O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 7 de 83

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O Historiador

Capítulo 5

P or me sentir tão constrangida com o meu pai, decidi investigar um pouco por conta

própria e, um dia, depois da escola, fui sozinha para a biblioteca da universidade. O meu holandês era bastante razoável, há anos que estudava Francês e Alemão e a universidade tinha um vasto acervo de obras em I nglês. Os bibliotecários eram amáveis e só precisei de uma ou duas conversas tímidas para encontrar o material que procurava: o texto dos folhetos de N uremberg sobre Drácula que o meu pai mencionara. A biblioteca não possuía os originais — eram muito raros, explicou-me o bibliotecário idoso do acervo medieval, mas encontrou o texto numa colectânea de documentos medievais alemães traduzido para o Inglês.

— Será que é disto que está à procura, minha querida? — perguntou ele, sorrindo. T inha um desses rostos muito claros e abertos de certos holandeses o olhar direto e azul

e o cabelo parecia ter ficado mais louro com o tempo, em vez de grisalho. Os pais do meu pai, em B oston, tinham morrido quando eu era pequena, e pensei que gostaria de ter um avô daquele gênero.

— C hamo-me J ohan B innerts — acrescentou. — P ode procurar-me sempre que

precisar de ajuda.

Respondi que era exatamente o que procurava, dank u, e ele bateu-me ao de leve no

ombro antes de se afastar em silêncio. N a sala vazia, reli o primeiro parágrafo do meu caderno de anotações:

"No ano de Nosso Senhor de 1456, Drakula fez muitas coisas terríveis e singulares. Quando

foi nomeado Senhor da Valáquia, mandou queimar todos os jovens que tinham ido para aquela

terra aprender a língua, num total de quatrocentos. M andou empalar uma família numerosa e

muitos dos seus súbditos foram enterrados nus até ao umbigo e alvejados. A alguns, mandou-os

esfolar e depois assar."

H avia também uma nota de rodapé no fim da primeira página. Os caracteres da nota

eram tão pequenos que quase me passou despercebida. Olhando mais de perto, verifiquei que se tratava de uma explicação sobre a palavra "empalar". Dizia que Vlad Tepes aprendera aquela forma de tortura com os Otomanos. A empalação que ele praticava consistia na penetração do corpo com uma estaca afiada de madeira, em geral pelo ânus ou pelos órgãos genitais, de tal modo que a estaca saía às vezes pela boca e às vezes pela cabeça.

Tentei por um minuto não ver estas palavras; depois, durante vários minutos, tentei

esquecê-las, com o livro fechado

P orém, o que mais me impressionou naquele dia, quando guardei o meu caderno e

vesti o casaco para ir para casa, não foi a imagem fantasmagórica de Drácula nem a descrição do empalamento, mas o fato de estas coisas, aparentemente, terem acontecido realmente. Se prestasse atenção, pensei, ouviria os gritos dos rapazes, da "família numerosa" morrendo junta. Apesar de todo o seu cuidado com a minha educação histórica, o meu pai esquecera-se de me contar isto: os terríveis momentos da história eram reais. C ompreendo hoje, décadas mais tarde, que de nada adiantaria ele ter-me contado. Só a própria história pode convencer-nos desta verdade. E uma vez que tenhamos visto de frente esta verdade, visto realmente, já não podemos desviar os olhos dela.

Ao chegar a casa naquela noite, senti uma espécie de força diabólica e enfrentei o meu pai. E le estava a ler na biblioteca enquanto M rs. C lay estava às voltas com os pratos do jantar na cozinha. Fui para a biblioteca, fechei a porta e postei-me diante da poltrona dele. E le segurava um dos seus amados livros de H enry J ames, o que nele era um sinal inconfundível de tensão. Fiquei parada sem falar até ele levantar os olhos para mim.

— Olá — disse ele, pegando no seu marcador com um sorriso. — Um problema de álgebra? — O seu olhar já revelava ansiedade.

— Quero que acabe a história — disse eu.

Ele ficou calado, tamborilando com os dedos no braço da cadeira.

