O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 24 de 83

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O Historiador

Capítulo 22

O meu pai estava relutante em levar-me a Oxford. Ficaria lá durante seis dias, disse, tempo demais para eu perder as aulas outra vez. Foi uma surpresa saber que estava disposto a deixar-me em casa; não fazia isso desde que eu encontrara o livrinho do dragão. Estaria a planejar deixar-me com precauções especiais? Aleguei que a nossa recente viagem ao longo do litoral iugoslavo demorara quase duas semanas, sem qualquer prejuízo nos meus resultados escolares. E le argumentou que a educação deve vir sempre em primeiro lugar. E u retorqui que ele afirmara sempre que as viagens são a melhor forma de educação. Mostrei-lhe o meu último boletim escolar, abrilhantado por uma porção de notas altas, e um trabalho de H istória no qual o meu pomposo professor escrevera: "Demonstra uma extraordinária percepção da natureza da pesquisa histórica, especialmente para alguém com a sua idade", um comentário que eu decorara e costumava repetir a mim mesma antes de adormecer.

O meu pai ficou visivelmente abalado, pois pousou o garfo e a faca de uma maneira que eu sabia significar uma pausa no nosso jantar na velha sala de jantar holandesa, e não o fim definitivo do primeiro prato. Disse que, desta vez, o seu trabalho não lhe permitiria mostrar-me a cidade como devia e não queria estragar as minhas primeiras impressões de Oxford mantendo-me confinada num sítio qualquer. Respondi que preferia ficar confinada em Oxford do que em casa com M rs. C lay e baixamos a voz, embora ela estivesse de folga nessa noite. Além disso, continuei, eu já era suficientemente crescida para andar sozinha. E le insistiu que não sabia se seria boa idéia eu ir porque as conversações seriam um tanto... tensas. Talvez não fosse bem assim — mas ele não podia continuar e eu sabia porquê. Tal como eu não podia confessar o meu verdadeiro motivo para ir a Oxford, ele não podia confessar o seu para não querer que eu fosse. E u não podia dizer-lhe que não aguentaria deixá-lo longe da vista agora, com as suas olheiras escuras e a cabeça e os ombros curvados de cansaço. E ele não podia admitir que, em Oxford, talvez não estivesse em segurança e, portanto, eu também não estaria segura na sua companhia. Ficou calado durante um ou dois minutos, depois perguntou-me amavelmente o que havia para a sobremesa, e eu fui buscar o indefectível pudim de arroz com passas de M rs C lay, que ela deixava sempre pronto como compensação por ir ao cinema no British Centre sem nós.

E u imaginara Oxford calma e verde, uma espécie de catedral ao ar livre onde os professores, vestidos com trajes medievais, passeassem, garbosos, cada um acompanhado por um único aluno, ensinando H istória, L iteratura e obscuras questões de Teologia. A realidade era um choque: motocicletas a buzinar, carros pequenos a grande velocidade de um lado para o outro, quase atropelando alunos que atravessavam as ruas, multidões de turistas a fotografar uma cruz no passeio onde uns bispos tinham sido queimados na fogueira quatrocentos anos antes, quando não existiam passeios. Tanto os professores como os alunos usavam roupas modernas e decepcionantes, camisolas de lã na sua maioria, com calças de flanela escura para os mestres e jeans para os discípulos. P ensei com tristeza que, no tempo de Rossi, uns bons quarenta anos antes do dia em que descemos do nosso autocarro vermelho e amarelo na esquina de B road Street, Oxford devia vestir-se com um pouco mais de dignidade.

E ntão, pus os olhos na primeira faculdade que vi em Oxford, erguendo-se acima dos

seus muros à luz da manhã, e, perto dela, as formas perfeitas do E difício Radcliffe, que de início pensei tratar-se de um pequeno observatório. P or trás, erguiam-se as agulhas das torres de uma imensa igreja castanha e, ao longo da rua, estendia-se um muro tão velho que até os líquenes que o cobriam pareciam antigos. N ão podia imaginar que impressão teríamos causado nas pessoas que andavam por aquelas ruas quando aquele muro ainda era novo eu, com o meu vestido curto vermelho, soquetes de renda e mochila, o meu pai, com o seu casaco azul-escuro e calças cinzentas, camisola preta de gola alta e chapéu de tweed, cada um de nós a arrastar uma pequena mala de viagem.

