O Historiador
Capítulo 2
— C omo sabes — disse o meu pai —, antes do teu nascimento, eu dava aulas numa
universidade americana. Antes disso, estudei durante muitos anos para ser professor. A princípio, achava que iria estudar literatura. E ntão, descobri que gostava mais das histórias verdadeiras do que das imaginárias. T odas as histórias literárias que lia me levavam a uma espécie de... exploração... da H istória. E assim acabei por me render a ela. E fico muito satisfeito por também te interessares por História.
"N uma noite de P rimavera, quando eu ainda era estudante de pós-graduação, estava
no meu compartimento de estudos na biblioteca da universidade, sentado sozinho, já muito tarde, entre fileiras e fileiras de livros. Ao levantar os olhos do meu trabalho, notei que alguém havia deixado um livro cuja lombada nunca vira no meio dos meus livros, que ficavam numa prateleira acima da minha escrivaninha. A lombada desse livro mostrava um pequeno dragão de desenho elegante, verde sobre um fundo de couro claro.
N ão me lembrava de ter visto aquele livro ali ou em qualquer outro lugar, por isso
peguei nele e folheei-o sem pensar muito. A encadernação era de couro macio, esmaecido, e as páginas pareciam muito antigas. Abriu-se com facilidade, justamente no meio. Ocupando essas duas páginas centrais, vi uma xilogravura com a imagem de um dragão de asas abertas e uma comprida cauda enrolada, uma fera à solta, enraivecida, as garras à mostra. Das garras do dragão pendia um estandarte no qual havia uma única palavra escrita em caracteres góticos: DRÁKULA.
Reconheci logo a palavra e pensei no romance de B ram Stoker, que ainda não tinha
lido, e nessas noites da minha infância, no cinema do bairro, com B ela L ugosi contemplando o alvo pescoço de alguma estrela de cinema de então. M as a grafia da palavra era estranha e o livro visivelmente muito antigo. Além disso, eu era um acadêmico, profundamente interessado na H istória européia e, depois de olhar para aquilo por alguns segundos, lembrei-me de algo que lera. O nome derivava da raiz latina significando dragão ou demônio, o título honorífico de Vlad Tepes — o E mpalador — da Valáquia, um senhor feudal da região dos C árpatos que torturava os seus súbditos e prisioneiros de guerra de formas incrivelmente cruéis. E u estava a estudar o comércio na Amsterdã do século dezessete, portanto não havia razão para um livro sobre aquele assunto estar metido entre os meus, e concluí que fora deixado ali por acaso, talvez por alguém que estivesse a trabalhar sobre a história da Europa Central ou sobre símbolos feudais.
Folheei o resto das páginas quando se lida com livros o dia inteiro, cada livro novo que
aparece é um amigo e uma tentação. P ara minha surpresa, o resto do livro todas aquelas belas páginas antigas, cor de marfim estava totalmente em branco. N ão havia sequer uma página com o título, muito menos informações sobre onde e quando o livro fora impresso, mapas, páginas de guarda ou outras ilustrações. N ão tinha o carimbo da biblioteca da universidade, nem qualquer ficha, selo ou etiqueta.
Depois de contemplar o livro por mais alguns minutos, pousei-o na minha escrivaninha e desci para examinar o ficheiro no rés-do-chão. H avia de fato uma ficha temática para "Vlad I I I ("Tepes") da Valáquia, 1431-1476 Ver também Valáquia, T ransilvânia, e Drácula". P ensei que devia começar por procurar um mapa; depressa descobri que a Valáquia e a T ransilvânia eram duas antigas regiões situadas onde hoje fica a Romênia. A T ransilvânia parecia muito mais montanhosa, com a Valáquia a limitá-la a sudoeste. N as estantes, encontrei o que parecia ser a única fonte da biblioteca sobre o assunto, uma estranha tradução de 1890 para o I nglês de uns folhetos sobre "Drakula". Os folhetos originais tinham sido impressos em N uremberg nas décadas de 1470 e 1480, alguns anos antes da morte de Vlad. A referência a N uremberg deu-me um calafrio; poucos anos antes, acompanhara atentamente os julgamentos dos líderes nazis ali realizados. T inha menos um ano que a idade mínima exigida para entrar na guerra quando esta acabou e interessei-me pelas suas consequências com todo o fervor dos excluídos. O volume de folhetos tinha um frontispício, uma xilogravura tosca do busto de um homem, um homem de pescoço taurino e olhos negros e fundos, bigode comprido e um chapéu enfeitado com uma pluma. A imagem era surpreendentemente vívida, tendo em conta o método primitivo de impressão.
