O Historiador
Capítulo 58
C hegamos ao portão de Stoichev na manhã seguinte pontualmente a uma e meia.
H elen apertou a minha mão, ignorando a presença de Ranov, e o próprio Ranov parecia estar em clima de festa, estava menos carrancudo do que habitualmente e vestira um pesado fato castanho que ainda não lhe tínhamos visto. De trás do portão, vinham sons de conversas e risadas, e sentíamos o cheiro de lenha a arder e de uma carne deliciosa a ser cozinhada. Se tirasse firmemente da cabeça todos os pensamentos sobre Rossi, também eu conseguiria sentir-me festivo. Sentia que naquele dia, entre todos os outros, alguma coisa aconteceria para me ajudar a encontrá-lo, e resolvi celebrar a festa de K iril e M ethodii com todo o entusiasmo possível
N o pátio, víamos grupos de homens e algumas mulheres reunidos sob o caramanchão.
I rma borboleteava aqui e ali por trás da mesa, enchendo os pratos das pessoas e servindo copos daquele líquido poderoso cor de âmbar. Quando nos viu, veio rapidamente na nossa direção, os braços estendidos como se já fôssemos velhos amigos. T rocou apertos de mão comigo e com Ranov e beijou Helen
— Fico muito feliz por terem vindo Obrigada — disse. — O meu tio não conseguiu
dormir nem comer nada desde que estiveram aqui ontem. E spero que lhe digam que precisa de comer — e franziu o seu rosto bonito
— Por favor, não se preocupe — disse Helen. — Faremos o possível para o convencer. E ncontramos Stoichev a receber a sua corte debaixo das macieiras. Alguém tinha
disposto várias cadeiras de madeira em semicírculo e ele estava sentado na maior delas, com os homens mais jovens a sua volta.
— Ah, olá — exclamou, pondo-se de pé com esforço. Os outros levantaram-se
imediatamente para o ajudarem e esperaram para nos cumprimentar. — Sejam bem vindos, meus amigos P or favor, conheçam os meus outros amigos. — C om um aceno frágil, indicou os rostos em torno de si. — E stes são alguns dos meus alunos de antes da guerra, e são muito simpáticos em voltar aqui para me visitar. — M uitos daqueles homens, com as suas camisas brancas e fatos escuros coçados, só eram jovens se comparados com Ranov, a maioria estava pelo menos na faixa dos cinquenta anos. Sorriam e apertavam-nos a mão calorosamente, e um deles inclinou-se para beijar a mão de H elen com uma cortesia formal. G ostei dos olhos deles, escuros, vivos, dos seus sorrisos silenciosos em que cintilavam dentes de ouro.
I rina chegou por trás de nós; parecia estar a insistir para que todos comessem
novamente, porque logo a seguir fomos arrastados por uma onda de convidados para as mesas instaladas debaixo do caramanchão. Ali encontramos uma refeição realmente farta, e também a origem do cheiro maravilhoso, que provou ser um carneiro inteiro a assar sobre uma cova aberta no quintal junto da casa. A mesa estava posta com pratos de cerâmica com batatas às rodelas, salada de tomate e pepino, queijo branco fresco, fatias de pão e travessas dos mesmos folhados de queijo que tínhamos comido em I stambul. H avia guisados de carne, tigelas de iogurte, beringelas e cebolas grelhadas. I rina não nos deixou em paz enquanto os nossos pratos não ficaram quase pesados de mais para os segurarmos, e seguiu-nos de volta ao pequeno pomar levando copos de rakiya.
E ntretanto, os alunos de Stoichev estavam claramente a competir uns com os outros para ver quem lhe levava mais comida, e depois encheram-lhe o copo até à borda, e ele pôs-se lentamente de pé. P or todo o pátio as pessoas gritaram a pedir silêncio, e ele então brindou-as com um breve discurso, no qual distingui os nomes de K iril e M ethodii, bem como o meu e o de Helen. Quando terminou, uma saudação elevou-se de todo o grupo:
— Stoichev! Za zdraveto na Profesor Stoichev! Nazdrave!
Os aplausos soavam à nossa volta. T odos os rostos estavam voltados para Stoichev; toda a gente estava virada para ele com um sorriso e um copo levantado, e alguns tinham lágrimas nos olhos. L embrei-me de Rossi, de como ouvira com tanta modéstia as saudações e os discursos com que tínhamos comemorado o seu vigésimo ano na universidade. V irei a cara, com um nó na garganta. Ranov, reparei, andava por ali, debaixo do caramanchão, segurando um copo.