— C á estamos — declarou o meu pai, e, para minha alegria, paramos diante de um

portão de ferro forjado no muro coberto de líquenes. E stava fechado, e esperamos até um aluno vir abri-lo.

E m Oxford, o meu pai ia intervir numa conferência sobre as relações políticas entre os

E stados Unidos e a E uropa Oriental, então em plena fase de degelo. C omo era a universidade que promovia a conferência, explicou-me ele, ficaríamos hospedados em quartos particulares na residência do reitor de um dos colégios. E sses reitores dos colégios, contou-me, eram ditadores benevolentes que cuidavam dos alunos que viviam em cada faculdade. E nquanto seguíamos pela entrada escura e baixa para a claridade fulgurante do pátio quadrangular rodeado pelos edifícios da faculdade, compreendi pela primeira vez que em breve também eu iria para a universidade, e cruzei os dedos sobre a alça da minha mochila, murmurando o desejo de que nessa altura encontrasse um porto seguro como aquele.

O chão à nossa volta estava coberto de lajes de ardósia suavemente desgastada,

interrompidas aqui e ali por pesadas árvores de sombra — árvores sérias, melancólicas, com um ou outro banco debaixo delas. Um retângulo de um relvado perfeito e um estreito lago estendiam-se junto ao edifício principal da faculdade. E sta era uma das mais antigas de Oxford, fundada por E duardo I I I , o Confessor, no século treze, e os seus acrescentamentos mais recentes realizados pelos arquitetos isabelinos. Até aquele relvado meticulosamente aparado parecia venerável; nunca vi ninguém pisá-lo.

Contornamos a relva e o lago e dirigimo-nos para o gabinete do porteiro, logo à entrada,

e dali para uma sequência de quartos adjacentes à casa do reitor. E stes quartos deviam ter feito parte do projeto inicial da faculdade, embora fosse difícil afirmar para que fim teriam sido usados originalmente; tinham tetos muito baixos, com painéis de madeira escura e janelas estreitas de caixilhos de chumbo. O quarto do meu pai tinha cortinados azuis. O meu, para minha infinita satisfação, tinha uma cama alta com dossel de chintz estampado.

Desfizemos um pouco da bagagem, lavamos os nossos rostos de viajantes num lavatório amarelo-claro na nossa casa de banho comum e saímos ao encontro do reitor J ames, que nos esperava no seu gabinete do lado oposto do edifício. Revelou-se um homem cordial, de palavras afáveis, cabelo grisalho e uma cicatriz em curva que lhe descia por uma das faces. G ostei do seu caloroso aperto de mão e da expressão dos seus grandes olhos castanhos protuberantes. N ão estranhou que eu acompanhasse o meu pai à conferência e sugeriu mesmo que eu fizesse uma visita à universidade com o seu assistente nessa tarde. Acrescentou que o seu assistente era um rapaz muito amável e culto, um cavalheiro. O meu pai concordou; ele próprio estaria ocupado com reuniões, portanto, por que é que eu não haveria de aproveitar para ver os tesouros locais enquanto ali estava?

Apresentei-me, animada, às três horas, a minha boina nova numa mão e um caderno na outra, pois o meu pai sugerira que eu tomasse notas para redigir mais tarde um trabalho escolar sobre o passeio. O meu guia era um estudante grandalhão de cabelos claros, que o reitor J ames me apresentou como Stephen B arley. G ostei das suas belas mãos de veias azuladas e da sua camisola grossa de pescador jumpah, como lhe chamou, com o seu sotaque característico, quando a elogiei em voz alta. C aminhar pelo pátio ao lado dele deu-me a sensação de ser aceite temporariamente naquela comunidade de elite. Também me causou o primeiro e leve frêmito de pertença sexual, a impressão fugidia de que, se segurasse a mão dele enquanto andávamos, uma porta se abriria num ponto qualquer do longo muro da realidade tal como eu a conhecia, para nunca mais se fechar. J á expliquei que levava uma vida muito protegida tão protegida, reconheço hoje, que aos dezoito anos ainda não me apercebera de como os seus limites eram restritos. A centelha de rebelião que me acometeu ao andar ao lado de um bonito estudante universitário veio até mim como um acorde de música de uma cultura estrangeira. M as agarrei-me com firmeza ao meu caderno e à minha infância e perguntei-lhe por que razão havia mais pedra do que relva no pátio. E le sorriu-me.

