O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 67 de 83

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O Historiador

Capítulo 64

E ncontramos Stoichev num estado de grande excitação diante da mesa da biblioteca.

Ranov estava sentado em frente dele, tamborilando com os dedos e de vez em quando relanceando os olhos para um documento que o velho estudioso punha de lado. P arecia mais irritado do que eu alguma vez o vira, o que fazia presumir que Stoichev não tinha estado a responder às suas perguntas. Quando entramos, Stoichev levantou a cabeça, animado.

— Acho que descobri — disse, num sussurro. H elen sentou-se junto dele e eu debrucei-me sobre os manuscritos que ele estava a

examinar. Eram semelhantes às cartas do irmão Kiril na concepção e execução, escritos com uma bela caligrafia compacta e precisa, em folhas desbotadas e com os cantos gastos. Reconheci a escrita eslavónica das cartas. Ao lado deles, Stoichev tinha aberto os nossos mapas. Fiquei quase sem respiração, esperando ardentemente que nos fosse dizer algo de importante. Talvez a tumba fosse ali mesmo, em Rila, pensei de repente; talvez fosse por essa razão que Stoichev insistira em vir ali, porque suspeitava disso. Fiquei surpreendido e apreensivo, porém, por ele querer anunciar o que quer que fosse na presença de Ranov.

Stoichev olhou em volta, lançou um olhar rápido a Ranov, esfregou a testa enrugada

com a mão e disse em voz baixa:

— Acredito que a tumba não esteja na B ulgária. — Senti a cabeça esvaziar-se de

sangue.

— O quê?

H elen olhava fixamente para Stoichev e Ranov virou-nos as costas, batendo com os

dedos na mesa como se não estivesse a prestar muita atenção.

— L amento desapontá-los, meus amigos, mas com base neste manuscrito, que já não

examinava há muitos anos, é muito claro que um grupo de peregrinos viajou de regresso à Valáquia saindo de Sveti G eorgi cerca de 1478. E ste manuscrito é um documento da alfândega; dava-lhes autorização para levar uma determinada relíquia cristã de origem valáquia de regresso ao país de origem. L amento muito. Talvez possam viajar até lá um dia e examinar melhor essa questão. N o entanto, se quiserem continuar a vossa pesquisa sobre as rotas dos peregrinos na Bulgária, terei muito prazer em ajudá-los.

Arregalei os olhos para ele, sem palavras. N ão era possível irmos à Romênia depois de

tudo isto, pensei. Já era um milagre termos chegado até ali.

— Recomendo-vos que obtenham autorização para visitar alguns outros mosteiros e as

rotas em que estão localizados, em particular o mosteiro B achkovo. É um belo exemplo do nosso estilo bizantino búlgaro e as construções são muito mais antigas do que as de Rila. Além disso, têm lá alguns manuscritos muito raros que monges em peregrinação levaram para o mosteiro como presente. Será muito interessante para vocês, e dessa forma poderão reunir material para os vossos artigos.

P ara meu espanto, reparei que H elen parecia concordar completamente com o plano dele.

— P ode-se conseguir isso, senhor Ranov? — perguntou ela. — Talvez o professor Stoichev deseje também acompanhar-nos.

— Ah, receio bem ter de voltar para casa — disse Stoichev, desculpando-se. — Tenho muito trabalho para fazer. G ostaria de poder ajudá-los em B achkovo, mas posso dar-vos uma carta de apresentação para o abade. O senhor Ranov pode ser vosso intérprete e o abade vai ajudá-los com qualquer tradução de manuscritos que pretendam fazer. É um grande estudioso da história do mosteiro.

— Muito bem — Ranov pareceu satisfeito ao ouvir que Stoichev nos ia deixar.

N ão havia nada que pudéssemos dizer sobre aquela terrível situação, pensei; tínhamos de continuar simplesmente com um pedido para pesquisar noutro mosteiro e decidir no caminho o que fazer em seguida. Romênia? A imagem da porta de Rossi na universidade surgiu diante de mim outra vez: estava fechada, trancada. Rossi nunca mais voltaria a abri-la. E ntorpecido, observei Stoichev enquanto ele colocava outra vez os manuscritos na respectiva caixa e fechava a tampa. H elen levou a caixa para uma prateleira em vez dele e ajudou-o a sair. Ranov vinha atrás de nós em silêncio um silêncio que presumi cheio de maldosa satisfação. O que quer que tivéssemos vindo procurar estava agora fora do nosso alcance, e ficaríamos novamente sozinhos com o nosso guia. Depois ele faria com que terminássemos de vez a nossa pesquisa e deixássemos a Bulgária o mais depressa possível.