Sabia que devia prosseguir o meu trabalho, mas não pude deixar de ler o começo de um dos folhetos. T ratava-se de uma lista dos crimes de Drácula contra o seu próprio povo e contra alguns outros grupos também. Sou ainda capaz de repetir de cor o que dizia essa lista, mas prefiro não o fazer era extremamente perturbador. Fechei o pequeno volume com um gesto brusco e voltei para o meu local de estudo. O século dezessete ocupou-me a atenção até quase à meia-noite. Deixei o estranho livro fechado em cima da escrivaninha, na esperança de que o seu dono o encontrasse ali no dia seguinte, e fui para casa dormir.
N a manhã seguinte, tinha uma reunião. E stava cansado da longa noite anterior mas, no fim das aulas, bebi duas chávenas de café e voltei à minha pesquisa. O livro antigo ainda lá estava, agora aberto e exibindo o turbulento dragão. Depois da minha curta noite de sono e do café que me serviu de almoço, aquilo deu-me a volta à cabeça, como se dizia nos romances antigos. Olhei de novo para o livro, com mais cuidado. A imagem central era sem dúvida uma xilogravura, talvez um desenho medieval, um excelente trabalho do gênero. Achei que o livro devia ser valioso do ponto de vista financeiro, ou talvez tivesse valor pessoal para algum estudioso, já que era óbvio que não se tratava de um livro da biblioteca.
Entretanto, no estado de espírito em que me encontrava, não gostei de o ver ali. Fechei o livro com uma certa impaciência e sentei-me para escrever sobre guildas de comerciantes até ao final da tarde. Ao sair da biblioteca, parei no balcão da entrada e entreguei o livro, explicando o que acontecera. O bibliotecário prometeu colocá-lo no armário dos achados e perdidos.
As oito horas da manhã seguinte, quando entrei no meu compartimento para trabalhar um pouco mais no meu tema, lá estava o livro outra vez em cima da escrivaninha, aberto e exibindo a sua única e terrível ilustração. Desta vez, aborreci-me e achei que o bibliotecário me entendera mal. C oloquei rapidamente o livro numa das minhas prateleiras e passei o dia inteiro sem me permitir olhar para ele. N o fim do dia, tinha um encontro com o meu orientador e, ao recolher os meus papéis para os examinarmos juntos, peguei no livro misterioso e acrescentei-o à pilha. Foi um impulso; não pretendia ficar com ele, mas o professor Rossi gostava de mistérios históricos e imaginei que pudesse diverti-lo. Além disso, talvez ele conseguisse identificá-lo, com os seus vastos conhecimentos sobre a história da Europa.
E u tinha o hábito de me encontrar com Rossi no fim da sua aula da tarde e gostava de
me esgueirar para dentro da sala antes que ele acabasse, para o ver em acção N aquele semestre, estava a dar um curso sobre o M editerrâneo antigo e eu acompanhara o final de várias das suas palestras, todas brilhantes e teatrais, imbuídas do seu grande talento para a oratória. Desta vez, sentei-me discretamente numa cadeira do fundo a tempo de o ouvir concluir uma discussão sobre o restauro do palácio minóico de C reta por Sir Arthur E vans. A sala, um enorme auditório que comportava quinhentos alunos, estava mergulhada na penumbra. O silêncio era digno de uma catedral. N inguém se mexia, todos os olhares estavam fixos na sua elegante figura.
