O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 31 de 83

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O Historiador

Capítulo 28

Desta vez, fui eu que adormeci, em vez de B arley. Quando acordei, dei por mim encostada a ele, a minha cabeça apoiada num ombro da sua camisola azul-marinho. E stava a olhar pela janela, com as cartas do meu pai, novamente arrumadas nos respectivos envelopes, no colo, as pernas cruzadas, o rosto — não muito acima do meu virado para a paisagem que passava, que eu sabia que naquela altura devia ser a de uma área rural da França. Abri os olhos e vi o seu queixo ossudo. Olhando para baixo, vi as mãos de B arley frouxamente entrelaçadas sobre as cartas. N otei, pela primeira vez, que ele roía as unhas, como eu também sempre fizera. Fechei os olhos novamente, fingindo dormir, porque o calor do seu ombro era reconfortante. E ntão, tive medo de que ele não gostasse que eu me apoiasse nele, ou de lhe ter babado a camisola durante o meu sono pateta, e endireitei-me rapidamente. B arley virou-se para mim, os olhos cheios de pensamentos longínquos, ou quem sabe apenas ainda imersos nos campos para lá da janela, já não planos, mas ondulando em colinas, uma modesta região rural francesa. Depois de um instante, sorriu.

 

Quando a tampa da caixa de segredos do sultão M ehmed foi aberta, emanou dela um cheiro que eu conhecia bem. Era o cheiro de documentos muito antigos, de pergaminho, de pó e de séculos, de páginas que o tempo há muito começara a corromper. E ra o mesmo cheiro do pequeno livro em branco com o dragão no centro, o meu livro. N unca tivera coragem de o cheirar diretamente, como em segredo fizera com alguns dos outros volumes antigos que tinha manuseado — tinha medo, acho eu, que pudesse haver algum traço repugnante no seu odor, ou, pior, algum poder no cheiro, uma droga maligna que não queria inalar.

Turgut retirava cuidadosamente os documentos da caixa. C ada um deles fora envolvido num papel macio amarelado pelo tempo, e variavam em tamanho e em forma. Espalhou-os cuidadosamente em cima da mesa à nossa frente.

— E u mesmo vou mostrar-lhes estes papéis, e dizer-lhes o que sei sobre eles — disse. — Depois, talvez queiram sentar-se e refletir sobre eles, não acham?

Sim, talvez quiséssemos — fiz que sim com a cabeça, e ele desembrulhou um dos rolos, desenrolando-o delicadamente, sob o nosso olhar atento. E ra de pergaminho, preso a finas hastes de madeira, muito diferente das grandes páginas planas e dos livros comerciais encadernados a que estava habituado nas minhas pesquisas sobre o mundo de Rembrandt. As bordas do pergaminho estavam decoradas com uma margem colorida de padrões geométricos, em dourado, azul-escuro e carmim. O texto manuscrito, para minha decepção, fora redigido no alfabeto árabe. N ão sei bem do que estava à espera; este documento viera do coração de um império que falava a língua otomana e a escrevia em caracteres árabes, recorrendo ao G rego apenas para intimidar os B izantinos, ou ao L atim para ameaçar os portões de Viena

Turgut leu-me a perplexidade no rosto e apressou-se a explicar. — E ste, meus amigos, é um registro das despesas de uma guerra contra a Ordem do

Dragão. Foi escrito numa cidade no lado setentrional do Danúbio por um burocrata que ali estava a gastar o dinheiro do sultão — é um relatório de negócios, por outras palavras. O pai de Drácula, Vlad Dracul, ficou muito caro ao I mpério Otomano nos meados do século quinze, sabem. E ste burocrata encomendou armaduras e, como se diz? C imitarras, para trezentos homens a fim de proteger a fronteira dos C árpatos Ocidentais, para que as populações locais não se rebelassem, e também comprou cavalos para eles. — Aqui apontou para o final do rolo com um dedo comprido — aqui diz que Vlad Dracul foi uma despesa... e um.. uma terrível maçada e que lhes custou mais dinheiro do que o paxá queria gastar. O paxá lamenta muito, está consternado e deseja vida longa ao I ncomparável, em nome de Alá.