— Bem, não sei. Nunca ninguém fez essa pergunta.

L evou-me ao refeitório, uma sala enorme de teto alto e vigas de madeira em estilo Tudor, cheio de mesas de madeira, e mostrou-me o sítio, num banco, onde um jovem conde de Rochester gravara uma palavra grosseira quando ali jantava. Ao longo das paredes, havia uma sucessão de janelas de caixilhos de chumbo, cada uma ornamentada no centro com uma antiga cena representando uma boa ação. T homas B ecket ajoelhado junto de um leito de morte, um padre com uma batina comprida a servir sopa a uma fila de pobres agachados, um médico medieval a pôr uma ligadura na perna de uma pessoa. P or cima do banco Rochester, havia uma cena que não consegui perceber, um homem com uma cruz pendurada ao pescoço e uma estaca pontiaguda na mão, curvado sobre algo que parecia um amontoado de farrapos negros.

— Ah, isso aí é de fato uma curiosidade — disse o meu jovial amigo. — Temos muito orgulho nisso. Sabe, esse homem é um professor dos primeiros anos da universidade, e está a cravar uma estaca de prata no coração de um vampiro.

Olhei fixamente para ele, sem fala por uns instantes. — Existiam vampiros em Oxford naquela época? — perguntei por fim. — N ão sei dizer-lhe — admitiu ele, sorridente. — M as há uma tradição de que os

primeiros acadêmicos da universidade ajudavam a proteger dos vampiros os campos em redor. C hegaram a recolher uma boa quantidade de tradições orais populares sobre vampiros, um material bastante interessante, que ainda se pode ver no E difício Radcliffe, do outro lado da rua. Diz a lenda que os primeiros deões não queriam livros sobre ciências ocultas dentro da universidade, por isso foram guardados em vários outros lugares e finalmente foram parar ao Edifício Radcliffe.

L embrei-me de Rossi e perguntei a mim mesma se ele teria visto algum daquele antigo

material.

— H á alguma forma de se descobrir o nome de antigos alunos... de há cinquenta anos,

talvez, nesta faculdade? Alunos de graduação?

— C laro — o meu companheiro olhou para mim com ar interrogativo por cima do

banco de madeira. — Posso perguntar ao reitor do colégio, se quiser.

— Ah, não. — Senti o rosto corar, a maldição da minha juventude. — N ão é

importante. Mas acha que eu poderia ver o... o material sobre os vampiros?

— G osta de coisas arrepiantes, hein? — E le parecia achar graça. — N ão há muito que

ver, sabe; só alguns velhos in-fólios e uma porção de livros encadernados em couro. M as está bem. Vamos ver a biblioteca da universidade agora, não pode deixar de ver, e depois levo-a ao Radcliffe.

A biblioteca era, evidentemente, uma das jóias da universidade. Desde aquele dia

inocente, estive na maioria daquelas faculdades e cheguei a conhecer bem algumas delas, deambulei pelas suas bibliotecas e capelas e refeitórios, fiz conferências nos seus auditórios e tomei chá nas suas salas de visitas. P osso afirmar com segurança que nada se assemelha àquela primeira biblioteca de universidade que vi, exceto talvez a capela do M agdalen C ollege, com os seus sublimes ornamentos. E ntramos primeiro numa sala de leitura rodeada de vitrais e semelhante a uma grande estufa onde os alunos, como raras plantas cativas, se sentavam em torno de mesas tão antigas como a própria universidade. C andeeiros exóticos pendiam do teto e, nos cantos, havia enormes globos do tempo de H enrique V I I I sobre pedestais. O meu guia apontou para os muitos volumes da edição original do Oxford E nglish Dictionary alinhados nas prateleiras de uma das paredes; outras estavam repletas de atlas abrangendo uma longa extensão de séculos; noutras, havia registros da antiga aristocracia e obras de H istória inglesa; noutras ainda, livros escolares de L atim e G rego de todas as épocas da universidade. N o centro da sala, via-se uma gigantesca enciclopédia sobre um suporte entalhado de estilo barroco e, perto da entrada da sala seguinte, repousava uma caixa de vidro dentro da qual vi um livro velho de aparência despojada que o meu guia me informou ser uma B íblia de G utenberg. Acima de nós, uma clarabóia redonda como o óculo de uma igreja bizantina, deixava entrar longos feixes de luz solar. Através dela, viam-se pombos a voar em bandos. A poeira de luz tocava os rostos dos alunos que liam e viravam as páginas dos livros sentados às suas mesas, roçava os seus blusões pesados e os seus rostos sérios. Era o paraíso do saber e eu rezei para que um dia pudesse ser ali admitida.

