O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 83 de 83

Páginas do PDF

O Historiador

Epílogo

H á cerca de dois anos, uma extravagante oportunidade apresentou-se a mim

enquanto me encontrava na Filadélfia para uma conferência, uma reunião internacional de historiadores medievais. N unca tinha estado até então em Filadélfia e estava intrigada pelo contraste entre as nossas reuniões, que mergulhavam num passado feudal e monástico, e a vibrante metrópole à nossa volta, com a sua história mais recente de republicanismo e revolução. A B aixa da cidade, vista do meu quarto de hotel no décimo quarto andar, exibia uma mistura singular de arranha-céus e quarteirões de casas dos séculos dezessete e dezoito, que pareciam miniaturas ao lado deles.

Durante as nossas poucas horas de lazer, fugi de uma interminável palestra sobre

artefatos bizantinos para ver alguns verdadeiros no magnífico museu de arte. L á, peguei num folheto de um pequeno museu literário com uma biblioteca, situado na B aixa, cujo nome ouvira o meu pai citar muitos anos antes, e cuja coleção eu tinha motivos para ir conhecer. E ra um centro tão importante para os estudiosos de Drácula que, evidentemente, tinham aumentado consideravelmente desde as primeiras investigações do meu pai como muitos arquivos europeus. Recordei-me que os investigadores podiam ver ali as notas de B ram Stoker para Drácula, selecionadas a partir de fontes da B iblioteca do M useu B ritânico, bem como um importante opúsculo medieval. A oportunidade era irresistível. O meu pai sempre tinha querido visitar aquela coleção; iria passar lá uma hora em sua homenagem. E le morrera vítima de uma mina terrestre em Sarajevo há mais de dez anos, trabalhando como mediador no pior conflito europeu das últimas décadas. Só fui informada quase uma semana depois; a notícia, quando a recebi, deixou-me fechada em silêncio durante um ano. Ainda sentia a sua falta todos os dias, às vezes todas as horas.

 

Foi assim que me vi numa pequena sala com temperatura controlada, num dos prédios

de tijolos castanhos construídos na cidade no século dezenove, manuseando documentos que me falavam de um passado distante mas também da premência das pesquisas do meu pai. As janelas davam para a folhagem delicada das árvores da rua e, do lado oposto, para outros prédios do mesmo gênero, com as suas fachadas elegantes intocadas pela mácula de acréscimos modernos H avia apenas um outro estudioso na pequena biblioteca naquela manhã, uma mulher italiana que falou baixinho ao telemóvel durante alguns minutos antes de abrir os diários manuscritos de alguém, esforcei-me para não esticar o pescoço para espreitar o que era e começar a ler. Quando me instalei com um caderno e um agasalho leve contra o ar condicionado, a bibliotecária trouxe-me primeiro os documentos de Stoker e depois uma pequena caixa de cartão atada com uma fita.

As notas de Stoker foram uma diversão agradável, um estudo sobre a maneira caótica

de tomar notas. Algumas estavam escritas com a letra apertada, outras datilografadas em papel vegetal. N o meio delas, havia recortes de jornais sobre acontecimentos misteriosos e folhas da agenda pessoal dele. P ensei como o meu pai teria gostado daquilo, como teria achado graça à maneira ingénua como Stoker lidava com o oculto. M as depois de meia hora, pu-los de lado e passei para a outra caixa. C ontinha um livro fino, com uma capa simples e elegante, provavelmente do século dezenove, quarenta páginas impressas num pergaminho do século quinze quase impecável, um tesouro medieval, um milagre do tipo móvel. A estampa da página de rosto era uma xilogravura, um rosto que eu conhecia do meu longo trabalho, com os seus olhos grandes, bem abertos e no entanto dissimulados, olhando penetrantemente para mim, o pesado bigode caindo-lhe pelo queixo quadrado, o nariz longo e fino, porém ameaçador, os lábios sensuais apenas visíveis.

E ra um opúsculo de N uremberg, impresso em 1491, e falava dos crimes de Dracole Waida, da sua crueldade, dos seus banquetes sangrentos. C onsegui decifrar as primeiras frases, de tão familiares que eram para mim, escritas em alemão medieval "N o Ano de N osso Senhor 1456, Drákula fez muitas coisas terríveis e curiosas." A biblioteca providenciara uma folha com a tradução, onde reli com um calafrio alguns dos crimes de Drácula contra a humanidade. E le assou pessoas vivas, esfolou-as, enterrou-as até ao pescoço, empalou bebês no seio das mães. O meu pai tinha examinado outros panfletos como aquele, evidentemente, mas tê-lo-ia apreciado pela sua espantosa frescura, pela firmeza do seu pergaminho, pelo seu estado quase perfeito. Depois de cinco séculos, parecia acabado de imprimir. E ssas mesmas qualidades amedrontaram-me e, dentro em pouco, fiquei satisfeita ao guardá-lo e atar a fita novamente, perguntando-me por que desejara ver a coisa em pessoa. Aquele olhar arrogante fitou-me até eu fechar o livro.

