O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 45 de 83

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O Historiador

Capítulo 42

— M as não podem pedir ajuda à polícia? E ste lugar está repleto de polícias, ao que parece. — H ugh J ames partiu um pedaço de pão em dois e comeu um deles com vontade. — Que coisa horrível, e logo num hotel estrangeiro.

— C hamamos a polícia — assegurei-lhe. — Ou pelo menos acho que sim, porque foi o funcionário do hotel que fez a chamada. Disse que ninguém pode vir antes de hoje à noite ou amanhã de manhã, e que não devemos tocar em nada. Fomos instalados noutros quartos.

— O quê? Quer dizer que o quarto de M iss Rossi também foi revistado? — Os grandes olhos de Hugh ficaram ainda mais redondos. — Mais alguém no hotel foi atacado?

— Duvido — disse eu, soturno.

E stávamos sentados num restaurante ao ar livre em B uda, não longe da C olina do C astelo, de onde podíamos ver o P arlamento no lado de P este, na outra margem do Danúbio. Ainda havia muita luz, e o céu da tardinha projetava reflexos azuis e rosados sobre a água. Fora H ugh que descobrira aquele sítio era um dos seus preferidos, disse. P essoas de todas as idades passeavam pela rua à nossa frente, muitas parando nas balaustradas sobre o rio para observar a deslumbrante vista, como se também nunca se cansassem de a ver. H ugh pedira vários pratos típicos para eu provar, e tínhamos acabado de nos instalar com o onipresente pão de crosta dourada e uma garrafa de Tokay, um vinho famoso da região nordeste da H ungria, conforme ele me explicou. J á tínhamos despachado os preliminares as nossas respectivas universidades, a minha dissertação daquela tarde (ele riu-se quando lhe contei a confusão do professor Sándor sobre o âmbito do meu trabalho), a pesquisa de H ugh sobre a história dos B alcãs e o seu futuro livro sobre as cidades otomanas na Europa.

— Roubaram alguma coisa? Hugh encheu-me o copo.

— N ada — respondi, abatido. — E videntemente, não tinha deixado dinheiro no quarto, nem qualquer... objeto de valor... e os passaportes estão na recepção, ou talvez na esquadra da polícia, tanto quanto sei.

— E ntão de que é que estavam à procura? — H ugh fez-me um ligeiro brinde e bebeu um gole.

— É uma história muito, muito comprida — suspirei. — M as encaixa-se muito bem com algumas outras coisas sobre as quais precisamos conversar.

Ele concordou com a cabeça.

— Muito bem. Comece, então.

— Depois é a sua vez...

— É claro.

B ebi metade do meu copo para me dar ânimo e comecei pelo princípio. N ão precisava do vinho para afastar as minhas dúvidas sobre se deveria contar ou não a Hugh James toda a história de Rossi; se não lhe contasse tudo, não ficaria a saber tudo o que ele sabia. E le ouviu em silêncio, obviamente concentrado, a não ser quando mencionei a decisão de Rossi em prosseguir as pesquisas em Istambul. Nessa altura, deu um salto.

— P or J úpiter — disse. — E u também tinha pensado em ir para lá. E m voltar lá, quero

dizer: já estive em Istambul duas vezes, mas nunca para procurar Drácula.

— V ou facilitar-lhe as coisas. — Dessa vez, fui eu que lhe enchi o copo, e contei-lhe as

aventuras de Rossi em Istambul e o seu desaparecimento. Foi aí que os olhos de Hugh quase saltaram, embora não tenha dito nada. Finalmente, descrevi-lhe o meu encontro com H elen, não lhe escondendo nada sobre as intenções dela a respeito de Rossi, e todas as nossas viagens e pesquisas até àquele momento, incluindo os nossos encontros com Turgut.

— C omo vê — concluí, — por esta altura já não me surpreende ver o meu quarto

virado de pernas para o ar.

— Sim, de fato — e pareceu refletir por um momento. T ínhamos devorado uma infinidade de guisados e picles, e ele baixou o garfo com uma

certa tristeza, como se lamentasse que tivessem acabado.

— É muito estranho termo-nos encontrado desta maneira. Mas agora fiquei apreensivo

com o desaparecimento do professor Rossi, muito apreensivo. É terrivelmente estranho. Antes de ouvir a sua história, não diria que houvesse mais gente envolvida nas pesquisas sobre Drácula do que as de sempre. Só que, durante todo este tempo, tenho tido esta sensação estranha, sabe, sobre o meu próprio livro. N ão gosto de me deixar influenciar por sensações estranhas, mas é assim mesmo.

— Vejo que não desafiei a sua credulidade tanto como receei ter feito. — E esses livros — ponderou ele. — São quatro: o meu, o seu, o do professor Rossi e o

que pertence àquele professor de Istambul. É muito estranho que haja quatro iguais.

