O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 59 de 83

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O Historiador

Capítulo 56

L embrava-me muito bem da estação rodoviária de P erpignan, onde estivera com o

meu pai no ano anterior, esperando pelo autocarro empoeirado que ia para as aldeias. Agora, o autocarro encostou novamente e B arley e eu entramos nele. A nossa viagem a L ês B ains, percorrendo largas estradas rurais, também me era familiar As cidades pelas quais passávamos eram circundadas por plátanos com as copas aparadas em quadrado. Árvores, casas, campos, carros velhos, tudo parecia ser feito da mesma poeira, uma nuvem cafe-au-lait que cobria tudo.

O hotel em L ês B ains também era como me lembrava, com os seus quatro andares

revestidos de estuque, grades de ferro nas janelas e floreiras com flores rosadas. Dei por mim ansiando pelo meu pai, ficando sufocada só de pensar que o veríamos em breve, talvez dentro de poucos minutos. Desta vez, fui eu que guiei B arley, empurrando a pesada porta e depositando a minha mala em frente ao balcão com tampo de mármore da recepção do hotel. M as aquele balcão pareceu-me tão alto e cheio de dignidade que me senti novamente tímida, e tive de me forçar a dizer ao empertigado senhor de idade atrás dele que pensava que o meu pai podia estar hospedado ali. N ão me lembrava daquele senhor da nossa visita anterior, mas ele foi paciente, e depois de um minuto disse que de fato havia um monsieur estrangeiro com aquele nome hospedado ali, mas que a chave dele não estava no lugar, e portanto devia ter saído. M ostrou-nos o ganchinho vazio. O meu coração deu um salto, e logo depois outro quando um homem de quem me lembrava abriu a porta atrás do balcão. E ra o maître do pequeno restaurante, cerimonioso, amável e apressado. O velho deteve-o com uma pergunta e ele virou-se para mim, étonné, e disse imediatamente que ali estava a jovem menina, e como estava crescida, e adorável. E o seu amigo.

Cousin — corrigiu Barley

— Mas monsieur não mencionara que a sua filha e o seu sobrinho viriam juntar-se-lhe,

que bela surpresa! Tínhamos de jantar lá todos juntos naquela noite.

P erguntei-lhe onde estava o meu pai, se alguém sabia, mas ninguém sabia. Saíra cedo,

interrompeu o mais velho, talvez para uma caminhada matinal. O maître disse que ainda estavam cheios mas, se precisássemos de outros quartos, ele tomaria providências. P or que não subíamos para o quarto do meu pai, pelo menos para deixar a nossa bagagem? O meu pai estava numa suite com uma bela vista e uma pequena sala de estar. E le o maître ia dar-nos a outra de fazermos um café. O meu pai provavelmente voltaria em breve. Agradecidos, concordamos com todas as sugestões. O elevador barulhento levou-nos para cima tão devagar que me perguntei se não seria o próprio maître que estava a puxar os cabos no porão.

O quarto do meu pai, quando abrimos a porta, era espaçoso e agradável, e eu teria

apreciado cada recanto dele se não tivesse sentido, constrangida, que estava a invadir o seu santuário pela terceira vez numa semana. P ior ainda foi a inesperada visão da mala do meu pai, das suas roupas familiares espalhadas pelo quarto, o seu velho estojo de barbear em couro e os seus sapatos de boa qualidade. E u vira aqueles objetos apenas alguns dias antes, no quarto dele na casa do reitor J ames em Oxford, e a sua familiaridade atingiu-me em cheio.

M as mesmo isto foi eclipsado por outro choque. O meu pai era um homem naturalmente organizado; qualquer quarto ou escritório que ocupava, por mais curto que fosse o período, era um modelo de ordem e método. Ao contrário de muitos solteiros, viúvos ou divorciados que vim a conhecer mais tarde, o meu pai nunca descera àquele estado que faz com que homens sozinhos despejem o conteúdo dos bolsos em pilhas sobre mesas e escrivaninhas, ou guardem as suas roupas em pilhas sobre os espaldares das cadeiras. N unca vira os objetos pessoais do meu pai em tal desordem. A sua mala estava meio desfeita junto à cama. Aparentemente, revirara-a para tirar uma ou duas peças, deixando pelo chão um rastro de meias e roupa interior. O seu casaco leve de linho estava esparramado em cima da cama. De fato, mudara de roupa muito à pressa e largara o fato num monte junto da mala. Ocorreu-me que talvez aquilo não fosse obra do meu pai, que o quarto tivesse sido revistado na sua ausência. M as aquele fato amontoado, despido como uma pele de cobra no chão, fez-me mudar de idéias. Os seus sapatos de caminhada não estavam no lugar habitual na mala, e as formas de cedro para sapatos que mantinha dentro deles tinham sido atiradas para o lado. Evidentemente, nunca estivera com tanta pressa na vida.