O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 36 de 83

Páginas do PDF

O Historiador

Capítulo 33

Quando o expresso de P erpignan desapareceu completamente por detrás das árvores

prateadas e dos telhados das aldeias, Barley endireitou-se.

— Ele está naquele comboio e nós não.

— Sim — disse eu, — e sabe exatamente onde estamos. — N ão por muito tempo. — B arley dirigiu-se à bilheteira, onde um velhote parecia

estar a dormir em pé, mas voltou logo, com um ar desapontado. — O próximo comboio para P erpignan só passa amanhã de manhã — informou. — E não há autocarros para nenhuma cidade importante antes de amanhã à tarde. Só há um quarto para alugar numa quinta a meio quilômetros do centro da aldeia. P odemos dormir lá, e voltamos para apanhar o comboio da manhã.

Eu tanto podia ficar zangada como começar a chorar. — B arley, não posso esperar até amanhã de manhã para apanhar um comboio para

Perpignan! Vamos perder demasiado tempo.

— B em, não há outra maneira — disse B arley, irritado. — P erguntei por táxis, carros,

caminhões, carroças, boleias... o que é que quer que eu faça mais?

P ercorremos a aldeia em silêncio. E ra o fim de tarde de um dia quente, modorrento, e

todas as pessoas que víamos às portas das casas ou nos jardins pareciam levemente entorpecidas, como se tivessem sucumbido a um feitiço. A casa da quinta, quando lá chegamos, tinha um cartaz pintado à mão do lado de fora e uma mesa com produtos à venda: ovos, queijo e vinho. A mulher que saiu para nos receber a limpar as mãos ao inevitável avental — não pareceu surpreendida ao ver-nos. Quando B arley me apresentou como sua irmã, sorriu agradavelmente e não fez perguntas, embora não tivéssemos nenhuma bagagem conosco. B arley perguntou se havia lugar para duas pessoas e ela respondeu "Oui, oui" ao mesmo tempo que sorvia o ar, como se estivesse a falar para dentro. O pátio da quinta era de terra batida, com algumas flores, galinhas a debicar, e uma fila de baldes de plástico sob os beirais, e os estábulos de pedra e a casa dispunham-se em torno dele de maneira agradável e aleatória. P odíamos jantar no pátio atrás da casa, explicou a mulher, e o nosso quarto ficava junto do jardim, na parte mais antiga do edifício.

Seguimos a nossa anfitriã em silêncio através da cozinha de teto baixo até à pequena

ala onde outrora talvez tivesse dormido o ajudante de cozinha. O quarto estava mobilado com duas pequenas camas em paredes opostas, como reparei, aliviada, e uma grande arca de madeira. A casa de banho adjacente tinha uma sanita e um lavatório pintados. Tudo estava imaculadamente limpo, as cortinas engomadas, o bordado antigo numa das paredes desbotado pela luz do sol. E ntrei na casa de banho e lavei a cara com água fria enquanto Barley pagava à mulher.

Quando saí, B arley sugeriu um passeio; ainda faltava uma hora para o nosso jantar

ficar pronto. A princípio não me agradou a idéia de sair da proteção da fazenda, mas do lado de fora o caminho estava fresco debaixo das árvores frondosas, e passamos pelas ruínas do que devia ter sido uma casa muito bonita. B arley saltou a cerca e eu segui-o. As pedras tinham caído, formando um mapa das paredes originais, e uma remanescente torre dilapidada dava ao lugar um ar de antiga grandeza. H avia um pouco de feno no estábulo entreaberto, como se aquela construção fosse usada como celeiro. Uma grande viga caíra entre as baias.

— Bem, vejo que está furiosa — disse, provocador. — Não se importa que eu a salve de um perigo imediato, desde que isso não lhe cause nenhum inconveniente no futuro.

O seu comentário desagradável desconcertou-me por um instante.

— Que descaramento! — disse eu por fim, e afastei-me por entre as pedras. Ouvi Barley levantar-se e seguir-me.

— P referia ter ficado naquele comboio? — perguntou ele, com uma voz um pouco mais educada.

— C laro que não. — M antive o rosto virado, sem olhar para ele. — M as sabe tão bem como eu que o meu pai pode já estar em Saint-Matthieu.