Rossi estava sozinho no palco iluminado. Às vezes, andava de um lado para o outro,
explanando idéias em voz alta como se estivesse a ruminar para si mesmo na privacidade do seu gabinete. De vez em quando, parava repentinamente, fixando os seus alunos com um olhar intenso, um gesto eloquente, uma declaração surpreendente. I gnorava o estrado, desdenhava os microfones e nunca usava anotações, embora uma vez por outra mostrasse slides, dando pancadinhas secas com um ponteiro na tela imensa para reforçar a sua argumentação. E m certas ocasiões, ficava tão entusiasmado que levantava os dois braços e atravessava metade do palco a correr. C ontava-se que certa vez chegara a cair da frente do palco num arroubo sobre o florescimento da democracia grega e voltara a subir sem perder o fio à meada. Nunca me atrevi a perguntar-lhe se isso era verdade.
Naquele dia, estava pensativo, caminhando de lá para cá com as mãos atrás das costas. — Sir Arthur E vans, façam o favor de se lembrar, restaurou o palácio do rei M inos em
C nossos em parte de acordo com o que lá encontrou e em parte de acordo com a sua própria imaginação, com a sua visão de como teria sido a civilização minóica.
Olhou fixamente para a abóbada acima de nós. — Os registros eram escassos e ele estava a lidar principalmente com mistérios. E m vez
de se colar a uma exatidão limitativa, usou a imaginação para criar um estilo de palácio de uma veracidade emocionante e falsa. Estaria errado ao agir assim?
E fez uma pausa, olhando com um ar quase melancólico para o mar de cabeças
despenteadas, poupas, cortes à escovinha, casacos deliberadamente surrados e jovens e graves rostos masculinos (lembra-te que na época só os rapazes iam para uma universidade como aquela, ao passo que tu, querida filha, provavelmente vais poder matricular-te onde quiseres). Quinhentos pares de olhos estavam voltados para ele.
— Vou deixá-los refletir sobre esta questão.
Rossi sorriu, virou-se abruptamente e afastou-se da ribalta.
T odos respiraram fundo; os alunos começaram a conversar e a rir, a reunir os seus pertences. Rossi costumava ir sentar-se na beira do palco depois da palestra, e alguns dos seus discípulos mais ávidos acorriam para lhe fazerem perguntas a que ele respondia com seriedade e bom humor até o último aluno ir embora, e então eu aproximava-me para o cumprimentar.
— P aul, meu amigo! Vamos subir e falar holandês! — deu-me uma pancadinha afectuosa no ombro e saímos juntos.
O gabinete de Rossi divertia-me sempre porque contrariava o padrão do gabinete do professor lunático: os livros alinhavam-se em ordem nas prateleiras, uma pequena cafeteira muito moderna junto à janela satisfazia-lhe o vício do café, plantas que nunca ficavam sem água enfeitavam a secretária e ele próprio estava sempre vestido com esmero, com as suas calças de tweed e camisa e gravata impecáveis. O seu rosto tinha traços nitidamente ingleses, bem marcados, e olhos intensamente azuis; contou-me certa vez que do seu pai, um imigrante toscano que fora para o Sussex, herdara apenas o amor pela boa comida.
Olhar para o rosto de Rossi era vislumbrar um mundo tão definido e ordenado como o render da guarda no palácio de Buckingham.
A sua cabeça era outra coisa completamente diferente. M esmo depois de quarenta anos de rigoroso autodidatismo, fervia com os vestígios do passado, fervilhava com o que não fora explicado. A sua produção enciclopédica há muito que lhe granjeara louvores num mundo editorial muito mais amplo do que a imprensa acadêmica. Assim que terminava um trabalho, voltava-se para outro, muitas vezes mudando abruptamente de direção. C omo resultado, era procurado por alunos de inúmeras disciplinas, e fui considerado uma pessoa de sorte por ter conseguido que orientasse a minha tese. E ra também o amigo mais amável e caloroso que já tivera.
— M uito bem — disse ele, ligando a cafeteira e fazendo sinal para que eu me sentasse, — como vai a obra?
