O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 33 de 83

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O Historiador

Capítulo 30

As quatro horas e dois minutos, B arley e eu embarcamos no expresso para o Sul de França, para P erpignan. B arley atirou a sua mala para o cimo dos degraus e estendeu a mão para me puxar para cima. H avia menos passageiros naquele comboio, e o compartimento que encontramos permaneceu vazio mesmo depois de o comboio ter partido. E u estava a ficar cansada; se estivesse em casa àquela hora, estaria sentada à mesa da cozinha diante de um copo de leite e de uma fatia de bolo servidos por M rs. C lay. P or um segundo, quase senti a falta dos seus enfadonhos cuidados. B arley sentou-se ao meu lado, embora tivesse outras quatro poltronas à escolha, e eu enfiei a minha mão por baixo de seu braço agasalhado pela camisola.

— E u devia estudar — disse ele, mas não abriu logo o livro; havia muito para ver à medida que o comboio ganhava impulso através da cidade. P ensei em todas as vezes que estivera ali com o meu pai — a subir até M ontmartre, ou a olhar para o camelo deprimido do Jardin dês Plantes. Agora, parecia uma cidade que eu nunca tinha visto antes.

Observar B arley a mover os lábios lendo M ilton fez-me sono, e, quando ele disse que queria ir até ao vagão-restaurante para tomar um chá, abanei a cabeça, sonolenta.

— Você está um farrapo — disse-me, a sorrir. — O melhor é ficar aqui e dormir. Eu vou levar o meu livro. Podemos sempre voltar lá mais tarde para jantar, quando tiver fome.

Os meus olhos fecharam-se praticamente assim que ele deixou o compartimento, e, quando os abri novamente, vi que estava encolhida na poltrona vazia como uma criança, a minha saia comprida de algodão a cobrir-me os tornozelos. H avia alguém na poltrona em frente, a ler um jornal, e não era B arley. Sentei-me rapidamente. O homem estava a ler o Lê Monde, e o jornal aberto escondia-o quase por completo — não conseguia ver nada da parte superior do seu corpo, nem o seu rosto. N a poltrona ao seu lado, estava pousada uma maleta de couro preta.

P or uma fração de segundos, imaginei que fosse o meu pai, e uma onda de gratidão e confusão mental invadiu-me. E ntão, vi os sapatos do homem, que também eram de couro preto e muito brilhantes, o couro perfurado com desenhos elegantes nas biqueiras, os atacadores de couro rematados por borlas pretas. O homem tinha as pernas cruzadas, usava calças pretas impecáveis e meias de seda fina, pretas. N ão eram os sapatos do meu pai; na verdade, havia qualquer coisa que não batia certo naqueles sapatos, ou nos pés contidos nos sapatos, embora eu não conseguisse perceber o que me causava aquela impressão. Refleti que um homem estranho não deveria ter entrado enquanto eu estava a dormir — havia algo de desagradável naquilo, também, e eu esperava que não tivesse estado a observar-me enquanto eu dormia. P onderei, no meio da minha inquietação, se seria capaz de me levantar e abrir a porta sem que ele desse por isso. E ntão, reparei que ele tinha fechado as cortinas que davam para o corredor. N inguém que lá passasse poderia ver-nos. Ou teria sido B arley que as tinha fechado antes de sair, para me deixar dormir? Olhei para o relógio. E ram quase cinco da tarde. L á fora, uma paisagem extraordinária passava; estávamos a entrar no Sul da França. O homem atrás do jornal estava tão quieto que comecei a tremer involuntariamente. Depois de um momento, percebi o que me estava a assustar. J á estava acordada há longos minutos, mas, durante todo o tempo em que estivera a observar e a escutar, o homem não virara sequer uma página do jornal.

 

O apartamento de Turgut ficava noutro ponto de I stambul, no mar de M armara, e

apanhamos um ferry para lá no movimentado porto de E minõnú. H elen ia de pé junto à amurada, observando as gaivotas que seguiam o ferry e admirando a impressionante silhueta da cidade antiga. Fui para junto dela e Turgut apontava para as torres e as cúpulas, a sua voz retumbando acima do barulho dos motores. O bairro dele, como descobrimos ao desembarcar, era mais moderno do que os que tínhamos visto até então, mas, neste caso, moderno significava século dezenove. C onforme caminhávamos por ruas cada vez mais tranquilas, distanciando-nos da área de atracagem dos barcos, eu descobria uma segunda I stambul, nova para mim: árvores majestosas cujas copas se curvavam para baixo, belas casas de pedra e madeira, edifícios de apartamentos que poderiam ter sido transportados de um bairro parisiense, passeios cuidados, vasos de flores, cornijas ornamentadas. Aqui e ali, o velho império islâmico surgia, sob a forma de um arco em ruínas ou de uma mesquita isolada, uma casa turca com o andar superior a projetar-se para fora. N a rua de Turgut, porém, o Ocidente fizera uma limpeza requintada e meticulosa. M ais tarde, vi exemplos semelhantes noutras cidades P raga e Sofia, B udapeste e M oscovo, Belgrado e Beirute. Aquela elegância emprestada tinha sido emprestada a todo o Oriente.