— Aliás Drácula, ou quem quer que ele seja, ainda lá não está.

— E le agora tem um dia de vantagem sobre nós — repliquei, olhando para os campos. A igreja da aldeia aparecia por cima de um renque distante de choupos; tudo era sereno como uma pintura, só faltavam as cabras ou as vacas.

— E m primeiro lugar — disse B arley (e detestei-o pelo seu tom didático) —, não sabemos quem é que estava no comboio. Talvez não fosse o vilão em pessoa. E le tem seguidores, segundo as cartas do seu pai, não é verdade?

— P ior ainda — observei. — Se era um dos seus seguidores, então talvez ele próprio já esteja em Saint-Matthieu.

— Ou... — disse B arley, mas parou. E u sabia que ele estivera quase a dizer "ou talvez esteja aqui conosco".

— Revelamos exatamente onde íamos descer — disse, para lhe poupar o trabalho de o dizer.

— Quem é que está a ser desagradável agora? — B arley chegou por trás de mim e passou um braço um tanto hesitante em volta dos meus ombros, e apercebi-me de que ele pelo menos falava como se acreditasse na história do meu pai. As lágrimas que tinham estado a lutar para não fugir das minhas pálpebras transbordaram finalmente, e escorreram-me pelo rosto. — Vamos — disse B arley Quando pousei a cabeça no seu ombro, a camisa dele estava quente de sol e suor. Um instante depois afastei-me, e voltamos para o nosso jantar silencioso no jardim da quinta.

 

H elen não abriu a boca durante o nosso percurso de regresso à pensão, por isso limitei-me a observar os transeuntes a procura de qualquer sinal de hostilidade, olhando em volta e atrás de nós de vez em quando para ver se estávamos a ser seguidos por alguém. Quando chegamos, o meu espírito já se voltara outra vez para a frustrante falta de informação sobre a maneira de procurar Rossi. De que modo uma lista de livros, alguns dos quais, aparentemente, nem sequer existiam, nos poderia ajudar?

— Venha para o meu quarto — disse H elen, sem rodeios, logo que chegamos a pensão.

— Precisamos falar em particular.

A sua proposta ter-me-ia divertido noutras circunstâncias, mas o seu rosto estava tão

fechado e determinado que fiquei curioso para saber o que tinha em mente. De qualquer forma, nada poderia ser menos sedutor do que a sua expressão naquele momento. N o quarto, a cama estava primorosamente feita e os seus poucos pertences aparentemente guardados fora da vista. Sentou-se no peitoril da janela e indicou-me uma cadeira.

— Ouça — disse, tirando as luvas e o chapéu, — estive a pensar numa coisa. Tenho a

impressão de que chegamos a um verdadeiro impasse na nossa busca de Rossi

Suspirei, desanimado.

— Foi o que eu estive a matutar durante a última meia hora. M as pode ser que Turgut

consiga alguma informação junto dos seus amigos.

Ela abanou a cabeça.

— Não adianta. É um canto sem saída.

— Um beco — corrigi, mas sem entusiasmo. — Um beco sem saída — emendou ela. — E stive a pensar se não estaremos a deixar de

lado uma fonte de informação muito importante.

Olhei fixamente para ela.

— Qual?

— A minha mãe — disse ela, categórica. — T inha razão em interrogar-me sobre ela

quando ainda estávamos nos E stados Unidos. P ensei nela o dia inteiro. C onheceu o professor Rossi antes de si, e eu realmente nunca mais lhe perguntei nada a respeito dele depois de ela me ter contado que ele era meu pai. N ão sei porquê, talvez porque fosse claramente um assunto doloroso para ela. Além disso — suspirou, — a minha mãe é uma pessoa simples. N ão poderia acrescentar nada aos meus conhecimentos sobre o trabalho de Rossi. M esmo quando me contou, o ano passado, que Rossi acreditava na existência de Drácula, não insisti muito; sei como é supersticiosa. M as agora pergunto-me se ela não saberá alguma coisa que nos possa ajudar a encontrá-lo.

Tinha sentido renascer a esperança às primeiras palavras dela. — Mas como podemos falar com ela? Disse-me que ela não tem telefone. — E não tem.

— E então, o que vamos fazer?