— Alguma vez conheceu Turgut B ora? — perguntei. — Disse que já esteve em

Istambul algumas vezes.

Ele abanou a cabeça.

— N ão, nem sequer ouvi mencionar esse nome. M as ele é da área da L iteratura; por

isso, é pouco provável que nos tivéssemos encontrado no departamento de H istória de lá, ou em conferências. Ficar-lhe-ia grato se me ajudasse a entrar em contato com ele, se puder. N unca estive no arquivo que mencionou, mas já li qualquer coisa sobre ele em I nglaterra e estava a pensar em dar lá uma espreitadela. N o entanto, como você mesmo disse, já me facilitou as coisas. Sabe, nunca teria imaginado que aquela coisa pudesse ser um mapa. O dragão do meu livro. É uma idéia extraordinária.

— Sim, e possivelmente uma questão de vida ou de morte para Rossi — disse eu —

Mas agora é a sua vez. Como encontrou o seu livro?

Ele assumiu uma expressão grave.

— C omo contou, no seu caso e nos outros dois, não encontrei exatamente o meu livro,

mas recebi-o, embora não saiba dizer de quem ou de onde. Talvez deva explicar-lhe melhor as circunstâncias. — Ficou em silêncio por um momento, e tive a sensação de que o assunto era difícil para ele. — E stá a ver, formei-me em Oxford há sete anos e fui lecionar na Universidade de Londres. A minha família mora em Cumbria, no Lake District, e não é rica. L utaram muito, e eu também, para que eu tivesse a melhor educação possível. Sempre me senti um pouco deslocado, sabe, principalmente no colégio. Foi o meu tio que me pôs lá. Acho que estudei mais do que todos, procurando ser o melhor. A H istória era a minha grande paixão, desde o início.

H ugh limpou os lábios com o guardanapo e abanou a cabeça, como se estivesse a recordar loucuras da juventude.

— L á pelo fim do segundo ano da universidade, já sabia que me iria sair bem, e isso deu-me ânimo para seguir em frente. E ntão veio a guerra e interrompeu tudo. J á completara quase três anos em Oxford. Aliás, foi lá que ouvi falar de Rossi pela primeira vez, embora nunca o tenha encontrado. E le deve ter parado para a América alguns anos antes de eu ter chegado à universidade.

Acariciou o queixo com uma mão grande e bastante áspera.

— N ão podia gostar mais dos meus estudos, mas também amava o meu país, e alistei-me imediatamente, na M arinha. Fui mandado para I tália e, um ano depois, voltava para casa com ferimentos nos braços e nas pernas.

T ocou com cuidado na manga da sua camisa branca de algodão, logo acima do punho, como se sentisse novamente a surpresa de ver sangue ali.

— Recuperei-me rapidamente e queria voltar, mas não me aceitaram, a minha visão tinha sido afetada quando o navio explodiu. Assim, voltei para Oxford e tentei ignorar os alarmes antiaéreos e acabei o curso depois de a guerra ter acabado. As últimas semanas que lá passei foram das melhores da minha vida, acho eu, apesar de todas as coisas que faltavam. Aquela ameaça terrível tinha sido varrida do mundo, eu tinha quase acabado os meus estudos adiados e uma rapariga de Surrey que eu amara quase toda a minha vida aceitara finalmente casar-se comigo. N ão tinha dinheiro, e de qualquer maneira não havia comida, mas eu comia sardinhas no meu quarto e escrevia cartas de amor acho que não se importa que eu lhe conte tudo isto e estudava como um doido para os exames. E ntrei num estado de grande cansaço, evidentemente.

P egou na garrafa de Tokay, que estava vazia, e voltou a pô-la em cima da mesa, com um suspiro.

— J á tinha quase acabado com aquele esforço todo e tínhamos marcado a data do casamento para o final de Junho. Na noite anterior ao último exame, fiquei acordado até de madrugada, a reler os meus apontamentos. Sabia que já tinha estudado tudo o que era preciso, mas simplesmente não conseguia parar. E stava a trabalhar num canto da biblioteca da minha faculdade, meio oculto por trás de algumas estantes, de onde não via os outros malucos que também reliam os respectivos apontamentos.