C oloquei-o a par de várias semanas de trabalho e tivemos uma rápida discussão sobre o comércio entre Utreque e Amsterdã no início do século dezessete. Serviu o seu excelente café em chávenas de porcelana e ambos nos recostamos nas nossas cadeiras, ele atrás da sua grande secretária. O aposento estava banhado pela agradável luminosidade que ainda persistia àquela hora, cada dia mais tarde, agora que a P rimavera se instalara. E ntão, lembrei-me do meu livro antigo.
— T rouxe-lhe uma curiosidade, Ross. Alguém deixou por engano uma coisa bastante mórbida no meu canto de estudos na biblioteca há dois dias e resolvi trazer-lha para dar uma olhadela.
— Deixe-me ver. — P ousou a delicada chávena e estendeu a mão para pegar no meu livro. — B oa encadernação. E ste couro pode ser até algum tipo de velino pesado. E tem uma estampa em relevo na lombada. — Algo na lombada do livro tornou-lhe sombrio o olhar habitualmente claro.
— Abra-o — sugeri.
N ão compreendia o motivo da súbita palpitação do meu coração enquanto esperava
que ele repetisse a minha experiência de encontrar o livro quase todo em branco. E ste abriu-se nas suas mãos treinadas exatamente no centro. De onde eu estava, não via o que ele estava a ver atrás da secretária, mas via-o ver. O rosto ficou de repente sério com uma expressão imóvel, que eu desconhecia. Folheou o livro para a frente e para trás, como eu fizera, mas a seriedade não se transformou em surpresa.
— Sim, vazio. — Pousou-o aberto sobre a secretária. — Todo em branco. — Não é esquisito? — O meu café estava a ficar frio na chávena que eu segurava. — É muito antigo. M as não está em branco apenas por estar inacabado. E stá apenas
ostensivamente em branco para dar destaque à gravura do centro.
— P ois é, como se a criatura no meio tivesse devorado tudo à sua volta. — C omecei a
frase num tom frívolo, mas acabei-a devagar, pausado.
Rossi não conseguia tirar os olhos da imagem central aberta diante dele. P or fim,
fechou o livro com firmeza e mexeu o café sem o beber.
— Onde é que arranjou isto?
— B em, como lhe disse, alguém o deixou sem querer na minha mesa na biblioteca há
dois dias. Acho que devia ter levado o livro imediatamente para a seção de L ivros Raros, mas, para ser sincero, acredito que pertença a alguém, por isso não o levei.
— Ah, e é verdade — disse Rossi, encarando-me, — pertence mesmo a alguém. — Quer dizer que sabe de quem é?
— Sei. É seu.
— N ão, não é isso, eu só o encontrei na minha... — A expressão do seu rosto fez-me
parar. P arecia dez anos mais velho, talvez por algum efeito especial da luz crepuscular na janela. — O que quer dizer, como pode ser meu?
Rossi levantou-se lentamente e dirigiu-se a um canto do gabinete atrás da secretária,
subindo dois degraus da escadinha de biblioteca para tirar um pequeno volume escuro. Ficou parado a olhar para ele um instante, como se hesitasse em dar-mo. E ntão, entregou-me o livro.
— O que acha disto?
O livro era pequeno, revestido de um veludo castanho de aspecto antigo, semelhante
a um missal ou L ivro de H oras, sem nada na lombada ou na capa que lhe conferisse alguma identidade. P ossuía um fecho cor de bronze que se deslocava com uma leve pressão. O livro abriu-se ao meio por si só. Ali, espalhado no centro, estava o meu e digo o meu dragão, dessa vez derramando-se para além das margens das páginas, garras de fora, o bico selvagem aberto mostrando as presas, e com a mesma palavra, na mesma escrita gótica, no mesmo estandarte.
— É claro — dizia Rossi — que tive tempo e mandei identificar isso. É um desenho originário da E uropa C entral, impresso por volta de 1512, portanto o texto poderia muito bem ter sido composto com tipos móveis, se na verdade tivesse algum texto.
Folheei lentamente as folhas delicadas. Sem títulos nas primeiras páginas, isso já eu sabia.
— Que estranha coincidência.