Helen juntou as duas luvas e bateu vivamente com elas no joelho. — Vamos ter de falar com ela pessoalmente. V ive numa pequena cidade fora de

Budapeste.

— O quê? — E ra a minha vez de ficar irritado. — Ah, muito simples. B asta apanharmos um comboio com o seu passaporte húngaro e o meu... ops!... o meu passaporte americano e passar por lá para uma conversa com uma parente sua sobre Drácula.

Inesperadamente, Helen sorriu.

— N ão precisa ficar mal-humorado, P aul — disse ela. — Temos um provérbio húngaro que diz: "Se uma coisa é impossível, pode ser feita."

Não pude evitar rir.

— Está bem — disse eu, — qual é o seu plano? Já reparei que tem sempre um.

— E tenho mesmo. — Alisou as luvas. — P ara dizer a verdade, espero que a minha tia tenha um plano.

— A sua tia?

H elen olhou através da janela, para a cor suave nas fachadas de estuque das casas antigas do outro lado da rua. E ra quase noite, e a luminosidade mediterrânica, que eu já aprendera a amar, tingia de tons profundos de dourado todas as superfícies da cidade lá fora.

— A minha tia trabalha no M inistério do I nterior da H ungria desde 1948, e é uma figura muito importante. C onsegui as minhas bolsas de estudo graças a ela. N o meu país, não se faz nada sem um tio ou uma tia. É a irmã mais velha da minha mãe, e ela e o marido ajudaram a minha mãe a fugir da Romênia para a Hungria, onde ela a minha tia — já vivia, pouco antes do meu nascimento. Somos muito chegadas, a minha tia e eu, e ela fará qualquer coisa que eu lhe peça. Ao contrário da minha mãe, tem telefone, e acho que lhe vou ligar.

— Quer dizer que ela pode arranjar maneira de a sua mãe vir ao telefone para conversar conosco?

Helen gemeu.

— Oh, meu Deus, acha que podemos falar com elas ao telefone sobre qualquer assunto particular ou controverso?

— Desculpe.

— N ão, vamos lá pessoalmente. A minha tia vai arranjar maneira. Assim, podemos conversar diretamente com a minha mãe. Além disso — a sua voz suavizou-se, — elas vão ficar tão contentes por me ver. Não é muito longe daqui, e há dois anos que não as vejo.

— E stá bem — concordei. — E stou disposto a tentar quase qualquer coisa por Rossi, apesar de ser difícil imaginar-me a entrar na Hungria comunista em ritmo de valsa.

— Ah — disse H elen —, então, ainda vai ser mais difícil imaginar-se a entrar em ritmo de valsa, como você diz, na Romênia comunista.

Desta vez, fui eu que fiquei calado por um instante.

E u sei — respondi por fim. — Também tenho pensado nisso. Se não estiver em Istambul, onde, senão na Romênia, poderia estar a tumba de Drácula?

Ficamos sentados calados algum tempo, cada um imerso nos seus pensamentos e distantes um do outro, até que Helen se levantou.

— V ou ver se a senhoria nos deixa telefonar lá de baixo — disse ela. — A minha tia

deve estar quase a chegar do trabalho e gostaria de falar com ela imediatamente.

— Posso ir consigo? — perguntei. — Afinal de contas, também me diz respeito. — Claro.

H elen voltou a calçar as luvas e descemos para apanharmos a senhoria na sua sala de

estar. L evamos uns dez minutos para explicar as nossas intenções, mas umas liras turcas a mais e a promessa de a reembolsarmos inteiramente pelo telefonema facilitaram as coisas. H elen sentou-se numa cadeira da sala de estar e marcou uma enorme quantidade de números. Por fim, vi o seu rosto iluminar-se.

— E stá a chamar. — E sorriu para mim, o seu belo sorriso franco. — A minha tia vai

detestar isto — disse. Depois, o seu rosto mudou de novo, alerta. — E va? — disse ela. — É Elena!