— H á alguns livros muito bonitos nessas pequenas bibliotecas, e distraí-me por uns instantes com um volume dos sonetos de Dryden que estava ao alcance da mão. Depois forcei-me a voltar a pô-lo no lugar, pensando que era melhor sair, fumar um cigarro e depois tentar concentrar-me novamente. M eti o livro na estante e fui para o pátio. E stava uma deliciosa noite de P rimavera, e fiquei ali a pensar em E lspeth, e na casinha que ela estava a preparar para nós, e no meu melhor amigo teria sido o meu padrinho de casamento que morrera nos campos de petróleo de P loiesti, com os Americanos, e depois voltei para a biblioteca. P ara minha surpresa, o livro de Dryden estava de novo na minha secretária como se nunca o tivesse colocado no seu lugar, e pensei que estava a ficar maluco de tanto estudar. V irei-me para o pôr na estante, mas vi que não havia espaço para ele. Anteriormente estava ao lado de Dante, tinha a certeza, mas agora estava lá outro livro, um livro com uma lombada de aparência muito antiga onde havia um pequeno animal gravado. Puxei-o para fora e ele abriu-se nas minhas mãos, no... bem, você sabe.

O seu rosto simpático estava agora pálido, e procurou primeiro nos bolsos da camisa e

depois nos das calças até encontrar um maço de cigarros.

— V ocê não fuma? — acendeu um e tragou com força. — Fui atraído pela aparência

do livro, pela sua evidente antiguidade, pelo ar ameaçador do dragão, tudo o que também lhe chamou a atenção no seu livro. N ão havia ali nenhum bibliotecário às três da manhã; por isso, fui até ao ficheiro e investiguei um pouco por conta própria, mas fiquei a saber apenas o nome e a linhagem de Vlad Tepes. C omo não havia nenhum carimbo da biblioteca no livro, levei-o comigo para casa.

— Dormi mal e não conseguia de maneira nenhuma concentrar-me no meu exame na

manhã seguinte; só pensava em ir a outras bibliotecas e talvez a L ondres para ver o que podia descobrir sobre o livro. M as não tive tempo e quando fui para o Surrey, para o meu casamento, levei comigo o livrinho e ficava a olhar para ele nos momentos mais estranhos. E lspeth apanhou-me com ele e, quando lhe expliquei, não gostou mesmo nada. Faltavam cinco dias para o nosso casamento e eu não conseguia parar de pensar no livro e também de falar com Elspeth sobre ele, até que ela me pediu para não o fazer

— E ntão, certa manhã faltavam dois dias para o casamento — tive uma inspiração

súbita. H á uma grande casa não muito longe da aldeia dos meus pais, sabe, uma mansão jacobina que as pessoas vão visitar em excursões de autocarro Sempre achei aquilo tudo muito aborrecido durante as nossas excursões escolares, mas lembrei-me de que o fidalgo que a construíra tinha sido um colecionador de livros e tinha coisas do mundo inteiro. J á que não podia ir a L ondres antes do casamento, tive a idéia de ir a biblioteca da casa, que é famosa, e dar uma olhadela, talvez encontrasse alguma coisa sobre a T ransilvânia. Disse aos meus pais que ia dar um passeio e sabia que eles pensariam que me ia encontrar com Elsie.

— E stava uma manhã chuvosa, cheia de neblina, também, e fria. A governanta da

mansão disse-me que não estavam abertos para os turistas naquele dia, mas deixou-me entrar para ver a biblioteca. Ouvira falar do casamento na aldeia, conhecia a minha avó, e ofereceu-me uma chávena de chá. Quando já tinha tirado o meu impermeável e encontrado vinte prateleiras de livros provenientes do Grand Tour do velho jacobino, que fora muito mais para oriente do que muitos outros, já me esquecera de todo o resto

— Folheei todas aquelas maravilhas e outras que ele colecionara em I nglaterra, talvez depois da viagem, até encontrar uma H istória da H ungria e da T ransilvânia, na qual deparei com uma referência a Vlad Tepes, e mais outra, e, finalmente, para minha alegria e espanto, encontrei um relato do enterro de Vlad no lago Snagov, diante do altar de uma igreja que ele restaurara lá. E sse relato era uma lenda passada para o papel por um aventureiro inglês que estivera na região, alguém que se autodenominava simplesmente "Um V iajante" na página de rosto e que fora contemporâneo do colecionador jacobino. I sto deve ter sido cerca de cento e trinta anos depois da morte de Vlad.

"Um V iajante" tinha visitado o mosteiro de Snagov em 1605. T inha conversado bastante com os monges de lá e estes contaram-lhe que, de acordo com a lenda, um grande livro, um tesouro do mosteiro, fora colocado sobre o altar durante o funeral de Vlad, e que os monges presentes na cerimônia tinham assinado nele os seus nomes, e os que não sabiam escrever tinham desenhado um dragão, em homenagem à Ordem do Dragão. Infelizmente, não havia referência ao que aconteceu ao livro depois disso. M as achei tudo muito impressionante E ntão, o V iajante disse que pediu para ver a tumba e os monges mostraram-lhe uma pedra rasa no chão em frente ao altar. T inha um retrato de Vlad Drácula pintado e palavras em latim, talvez também pintadas, já que o V iajante não dizia que estavam gravadas na pedra, e estranhou não ver a habitual cruz a marcar a lápide. O epitáfio, que copiei com cuidado guiado por um instinto que não sei explicar estava em latim. — H ugh baixou a voz, olhou para trás e apagou o cigarro no cinzeiro que estava em cima da mesa.