— P or favor, entrem — Turgut parou em frente de uma fila de casas antigas,

convidou-nos a subir uma dupla escadaria e verificou uma pequena caixa de correio aparentemente vazia que tinha escrito "P rofessor B ora". Abriu a porta e afastou-se para o lado.

— P or favor, sejam bem-vindos ao meu lar, onde tudo lhes pertence. É uma pena que

a minha mulher não esteja em casa; é professora na escola infantil.

P rimeiro, entramos num vestíbulo com chão e paredes de madeira encerada, onde

imitamos Turgut e tiramos os sapatos, calçando os chinelos bordados que ele nos deu. E m seguida, fez-nos passar para uma sala de estar, e H elen deixou escapar um leve murmúrio de admiração, a que eu não pude deixar de fazer eco. Uma agradável luz esverdeada enchia a sala, mesclada de tons suaves de rosa e amarelo. N otei, instantes depois, que isto se devia ao efeito da luz do sol filtrando-se ao mesmo tempo através das árvores do lado de fora de duas grandes janelas e das cortinas de renda antiga branca. A sala estava repleta de móveis extraordinários, muito baixos, feitos de madeira escura e estofados com tecidos suntuosos. Ao longo de três paredes, corria um único banco cheio de almofadas cobertas de rendas. P or cima deste banco, nas paredes caiadas de branco, sucediam-se pinturas e gravuras de Istambul, o retrato de um velho com um fez e outro de um homem mais jovem vestido com um fato preto, um pergaminho emoldurado coberto com fina caligrafia árabe. Havia fotografias desbotadas da cidade em tons sépia e vitrinas que guardavam serviços de café de latão. Os cantos estavam preenchidos com coloridos vasos esmaltados, transbordando de rosas. Sob os nossos pés, tapetes altos carmim, cor-de-rosa, um verde suave. N o centro exato da sala, uma grande bandeja redonda sobre um suporte, muito polida, vazia, como se esperasse pela próxima refeição.

— É muito bonita — disse H elen, virando-se para o nosso anfitrião, e lembrei-me de como parecia adorável quando a sinceridade lhe descontraía as linhas duras em volta da boca e dos olhos. — É como as Mil e Uma Noites.

Turgut riu-se e descartou o elogio com um gesto largo da mão, mas estava claramente lisonjeado.

— É a minha mulher — disse ele. — Aprecia as nossas antigas artes decorativas, e a família deixou-lhe muitos objetos de qualidade. Talvez tenhamos aqui mesmo uma ou outra coisinha do império do sultão M ehmed — e sorriu para mim. — N ão faço café tão bem como ela, ou pelo menos é o que ela diz, mas farei o meu melhor.

I nstalou-nos nos móveis baixos, próximos um do outro, e pensei com satisfação em todos aqueles objetos consagrados pelo tempo e que significavam conforto: a almofada, o divã, e, sobretudo, a otomana.

O melhor de Turgut acabou por ser o almoço, que ele trouxe de uma pequena cozinha do outro lado do vestíbulo, recusando as nossas sinceras ofertas de ajuda. N ão consegui imaginar como podia ter preparado uma refeição em tão pouco tempo, devia estar tudo preparado na cozinha. T rouxe bandejas de molhos e saladas, uma tigela de melão, um guisado de carne e vegetais, espetadas de frango, a onipresente mistura de pepino e iogurte, café e uma avalanche de doces envoltos em amêndoas e mel. C omemos com vontade, e Turgut encheu-nos de comida até não podermos mais.

— Bem — disse ele, — não posso deixar que a minha mulher pense que os deixei passar fome.

Depois de tudo aquilo, veio um copo de água com algo branco e doce num prato ao lado.

— Attar de rosas — disse Helen, provando. — Muito bom. Na Romênia também têm.

Deitou um pouco da pasta branca no copo e bebeu, e eu fiz o mesmo. Não sabia o que a água poderia causar à minha digestão mais tarde, mas não era altura para preocupações dessas.

Quando já estávamos quase a rebentar, reclinamo-nos nos sofás baixos agora compreendia a sua utilidade, recuperar depois de uma lauta refeição e Turgut olhou satisfeito para nós.