Ouvindo com atenção, concluí que ela devia estar a falar húngaro. E u sabia pelo

menos que o romeno era uma língua românica, neolatina, e pensei que seria capaz de perceber algumas palavras. M as o que H elen estava a dizer soava como o galope de cavalos, um tropel fino-úgrico que o meu ouvido não conseguia reter nem por um segundo. P erguntei-me se falaria por vezes em romeno com a família, ou se essa parte das suas vidas morrera muito tempo antes, sob a pressão de se integrarem no novo país. O tom da sua voz subia e descia, interrompido às vezes por um sorriso ou por um leve franzir das sobrancelhas. A sua tia E va, do outro lado, parecia ter muito para dizer, e, de vez em quando, H elen escutava atentamente, para depois irromper outra vez naquela estranha cavalgada silábica.

H elen parecia ter-se esquecido da minha presença, mas de repente levantou o olhar

para mim e fez-me um sorrisinho de lado e ao mesmo tempo um gesto triunfante com a cabeça, como se o resultado da conversa fosse favorável. Sorriu para o telefone e desligou. A nossa senhoria aproximou-se imediatamente, preocupada com a sua conta de telefone, e eu apressei-me a contar a quantia combinada, acrescentei mais algum dinheiro e depositei-a nas suas mãos estendidas. H elen já estava a voltar para o quarto, acenando-me para que a seguisse; achei o secretismo dela desnecessário, mas o que sabia eu, afinal?

— Rápido, Helen — resmunguei, instalando-me de novo na poltrona. — Este suspense

está a dar cabo de mim.

— As notícias são boas — disse ela, com calma. — T inha certeza de que a minha tia

acabaria por tentar ajudar-nos.

— Que história é que inventou para lhe contar? — Ela fez-me um sorriso aberto. — B em, não há muita coisa que se possa dizer ao telefone, e tive de ser bastante

formal. M as disse-lhe que estava em I stambul a fazer uma pesquisa acadêmica com um colega e que precisávamos de passar cinco dias em B udapeste para concluirmos a nossa pesquisa. E xpliquei-lhe que você é um professor americano e que estamos a escrever um artigo juntos.

— Sobre que assunto? — perguntei, com uma certa apreensão.

— Sobre as relações de trabalho na Europa sob a ocupação otomana.

— Nada mal. Mas não sei nada sobre isso.

— N ão se preocupe — H elen tirou um fio do joelho da sua impecável saia preta. — E u ensino-lhe algumas coisas.

— Você saiu mesmo ao seu pai.

A sua erudição descontraída lembrara-me a de Rossi, e o comentário escapou-me da boca sem pensar. L ancei-lhe uma olhadela rápida, receando tê-la ofendido. P ensei que era a primeira vez que pensava nela com naturalidade como sendo filha de Rossi, como se em determinado momento, que eu próprio desconhecia, tivesse aceite definitivamente essa idéia.

Helen surpreendeu-me ao ficar triste.

— É um bom argumento a favor da supremacia da genética sobre o ambiente — foi só o que ela disse, entretanto. — De qualquer maneira, E va parecia aborrecida, sobretudo quando lhe contei que você era americano. Sabia que era isso que iria acontecer, porque ela acha sempre que sou impulsiva e que corro demasiados riscos. E tem razão, é claro. Além disso, ela precisava de parecer aborrecida de início, para soar bem ao telefone.

— Para soar bem?

— E la tem de pensar no seu cargo e na sua posição. M as disse que vai tomar providências, e tenho de lhe telefonar outra vez amanhã à noite. E m suma, é isso. É muito esperta, a minha tia, por isso não tenho dúvidas de que vai encontrar uma maneira. Vamos comprar passagens de I stambul para B udapeste, talvez de avião, quando soubermos mais alguma coisa.

Suspirei intimamente, pensando na provável despesa e conjecturando quanto tempo mais os meus fundos durariam para manter aquela busca, mas disse apenas:

— Tenho a impressão de que ela vai ter de fazer milagres para me fazer entrar na Hungria e evitar-nos problemas.

Helen riu.

E la é especialista em milagres. É por isso que não estou na minha terra a trabalhar no centro cultural da aldeia da minha mãe.

Descemos de novo e, como de comum acordo, saímos para a rua.

— N ão há muito a fazer agora observei. — Temos de esperar até amanhã por notícias de Turgut e da sua tia. — Tenho de admitir que acho toda esta espera muito difícil. O que vamos fazer, entretanto?

H elen parou um minuto para pensar, banhada pela luz dourada da rua. V oltara a calçar as luvas e a pôr o chapéu, mas os raios baixos do sol faziam surgir reflexos avermelhados no seu cabelo negro.