— Depois de o ter escrito e ter vencido algumas dificuldades, li a minha tradução em voz alta: "L eitor, desenterra-o com uma..." você sabe a continuação. A chuva ainda caía com força lá fora, e uma janela que se soltara, algures na biblioteca, batia, abrindo-se e fechando-se, e senti um bafo de ar úmido junto de mim. Devia estar nervoso, porque derrubei a chávena e uma gota de chá caiu sobre o livro. E nquanto enxugava o livro, sentindo-me mal por ser tão desajeitado, olhei para o relógio — já era uma hora e tinha de voltar para casa para almoçar. Aparentemente, não havia mais nada de relevante para ver ali; por isso, voltei a pôr os livros no lugar, agradeci à governanta e regressei por entre as veredas ladeadas por todas aquelas rosas de Junho.

— Quando cheguei a casa dos meus pais, esperando vê-los, talvez com E lsie, juntos à mesa, encontrei um pandemónio. E stavam lá vários amigos e vizinhos e a minha mãe estava a chorar. O meu pai parecia muito perturbado. — Aqui, H ugh acendeu outro cigarro e o fósforo balançou na escuridão. — Pôs-me a mão no ombro e disse que tinha havido um acidente de automóvel na estrada principal, quando E lsie conduzia um carro emprestado, voltando das compras numa cidade vizinha. T inha estado a chover intensamente, e eles pensavam que ela devia ter visto alguma coisa e ter-se desviado. N ão estava morta, graças a Deus, mas gravemente ferida. Os pais dela tinham ido imediatamente para o hospital e os meus ficaram em casa à minha espera, para me contarem.

— E ncontrei um carro e dirigi-me para o hospital, tão depressa que quase sofri também

um acidente. Tenho certeza de que não vai querer ouvir isto tudo, mas... ela estava deitada, com a cabeça enfaixada e os olhos muito abertos. E ra assim que estava. Atualmente vive numa espécie de lar, onde é muito bem tratada, mas não fala nem percebe muita coisa, e não consegue alimentar-se sozinha. O mais terrível de tudo isto é que... — e a voz dele começou a tremer. — O mais terrível é que sempre achei que tivesse sido um acidente, um acidente de fato, e agora que ouvi as suas histórias, sobre H edges, o amigo de Rossi, e o seu... o seu gato... não sei o que pensar.

Tragou o fumo com força. Eu soltei profundamente o ar dos pulmões. — Sinto muito, muito mesmo. Não sei o que dizer. Que coisa horrível. — Obrigado. — Parecia estar a tentar recuperar um pouco das suas maneiras habituais.

— Já foi há alguns anos, sabe, e o tempo ajuda. Só que...

E u não sabia, como sei agora, o que havia na outra extremidade daquela frase que ele

não concluiu, as palavras inúteis, a indizível litania da perda. E nquanto estávamos ali, com o passado suspenso sobre nós, um criado aproximou-se com uma vela numa lanterna de vidro e pousou-a na nossa mesa. O café estava a encher-se de gente e eu ouvia risadas vindas lá de dentro.

— E stou perplexo com o que você acabou de me contar sobre Snagov — disse eu,

algum tempo depois. — Sabe, nunca tinha ouvido nada disso sobre a tumba; quero dizer, a inscrição, o rosto pintado e a ausência de uma cruz.

A correspondência entre a inscrição e as palavras que Rossi encontrou nos mapas do

arquivo de I stambul é extremamente importante, creio eu; é uma prova de que Snagov foi pelo menos a localização original da tumba de Drácula. Apertei as têmporas com os dedos.

— P or que é que então, o mapa, o mapa-dragão nos livros e no arquivo não

corresponde à topografia de Snagov — o lago, a ilha?

— Quem me dera saber...

— Você continuou a sua pesquisa sobre Drácula, depois daquilo? — Só muitos anos depois. — H ugh apagou o cigarro. — N ão tinha coragem. M as há

cerca de dois anos, dei comigo a pensar nele outra vez e, quando comecei a trabalhar no meu livro atual, o meu livro húngaro, deixei uma janela aberta para o assunto.

T inha escurecido bastante agora, e o Danúbio brilhava com os reflexos das luzes da

ponte e dos edifícios de P este. Um criado veio oferecer um eszpresszó, e aceitamos agradecidos. Hugh bebeu um gole e pousou a chávena.

— Gostaria de ver o livro? — perguntou.

— O livro em que está a trabalhar? — Fiquei momentaneamente confuso. — Não. O meu livro do dragão.