— P or que não me conta o resto? — Foi a primeira vez que senti que era uma ameaça para ele. Olhou para o livro que acabara de fechar. Sabia que estava a ser cruel com ele de uma forma que eu mesma não compreendia, mas, já que começara aquela maldita tarefa, teria de a terminar. — O pai não quer que eu saiba certas coisas.

O meu pai levantou finalmente os olhos para mim. O seu rosto estava inexplicavelmente triste, marcado por rugas profundas a luz do candeeiro.

— Não, não quero.

— Sei mais do que pensa — disse eu, apesar de sentir que aquilo era uma infantilidade, não lhe diria o que sabia ainda que me perguntasse.

Ele juntou as duas mãos sob o queixo.

— Sei que sabes — disse por fim. — E porque não sabes nada, vou ter de te contar tudo.

Olhei para ele, surpreendida.

— Então, conte-me — disse eu, arrebatada. Ele baixou de novo a cabeça

— V ou contar-te, vou contar-te assim que puder. M as não aqui, em nossa casa. E não tudo de uma vez. N ão consigo. — E explodiu. — Tudo de uma vez é demais para mim. Tem paciência comigo.

O olhar que me lançou era de súplica, não de acusação. Aproximei-me e envolvi com o meu braço a sua cabeça curvada.

M arço costuma ser frio e ventoso na T oscana, mas o meu pai achou que uma viagem curta pelo campo seria o ideal depois de quatro dias de palestras — sempre considerei o trabalho dele como "palestras" — em Milão. Desta vez, não precisei de pedir que me levasse com ele.

— Florença é maravilhosa, principalmente fora da estação — declarou, enquanto saíamos de carro de Milão rumo ao Sul. — Gostaria que fosses até lá um dia destes. Primeiro, vais ter de aprender um pouco mais sobre a história da cidade e sobre as suas pinturas para a apreciares devidamente. M as o campo da T oscana é o melhor que há. Descansa os olhos e estimula-os ao mesmo tempo, vais ver.

C oncordei com a cabeça e acomodei-me no banco do Fiat alugado. O amor do meu pai

pela liberdade era contagiante, e eu gostava da maneira como ele alargava o nó da gravata e o colarinho da camisa quando partíamos para um lugar novo. O Fiat seguia a uma velocidade uniforme pela lisa auto-estrada do Norte de Itália.

— De qualquer maneira, há anos que tenho vindo a prometer a M assimo e G iulia que

viríamos. N unca me perdoariam se eu passasse tão perto sem os visitar. — I nclinou o corpo para trás e estendeu as pernas. — E les são um tanto esquisitos. E xcêntricos talvez seja uma definição melhor, mas são muito gentis. Alinhas?

— Já disse que sim — frisei.

P referia estar sozinha com o meu pai do que visitar estranhos, cuja presença

despertava sempre a minha timidez natural, mas ele mostrava-se ansioso por rever os seus velhos amigos. E m todo o caso, a vibração do Fiat dava-me sono; estava cansada da viagem de comboio. T ivera uma indisposição naquela manhã, o fluxo de sangue alarmantemente atrasado que era sempre um motivo de preocupação para o meu médico e que fizera a desajeitada M rs. C lay abastecer a minha mala com uma porção de maços de algodão. A minha primeira reação ao dar com aquela alteração foram lágrimas de surpresa no lavabo do comboio, como se alguém me tivesse ferido; a pequena mancha no algodão delicado das minhas cuecas parecia a impressão digital de um assassino. M as não dissera nada ao meu pai. Vales, aldeias alcantiladas em colinas distantes tornaram-se um panorama difuso que passava pela janela do carro e depois uma mancha indistinta. Ainda estava sonolenta à hora do almoço, numa cidade feita de cafés e bares escuros, com gatos a enroscarem-se e desenroscarem-se à entrada das portas.

M as quando, ao crepúsculo, subimos na direção de uma daquelas vinte cidades no alto

de colinas, amontoadas à nossa volta como temas de um fresco, senti-me bem acordada. O anoitecer cheio de nuvens varridas pelo vento revelava brechas de pôr-do-sol no horizonte na direção do M editerrâneo, disse o meu pai, na direção de G ibraltar e de outros lugares onde poderíamos ir um dia. Acima de nós, erguia-se uma cidade construída sobre estacas de pedra, com ruas quase verticais e vielas com degraus estreitos. O meu pai guiava o pequeno carro aparentemente ao acaso, até que passámos à porta de uma trattoria que derramava luz nas pedras arredondadas da rua molhada. N essa altura, ele desceu devagar pelo outro lado da colina.