Reuni os meus pertences, então, com a sensação de ter completado uma peregrinação, e agradeci à amável bibliotecária. E la mostrou-se contente com a minha visita; aquele opúsculo era um dos seus itens favoritos do acervo; ela própria escrevera um artigo a respeito dele. Despedimo-nos com palavras cordiais e um aperto de mão, desci para a loja de presentes e dali para o calor da rua, com os seus cheiros a escapes dos automóveis e a comida dos restaurantes.

O contraste entre o ar purificado do interior do museu e o alvoroço da cidade do lado de fora fez a porta de carvalho atrás de mim parecer proibitivamente selada, de modo que me espantei ainda mais ao ver a bibliotecária sair a correr por ela.

— Acho que se esqueceu disto — disse-me. — Ainda bem que a apanhei. — Sorriu-me com o ar de quem sabe que está a devolver um tesouro: uma carteira, umas chaves, uma bonita pulseira. — Não gostaria com certeza de perder isto aqui.

Agradeci e peguei no bloco de notas e no livro que ela me entregava, espantada, abanando a cabeça, aquiescendo, e ela desapareceu dentro do velho prédio tão depressa como surgira à minha frente. O bloco de notas era meu, sem dúvida, embora eu achasse que o tinha metido na minha pasta antes de sair. O livro era... não sei dizer agora o que realmente pensei que fosse naquele primeiro momento, só que a capa era de um veludo gasto e velho, muito, muito velho, e que me era ao mesmo tempo familiar e desconhecido. O pergaminho do interior não tinha nada da frescura das páginas do opúsculo que eu tinha examinado na biblioteca apesar das páginas vazias, recendia a séculos de manuseamento. A feroz e única imagem no centro abriu-se na minha mão antes que eu pudesse impedir-me e fechou-se outra vez antes que eu pudesse olhar muito tempo para ela.

Fiquei absolutamente imóvel na rua enquanto uma sensação de irrealidade tomava

conta de mim; os carros que passavam eram tão sólidos como antes, uma buzina soou algures, um homem com um cão pela trela tentava passar entre mim e uma árvore. Olhei rapidamente para cima, para as janelas do museu, pensando na bibliotecária, mas os vidros das janelas refletiam apenas as casas em frente. N enhuma cortina de renda se moveu ali, também, e nenhuma porta se fechou silenciosamente quando olhei em volta. N ão havia nada de errado naquela rua.

N o meu quarto de hotel, pousei o livro em cima do tampo de vidro da mesa e lavei a

cara e as mãos. Depois, fui até à janela e fiquei a olhar a cidade de cima. N o fim do quarteirão, via a nobre feiura do prédio da prefeitura, o P hiladelphia C ity H all, com a sua estátua de William Penn, o amante da paz, equilibrada no topo. Vistos dali, os parques eram quadrados verdes de copas de árvores. L uzes piscavam nas torres dos bancos. M ais distante, à minha esquerda, via o edifício federal que fora bombardeado um mês antes, os guindastes vermelhos e amarelos a recolher o entulho no meio dele, e conseguia ouvir o ruído da reconstrução.

M as não era essa cena que enchia o meu olhar. E stava a pensar, contra a minha

vontade, numa outra, que me parecia já ter observado antes. E ncostei-me à janela, sentindo o sol do Verão, sentindo-me segura apesar da distância a que estava do solo, como se a insegurança para mim pertencesse a um domínio completamente diferente.

 

E u imaginava uma clara manhã de Outono em 1476, apenas suficientemente fria para

fazer a névoa levantar-se da superfície do lago. Um barco atraca na extremidade da ilha, por baixo dos muros e cúpulas com as suas cruzes de ferro. A proa de madeira arranha levemente as pedras e dois monges vêm a correr por entre as árvores para puxar o barco para terra firme. O homem que desembarca está sozinho, e os pés que pisam o desembarcadouro de pedra estão calçados de botas finamente confeccionadas de couro vermelho, ambas com esporas pontiagudas presas nelas. É mais baixo do que os dois jovens monges, mas dá a impressão de os dominar pela altura. E stá vestido de damasco púrpura e vermelho, sob um longo manto de veludo negro preso no peito largo por um broche elaborado. O seu chapéu tem a forma de um cone pontiagudo, negro também, com plumas vermelhas à frente. A sua mão, intensamente coberta de cicatrizes nas costas, brinca com a espada curta que traz no cinto. Os olhos são verdes, extraordinariamente grandes e separados, a boca e o nariz são cruéis, o cabelo e o bigode negros exibem ásperas mechas brancas.