Dei um salto.

— Você tem-no aqui?

— T rago-o sempre comigo — disse ele, sério. — B em, quase sempre. N a verdade, deixei-o no hotel durante as palestras de hoje porque achei que estaria mais seguro lá enquanto eu intervinha. Quando penso que poderia ter sido roubado... — deteve-se. — O seu não estava no quarto, estava?

— Não. — Tive de sorrir. — Também trago sempre o meu comigo.

Hugh afastou cuidadosamente as nossas chávenas de café e abriu a pasta. Retirou dela uma caixa de madeira polida e desta um volume embrulhado em tecido, que pôs em cima da mesa. Dentro do embrulho havia um livro menor que o meu, mas encadernado com o mesmo pergaminho gasto. As páginas eram de um castanho mais escuro e mais frágeis do que as do meu livro, mas o dragão no centro era o mesmo, ocupando as páginas até às margens e olhando furiosamente para nós. E m silêncio, abri a minha pasta e tirei o meu livro, colocando a sua imagem perto do dragão de H ugh. E ram idênticos, pensei, curvando-me sobre cada um deles.

— Olhe para esta mancha aqui: até a mancha é a mesma. Foram impressos com o mesmo bloco de madeira — disse Hugh em voz baixa.

Tinha razão, como pude ver.

— Sabe, isto faz-me lembrar outra coisa, que me esqueci de lhe contar há pouco. H elen Rossi e eu passamos pela biblioteca da universidade esta tarde, antes de voltarmos ao hotel, porque ela queria procurar uma coisa que vira lá há algum tempo. — Descrevi o volume de canções folclóricas romenas, e a estranha letra da canção que falava de monges a entrarem numa grande cidade. — E la achava que poderia ter alguma coisa a ver com a história do manuscrito de I stambul sobre o qual lhe falei. A letra da canção era muito imprecisa, mas havia uma xilogravura interessante no alto da página, uma espécie de bosque com uma igreja pequenina e um dragão entre os dois, e uma palavra.

— "Drácula"? — arriscou Hugh, como eu fizera na biblioteca.

— N ão, I vireanu. — P rocurei a palavra no meu caderno de apontamentos e mostrei-lhe como se escrevia.

Os olhos dele arregalaram-se.

— Mas é incrível — exclamou.

— O quê? Diga depressa.

— Bem, é que vi esse nome na biblioteca ontem.

— N a mesma biblioteca? Onde? N o mesmo livro? — E stava demasiado impaciente para esperar educadamente por uma resposta.

— Sim, na biblioteca da universidade, mas não no mesmo livro. P assei a semana a remexer por lá à procura de material para o meu projeto e, como o nosso amigo está sempre num canto da minha mente, estou sempre a encontrar estranhas referências ao mundo dele. Sabe, Drácula e H unyadi eram inimigos mortais, e, mais tarde Drácula e M átyás C orvinus; por isso, de vez em quando deparo-me com Drácula. C omentei consigo, durante o almoço, que tinha encontrado um manuscrito encomendado por C orvinus, o documento que menciona o fantasma na ânfora.

— Ah, sim — disse eu, ansioso. — Foi lá que viu a palavra "Ivireanu"? — N a realidade, não. O manuscrito de C orvinus é muito interessante, mas por outras

razões. O manuscrito diz... bem, copiei uma parte. O original está em latim.

Pegou no seu caderno de apontamentos e leu-me algumas linhas: "N o ano de N osso Senhor de 1463, o humilde servo do rei vem oferecer-lhe estas

palavras oriundas de grandes escritos, tendo em vista informar Sua M ajestade sobre a maldição do vampiro, que ele pereça no inferno. E sta informação destina-se ao acervo real de documentos de Sua M ajestade. Que o possa ajudar a livrar a nossa cidade desse mal, pondo fim à presença de vampiros e afastando a peste das nossas casas." E por aí fora. E m seguida, o bom escriba, quem quer que tenha sido, prossegue, nomeando as referências que encontrou em diversas obras clássicas, inclusivamente lendas sobre o fantasma na ânfora. A data do manuscrito é o ano posterior à captura de Drácula e ao seu primeiro encarceramento perto de B uda. Sabe, a referência que fez à mesma preocupação por parte do sultão turco, e que identificou naqueles documentos em I stambul, leva-me a pensar que Drácula causava problemas onde quer que fosse. Ambos os documentos mencionam a peste, e ambos estão preocupados com a presença de vampirismo. B astante semelhantes, não lhe parece?

Fez uma pausa e ficou com ar pensativo.