I rina aparentemente estivera na igreja; quando saímos, veio na nossa direção através do pátio muito quente e, ao vê-la, Ranov afastou-se para fumar numa das galerias, depois dirigiu-se para o portão principal e saiu por ele. P areceu-me que apressava o passo ao chegar ao portão; talvez ele também precisasse de uma pausa. Stoichev sentou-se pesadamente num banco de madeira próximo do portão, com a mão protetora de I rina pousada no seu ombro.

— Ouçam — disse ele, muito baixo, sorrindo-nos como se estivéssemos apenas a conversar. — Temos de falar depressa enquanto o nosso amigo não pode ouvir-nos. N ão foi minha intenção assustá-los. N ão há nenhum documento sobre uma peregrinação de regresso à Valáquia com relíquias. L amento dizer que estava a mentir. Vlad Drácula está mesmo enterrado em Sveti G eorgi, onde quer que isso fique, e descobri uma coisa muito importante. N a "C rônica", Stefan diz que Sveti G eorgi era perto de B achkovo. N ão vi qualquer relação entre a região de B achkovo e os vossos mapas, mas há aqui uma carta do abade de B achkovo para o abade de Rila do princípio do século dezesseis. N ão me atrevi a mostrá-la na frente do nosso companheiro. E ssa carta declara que o abade de B achkovo já não precisa da ajuda do abade de Rila, ou de quaisquer outros religiosos, para acabar com a heresia em Sveti G eorgi, porque o mosteiro foi queimado e os seus monges dispersos. Recomenda que o abade de Rila fique muito atento a quaisquer monges vindos de lá ou a quaisquer monges que espalhem a idéia de que o dragão matou Sveti G eorgi São J orge porque este é o sinal da heresia deles.

— O dragão matou... espere — disse eu. — O senhor refere-se àquela frase sobre o

monstro e o santo? K iril diz que estavam à procura de um mosteiro com um sinal de que o santo e o monstro eram iguais.

— São J orge é uma das figuras mais importantes na iconografia búlgara — explicou

Stoichev, baixinho. — Seria de fato uma estranha inversão se o dragão vencesse São J orge. Mas lembrem-se de que os monges valáquios procuravam um mosteiro que já tivesse aquele sinal, porque seria o lugar adequado para juntar o corpo de Drácula à sua cabeça. Agora estou a começar a considerar se não teria havido uma heresia maior sobre a qual não temos conhecimento, uma heresia que já fosse conhecida em Constantinopla, na Valáquia, ou que talvez o próprio Drácula conhecesse. Teria a Ordem do Dragão as suas próprias crenças espirituais, fora dos preceitos da Igreja? Poderia de alguma maneira ter criado uma heresia? N unca tinha pensado nesta possibilidade, até hoje. Sacudiu a cabeça. Têm de ir a B achkovo e perguntar ao abade de lá se sabe alguma coisa a respeito dessa igualdade ou inversão de monstro e santo. Têm de lhe perguntar isso em segredo. A minha carta para ele que o vosso guia vos vai levar e ler vai dar a entender que apenas desejam fazer uma pesquisa sobre rotas de peregrinação, mas vão ter de encontrar uma maneira de falar com ele em segredo. Além disso, há um monge lá que foi um estudioso, um conhecido investigador da história de Sveti G eorgi. T rabalhou com Atanas Angelov e foi a segunda pessoa a ver a "C rônica" de Zacharias. O nome dele era P ondev quando o conheci, mas não sei como se chama agora, que é monge. O abade pode ajudá-los a identificá-lo. H á mais uma coisa. N ão tenho aqui um mapa da região próxima de B achkovo, mas acho que algures a noroeste do mosteiro há um longo vale sinuoso onde provavelmente existiu um rio. L embro-me de o ter visto uma vez, e de ter falado com os monges sobre isso quando visitei a região, apesar de não me lembrar agora como lhe chamavam. P oderia ser a cauda do nosso dragão? M as o que seriam então as asas do dragão? As montanhas, talvez. — Têm de as procurar, também.