— G ostaria de ver mais da cidade — disse, por fim. — Afinal de contas, é possível que nunca mais aqui volte. Vamos a H agia Sophia outra vez? P odemos andar um pouco por aquela zona antes do jantar.

— Sim, também gostaria de fazer isso.

N ão voltamos a falar durante o caminho para o grande templo. N o entanto, à medida

que nos aproximávamos e eu via as suas cúpulas e minaretes a ocuparem a vista da rua outra vez, sentia o nosso silêncio aprofundar-se, como se estivéssemos mais perto um do outro. G ostaria de saber se H elen sentia o mesmo, ou se era o fascínio da enorme igreja que nos fazia tomar consciência da nossa pequenez. E u ainda estava a pensar no que Turgut nos dissera no dia anterior a sua crença de que Drácula deixara a maldição do vampirismo na grande cidade.

— H elen — disse, apesar de um pouco relutante em quebrar o silêncio entre nós, —

acha que ele poderia ter sido sepultado aqui, aqui em I stambul? I sto explicaria a ansiedade do sultão Mehmed a respeito dele depois da sua morte, não é?

— E le? Ah, sim — sacudiu a cabeça, como se aprovasse a minha opção de não

pronunciar aquele nome na rua. É uma idéia interessante, mas, nesse caso, M ehmed não saberia, e Turgut não teria também encontrado uma prova qualquer? N ão posso acreditar que uma coisa dessas pudesse ficar oculta aqui durante séculos.

— Também é difícil de acreditar que M ehmed tivesse permitido que um dos seus

inimigos fosse enterrado em Istambul, se tivesse conhecimento disso.

H elen calou-se e parecia meditar no assunto. E stávamos quase a chegar à grande

entrada de Hagia Sophia.

— Helen — disse eu, devagar.

— Sim?

P aramos no meio das pessoas, os turistas e os peregrinos que afluíam em grande

número através do amplo portão. Aproximei-me dela, de modo a poder falar baixinho, quase ao seu ouvido.

— Se existe alguma probabilidade de a tumba estar aqui, isso pode significar que Rossi

também está aqui.

E la virou-se e olhou-me de frente. Os seus olhos brilhavam e entre as sobrancelhas

escuras havia rugas finas, desenhadas pelo tempo e pelas preocupações.

— Mas é claro, Paul.

— L i no guia turístico que I stambul também tem ruínas subterrâneas, catacumbas,

cisternas, esse gênero de coisas, como em Roma. Resta-nos pelo menos um dia antes de nos irmos embora, e talvez devêssemos falar com Turgut sobre isso.

— N ão é ma idéia. O palácio dos imperadores bizantinos deve ter uma área

subterrânea. — Quase sorriu, mas a sua mão subiu até ao lenço no pescoço, como se alguma coisa a incomodasse. — Seja como for, o que restar do palácio deve estar cheio de maus espíritos — imperadores que cegavam os primos e coisas do gênero. A companhia perfeita.

P or estarmos a ler tão de perto os pensamentos escritos no rosto um do outro e considerando juntos a estranha e ampla busca a que poderiam levar, não reparei logo numa pessoa que parecia de repente olhar fixamente para mim. Além disso, não era nenhum espectro alto e ameaçador, mas um homem pequeno e franzino, comum no meio da multidão, que andava de um lado para o outro a uns seis ou sete metros de distância junto à parede exterior da igreja.

E ntão, com um choque instantâneo, reconheci o pequeno acadêmico de barba grisalha e desgrenhada, o gorro branco de croché, a camisa e as calças desmazeladas, que entrara no arquivo naquela manhã. M as, no momento seguinte, o choque foi ainda maior. O homem cometera o erro de olhar para mim com tanta intensidade que fui capaz de o distinguir no meio da multidão. Depois fora-se embora, desaparecendo como um fantasma entre os alegres turistas. C orri atrás dele, quase fazendo cair H elen, mas não adiantou. O homem evaporara-se; percebera que eu o tinha visto. O seu rosto, entre a barba desajeitada e o gorro novo, era inegavelmente um dos rostos da minha universidade, nos E stados Unidos. Olhara para ele pela última vez pouco antes de o terem coberto com um lençol: era o rosto do bibliotecário morto.