Quando o grupo sossegou e recomeçou a comer e a conversar, Helen e eu encontrámo-nos nos lugares de honra, ao lado de Stoichev. Ele sorria e assentia com a cabeça.
— E stou muito feliz por terem podido vir juntar-se a nós hoje. Sabem, este é o meu feriado preferido. Temos muitos dias dedicados a santos no calendário eclesiástico, mas este é particularmente caro a todos os que ensinam e aprendem, porque é quando honramos a herança eslavónia do alfabeto e da literatura, e o ensino e a aprendizagem de muitos séculos que tiveram a sua origem com Kiril e Methodii e a sua grande invenção. Além disso, neste dia, todos os meus alunos e colegas preferidos vêm interromper o trabalho do seu velho professor. E estou-lhes muito grato pela interrupção. — Olhou em volta com aquele sorriso cheio de afeto e deu uma palmadinha no ombro do colega mais próximo. V i com uma pontada de tristeza como a sua mão parecia frágil, fina e quase translúcida
Algum tempo depois, os alunos de Stoichev começaram a dispersar, dirigindo-se para a mesa onde o carneiro assado tinha acabado de ser trinchado, ou passeando no jardim em grupos de dois e três. Logo que se afastaram, Stoichev virou-se para nós com um ar ansioso
— Venham — disse — Vamos conversar enquanto podemos. A minha sobrinha prometeu manter M r. Ranov afastado tanto tempo quanto possível. Tenho algumas coisas para lhes contar e acredito que também tenham muito para me dizer
— Com certeza — puxei a minha cadeira para mais perto dele, e Helen fez o mesmo
— E m primeiro lugar, meus amigos — disse Stoichev, — li novamente com atenção a carta que deixaram comigo ontem. Aqui está a vossa cópia. — T irou-a do bolso da camisa. — Devolvo-a agora para a manter em segurança. L i-a muitas vezes e creio que foi escrita pela mesma mão que escreveu a carta que possuo o irmão K iril, quem quer que tenha sido, escreveu as duas. N ão tenho o original para estudar, é claro, mas se a cópia for exata, o estilo de composição é o mesmo e os nomes e datas coincidem. Acho que podemos ter poucas dúvidas de que essas cartas faziam parte da mesma correspondência, e que, ou foram entregues separadamente, ou separadas uma da outra por circunstâncias que jamais conheceremos. Agora, tenho algumas outras reflexões para ambos, mas primeiro tem de me contar mais sobre a vossa pesquisa. Tenho a impressão de que não vieram a B ulgária apenas para aprender mais sobre os nossos mosteiros. Como encontraram esta carta?
C ontei-lhe que tínhamos iniciado a nossa pesquisa por motivos que seriam demasiado
difíceis de explicar, porque não pareciam muito racionais.
— O senhor disse que leu os trabalhos do professor B artholomew Rossi, o pai de H elen.
Ele desapareceu recentemente, em circunstâncias muito estranhas.
Do modo mais rápido e claro que pude, resumi a Stoichev a minha descoberta do livro
do dragão, o desaparecimento de Rossi, o conteúdo das cartas e as cópias dos estranhos mapas que levávamos conosco, e a nossa pesquisa em I stambul e B udapeste, incluindo a canção folclórica e a xilogravura com a palavra Ivireanu, que tínhamos visto na biblioteca da universidade em Budapeste. Deixei de fora apenas o segredo da Guarda do Crescente. Não me atrevi a tirar nenhum documento da minha pasta com tantas outras pessoas a vista, mas descrevi-lhe os três mapas e a semelhança do terceiro com o dragão dos livros. E le ouviu com a máxima paciência e interesse, a testa contraída sob os finos cabelos brancos, os olhos escuros muito abertos. Apenas me interrompeu uma vez, para me pedir com ar urgente uma descrição mais exata de cada um dos livros do dragão — o meu, o de Rossi, o de H ugh J ames, o de Turgut. V i que, por causa dos seus conhecimentos sobre manuscritos e publicações antigas, os livros deviam ter um especial interesse para ele.
— Tenho o meu aqui — acrescentei, tocando na pasta que tinha no colo. E le teve um
sobressalto, olhando fixamente para mim.
— Gostaria de ver esse livro logo que possível — disse. M as o assunto que mais pareceu chamar-lhe a atenção foi a descoberta, por Turgut e
Selim, de que o abade a quem as cartas do irmão K iril eram endereçadas tinha presidido ao mosteiro de Snagov, na Valáquia.