— Tem manchas de água salgada atrás, talvez por causa de alguma travessia do mar N egro. N em o Smithsonian foi capaz de me dizer o que aconteceu durante as suas viagens. P orque, sabe, eu dei-me ao trabalho de o submeter a uma análise química. C ustou-me trezentos dólares saber que esse livro, num determinado momento, esteve num local intensamente impregnado de pó de pedra, provavelmente antes de 1700. Também fui até I stambul para tentar aprender mais sobre as suas origens M as o mais estranho de tudo foi a maneira como adquiri esse livro.
Estendeu a mão e apressei-me a devolver-lhe o livro, antigo e frágil como era.
— Onde o comprou?
Encontrei-o na minha escrivaninha quando era estudante universitário.
Senti um calafrio, mas disfarcei-o.
— Na sua escrivaninha?
— N o meu compartimento de estudos na biblioteca. Também tínhamos isso. O costume remonta aos mosteiros do século dezessete.
— Onde é que.. de onde é que ele veio? Recebeu-o de presente?
— Talvez. — Rossi sorriu de modo estranho. P arecia esforçar-se por controlar uma emoção difícil — Quer mais café?
— Sim, acho que quero — disse eu, com a garganta seca.
— As minhas tentativas para encontrar o dono fracassaram, e a biblioteca não conseguiu identificá-lo. Mesmo a Biblioteca do Museu Britânico nunca tinha visto nenhum igual e ofereceu-me uma soma considerável por ele.
— Mas não quis vendê-lo.
— N ão. G osto de enigmas, como sabe. Qualquer acadêmico que se preza gosta. É a recompensa do ofício, olhar a H istória nos olhos e dizer: "Sei quem és. A mim não me enganas."
— E ntão, de que se trata? Acha que este exemplar maior foi feito pelo mesmo impressor ao mesmo tempo?
Ele tamborilou os dedos no peitoril da janela.
— N ão tenho pensado muito no assunto nestes últimos anos, para dizer a verdade. Ou procurei não pensar, embora de certa forma. sinta a presença dele ali, atrás do meu ombro. — E fez um gesto para a fenda escura e vazia entre os outros livros. — Aquela prateleira de cima é a minha fila de fracassos. E das coisas em que prefiro não pensar.
— B em, talvez agora que eu trouxe um companheiro para ele, consiga encaixar melhor
as peças. É impossível os livros não estarem relacionados um com o outro.
— É impossível não estarem relacionados — repetiu ele, um eco vazio de senado,
mesmo vindo através do ruído do café fresco a passar na cafeteira.
A impaciência e uma ligeira sensação febril que eu sentia com frequência naqueles
dias, por causa da falta de sono e do cansaço mental, fizeram-me pressioná-lo.
— E a sua pesquisa? P ara além da análise química Disse que tentou descobrir mais
coisas...
— Tentei descobrir mais coisas. — Sentou-se de novo e pousou as duas mãos, pequenas
e práticas, de cada lado da chávena de café. — Acho que lhe devo mais do que uma história — disse em voz baixa. — Talvez uma espécie de pedido de desculpas vai ver porquê, apesar de nunca ter desejado conscientemente deixar um legado como este a nenhum dos meus alunos. Ou à maior parte deles, admito. — E sorriu de modo afetuoso. — Mas triste, pareceu-me. Decerto já ouviu falar de Vlad Tepes o Empalador?
— Sim, Drácula. Um senhor feudal da região dos C árpatos, também conhecido como
Bela Lugosi.
— O próprio. Ou um deles. E ram uma família antiga antes de o seu membro mais
desagradável assumir o poder. Tentou saber mais sobre ele na biblioteca? Sim? M au sinal. Quando o meu livro apareceu de modo tão estranho, pesquisei a palavra nessa tarde o nome, bem como Transilvânia, Valáquia e os Cárpatos. Uma obsessão instantânea.
P erguntei a mim próprio se aquilo seria um cumprimento velado. Rossi gostava de ver
os seus alunos trabalhar intensamente. — mas deixei passar, receando interromper a sua história com comentários irrelevantes.