Tive vontade de me ajoelhar diante de Stoichev e beijar-lhe os pés. — Mas o senhor não quer vir conosco?

— E u enfrentaria até a minha sobrinha para isso — replicou, sorrindo para ela, — mas

receio que isso só fosse levantar mais suspeitas. Se o vosso guia pensar que ainda estou interessado nesta pesquisa, vai ficar mais atento. Venham visitar-me logo que voltem para Sofia, se puderem. V ou pensar em vocês todo o tempo e desejar que façam uma viagem segura e descubram o que procuram. T omem, têm de levar isto. — Pôs um pequeno objeto na mão de H elen, mas ela fechou a mão tão depressa que não vi o que era nem onde o escondeu.

— O senhor Ranov desapareceu durante muito tempo, para os padrões dele —

comentou ela, em voz baixa. Olhei-a rapidamente.

— Achas que eu vá procurá-lo? — E u aprendera a confiar nos instintos de H elen e saí em direção ao portão principal sem esperar resposta.

Do lado de fora do grande mosteiro, vi Ranov a falar com um homem junto de um carro azul e comprido. O outro indivíduo era alto e elegante, no seu fato de Verão e chapéu, e algo nele fez com que me detivesse à sombra do portão. Os dois estavam no meio de uma discussão acalorada, que foi subitamente interrompida. O homem elegante deu uma palmada nas costas de Ranov e entrou no carro. Senti o impacto da palmada amigável conhecia aquele gesto, já acertara no meu ombro uma vez. Sem a menor dúvida, por incrível que fosse, o homem que agora conduzia habilmente pelo estacionamento empoeirado era G éza J ózsef. Recuei para o pátio, para junto de H elen e Stoichev, o mais depressa que pude. H elen estudou-me com um olhar penetrante, talvez estivesse também a aprender a confiar nos meus instintos. P uxei-a para um lado por um instante e Stoichev, embora parecesse curioso, era demasiado bem-educado para fazer perguntas.

— Acho que J ózsef está aqui — segredei-lhe depressa. — N ão lhe vi a cara, mas alguém que se parecia com ele estava agora mesmo a falar com Ranov

— M erda — disse H elen, baixinho. — Acho que foi a primeira e a última vez que a ouvi dizer um palavrão.

Logo depois, surgiu Ranov, apressado.

— E stá na hora da ceia — disse ele, peremptório, e suspeitei de que estivesse arrependido de nos ter deixado a sós com Stoichev por alguns minutos. P elo seu tom de voz, tive a certeza de que não me vira lá fora. — Venham comigo. Vamos comer.

A silenciosa ceia do mosteiro estava deliciosa, uma refeição caseira servida por dois monges. Um pequeno grupo de turistas estava aparentemente instalado na hospedaria juntamente conosco, e notei que alguns falavam outras línguas além de B úlgaro. Os que falavam alemão deviam ser pessoas da Alemanha Oriental, em férias, pensei, e talvez a outra língua fosse tcheco. C omemos com apetite, sentados a uma comprida mesa de madeira, com os monges alinhados noutra mesa próxima, e eu antevia com prazer as camas estreitas que nos aguardavam. Helen e eu não tínhamos tido um momento só para nós, mas eu sabia que ela devia estar a pensar na presença de J ózsef. O que quereria ele de Ranov? Ou, antes, o que queria de nós? L embrei-me da advertência de H elen sobre estarmos a ser seguidos. Quem lhe dissera que estávamos ali?

Fora um dia muito cansativo, mas eu estava tão ansioso para chegar a B achkovo que teria partido a pé de boa vontade, se isso me fizesse chegar lá mais depressa. E m vez disso, iríamos dormir, para nos prepararmos para a viagem do dia seguinte. M isturadas com os roncos de B erlim Oriental e de P raga, ouviria a voz de Rossi a dissertar sobre algum ponto controverso do nosso trabalho e a de H elen, parecendo achar graça à minha falta de perspicácia e dizendo: "Claro que quero casar contigo."