— N a verdade, de certo modo essa relação com a peste não é assim tão descabida. L i

num documento italiano, no M useu B ritânico, que Drácula usava armas biológicas contra os Turcos. De fato, deve ter sido um dos primeiros europeus a usá-las. G ostava de enviar para os campos turcos, vestidos como otomanos, súditos seus que tivessem contraído doenças infecciosas. — À luz do lampião, os olhos de H ugh semicerraram-se, o rosto animado por uma intensa concentração. Subitamente, percebi que tínhamos encontrado em Hugh James um aliado com uma inteligência fora do comum.

— Tudo isso é fascinante — disse eu. Mas, e quanto à menção da palavra "Ivireanu"? — Oh, desculpe-me. — H ugh sorriu. — Desviei-me um bocado do assunto. Sim, vi a

palavra aqui na biblioteca. Dei com ela há três ou quatro dias, acho eu, num N ovo Testamento do século dezessete, em romeno. E stava a folhear o volume porque achei que a capa mostrava uma influência pouco vulgar do estilo otomano. A palavra "I vireanu" aparecia em baixo na página de rosto tenho a certeza de que era a mesma palavra. N a altura não pensei muito sobre o assunto para ser sincero, passo a vida a encontrar palavras romenas que me confundem, pelo fato de conhecer tão pouco a língua. N a verdade, chamou-me a atenção por causa do tipo de letra, que tinha uma certa elegância. Achei que fosse o nome de um lugar ou qualquer coisa desse gênero.

Soltei um gemido.

— E mais nada? Nunca a viu em mais sítio nenhum?

— I nfelizmente, não. — H ugh estava a dar atenção à sua chávena de café abandonada. — Se a encontrar novamente, pode ter certeza de que o informarei.

— B em, afinal de contas, pode não ter muito a ver com Drácula — disse eu, para me reconfortar. — Só gostaria que tivéssemos mais tempo para examinar essa biblioteca. I nfelizmente, temos de voltar para I stambul na segunda-feira. N ão tenho autorização para ficar além da duração da conferência. Se encontrar alguma coisa interessante...

— É evidente — disse H ugh. — V ou ficar aqui mais seis dias Se encontrar alguma coisa, escrevo-lhe para o seu departamento?

Aquilo abalou-me, há dias que eu não pensava seriamente nos E stados Unidos, e não tinha a menor idéia de quando abriria a minha caixa de correio no meu departamento.

— N ão, não — apressei-me a dizer. — P elo menos por enquanto, não. Se encontrar alguma coisa que realmente ache que pode ajudar-nos, por favor telefone para o professor B ora. E xplique-lhe apenas que falamos sobre este assunto. Se eu próprio falar com ele, aviso-o de que você talvez o contacte. — P eguei no cartão-de-visita de Turgut e dei o número do telefone dele a Hugh.

— M uito bem. — G uardou o cartão no bolso da camisa. — E este é o meu cartão. Espero que nos encontremos novamente.

Ficamos ali em silêncio durante alguns segundos, o olhar dele fixo na mesa, com os pratos e chávenas vazios e a chama tremulante da vela.

— Ouça — disse ele, finalmente. — Se tudo o que me disse é verdade — ou pelo menos tudo o que Rossi disse — e existir mesmo um conde Drácula, ou um Vlad o Empalador... sobrevivente... de alguma forma horrível, nesse caso eu gostaria de o ajudar...

— A eliminá-lo? — concluí em voz baixa. — Não me vou esquecer.

P arecia não haver mais nada a dizer naquele momento, embora eu esperasse que pudéssemos voltar a conversar no futuro. E ncontramos um táxi que nos levou de volta a P este, e ele insistiu em acompanhar-me até ao vestíbulo do hotel. E stávamos a despedir-nos cordialmente junto à recepção quando o funcionário com quem eu falara anteriormente saiu do seu cubículo e agarrou-me no braço.

— Herr Paul! — disse, com insistência.

— O que foi? — Tanto eu como H ugh nos viramos para olhar para o homem. E ra alto, curvado, com um casaco azul de operário e bigodes que ficariam bem num guerreiro huno. P uxou-me para junto de si, falando-me em voz baixa, e arranjei maneira, com um gesto, de pedir a H ugh que não nos deixasse. N ão havia mais ninguém à vista e eu não estava particularmente disposto a enfrentar sozinho uma nova crise.

— Herr Paul, sei quem esteve no seu zimmer esta tarde.

— O quê? Quem? — perguntei.

— H umm, humm — o funcionário começou quase a murmurar para si mesmo e a lançar olhares rápidos em volta, ao mesmo tempo que procurava alguma coisa no bolso do casaco, no que seria um gesto muito significativo se eu percebesse o que ele queria dizer. Perguntei a mim próprio se o homem não seria uma espécie de atrasado mental.