H elen e eu entreolhamo-nos e creio ter lido nos seus olhos algum do temor que eu

próprio estava a sentir. Aquele pedaço de história era tão real como o pavimento de ladrilhos debaixo dos nossos pés ou o tampo de madeira da mesa sob os nossos dedos. As pessoas a quem aquilo acontecera tinham realmente vivido e respirado e sentido e pensado e depois morrido, como nós como um dia aconteceria conosco. Desviei o olhar, incapaz de acompanhar o pulsar de emoções no seu rosto vincado.

Turgut enrolara de novo o pergaminho e estava a abrir um segundo embrulho, que

continha mais dois rolos.

— E sta é uma carta do paxá da Valáquia, na qual promete enviar ao sultão M ehmed

todos os documentos que encontrar sobre a Ordem do Dragão. E este é um relatório do comércio ao longo do Danúbio em 1461, não longe da área controlada pela Ordem do Dragão. As fronteiras dessa zona não eram estáveis, os senhores compreendem — mudavam continuamente. O relatório registra as sedas, as especiarias e os cavalos que o paxá pede em troca da lã dos pastores dos seus domínios.

Os dois rolos seguintes eram relatórios semelhantes. E ntão, Turgut desenrolou um

embrulho menor, que continha um esboço em pergaminho plano.

— Um mapa — disse. I nvoluntariamente, fiz um movimento para pegar na minha

pasta, que continha os esboços e as anotações de Rossi, mas H elen abanou a cabeça quase imperceptivelmente. P ercebi o que queria dizer — não conhecíamos Turgut suficientemente bem para revelarmos todos os nossos segredos. Ainda não, corrigi-me mentalmente; afinal de contas, ele parecia estar a mostrar-nos tudo aquilo de que dispunha.

— N unca consegui perceber o que é este mapa, meus amigos — disse Turgut. H avia

tristeza na sua voz, e afagou o bigode com um gesto pensativo. Olhei mais de perto o pergaminho e reconheci com emoção uma versão esmerada, embora desbotada, do primeiro mapa que Rossi copiara, os extensos semicírculos de montanhas, o rio sinuoso a norte delas.

— N ão se parece com nenhuma região que eu tenha estudado, e não há modo de saber qual é a... como se diz?... a escala do mapa, percebem? — E colocou-o de lado. — E ste aqui é outro mapa, que parece ser uma visão mais pormenorizada desta área do primeiro mapa.

Eu sabia o que era — já tinha visto tudo aquilo, e a minha agitação aumentou.

— Acredito que estas sejam as montanhas mostradas na parte oeste do primeiro mapa, não? — Suspirou. — M as não há nenhuma outra informação, e os senhores podem ver que não está muito legendado, a não ser por algumas linhas do C orão e este estranho dístico uma vez traduzi-o com cuidado que diz qualquer coisa como: "N este lugar, ele reside no mal. Leitor, desenterra-o com as tuas palavras."

E u tinha estendido uma mão assustada para o interromper, mas Turgut falara muito depressa e apanhou-me desprevenido.

— N ão! — exclamei, mas tarde demais, e Turgut olhou para mim com espanto. H elen olhava de um para o outro, e M r. E rozan tirou os olhos do seu trabalho, no outro lado da sala, e ficou também a olhar para mim.

— Desculpem — sussurrei. — Só estou excitado por ver estes documentos. São tão... interessantes.

— Ah, folgo muito que os ache interessantes. — Turgut quase sorriu, no meio da sua seriedade. — E essas palavras realmente soam um pouco estranhas. Dão um... sabem como é... Um sobressalto.

N aquele momento ouvimos alguém andar dentro da sala. Olhei em volta nervosamente, quase à espera de encontrar o próprio Drácula, qualquer que fosse a sua aparência, mas era apenas um homem pequeno com um gorro de crochê e uma barba grisalha e desgrenhada. M r. E rozan foi até à porta para o cumprimentar, e voltamos aos nossos documentos. Turgut tirou outro pergaminho da caixa.

— E ste é o último documento da caixa — disse. — N unca consegui entendê-lo. E stá registrado no catálogo da biblioteca como uma Bibliografia da Ordem do Dragão.