O abade foi avisado e apressa-se a vir recebê-lo sob as árvores.

— É uma honra, meu senhor — diz ele, estendendo a mão. Drácula beija o anel e o abade faz o sinal da cruz sobre ele. — Deus vos abençoe, meu filho — acrescenta, numa espontânea ação de graças. Sabe que a aparição do príncipe é quase milagrosa. Drácula provavelmente atravessou terras ocupadas pelos Turcos para chegar ali. N ão é a primeira vez que o benfeitor do abade aparece como por transporte divino. O abade ouviu dizer que o metropolita em C urtea de Arges em breve reinvestirá Drácula como governante da Valáquia e então, sem dúvida, o Dragão vai finalmente arrebatar toda a Valáquia aos Turcos. O abade toca a larga testa do seu príncipe numa bênção. — P ensamos o pior quando o senhor não veio na primavera. Deus seja louvado.

Drácula sorri mas nada diz, lançando um longo olhar ao abade. J á discutiram sobre a morte anteriormente, lembra-se o abade; Drácula perguntou-lhe diversas vezes em confissão se ele, o homem santo, acha que todo o pecador será admitido no paraíso se verdadeiramente se arrepender. O abade preocupa-se sobretudo que o seu benfeitor receba os últimos sacramentos quando chegar o momento, ainda que tenha receio de lho dizer. C edendo à suave insistência do abade, Drácula foi entretanto batizado novamente na legítima fé para mostrar o seu arrependimento pela sua conversão temporária à herética I greja ocidental. O abade perdoou-lhe tudo, em privado tudo. N ão dedicou Drácula a sua vida a conter os infiéis, o monstruoso sultão que está a derrubar todas as muralhas da cristandade? M as, também em privado, especula que castigos o T odo-P oderoso irá impor a este estranho homem. E spera que Drácula não toque na questão do paraíso e fica aliviado quando o príncipe pede para ver os progressos que fizeram na sua ausência. C ontornam juntos a extremidade do pátio do mosteiro, as galinhas a correr e a espalhar-se à sua passagem. Drácula inspeciona as construções recém-terminadas e as hortas viçosas com um olhar de satisfação, e o abade, pressuroso, mostra-lhe os passadiços entre os edifícios que tinham sido construídos desde a sua última visita.

Nos aposentos do abade tomam chá e então Drácula pousa um saco de veludo à frente do abade.

— Abra-a — diz, alisando o bigode.

As suas pernas musculosas estão afastadas uma da outra na cadeira; a sempre presente espada ainda pende ao lado. O abade gostaria que Drácula fizesse as suas dádivas com mais humildade, mas abre a bolsa em silêncio.

— Tesouro turco — diz Drácula, o sorriso aberto. Falta-lhe um dos dentes de baixo, mas os outros são fortes e brancos.

Dentro da bolsa, o abade encontra jóias de infinita beleza, grandes conjuntos de esmeraldas e rubis, pesados anéis de ouro e broches de feitura otomana e ainda outras peças, entre elas uma esplêndida cruz de ouro com safiras escuras embutidas. O abade não quer saber de onde veio tudo isto.

— Vamos mobiliar a sacristia e mandar fazer uma nova pia batismal — determina

Drácula. — Quero que mande vir artesãos de onde quiser. I sto vai pagar facilmente a despesa, e ainda sobra o suficiente para o meu túmulo.

— O vosso túmulo, meu senhor? — O abade olha respeitosamente para o chão. — Sim, E minência — a sua mão vai outra vez ao punho da espada. — Tenho vindo a

pensar nisso e gostaria de ser colocado diante do altar, com uma pedra de mármore por cima. C elebrareis em minha memória as melhores missas cantadas, evidentemente. I nstalai um segundo coro para isso. — O abade inclina a cabeça, mas está amedrontado pelo rosto do homem, o lampejo calculista nos olhos verdes. — E m acréscimo, tenho alguns pedidos, que deveis lembrar com cuidado. Quero o meu retrato pintado na pedra tumular, mas não quero nenhuma cruz.

O abade levanta os olhos, atônito.

— Nenhuma cruz, meu senhor?

— Nenhuma cruz — declara o príncipe com firmeza. E ncara o abade, que não ousa perguntar mais nada. M as ele é o conselheiro espiritual

deste homem e, depois de mais um instante, fala.