— Acho que é aqui, se bem me lembro. — E enveredou por um caminho cheio de

sulcos de pneus e guardado por ciprestes escuros. — Villa M ontefollinoco, em Monteperduto. Monteperduto é a cidade, lembras-te?

E u lembrava-me. T ínhamos examinado o mapa ao pequeno-almoço, o dedo do meu pai traçando o percurso depois de tomar a sua chávena de café:

— Siena é aqui. Fica na T oscana Depois, atravessamos até à Umbria. C á está M ontepulciano, um famoso lugar antigo, e nesta próxima colina fica a nossa cidade, M onteperduto. — Os nomes estavam associados um ao outro na minha cabeça, mas monte significava montanha e estávamos cercados por montanhas de casa de bonecas, pequenas montanhas pintadas como se fossem filhotes dos Alpes, que eu já atravessara duas vezes.

N a escuridão iminente, a villa parecia pequena, uma casa baixa de quinta, feita de pedra bruta, com ciprestes e oliveiras agrupados à volta dos telhados avermelhados e um par de postes de pedra inclinados a marcar o caminho que dava acesso à casa. H avia luz nas janelas do andar de baixo e, de repente, dei-me conta de que estava faminta, cansada e irritada, com uma irritação de jovem que teria de disfarçar na presença dos nossos anfitriões. O meu pai tirou a nossa bagagem da mala do carro e eu segui-o através do caminho.

— Até a sineta ainda é a mesma — disse ele, satisfeito, puxando uma pequena corda na entrada e ajeitando o cabelo na penumbra

O homem que abriu a porta saiu como um pé-de-vento, abraçando o meu pai, dando-lhe palmadas nas costas, beijando-o ruidosamente nas duas faces, inclinando-se um pouco demais para me apertar a mão. A dele era enorme e quente, e pousou-a no meu ombro para entrarmos juntos. N o vestíbulo, de teto baixo e vigas à vista, cheio de móveis que até então eu só vira em museus, berrou como um animal da quinta:

— Giulia, Giulia! Anda cá! Vem ver quem chegou! Anda!

O inglês dele era seguro, forte, sonoro.

A mulher alta e sorridente que veio ao nosso encontro agradou-me de imediato. O cabelo dela era grisalho, mas brilhava com reflexos prateados, preso atrás da cabeça e descobrindo-lhe o rosto comprido. C omeçou por sorrir para mim e não se curvou para a frente para me cumprimentar. A sua mão era quente, como a do marido, e beijou o meu pai nas duas faces, sacudindo a cabeça por entre um fluxo suave de palavras em italiano.

— E tu — disse-me em inglês, — vais ter um quarto só para ti, um quarto bem simpático, está bem?

— E stá bem — concordei, gostando da idéia. E sperava que ficasse próximo do quarto do meu pai e tivesse uma boa vista do vale circundante, que tínhamos percorrido demasiado depressa.

Depois do jantar na sala com o chão lajeado, todos os adultos se recostaram nas cadeiras e suspiraram.

— G iulia — disse o meu pai —, cada ano cozinhas melhor. És uma das grandes cozinheiras de Itália.

— Que disparate, P aolo. — O inglês dela tinha traços de Oxford e C ambridge. E stás sempre a dizer esses disparates.

— Talvez seja do Chianti. Deixa-me olhar para essa garrafa.

— Deixa-me encher-te outra vez o copo — interrompeu M assimo. — E o que está a

linda filha do Paolo a estudar?