— Ele quer uma gorjeta — traduziu Hugh em voz baixa. — Oh, por favor — disse eu, exasperado, mas os olhos do homem pareceram

desinteressar-se, recomeçando a brilhar apenas depois de eu lhe ter estendido duas grandes notas húngaras. Agarrou-as discretamente e escondeu-as no bolso, mas não disse nada que admitisse a capitulação.

— Herr American — sussurrou. Sei que não foi só em homem esta tarde. É dois

homens. Um entra primeiro, homem muito importante. Depois o outro. Vejo ele quando subo com uma mala para outro zimmer. Então vejo eles. Eles falam. Eles saem juntos.

— E ninguém os deteve? — protestei, com rudeza. — Quem eram? E ram húngaros?

— O homem olhava novamente em volta, e engoli a vontade de o estrangular. Aquele clima de censura estava a dar-me cabo dos nervos. Devo ter parecido zangado, porque Hugh agarrou-me o braço, apaziguador.

— Importante homem húngaro. Outro homem não húngaro. — Como é que sabe? — Ele baixou a voz.

— Um homem húngaro, mas eles falam Anglisch juntos. E não disse mais nada, apesar das minhas perguntas cada vez mais ameaçadoras.

C omo aparentemente tinha decidido que me fornecera informações suficientes para os florins que eu lhe dera, talvez não me dissesse mais nenhuma palavra se não fosse uma coisa que repentinamente lhe chamou a atenção. Olhava para um ponto atrás de mim e, logo a seguir, também me virei para seguir o seu olhar através da grande vidraça junto à porta do hotel. Do outro lado, durante uma fração de segundo, vi uma fisionomia ávida, de olhos encovados, que conhecia bem demais, um rosto que pertencia a um túmulo, e não às ruas. O funcionário do hotel balbuciava, agarrando-me no braço.

— Lá está ele, com o seu rosto de demônio, o homem Anglischer! Devo ter deixado escapar um uivo e, ao mesmo tempo, livrei-me do funcionário e corri

para a porta; H ugh, com grande presença de espírito (como constatei mais tarde), agarrou num guarda-chuva no suporte junto ao balcão e disparou atrás de mim. Apesar do susto, segurava a minha pasta com firmeza, o que me atrapalhava enquanto corria. V iramos aqui e ali, corremos a rua de cima a baixo, mas foi inútil. N em sequer os passos do homem eu chegara a ouvir; por isso, não podia dizer em que direção fugira.

Finalmente, parei para me apoiar na parede de um edifício, tentando recuperar o

fôlego. Hugh ofegava.

— Quem era? — arquejou.

— O bibliotecário — respondi, quando consegui emitir algumas palavras. — O que nos

seguiu em Istambul. Tenho certeza de que era ele.

— Santo Deus — H ugh enxugou a testa com a manga da camisa. — O que é que ele

está a fazer aqui?

— A tentar apanhar o resto dos meus apontamentos — respondi, ofegando. — É um vampiro, se é que acredita nisso, e agora trouxemo-lo para esta bela cidade. — N a realidade, eu tinha dito mais do que aquilo, e H ugh deve ter reconhecido, na nossa língua comum, todas as variantes americanas da raiva. O pensamento da maldição que eu arrastava atrás de mim quase me trouxe as lágrimas aos olhos.

— Ora, não pense nisso — disse H ugh, confortando-me. — J á houve aqui vampiros antes, como ambos sabemos. — M as o seu rosto estava pálido e olhou em volta, segurando o guarda-chuva.

— Droga! — bati na parede com o punho na parede lateral do prédio.

— Você precisa estar alerta — disse Hugh, sensato. — Miss Rossi já voltou?

— H elen! — N ão pensara uma única vez nela, e H ugh quase esboçou um sorriso perante a minha exclamação. — V ou voltar para o hotel para ver se já chegou. E vou telefonar ao professor B ora. Ouça, H ugh, fique atento também. Tenha cuidado, está bem? Ele viu-o, e ultimamente isso não tem trazido muita sorte para ninguém.

— N ão se preocupe comigo. — H ugh olhava pensativo para o guarda-chuva que tinha na mão. — Quanto deu àquele funcionário do hotel?

Eu ri, apesar da minha falta de fôlego.

— Sim, pode ficar com ele.

Apertamos as mãos cordialmente e H ugh desapareceu na rua, na direção do seu hotel, que não ficava longe. N ão me agradava a idéia de vê-lo ir embora sozinho, mas havia outras pessoas na rua, a passear e a conversar. De qualquer maneira, sabia que ele sempre seguiria o seu próprio caminho; era esse tipo de pessoa.