— T odo o túmulo é marcado com o sofrimento do nosso Salvador, e o vosso deve ter a

mesma honra.

O rosto de Drácula fica sombrio.

— Não pretendo sujeitar-me por muito tempo à morte — diz em voz baixa. — Só existe uma forma de escapar à morte — afirma corajosamente o abade, — é

através do Redentor, se Ele nos concede a Sua graça.

Drácula olha fixamente para ele por uns minutos e o abade tenta não desviar o olhar. — Talvez — diz por fim. — M as encontrei recentemente um homem, um mercador

que viajou para um mosteiro no Ocidente. Disse-me que há um lugar na G ália, a igreja mais velha daquela parte do mundo, onde alguns dos monges latinos venceram a morte por meios secretos. Ofereceu-se para me vender os seus segredos, que escreveu num livro.

O abade estremece.

— Deus nos proteja de tais heresias — diz ele, depressa. — E stou certo, meu filho, de

que recusasteis essa tentação.

Drácula sorri.

— Sabeis como gosto de livros.

— Só existe um L ivro verdadeiro, e é a esse que devemos amar com todo o nosso

coração e toda a nossa alma — diz o abade, mas ao mesmo tempo é incapaz de tirar os olhos da mão cheia de cicatrizes do príncipe e do punho da espada com que ela brinca. Drácula usa um anel no dedo mínimo; o abade conhece bem, sem ver de perto, o símbolo que se contorce ferozmente nele.

— Vinde.

P ara alívio do abade, Drácula aparentemente cansou-se deste debate e levanta-se súbita e vigorosamente.

— Quero ver os vossos escribas. Vou ter um trabalho especial para eles em breve.

Seguem juntos para o pequenino scriptorium, onde três dos monges estão sentados a copiar manuscritos, de acordo com os velhos costumes, e um esculpe letras para imprimir uma página da vida de Santo António. A prensa propriamente dita está a um canto. E a primeira prensa tipográfica da Valáquia, e Drácula passa a mão nela com orgulho, a sua mão pesada, quadrada. O mais velho dos monges do scriptorium está numa mesa próxima da prensa, a cinzelar um bloco de madeira. Drácula inclina-se para ele.

— O que vai ser isso, padre?

— São M iguel a matar o dragão, E xcelência — murmura o velho monge. Os olhos que ergue são nebulosos, encobertos pelas espessas sobrancelhas brancas pendentes.

— Prefiro o Dragão a matar o infiel — diz Drácula, rindo.

O monge sacode a cabeça, mas o abade estremece por dentro outra vez.

— Tenho uma encomenda especial para vós — diz-lhe Drácula. — V ou deixar um desenho ao abade.

Sob o sol do pátio, faz uma pausa.

— V ou ficar para a missa e receber a comunhão das vossas mãos. — Sorri para o abade. — Tendes uma cama para mim numa das celas esta noite?

— Como sempre, senhor. Esta casa de Deus é a vossa casa.

— E agora vamos subir à minha torre.

O abade conhece bem esta prática do seu patrono; Drácula gosta sempre de inspecionar o lago e as margens circundantes do ponto mais alto da igreja, como se verificasse se haveria inimigos. Tem bons motivos para isso, pensa o abade. Os Otomanos pedem a sua cabeça ano após ano, o rei da H ungria guarda-lhe não pouco rancor, os seus próprios boiardos detestam-no e temem-no. E xiste alguém que não seja seu inimigo, além dos residentes daquela ilha? O abade segue-o lentamente pela escada em espiral, preparando-se para o repicar dos sinos, que está prestes a começar, e que soa muito alto ali em cima.

O domo da torre tem compridas aberturas de cada lado. Quando o abade chega ao cimo, Drácula já está de pé no seu posto favorito, olhando para a água, as mãos entrelaçadas nas costas num gesto característico de quem pensa, planeja. O abade já o viu assim de pé em frente dos seus guerreiros, dirigindo a estratégia para o ataque do dia seguinte. N ão parece de modo nenhum um homem em perigo constante um líder cuja morte pode ocorrer a qualquer hora, que devia ponderar a cada momento a questão da sua salvação. Ao contrário, pensa o abade, ele parece alguém que tem o mundo inteiro diante de si.

 

Fim

E ste ePub teve como base uma digitalização em

Doc feita por Fátima Tomás pelo grupo Digital Source.

 

Junho de 2014

LeYtor

{1} The Rape of the Lock, de Alexander Pope.

{2} B oswell (1740-1795), ensaísta escocês conhecido pela biografia T he L ife ofSamuel Johnson (1791).

Você terminou O Historiador

Elizabeth Kostova

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.