— Estudamos todos os assuntos na minha escola — disse eu, toda empertigada. — Ela gosta de História, julgo eu — disse o meu pai. — E também é uma boa viajante. — H istória? — M assimo encheu de novo o copo de G iulia, e depois o seu, com um

vinho cor de granadas, ou de sangue escuro. — C omo tu e eu, P aolo. C hamamos assim ao teu pai — explicou-me, — à parte porque não suporto esses aborrecidos nomes anglo-saxões que vocês têm todos. L amento, mas não os suporto. P aolo, meu amigo, quase caí morto quando me contaram que desististe da vida acadêmica para andares pelo mundo a dar palestras. E ntão, quer dizer que ele gosta mais de falar do que de ler e estudar, pensei com os meus botões. Um grande acadêmico perdido para o mundo, é o que o teu pai é.

Deu-me meio copo de vinho sem pedir autorização ao meu pai e misturou-o com um

pouco de água de um jarro que estava em cima da mesa. N aquela altura, eu já estava a gostar muito dele.

— Agora és tu que estás a dizer disparates — disse o meu pai, bem-humorado. — E u

gosto de viajar, essa é que é a verdade.

— Ah, bom. — M assimo abanou a cabeça. — P ois é, Signor P rofessor, e foste tu que

disseste um dia que serias o maior de todos. N ão é que a tua fundação não seja um magnífico sucesso, sei muito bem disso.

— P recisamos de paz e de uma diplomacia esclarecida, e não de pesquisas sobre

questões insignificantes que não interessam a ninguém — rebateu o meu pai, sorridente.

G iulia acendeu uma lanterna no aparador e apagou a luz eléctrica. L evou a lanterna

para a mesa e começou a cortar uma torta para a qual até então eu me esforçara por não olhar muito. A superfície da torta brilhava como obsidiana ao ser cortada.

— E m H istória, não existem questões insignificantes. Além do mais, até o grande Rossi

dizia que tu eras o seu melhor aluno. E o resto da turma não conseguia agradar ao homem.

— Rossi! exclamei antes de conseguir conter-me. O meu pai lançou-me um olhar

embaraçado por cima do seu prato de bolo.

— Quer dizer que conheces as lendas sobre os sucessos acadêmicos do teu pai, minha

menina? — disse M assimo, enchendo a boca com chocolate. O meu pai lançou-me outro olhar.

— C ontei-lhe algumas histórias sobre aquela época — explicou. P ercebi a advertência

velada no seu tom de voz. L ogo de seguida, porém, achei que a advertência poderia ter sido dirigida a M assimo e não a mim, porque o próximo comentário de M assimo provocou-me um calafrio e o meu pai desviou rapidamente o assunto para a política.

— C oitado do Rossi — disse M assimo. — Um homem maravilhoso, trágico. É muito

estranho pensar que uma pessoa que conhecemos tão bem possa simplesmente desaparecer de um momento para o outro.

Na manhã seguinte, estávamos sentados na piazza banhada pelo sol no alto da cidade, os casacos firmemente abotoados e os guias turísticos na mão, observando dois meninos que deveriam, tal como eu, estar na escola naquele momento. G ritavam e davam pontapés numa bola de futebol em frente da igreja. E u esperava, paciente. E sperara a manhã inteira, durante a visita a pequenas capelas escuras "com elementos de B runelleschi", segundo o vago e entediado guia, e ao P alazzo P ublico, com a sua sala de recepções que servira durante séculos a fio como depósito de cereais da cidade. O meu pai suspirou e deu-me uma das duas Oranginas em bonitas garrafas que trazia na mão.

— Vais perguntar uma coisa — disse ele, meio soturno.

— Não, só quero saber sobre o professor Rossi — e meti a palhinha na garrafa.

— Foi o que pensei. O Massimo não devia ter tocado no assunto.

Eu temia a resposta, mas tinha de perguntar.

— O professor Rossi morreu? Foi o que M assimo quis dizer quando referiu que ele desapareceu?

O olhar do meu pai atravessou a praça ensolarada, até aos cafés e aos talhos do outro lado.

— Sim. Não. Bem, foi uma coisa muito triste. Queres mesmo saber o que aconteceu?

C oncordei com um gesto da cabeça. O meu pai olhou rapidamente em volta. E stávamos sentados num banco de pedra que se projectava de um dos bonitos palazzi antigos e não havia mais ninguém por perto a não ser os garotos que jogavam futebol na praça.

— Está bem — disse finalmente.