O meu coração deu um salto e vi um rubor assomar ao rosto de Helen.

— Uma bibliografia?

— Sim, meu amigo. — Turgut abriu-o devagar sobre a mesa diante de nós. P arecia muito antigo e frágil, escrito em grego, numa bela caligrafia. A parte superior curvava-se irregularmente, como se tivesse feito parte de um rolo mais longo, e a parte inferior fora claramente arrancada. N ão havia quaisquer ornamentos no manuscrito, apenas as palavras alinhadas naquela primorosa caligrafia. Suspirei. N unca estudara G rego, embora duvidasse de que qualquer conhecimento inferior a um domínio completo da língua pudesse ajudar-me com um documento assim.

Como se adivinhasse o meu problema, Turgut tirou da sua pasta um caderno de notas.

— M andei fazer uma tradução deste texto por um estudioso de B izâncio da nossa universidade. E le tem um conhecimento extraordinário da língua e dos documentos bizantinos. I sto é uma lista de obras de literatura, embora eu não tenha encontrado sequer menção de muitas delas em qualquer outro lugar.

Abriu o seu caderno de notas e alisou uma página. E stava coberta de caprichados

caracteres turcos. Desta vez, Helen suspirou Turgut deu uma palmada na testa.

— M il perdões — disse. — V ou traduzir para os senhores à medida que avançamos,

está bem; H eródoto, O T ratamento aos P risioneiros de G uerra. Feseus, Sobre a Razão e a Tortura. Orígenes, T ratado sobre os P rincípios P rimordiais. E utímio, o Velho, O Destino dos Condenados. Gubent de Ghent, Tratado sobre a Natureza. São T omás de Aquino, Sútfo. C omo vêem, é uma coleção estranha, e alguns dos livros são muito raros. O meu amigo, o estudioso de B izâncio, disse-me, por exemplo, que seria um milagre se uma versão até agora desconhecida desse tratado escrito pelo filósofo paleocristão Orígenes tivesse sobrevivido algures: a maior parte da obra de Orígenes foi destruída porque ele foi acusado de heresia.

— Que heresia? — H elen parecia interessada. — Tenho a certeza de já ter lido alguma

coisa sobre ele, não sei onde

— Foi acusado de alegar, no seu tratado, que é uma questão de lógica cristã admitir que

até mesmo Satã será um dia salvo e ressuscitado — explicou Turgut. — C ontinuo com a lista?

— Se não for muito incômodo — pedi, — importava-se de nos copiar esses títulos em

inglês à medida que os vai lendo?

— Com prazer — Turgut sentou-se com o seu caderno de notas e pegou numa caneta. — O que acha de tudo isto? — perguntei a H elen. O seu rosto falava mais claramente

do que qualquer palavra. Teríamos vindo de tão longe só por causa de uma lista confusa de livros?

— Sei que ainda não faz sentido — disse-lhe em voz baixa, — mas vamos ver onde nos

irá levar.

— B em, meus amigos, deixem-me ler-lhes os próximos títulos. — Turgut escrevia

alegremente. — Quase todos estão relacionados com tortura ou assassínio ou qualquer outra coisa desagradável, como podem observar. E rasmo, Destinos de um A ssassino. H enricus Curtius, Os Canibais. Giorgio de Pádua, Os Condenados.

— N ão há datas correspondentes a essas obras? — perguntei, inclinando-me sobre os

documentos.

Turgut suspirou.

— N ão. E nunca consegui encontrar outras referências para alguns destes títulos, mas,

de todos os que consegui localizar, nenhum foi escrito depois de 1600.

— E no entanto, essa data é posterior ao período em que Vlad Drácula viveu —

comentou Helen.

Olhei para ela com surpresa; não tinha pensado nisso. E ra um dado simples, mas

verdadeiro e muito curioso.

— Sim, minha cara senhora — disse Turgut, olhando para ela. — Destas obras, as mais recentes foram escritas mais de cem anos depois da sua morte e depois da morte do sultão M ehmed. Ai de mim, não consegui encontrar nenhuma informação sobre como ou quando esta bibliografia se tornou parte da coleção do sultão M ehmed. Alguém deve tê-la adicionado mais tarde, talvez muito tempo depois de a coleção ter vindo para Istambul.