— Snagov — disse ele num sussurro. O seu velho rosto tornou-se violáceo e por um
momento perguntei-me se iria desmaiar. — E u devia ter percebido. E aquela carta está na minha biblioteca há trinta anos!
— E u esperava ter a oportunidade de lhe perguntar, também, onde encontrara a sua
carta.
— C omo vê, há indicações bastante seguras de que os monges do grupo do irmão K iril
viajaram da Valáquia para Constantinopla antes de virem para a Bulgária — disse eu.
— Sim — ele sacudiu a cabeça. — Sempre achei que a carta se referia a uma viagem de
monges de C onstantinopla em peregrinação à B ulgária. N unca percebi... M axim E upraxius... o abade de Snagov... — P arecia dominado por rápidos raciocínios, que se refletiam no seu velho rosto expressivo como a passagem de um golpe de vento e o faziam piscar os olhos rapidamente. — E essa palavra Ivireanu que encontraram, e também M r. Hugh James, em Budapeste...
— Sabe o que significa? — perguntei, ansioso.
— Sim, sim, meu filho. — Stoichev parecia estar a olhar através de mim, sem me ver. — É o nome de Antim I vireanu, um estudioso e impressor de Snagov do final do século dezessete. M uito posterior a Vlad Tepes. J á estudei o trabalho de I vireanu. Foi um nome muito considerado entre os estudiosos do seu tempo e atraiu muitos visitantes ilustres a Snagov. I mprimiu o E vangelho em Romeno e em Árabe, e a sua prensa foi a primeira da Romênia, muito provavelmente. M as, meu Deus, talvez não tenha sido a primeira, se os livros do dragão forem muito mais antigos. H á muita coisa que preciso de lhes mostrar! — E balançou a cabeça, os olhos abertos. — Vamos para os meus aposentos, rápido.
Helen e eu olhamos em volta.
— Ranov está ocupado com Irma — disse eu, em voz baixa.
— Sim — Stoichev pôs-se de pé. — Vamos por aquela porta lateral da casa. Rápido, por favor.
N ão precisávamos de incentivo. Só a expressão do seu rosto teria sido suficiente para que eu o seguisse até ao alto de um penhasco. Subiu as escadas com dificuldade e nós seguimo-lo lentamente. Sentou-se para descansar diante da mesa grande. N otei que estava coberta de livros e manuscritos espalhados que não se encontravam lá na véspera.
— N unca tive muitas informações sobre aquela carta, nem sobre as outras — disse Stoichev, quando conseguiu recuperar o fôlego.
— As outras? — Helen sentou-se ao seu lado.
— Sim. H á outras duas cartas do irmão K iril, com a minha e com a de I stambul, são quatro. P recisamos ir ao mosteiro de Rila imediatamente para ver as outras. É uma descoberta incrível, poder reuni-las. M as não era isso que eu queria mostrar-lhes. N unca estabeleci nenhuma relação... — mais uma vez parecia demasiado perturbado para falar por muito tempo.
Após um momento, entrou num dos outros quartos e voltou trazendo um volume forrado a papel, que se revelou ser uma antiga revista acadêmica impressa na Alemanha.
— E u tinha um amigo — deteve-se. — Se ao menos ele tivesse vivido para ver este dia! J á lhes falei dele, o seu nome era Atanas Angelov. Sim, era um historiador búlgaro e foi um dos meus primeiros mestres. E m 1923, estava a fazer uma pesquisa na biblioteca de Rila, que é um dos nossos grandes repositórios de documentos medievais preciosos. L á, encontrou um manuscrito do século quinze; estava escondido dentro da capa de madeira de um folio do século dezoito. Esse manuscrito que ele queria publicar... é a Crônica de uma viagem da Valáquia a B ulgária. M orreu enquanto ainda estava a elaborar as notas para ele, e eu acabei-as e publiquei-o. O manuscrito original ainda está em Rila e eu nunca soube... — deu uma pancada na testa com a sua mão frágil. — Aqui, rápido. Foi publicado em B úlgaro, mas vamos examiná-lo e eu falo-lhes dos pontos mais importantes.
Abriu a desbotada revista com uma mão trêmula, e a sua voz também tremia a medida
que nos fazia um resumo da descoberta de Angelov. O artigo que tinha escrito a partir das notas de Angelov e o documento propriamente dito já foram desde então publicados em inglês, com muitas atualizações e infindáveis notas de rodapé. M as até hoje não posso olhar para a edição impressa sem ver o rosto envelhecido de Stoichev, os fiapos de cabelo caindo sobre as orelhas protuberantes, os grandes olhos voltados para a página com ardente concentração e sobretudo a sua voz vacilante.