De volta ao vestíbulo do hotel, não havia sinal do aterrorizado funcionário. Talvez o seu turno tivesse acabado, porque um rapaz bem barbeado tomara o lugar dele atrás do balcão. G arantiu-me que a chave do novo quarto de H elen estava pendurada no lugar, portanto ainda devia estar com a tia. O rapaz deixou-me usar o telefone, depois de negociar meticulosamente o preço, e tive de tentar mais de uma vez até conseguir a ligação para Turgut. N ão gostava da idéia de ligar do telefone do hotel, que eu sabia que podia estar sob escuta, mas era a única possibilidade àquela hora. Só me restava esperar que a nossa conversa fosse tão peculiar que não pudesse ser compreendida. P or fim, ouvi um clique na linha e a voz de Turgut, muito longe mas jovial, atendendo em turco.

— Professor Bora! — gritei. — Turgut, é Paul, estou a ligar de Budapeste.

— P aul, meu caro! — P ensei que nunca tinha ouvido nada tão reconfortante como aquela voz longínqua e retumbante. — H á um problema qualquer com a linha; dê-me o seu número daí, para o caso de a ligação cair.

O funcionário do hotel deu-me o número e eu gritei-o ao telefone. Turgut respondeu também aos gritos:

— Como estão? Encontraram-no?

— N ão! gritei. — E stamos bem, e fiquei a saber um bocado mais, mas aconteceu uma coisa muito desagradável.

— O que foi? — P ude ouvir a sua consternação, debilmente, através da linha. — E stá

ferido? E Miss Rossi?

— N ão, estamos bem, mas o bibliotecário seguiu-nos até aqui. — Ouvi uma enxurrada

de palavras que podiam ser alguma maldição shakespeariana, mas era impossível distinguir através da estática. — O que acha que devíamos fazer?

— Ainda não sei a voz de Turgut estava um pouco mais clara agora. — Ainda tem

consigo o estojo que lhe dei?

— Sim — respondi. — M as não consigo chegar suficientemente perto desse demônio

para o usar. Acho que ele revistou o meu quarto hoje enquanto estávamos na conferência, e aparentemente alguém o ajudou. — Talvez a polícia estivesse a ouvir-nos naquele momento. — Quem sabe o que pensariam de tudo aquilo, afinal?

— T ome muito cuidado, professor — a voz de Turgut soava preocupada. — N ão

tenho conselhos sábios para lhe dar, mas terei novidades em breve, talvez mesmo antes do seu regresso a I stambul. E stou contente que tenha ligado esta noite. M r. Aksoy e eu encontramos um novo documento, que nenhum de nós tinha visto antes. Achou-o no arquivo de M ehmed. E sse documento foi escrito por um monge da I greja Ortodoxa Oriental em 1477, e tem de ser traduzido.

Mais uma vez, a linha foi invadida pela estática e fui forçado a gritar: — Disse 1477? Em que língua está escrito?

— N ão consigo ouvi-lo, meu caro — berrou Turgut, de muito longe. — H ouve aqui

uma tempestade. Telefono-lhe amanhã à noite.

Uma babel de vozes — não conseguia distinguir se eram húngaras ou turcas

interrompeu-nos e engoliu as suas palavras. Seguiram-se mais alguns cliques e a linha caiu de vez. P ousei o telefone devagar, ponderando se deveria ligar outra vez, mas o funcionário já estava a tirar-me o telefone da mão com uma expressão preocupada e a calcular a minha conta num pedaço de papel. P aguei, mal-humorado, e fiquei ali por alguns momentos, sem vontade de subir para o meu novo quarto, para onde só fui autorizado a levar os meus apetrechos de barbear e uma camisa lavada. O meu ânimo estava a diminuir rapidamente afinal, o dia tinha sido muito longo, e o relógio do vestíbulo marcava quase onze horas.

Teria diminuído ainda mais se um táxi não tivesse parado lá fora naquele momento.

H elen saiu, pagou ao motorista e entrou pela grande porta. N ão reparara que eu me encontrava ali junto do balcão, e o seu rosto estava sério e taciturno, com a intensidade melancólica que eu notara nele algumas vezes. E stava envolta num xale preto e vermelho de lã macia que eu nunca tinha visto antes, talvez um presente da tia. Suavizava-lhe as linhas duras do casaco e dos ombros, e fazia a sua pele brilhar, branca e luminosa, mesmo à luz crua do vestíbulo. P arecia uma princesa, e fiquei a olhar descaradamente para ela por alguns momentos antes que me visse. N ão era apenas a sua beleza, realçada pela lã macia e pelo ângulo nobre do seu queixo, que me mantinha fascinado. Lembrava-me mais uma vez, com um desconfortável estremecimento interior, do retrato no escritório de Turgut — a cabeça orgulhosa, o longo nariz retilíneo, os grandes olhos escuros com as pálpebras pesadas e veladas. Talvez eu estivesse apenas muito cansado, disse a mim próprio, e, quando H elen me viu e sorriu, a imagem desapareceu novamente da minha visão interior.