabeça e inclinavam-se diante dele. Atrás dele vinha um homem mais velho, vestido como um monge, todo de preto, que deduzi ser o seu auxiliar. O homem segurava nos braços um ícone envolto em seda púrpura. C onsegui vislumbrá-lo rapidamente um rosto rígido, pálido, de olhos escuros. Aquele devia ser Sveti P etko, pensei. Os aldeões seguiram o ícone em silêncio em torno da igreja numa única massa ondulante, muitos deles andando com bengalas ou apoiando-se nos braços dos mais jovens. B aba Yanka encontrou-nos e deu-me o braço, orgulhosa, como se quisesse mostrar aos vizinhos como era bem relacionada. T odos olhavam para nós; pensei que estávamos a ser alvo de pelo menos tanta atenção como o ícone.

Os dois padres conduziram-nos a todos em silêncio em volta da parte de trás da igreja e ao longo do outro lado, de onde víamos o anel de fogo a uma curta distância e sentíamos o cheiro do fumo que subia dele. As chamas estavam a morrer, sem serem atiçadas, os últimos grandes toros e os ramos já com uma profunda cor alaranjada, num enorme braseiro. Fizemos essa procissão três vezes à volta da igreja, quando o padre se deteve outra vez diante do pórtico da igreja e começou a entoar um cântico. De vez em quando, o auxiliar mais velho respondia, outras vezes a assembleia de fiéis murmurava uma resposta, benzendo-se ou curvando-se. B aba Yanka largara o meu braço, mas mantinha-se junto de nós. Reparei que Helen observava tudo com enorme interesse, assim como Ranov.

N o fim dessa cerimónia ao ar livre, seguimos os fiéis para dentro da igreja, que estava escura como um túmulo depois da claridade dos campos e dos bosques. E ra uma igreja pequena, mas o seu interior tinha uma harmonia de proporções de que as igrejas maiores que tínhamos visto não se podiam gabar. O jovem padre pousou o ícone de Sveti P etko em lugar de honra na frente, reclinado num suporte esculpido. Avistei o irmão I van curvando-se diante do altar. C omo de costume, não havia bancos, as pessoas ficavam de pé ou ajoelhavam-se no frio chão de pedra, e algumas mulheres idosas prostraram-se no meio da igreja. As paredes laterais tinham nichos pintados com frescos ou abrigavam ícones, e num deles escancarava-se uma abertura escura que presumi ser a entrada para a cripta. E ra fácil imaginar séculos de devoção dos camponeses neste lugar e na antiga igreja que existira ali antes desta.

Depois do que me pareceu uma eternidade, os cânticos cessaram. As pessoas curvaram-se novamente e começaram a sair da igreja, alguns parando aqui e ali para beijar ícones ou acender velas, que colocavam nos candelabros de ferro perto da entrada. Os sinos da igreja soaram e seguimos os aldeões para o lado de fora outra vez, onde recebemos sem aviso o impacto do sol, da brisa e dos campos cheios de luz. Uma mesa comprida tinha sido instalada sob uma árvore e já havia mulheres a destapar travessas e a servir bebidas de jarros de cerâmica. V i então que havia um segundo braseiro daquele lado da igreja, este pequeno, onde um cordeiro estava a ser assado num espeto. Dois homens giravam o espeto por cima das brasas com uma manivela e o cheiro trouxe um aguar primitivo à minha boca. B aba Yanka encheu ela própria os nossos pratos e levou-nos para uma manta estendida afastada da multidão. Lá, conhecemos a irmã, que se parecia muito com ela, só que era mais alta e mais magra, e todos nos regalamos com a excelente comida. Até Ranov, dobrando com cuidado em cima da manta de lã as pernas enfiadas no fato citadino, parecia quase contente. Outros aldeões pararam para nos cumprimentar e perguntar a B aba Yanka e à irmã quando iriam cantar, uma atenção que elas recebiam com um aceno e a dignidade de estrelas de ópera.

Quando o cordeiro já tinha sido completamente devorado e as mulheres estavam a limpar os pratos para uma selha de madeira, vi que três homens tinham pegado em instrumentos musicais e preparavam-se para tocar. Um deles tinha o instrumento mais esquisito que já vi de perto uma bolsa feita de pele curtida de animal e flautas de madeira a saírem dela. E ra claramente um tipo de gaita-de-foles, e Ranov contou-nos que se tratava de um antigo instrumento da B ulgária, chamado gaida, feito de pele de cabra. O velho que o tinha nos braços inflou-o aos poucos como um grande balão; este processo levou uns bons dez minutos, e ele já estava com a cara de um vermelho intenso ainda antes de acabar. Encaixou-o sob um dos braços, soprou uma das flautas e todos deram vivas e aplaudiram. O som era também o de um animal, um balido alto, um guincho, e Helen deu uma risada.

— Sabes — contou-me ela —, há sempre uma gaita-de-foles em todas as culturas

pastoris do mundo.