— P ois é, os C árpatos. Foi sempre um lugar mítico para os historiadores. Um dos alunos
de Occam viajou por lá de burro, suponho e produziu, a partir das suas experiências, uma coisa engraçada chamada Filosofia do Assombroso. É claro que a história original do Drácula foi baralhada muitas vezes e não é fácil de ser investigada. Temos o príncipe da Valáquia, um soberano do século quinze, detestado ao mesmo tempo pelo I mpério Otomano e pelo seu próprio povo. Um dos piores tiranos da E uropa medieval, sem dúvida. C alcula-se que tenha assassinado pelo menos vinte mil dos seus concidadãos da Valáquia e da T ransilvânia, ao longo do tempo. Drácula significa filho de Dracul filho do dragão, mais ou menos. O pai dele foi introduzido na Ordem do Dragão por Sigismundo, imperador do Sacro I mpério Romano — a Ordem era uma organização para a defesa do império contra os Turcos Otomanos. N a realidade, há provas de que o pai de Drácula o entregou aos Turcos como refém, quando ele era criança, numa querela política, e que Drácula ganhou parte do seu gosto pela crueldade observando os métodos de tortura dos Otomanos. — Rossi abanou a cabeça. — Seja como for, Vlad foi morto numa batalha contra os Turcos, ou, quem sabe, talvez acidentalmente pelos seus próprios soldados, e enterrado num mosteiro situado numa ilha no lago Snagov, agora na posse da nossa amiga socialista Romênia. A sua memória transformou-se em lenda, transmitida por gerações de camponeses supersticiosos. N o final do século dezenove, um escritor perturbado e melodramático, Abraham Stoker, apropriou-se do nome de Drácula para uma criatura inventada por ele, um vampiro. Vlad Tepes era de uma crueldade terrível, mas não era um vampiro, evidentemente. E não se encontra qualquer referência a Vlad no livro de Stoker, embora ele tenha reunido elementos da tradição oral popular sobre as lendas dos vampiros — e sobre a T ransilvânia também, sem nunca lá ter estado, apesar de Vlad Drácula ter governado a Valnia, que faz fronteira com a T ransilvânia. N o século vinte, H ollywood tomou conta do assunto e o mito perdura, ressuscitado. E é nesse ponto que a minha irreverência pára, aliás.
Rossi pôs a chávena de lado e juntou as mãos. Por um instante, tive a impressão de que não conseguiria continuar.
— P osso ser irreverente quanto à lenda, que foi comercializada de uma forma monstruosa, mas não quanto ao que aconteceu com a minha pesquisa. N a verdade, fui incapaz de a publicar, em parte por causa da presença daquela lenda. Achei que o tema da pesquisa não seria levado a sério. Mas havia ainda outro motivo.
Aquilo deixou-me sem reação. Rossi nunca deixava nada por publicar; era parte da sua produtividade, da sua pródiga genialidade. Recomendava enfaticamente aos seus alunos que fizessem o mesmo, que não desperdiçassem nada.
— O que encontrei em I stambul era demasiado grave para não ser levado a sério. Talvez tenha feito mal quando decidi guardar essa informação, que é como posso honestamente classificá-la, para mim mesmo, mas cada um de nós tem as suas próprias superstições. Acontece que a minha é a do historiador. Fiquei com medo.
Olhei para ele espantado e ele suspirou, como se tivesse relutância em prosseguir.
— Veja bem, Vlad Drácula fora sempre estudado nos grandes arquivos da E uropa C entral e Oriental ou, em última instância, na sua região natal. M as começou a sua carreira como matador de turcos e descobri que ninguém investigara nunca o mundo otomano à procura de material sobre a lenda do Drácula. Foi o que me levou até I stambul, numa deriva secreta da minha pesquisa sobre as antigas economias gregas. Ah, mas, por vingança, publiquei todo o meu material sobre a Grécia.
Calou-se um momento, voltando o olhar para a janela.
— E imagino que deveria contar-lhe a si, diretamente, o que descobri na coleção de I stambul e que depois procurei afastar do meu espírito. Afinal, você herdou um desses lindos livros — e pousou gravemente a mão nos dois livros empilhados. — Se não for eu a contar-lhe tudo, é provável que refaça o meu percurso, talvez correndo mais riscos. — Sorriu sem alegria por cima da mesa. — N o mínimo, posso poupar-lhe um bocado de trabalho de redação de relatórios de bolsa de estudos.