— Têm certeza de que não querem mais nada?

H elen riu-se e eu gemi um pouco, mas Turgut encheu-nos outra vez os copos e as chávenas de café.

— M uito bem. Agora, falemos das coisas sobre as quais ainda não pudemos conversar.

Primeiro, fiquei estupefato ao saber que também conhecem o professor Rossi, mas ainda não percebi qual é a vossa ligação. E le é seu orientador, meu jovem amigo? — E sentou-se na otomana, inclinando-se para nós com um ar de expectativa.

Olhei para H elen e ela fez que sim com a cabeça, discretamente. P ensei comigo se o

attar de rosas não teria contribuído para abrandar as suas desconfianças.

— B em, professor B ora, lamento dizer que não fomos completamente francos consigo

até este momento — confessei. — M as, sabe, temos uma missão muito peculiar a cumprir, e não sabemos em quem confiar.

— Estou a ver — e sorriu. — Talvez sejam mais sábios do que pensam. — Isto deu-me a

oportunidade de fazer uma pausa, mas H elen fez novamente um sinal com a cabeça e prossegui:

— O professor Rossi tem um interesse especial para nós, também, não só por ser o meu

orientador, mas por causa de algumas informações que nos transmitiu... me transmitiu... e porque ele, bem, ele desapareceu.

O olhar de Turgut era perfurante.

— Desapareceu, meu amigo?

— Sim.

H esitante, contei-lhe a minha ligação com Rossi, o meu trabalho com ele na minha tese

e o estranho livro que eu encontrara no meu compartimento na biblioteca. Quando comecei a descrever o livro, Turgut sobressaltou-se no seu sofá e juntou as duas mãos abertas, mas não disse nada; só passou a ouvir ainda com mais atenção. Prossegui, relatando como levara o livro a Rossi, e a história que ele me contara sobre como tinha encontrado o seu próprio livro. T rês livros, pensei, parando para respirar. Agora sabíamos de três desses estranhos livros um número mágico. M as de que modo estariam relacionados entre si, como deviam decerto estar? Relatei o que Rossi me contara sobre as suas pesquisas em I stambul nesse ponto, Turgut balançou a cabeça, como se estivesse desconcertado e a sua descoberta, no arquivo, de que a imagem do dragão coincidia com os contornos dos mapas antigos.

C ontei a Turgut a maneira como Rossi desaparecera, descrevi a estranha sombra que

vira passar pela janela do seu gabinete na noite em que desaparecera e como iniciara as buscas sozinho, a princípio acreditando só em parte na história dele. Fiz outra pausa, desta vez para ver o que diria H elen, porque não queria revelar a história dela sem a sua autorização. E la mexeu-se, olhou para mim em silêncio das profundezas do divã e então, para minha surpresa, ela própria continuou a história no ponto em que eu tinha parado e contou a Turgut tudo o que já me contara, falando com a sua voz baixa, às vezes áspera — a história do seu nascimento, da sua vingança pessoal contra Rossi, a profundidade da sua pesquisa sobre a história de Drácula e a sua intenção de procurar dados sobre a lenda naquela cidade. As sobrancelhas de Turgut subiram-lhe até à raiz dos cabelos penteados com fixador. As palavras de H elen, a maneira como as articulava, a voz profunda e clara, o óbvio brilhantismo da sua mente, e talvez também o rubor nas suas faces acima da gola azul-clara da blusa, tudo isso resultou na admiração que se estampou no rosto de Turgut ou pelo menos foi o que pensei, e, pela primeira vez desde que o conhecêramos, senti uma ponta de hostilidade contra ele.

Quando H elen acabou, ficamos sentados em silêncio por um momento. A luz do sol, que penetrava naquela bela sala pelo filtro verde das árvores, parecia aprofundar-se em torno de nós, e uma sensação de irrealidade invadiu-me. Por fim, Turgut falou.

— A vossa experiência é notável, e estou-lhes grato por me terem contado tudo isso. Ainda gostaria de saber por que razão o professor Rossi se viu forçado a escrever-me dizendo que nada sabia sobre o nosso arquivo aqui, o que parece ser mentira, não é assim? M as é terrível, o desaparecimento de um acadêmico tão respeitável. O professor Rossi foi punido por algum motivo — ou está a ser punido neste exato momento, enquanto estamos aqui sentados.

A sensação de languidez abandonou-me no mesmo instante, como se uma brisa fria a tivesse levado.

— C omo é que o senhor tem tanta certeza? E de que modo poderemos encontrá-lo, se for verdade?