A divisão seguinte era um vasto salão cheio de galerias, escadas em caracol e um alto clerestório de vidro antigo. Todas as paredes disponíveis estavam cobertas de livros de cima a baixo, do piso de pedra ao teto abobadado. V i quilômetros de encadernações de couro finamente lavradas, toneladas de fólios, montes de pequenos livros vermelho-escuros do século dezenove. Tentei imaginar o que haveria em todos aqueles livros. Seria capaz de compreender alguma coisa neles? Os meus dedos estavam ansiosos por tirar alguns das estantes, mas não ousava tocar nem numa lombada. N ão sabia se aquilo era uma biblioteca ou um museu. Devo ter ficado a olhar em volta com a emoção nitidamente estampada no rosto, porque de repente dei com o rapaz de cabelos claros a sorrir para mim com ar divertido.

— N ada mal, hem! V ocê também deve ser um rato de biblioteca. Venha, então, já viu a melhor parte, vamos até ao Radcliffe.

A luz do dia e os carros barulhentos e velozes eram ainda mais atordoantes depois do silêncio da biblioteca. T ive de lhes agradecer, porém, por um presente inesperado: quando atravessávamos a rua à pressa, Stephen pegou-me na mão, puxando-me para um lugar seguro. P odia ter sido um autoritário irmão mais velho de alguém, pensei, mas o toque da palma da mão dele, quente e seca, enviou à minha um sinal semelhante a um formigueiro que persistiu depois de ele a largar. T ive a certeza, relanceando um olhar para o perfil dele, alegre e inalterado, de que a mensagem fora registrada apenas numa direção. M as, para mim, bastava tê-la recebido.

O E difício Radcliffe, como todos os anglófilos sabem, é um dos grandes encantos da arquitetura inglesa, bela e peculiar, um enorme barril de livros. Uma das suas extremidades chega quase à rua, mas um amplo relvado circunda o resto da construção. E ntramos nela em silêncio, embora um barulhento grupo de excursionistas enchesse o centro do majestoso interior arredondado. Stephen mostrou-me vários aspectos do projeto do edifício, estudados em todos os cursos de arquitetura inglesa e assinalados em todos os guias turísticos. E ra um lugar lindo e emocionante e, enquanto o admirava, eu refletia que se tratava de um depósito singular para um acervo sobre o mal. P or fim, ele conduziu-me para uma escadaria e subimos até à galeria.

— Ali adiante. — E apontou na direção de uma porta, cortada num verdadeiro penhasco de livros erguido a prumo. — Há uma pequena sala de leitura lá dentro. Só estive aqui uma vez, mas acho que é ali que guardam o material sobre vampiros.

A sala mal iluminada era de fato minúscula, e também silenciosa, longe das vozes dos turistas lá em baixo. V olumes majestosos enchiam as estantes, com as suas lombadas cor de caramelo, quebradiças como velhos ossos. N o meio delas, um crânio humano dentro de uma pequena caixa de vidro dourado comprovava a natureza mórbida da coleção. A divisão era tão pequena que só havia espaço no centro para uma mesa de leitura, na qual quase tropeçamos ao entrar. I sso significa que ficamos de repente cara a cara com o estudioso que estava sentado junto dela, virando as folhas de um antigo e frágil infólio e tomando notas rapidamente num bloco. Um homem pálido, macilento. Os seus olhos eram buracos escuros, sobressaltados, apressados, mas também absortos, quando os levantou do seu trabalho. Era o meu pai.