E ntão o velho começou a tocar e logo a seguir os seus amigos acompanharam-no, um

com uma comprida flauta de madeira, cujo som girava em torno de nós como uma fita fluida, o outro a bater num tambor de pele macia com um bastão acolchoado. Algumas mulheres puseram-se de pé e formaram uma fila, e um homem com um lenço branco, como tínhamos visto na casa de Stoichev, conduziu-as pelo campo fora. Os que eram muito velhos ou doentes para poder dançar permaneciam sentados, sorrindo com os seus dentes terríveis e gengivas nuas, ou batiam com a mão no chão ao seu lado, ou marcavam o ritmo com as bengalas.

B aba Yanka e a irmã ficaram quietas onde estavam, como se o seu momento ainda não

tivesse chegado. E speraram até que o flautista as chamasse, fazendo gestos e sorrindo, e depois até que a sua plateia se lhe juntasse chamando-as. Só então, fingindo uma certa relutância, levantaram-se finalmente e, de mãos dadas, juntaram-se aos músicos. T odos ficaram em silêncio e a gaida tocou uma pequena introdução. As duas velhas começaram a cantar, os braços entrelaçados na cintura uma da outra, e o som que produziram uma harmonia de revirar o estômago, áspera e bela parecia vir de um só corpo. O som da gaida cresceu em torno e as três vozes, as das duas mulheres e a da cabra, elevaram-se juntas e espalharam-se sobre nós como o gemido da própria terra. Os olhos de H elen estavam subitamente marejados de lágrimas, o que era tão pouco o seu gênero que pus o braço à volta dela em frente de todos.

Depois de as mulheres terem cantado cinco ou seis canções, intercaladas pelos vivas

da multidão, todos se levantaram, obedecendo não sei a que sinal, até que vi o padre a aproximar-se outra vez. T ransportava o ícone de Sveti P etko, agora envolto em veludo vermelho, e atrás dele vinham dois meninos, ambos vestidos com túnicas escuras e cada um trazendo um ícone inteiramente coberto de seda branca. E sta procissão abriu caminho em torno do outro lado da igreja, com os músicos atrás a tocar uma melodia soturna, e deteve-se entre a igreja e o grande anel de fogo. O fogo extinguira-se por completo; só restava um círculo de brasas, infernalmente vermelhas e profundas. Fiapos de fumo desprendiam-se delas de vez em quando, como se algo por baixo estivesse vivo e a respirar. O padre e os seus acólitos ficaram parados junto da parede da igreja, segurando os seus tesouros à sua frente.

P or fim, os músicos começaram a tocar uma nova melodia — viva e sombria ao mesmo tempo, pensei e, um a um, os aldeões que podiam dançar, ou pelo menos andar, formaram uma longa fila sinuosa que lentamente se foi colocando em torno do fogo. Quando a fila serpenteou em frente da igreja, B aba Yanka e outra mulher não era a irmã, desta vez, mas uma mulher ainda mais gasta pelo tempo cujos olhos enevoados pareciam quase cegos adiantaram-se e curvaram-se para o padre e para os ícones. T iraram os sapatos e as meias e acomodaram-nos com cuidado junto aos degraus da igreja, beijaram o rosto austero de Sveti P etko e receberam a bênção do padre. Os jovens acólitos do padre deram um ícone a cada mulher, retirando-lhes as suas capas de seda. A música soou mais alta, o tocador de gaida suava profusamente, o rosto escarlate, as bochechas enormes.

E m seguida, B aba Yanka e a mulher de olhos enevoados avançaram dançando, sem perder o ritmo, e então, enquanto eu me mantinha imóvel a assistir, elas dançaram descalças sobre o fogo. C ada uma das mulheres segurava o seu ícone bem alto à sua frente ao entrar no anel de brasas; as duas tinham a cabeça erguida, o olhar cheio de dignidade perdido noutro mundo. A mão de Helen apertou tanto a minha que os dedos me doíam. Os pés delas subiam e desciam sobre as brasas ardentes, levantando fagulhas; a certa altura, vi a bainha da saia às riscas de Baba Yanka ser chamuscada. Dançaram sobre as brasas ao ritmo misterioso do tambor e da gaita-de-foles, e cada uma seguia uma direção diferente dentro do círculo de fogo.

E u não tinha conseguido ver os ícones quando elas entraram no círculo, mas agora reparava que um deles, nas mãos da mulher cega, mostrava a Virgem Maria com o filho nos joelhos, a cabeça inclinada sob uma pesada coroa. Só vi o ícone que B aba Yanka transportava quando ela completou o círculo outra vez. O rosto de B aba Yanka era impressionante, os olhos enormes e fixos, os lábios frouxos, a pele curtida a reluzir com o tremendo calor. O ícone que ela trazia devia ser muito antigo, como o da V irgem, mas, através das suas manchas de fumo e da reverberação do calor, consegui distinguir nitidamente uma imagem: mostrava duas figuras frente a frente numa espécie de dança só delas, duas criaturas igualmente dramáticas e ameaçadoras. Uma era um cavaleiro de armadura e manto vermelho, a outra, um dragão com uma longa cauda enrolada.