A risadinha seca ficou-me entalada na garganta. Onde raio queria ele chegar? Teria enlouquecido, Deus do céu? Ocorreu-me que talvez eu não tivesse levado em conta um certo sentido de humor peculiar do meu mentor. Talvez se tratasse de uma brincadeira sofisticada — ele possuía dois exemplares do assustador livro antigo na sua biblioteca pessoal e deixara um na minha mesa, sabendo que eu lho levaria, o que eu fizera, como um tolo. Entretanto, à luz familiar do candeeiro da sua mesa, pareceu-me subitamente grisalho, com a barba crescida do fim do dia e sombras escuras em torno dos olhos, que lhes tiravam a cor e o humor. Inclinei-me para a frente.
— O que está a tentar dizer-me?
— Drácula — fez uma pausa. — Drácula... Vlad Tepes... ainda está vivo.
— M eu Deus — disse o meu pai subitamente, olhando para o relógio. — P or que não
me avisaste? São quase sete horas.
Enfiei as minhas mãos geladas dentro do casaco azul-marinho. — Não sabia respondi. Mas não pare de contar a história, por favor. Agora não. O rosto do meu pai pareceu-me irreal por um momento; nunca considerara antes a
possibilidade de ele ser — não sabia como definir aquilo mentalmente desequilibrado? Teria perdido o equilíbrio por alguns minutos ao contar a sua história?
— Já é tarde para uma história tão comprida. O meu pai levantou a chávena e colocou-a de novo no pires. Reparei que as suas mãos
tremiam.
— Por favor, continue — pedi. Ele ignorou-me. — De qualquer modo, não sei se te assustei ou se apenas te aborreci. P rovavelmente,
querias só uma boa e simples história de dragões.
— E ssa história tinha um dragão — repliquei. Também eu queria acreditar que ele
inventara a história. — Dois dragões. Pelo menos, vai contar-me mais amanhã?
E sfregou os braços, como se quisesse aquecer-se, e vi que por enquanto não estava
disposto a continuar a falar sobre o assunto. O seu rosto estava sombrio, fechado.
— Vamos jantar. Podemos deixar primeiro a nossa bagagem no Hotel Turist. — Está bem — disse eu.
Além do mais, vão expulsar-nos daqui a qualquer momento, se não nos formos embora. De onde estava, via a criadinha de cabelos claros debruçada no bar; aparentemente,
tanto se lhe dava que ficássemos ou não. O meu pai pegou na carteira, alisou uma daquelas enormes notas desbotadas, que representavam sempre a imagem de um mineiro ou de um trabalhador rural sorrindo heroicamente no verso, e colocou-a na bandeja de estanho. Contornámos as cadeiras e as mesas de ferro forjado e saímos pela porta embaciada.
A noite caíra de fato, uma daquelas noites frias, enevoadas e úmida do L este europeu,
e a rua estava quase deserta.
— C obre a cabeça — disse o meu pai, como sempre fazia. Antes de entrarmos no caminho sob os sicómoros encharcados de chuva, parou de repente e fez-me parar com uma mão estendida, protegendo-me como se um carro tivesse passado por nós a grande velocidade. M as não havia carro nenhum, e a rua gotejava, quieta e rústica sob as luzes amareladas. O meu pai olhou rapidamente para a direita e para a esquerda. N ão me pareceu ter visto ninguém, embora o meu amplo capuz me bloqueasse em parte a visão. Ele ficou parado a ouvir, o rosto inclinado, o corpo imóvel.
E ntão, soltou o ar com força e seguimos caminho, conversando sobre o que iríamos pedir para jantar no Turist, quando lá chegássemos.
N ão haveria mais conversas sobre o Drácula naquele dia. Depressa me apercebi do padrão do medo do meu pai: só podia contar-me aquela história em fragmentos curtos, fragmentando-a, não para procurar efeitos dramáticos, mas para preservar qualquer coisa: a sua força? A sua sanidade?