— Sou um racionalista, como o senhor — disse calmamente Turgut, — mas acredito, guiado pelo meu instinto, no que o senhor diz que o professor Rossi lhe contou naquela noite, e, temos a prova das suas palavras no que o velho bibliotecário do arquivo me contou que um investigador estrangeiro fugiu de lá assustado e no fato de ter encontrado o nome do professor Rossi nos registros. P ara não falar no aparecimento de um demônio com sangue na boca — Turgut parou. — E agora esta horrenda aberração, o nome dele... o nome do seu artigo... acrescentado, sabe-se lá como, a bibliografia no arquivo. C onfunde-me, esse acréscimo! P ara assustar alguém? Fizeram o que tinham a fazer, colegas, vindo a I stambul. Se o professor Rossi estiver aqui, encontrá-lo-emos H á muito tempo que me pergunto se a tumba de Drácula não estará aqui mesmo, em Istambul Parece-me que se alguém pôs muito recentemente o nome de Rossi nessa bibliografia, então há uma boa hipótese de Rossi estar aqui. E acreditam que Rossi será encontrado no local onde Drácula está sepultado. Ficarei inteiramente à vossa disposição quanto a este assunto. Sinto-me.. responsável por vós, neste caso.

— E agora tenho uma pergunta para lhe fazer. — Os olhos de H elen apertaram-se. — P rofessor B ora, como é que foi parar ao nosso restaurante ontem à noite? P arece-me demasiada coincidência que o senhor tenha aparecido quando acabávamos de chegar a I stambul, procurando o arquivo pelo qual sempre teve tanto interesse durante todos estes anos.

Turgut levantara-se e estava a pegar numa pequena caixa de latão de uma mesinha lateral e abriu-a, oferecendo-nos cigarros. E u nunca fumava, mas H elen tirou imediatamente um cigarro e deixou que Turgut lho acendesse. E le acendeu um para si, sentou-se de novo e ficaram os dois a olhar um para o outro, de modo que por um momento senti-me sutilmente excluído. O tabaco tinha um perfume delicado, e era com certeza muito fino; pensei se seria o luxuoso tabaco turco, tão famoso nos E stados Unidos. Turgut exalou delicadamente e H elen descalçou os chinelos e dobrou as pernas debaixo do corpo, como se estivesse habituada a sentar-se em almofadas orientais. E ste era um lado dela que eu ainda não tinha visto, essa descontração graciosa sob o encanto da hospitalidade.

E Turgut então respondeu.

— C omo foi que os encontrei no restaurante? E u próprio me fiz essa pergunta muitas

vezes, porque também não tenho resposta para ela. M as posso dizer-lhes com toda a honestidade, meus amigos, que não sabia quem eram nem o que estavam a fazer em I stambul quando me sentei numa mesa próxima da vossa, na verdade, vou frequentemente aquele restaurante porque é o meu preferido no bairro antigo, e às vezes dou um passeio a pé até lá entre uma aula e outra. N aquele dia, fui quase sem pensar, e, quando vi que não estava lá mais ninguém além de dois estrangeiros, senti-me solitário, e não queria comer sozinho num canto. A minha mulher diz sempre que sou um caso incurável de compulsão para fazer amigos.

Sorriu e bateu a cinza do cigarro num prato de cobre, que depois empurrou na direção

de Helen.

— M as não é um hábito assim tão mau, pois não? De qualquer forma, quando descobri

o vosso interesse pelo meu arquivo, fiquei surpreendido e emocionado, e agora que ouvi a vossa mais que extraordinária história, sinto que de algum modo lhes devo dar apoio aqui em I stambul. Afinal, por que é que foram ao meu restaurante preferido? P or que é que fui lá jantar com o meu livro? Vejo que a senhora ainda está desconfiada, mas não tenho uma resposta para lhe dar, exceto para dizer que esta coincidência me dá esperanças. "H á mais coisas no céu e na terra..." — olhou pensativo para nós dois e o seu rosto era franco e sincero, e também triste.

Helen soprou uma nuvem de fumo turco na já esbatida luz do sol. — M uito bem, então — disse ela. — Tenhamos esperança. E agora, o que fazemos com

a nossa esperança? J á vimos os originais dos mapas e já vimos a B ibliografia da Ordem do Dragão, que Paul queria tanto ver. Mas onde é que isso tudo nos leva?

— Venham comigo — disse Turgut, abruptamente. L evantou-se e a última languidez

da tarde desvaneceu-se. Helen apagou o cigarro e levantou-se também, a manga da blusa a roçar a minha mão. Segui-os.

— P or favor, entrem um momento no meu escritório. — Turgut abriu uma porta no

meio das dobras de antiga lã e seda e afastou-se educadamente para o lado.