— Mas antes de 1930 — refleti.

Turgut lançou-me um olhar penetrante.

— Foi nessa data que a coleção foi fechada à chave — observou. — O que o faz dizer isso, professor?

Senti-me corar, não só porque tinha falado demais, tanto que H elen agora se afastava de mim, desesperada pela minha idiotice, mas também porque ainda não era um professor universitário. Fiquei em silêncio por um instante; sempre odiei mentir, e tento, minha querida filha, não o fazer nunca, se o puder evitar.

Turgut estava a observar-me, e percebi com um certo desconforto que, até àquele momento, não tivera consciência da extrema sagacidade dos seus olhos escuros, com aqueles joviais pés-de-galinha. Respirei fundo. Discutiria o assunto com H elen mais tarde. C onfiara em Turgut desde o início, e ele seria capaz de nos ajudar mais, se tivesse mais informações. E ntretanto, para ganhar tempo, olhei para a lista de documentos que ele estava a traduzir-nos e em seguida para a tradução em turco a partir da qual estava a trabalhar. N ão conseguia encará-lo de frente. E xatamente quanto do que sabíamos deveria contar-lhe? Se eu lhe dissesse tudo o que sabia sobre a experiência de Rossi naquele lugar, duvidaria da nossa seriedade e da nossa sanidade? E foi precisamente porque baixei os olhos naquele momento de indecisão que vi algo de estranho. A minha mão voou na direção do original em grego, a B ibliografia da Ordem do Dragão. N em tudo estava em grego, afinal. P ude ler claramente o nome no fim da lista: B artolomeo Rossi. V inha seguido de uma frase em latim.

— M eu Deus! M eu Deus! — A minha exclamação acordou os silenciosos pesquisadores por toda a sala, apercebi-me tarde demais. M r. E rozan, que ainda estava a conversar com o homem do gorro de crochê e barba comprida, virou-se, intrigado, para nós.

Turgut alarmou-se imediatamente e Helen aproximou-se depressa.

— O que foi?

Turgut estendeu uma mão para o documento. E u ainda estava a olhar fixamente para baixo; era fácil seguir o meu olhar. E então Turgut levantou-se de um salto, sussurrando algo que soava como um eco da minha própria agitação, um eco tão claro que me deu um estranho conforto no meio de tanta estranheza:

— Meu Deus! Professor Rossi!

Entreolhámo-nos e por um momento ninguém disse nada. Finalmente arrisquei:

— O senhor... — disse eu a Turgut em voz baixa — conhece esse nome?

Turgut olhou para mim e para Helen.

— Os senhores conhecem-no? — disse ele finalmente.

 

O sorriso de Barley era gentil.

— V ocê devia estar muito cansada, para adormecer tão profundamente. Também

estou cansado, só de pensar na confusão em que se meteu. O que diriam as pessoas se lhes contasse tudo isto... quero dizer, a uma pessoa qualquer? Aquela senhora ali, por exemplo — e apontou com a cabeça para a nossa companheira sonolenta, que não descera em B ruxelas e pelos vistos pretendia dormitar até P aris. — Ou a um polícia. A única coisa que podiam pensar é que era maluca — suspirou. — E queria realmente viajar para o Sul de França sozinha? Quem me dera que me dissesse o lugar exato, em vez de me obrigar a adivinhar; assim eu podia mandar um telegrama a M rs. C lay a avisá-la e a metê-la a si na maior das encrencas.

Foi a minha vez de sorrir. Já tínhamos batido naquela tecla algumas vezes. — V ocê é incrivelmente teimosa — gemeu B arley. — N unca poderia imaginar que

uma miúda pudesse arranjar tantos problemas, nomeadamente os problemas que eu iria ter com o reitor J ames se a deixasse no meio de sítio nenhum em França, sabe. — Aquilo quase me fez chegar as lágrimas aos olhos, mas o que ele disse a seguir fê-las secar antes mesmo de se formarem. — P elo menos, vamos ter tempo para almoçar antes de apanhar o próximo comboio. A G are du Nord tem umas sanduíches sensacionais, e podemos usar os meus francos. Foi a escolha do pronome que me aqueceu o coração.