O Historiador
Capítulo 31
Sentei-me muito, muito quieta no meu lugar, no comboio, olhando para o jornal do homem sentado à minha frente. Achei que devia mexer-me um pouco, parecer natural, ou podia realmente chamar a sua atenção, mas ele estava tão absolutamente imóvel que comecei a imaginar que nem sequer o ouvira respirar, e a sentir eu própria dificuldade em respirar. P assado um momento, os meus piores receios confirmaram-se: ele falou sem abaixar o jornal. A sua voz era exatamente igual aos seus sapatos e às calças de corte perfeito; falou-me em inglês com um sotaque que não consegui identificar, embora tivesse um toque de francês ou estaria a fazer confusão com as manchetes que dançavam diante de mim na página do Lê Monde, baralhando-se sob o meu olhar angustiado? C oisas terríveis estavam a acontecer no C amboja, na Argélia, em lugares de que eu nunca ouvira falar, e o meu francês melhorara bastante naquele ano. M as o homem estava a falar por detrás das letras impressas, sem mover o jornal um milímetro sequer. Fiquei com pele de galinha quando ele falou, mal podendo acreditar no que ouvia. A voz dele era baixa, educada. Fez uma única pergunta:
— Onde está o seu pai, minha querida?
Dei um salto do meu assento para a porta; ouvi o jornal cair atrás de mim, mas toda a minha concentração estava no trinco. N ão estava fechado. Abri-a num instante de medo delirante. Saí sem olhar para trás e corri na direção que B arley tomara para o vagão-restaurante. Ainda bem que havia outras pessoas aqui e ali nos seus compartimentos, as cortinas abertas, os seus livros e jornais e cestas de piquenique equilibrando-se ao lado delas, os seus rostos virando-se com curiosidade para mim enquanto eu passava a correr. N ão podia sequer parar para ouvir se havia passos a seguir-me. L embrei-me de que tinha deixado as nossas malas no compartimento, na rede por cima dos assentos. Será que ele as levaria? Ou as abriria para as examinar? A minha bolsa estava no meu braço; eu dormira com a alça enrolada no pulso, como sempre a usava.
B arley estava no vagão-restaurante, ao fundo, com o livro aberto numa mesa larga. P edira chá e diversas outras coisas, e demorou um momento a levantar os olhos do seu pequeno reino e a notar a minha presença. E u devia estar com um aspecto terrível, porque ele puxou-me imediatamente para junto dele.
— O que foi?
Enfiei a cabeça no pescoço dele, fazendo força para não chorar.
— Quando acordei, estava um homem no nosso compartimento a ler um jornal, e eu não conseguia ver-lhe a cara.
Barley pousou-me a mão no cabelo.
— Um homem a ler um jornal? Por que é que está tão aflita?
E le não me deixou ver a cara dele de maneira nenhuma sussurrei, virando a cabeça para olhar para a entrada do vagão-restaurante. N ão estava lá ninguém, nenhum homem de fato escuro à minha procura. Mas ele falou comigo por detrás do jornal.
— Sim? — Barley parecia ter descoberto que gostava dos meus caracóis. — E perguntou-me onde estava o meu pai. — O quê? — Barley endireitou-se. — Tem certeza? — Tenho, e falou em inglês. — Também me sentei direita. — E u saí a correr, e acho
que ele não me seguiu, mas está dentro do comboio. Tive de deixar lá as nossas malas.
B arley mordeu o lábio e eu quase esperei ver o sangue escorrer na sua pele branca.
Depois, fez um sinal ao criado, levantou-se, falou com ele por um instante e tirou uma boa gorjeta do bolso, deixando-a junto da chávena de chá.
— A nossa próxima paragem é Boulois — disse. — Dentro de dezesseis minutos. — E as nossas malas?
— Você tem a sua bolsa e eu a minha carteira. — Barley deteve-se subitamente e olhou
para mim. — As cartas!
— Estão na minha bolsa — apressei-me a responder. — G raças a Deus. P odemos ter de deixar o resto da bagagem, mas não tem
importância.
B arley pegou-me na mão e saímos pelo fundo do vagão-restaurante para a cozinha,
para minha surpresa. O criado veio apressado atrás de nós, conduzindo-nos para dentro de um pequeno nicho perto dos frigoríficos. B arley apontou: havia uma porta ao lado dele. Ficamos ali durante dezesseis minutos, eu agarrada à minha bolsa. P arecia mais do que natural ficarmos abraçados naquele espaço exíguo, como dois refugiados. De repente, lembrei-me do presente do meu pai e levei a mão ao pescoço: o crucifixo estava pendurado bem à vista. Não admira que o jornal não tivesse sido baixado.
P or fim, o comboio começou a diminuir a velocidade, os freios guincharam, fazendo-o
estremecer e parar. O criado empurrou uma alavanca e a porta junto de nós abriu-se. E le riu-se para B arley com ar conspirativo; provavelmente, pensava que se tratava de uma comédia amorosa, com o meu pai furioso atrás de nós no comboio, ou qualquer coisa do gênero.
— Desça do comboio, mas fique junto dele — recomendou-me B arley em voz baixa, e
descemos devagarinho para a plataforma. E stávamos numa gare ampla, decorada com ornatos em estuque, debaixo de árvores prateadas, e o ar estava quente e agradável.
— Está a vê-lo?
C orri os olhos ao longo do comboio até finalmente avistar alguém ao longe, no meio dos
passageiros que desembarcavam — um homem alto, de ombros largos, vestido de preto, com alguma coisa que não batia certo no conjunto, um aspecto sombrio que fez o meu estômago contrair-se. T inha posto um chapéu de copa baixa, por isso não conseguia ver-lhe a cara. Transportava uma maleta escura e um rolo mais claro, talvez o jornal.
— É ele — esforcei-me por não apontar, e B arley fez-me recuar rapidamente para os
degraus.
— Esconda-se. Vou ver para onde ele vai. Está a olhar de um lado para outro.
B arley espreitava enquanto eu me encolhia firmemente para trás, com o coração aos saltos. Barley segurava-me o braço com força.
— P ronto, está a ir para o outro lado. N ão, agora está a voltar. E stá a olhar para as janelas. Acho que vai entrar outra vez no comboio. M eu Deus, tem cá uma calma, está a olhar para o relógio. Subiu para o comboio. Agora está a descer outra vez e a vir nesta direção. P repare-se: vamos voltar lá para dentro e correr o comboio inteiro, se for preciso. Está preparada?
N aquele momento, os rotores zumbiram, o comboio arfou e começou a andar, e B arley soltou uma praga.
— Raios, ele está a tentar embarcar. Acho que acabou de perceber que não descemos. Mas já não dá tempo.
B arley enxugou o rosto e puxou-me pelos degraus abaixo para a plataforma da gare. J unto de nós, o comboio resfolegou outra vez e pôs-se em movimento. Alguns dos passageiros tinham baixado as janelas e debruçavam-se a fumar ou a olhar em volta. E ntre eles, várias carruagens à frente, vi uma cabeça escura voltada na nossa direção, um homem com os ombros muito direitos — cheio de raiva contida, pensei. N essa altura, o comboio estava a ganhar velocidade, transpondo uma curva. V irei-me para B arley e olhamos um para o outro. À exceção de alguns aldeões sentados naquela pequena estação rural, estávamos sozinhos no meio de sítio nenhum, algures em França.