O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 21 de 83

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O Historiador

Capítulo 19

— Depois de H elen Rossi ter batido com o livro Drácula que evidentemente pensava ser o nosso pomo da discórdia em cima da mesa, quase que esperava que toda a gente se levantasse e saísse a correr, ou que alguém gritasse "Aha!" e viesse matar-nos. C laro que nada disso aconteceu, e ela ficou a olhar para mim com a mesma expressão de amargo prazer. Seria possível que aquela mulher, interroguei-me devagar, com o seu legado de ressentimento e a sua vendetta acadêmica contra Rossi, o tivesse pessoalmente atacado e causado o seu desaparecimento?

-M iss Rossi — disse eu, com a maior calma possível, tirando o livro de cima da mesa e colocando-o virado para baixo ao lado da minha pasta, — a sua história é extraordinária, e tenho de confessar que vou levar algum tempo para a digerir completamente. M as tenho de contar-lhe uma coisa muito importante. — Respirei fundo uma e outra vez. — C onheço muito bem o professor Rossi. H á dois anos que é meu orientador e já passamos horas juntos, a conversar e a trabalhar. Tenho a certeza de que... quando o conhecer, vai achá-lo uma pessoa muito melhor e mais bondosa do que imagina. — E la fez um movimento como se quisesse dizer alguma coisa, mas eu continuei: — O fato é... o fato é que... presumo, pela maneira como falou dele, que desconhece que o professor Rossi... o seu pai... desapareceu.

E la olhou-me de frente e não detectei qualquer vestígio de malícia no seu rosto, só confusão. Portanto, a notícia era uma surpresa para ela. A dor no meu coração abrandou.

— O que está a dizer? — perguntou.

— E stou a dizer que, há três noites, eu estava a conversar com ele como sempre e, no dia seguinte, ele tinha desaparecido. A polícia está à procura dele. Aparentemente, desapareceu do seu gabinete e talvez até tenha sido ferido lá, porque encontraram sangue na secretária. — Fiz um breve resumo dos acontecimentos daquela noite, começando com o fato de eu lhe ter levado o meu estranho livro, mas nada disse sobre a história que Rossi me contara.

Ela olhou para mim, o rosto contraído de perplexidade.

— Está a brincar comigo?

— N ão, de maneira nenhuma. N ão estou mesmo. M al tenho conseguido dormir ou comer desde aquele dia.

— A polícia não tem idéia de onde ele está?

— Nenhuma, que eu saiba.

O olhar dela tornou-se subitamente duro.

— E você, tem? Hesitei.

— É possível. É uma longa história, que pelos vistos está a ficar cada vez mais longa.

— E spere aí — ela olhou fixamente para mim. — Ontem, quando estava a ler aquelas cartas na biblioteca, disse-me que estavam relacionadas com um problema que estava a acontecer com um professor. Era Rossi?

— Era.

— Que problema era esse? Ainda continua? — N ão quero envolvê-la em situações desagradáveis ou perigosas contando-lhe o

pouco que sei.

— P rometeu responder às minhas perguntas depois de eu responder à sua. — Se

tivesse olhos azuis em vez de escuros, o rosto dela seria idêntico ao de Rossi naquele momento. I maginei que conseguia ver uma semelhança agora, um estranho molde dos nítidos traços ingleses de Rossi na forte e sombria estrutura romena, embora essa impressão pudesse ser causada pela afirmação dela, a de que era sua filha. M as como poderia ser sua filha, se ele negara peremptoriamente ter estado na Romênia? Dissera, pelo menos, que não estivera no lago Snagov. Por outro lado, tinha deixado aquela brochura entre os seus papéis. Agora ela desferia-me um olhar feroz, uma coisa que Rossi nunca fizera.

— Agora é tarde para me dizer que não devo fazer perguntas. O que têm aquelas

cartas a ver com o desaparecimento dele?

— Ainda não tenho certeza. M as posso precisar da ajuda de um especialista. N ão sei o

que é que você descobriu no decorrer da sua pesquisa... — mais uma vez, fui alvo do seu olhar desconfiado, de pálpebras pesadas. — E stou convencido de que Rossi achava que corria perigo antes de desaparecer.

E la parecia estar a tentar assimilar tudo aquilo, aquelas notícias sobre um pai que

conhecera durante tanto tempo apenas como um símbolo de desafio.

— Corria perigo? Porquê?

Resolvi correr o risco. Rossi pedira-me para não contar aquela história louca aos meus

colegas. N ão contara, mas agora, inesperadamente, tinha diante de mim a possibilidade de contar com a ajuda de uma especialista. Aquela mulher provavelmente já sabia o que eu levaria meses para aprender; talvez até tivesse razão ao afirmar que sabia mais do que o próprio Rossi. Rossi realçava sempre a importância de procurar ajuda especializada pois bem, era o que eu ia fazer. P erdoai-me, rezava eu às forças do bem, se isto a puser em perigo. Além disso, a situação tinha uma lógica peculiar. Se ela era de fato filha dele, teria, mais do que qualquer outra pessoa, o direito de saber a sua história.

— O que significa Drácula para si?

— O que significa para mim? — ela franziu a testa. — C omo conceito? A minha

vingança, suponho. Uma eterna amargura.

— Sim, isso já eu sei. Mas Drácula significa mais alguma coisa para si? — O que quer dizer?

Eu não sabia se ela estava a ser evasiva ou apenas sincera. — Rossi — disse eu, ainda hesitante —, o seu pai estava... está... convencido de que

Drácula ainda anda pelo mundo. — E la ficou parada a olhar para mim. — O que acha disso? P arece-lhe uma loucura? — E sperava que ela começasse a rir-se, ou que se levantasse e saísse, como fizera na biblioteca.

— É engraçado — respondeu devagar. — N ormalmente, diria que é uma lenda de camponeses, uma superstição baseada na memória de um tirano sanguinário. O mais impressionante, porém, é que a minha mãe está absolutamente convencida da mesma coisa.

— A sua mãe?

— Sim. C omo lhe disse, ela nasceu camponesa. Tem direito a ter essas superstições, embora provavelmente acredite menos nelas do que os seus pais acreditavam. M as um eminente acadêmico ocidental?

E ra sem dúvida uma antropóloga, apesar do seu amargo objetivo. A maneira como a sua inteligência rápida se desligava das questões pessoais deixava-me espantado.

— M iss Rossi — disse eu de repente, tomando uma decisão. — N ão tenho a menor dúvida de que gostaria de examinar tudo pessoalmente. P or que não lê as cartas de Rossi? Devo avisá-la, com toda a franqueza, de que todos os que manusearam os documentos dele sobre esse assunto sofreram um tipo qualquer de ameaça, tanto quanto sei. M as se não tem medo, leia as cartas. Vai poupar-nos o tempo que eu levaria a convencê-la de que essa história é verdadeira, no que acredito firmemente.

— Vai poupar-nos tempo? — repetiu ela, desdenhosa. — E o que está a planejar fazer com o meu tempo?

Eu estava demasiado desesperado para me aborrecer.

— Vai ler essas cartas com um olhar mais treinado, neste caso, do que o meu.

Ela pareceu avaliar a proposta, com o queixo apoiado na mão.

— E stá bem — disse por fim. — V ocê tocou num dos meus pontos fracos. É claro que não posso resistir à tentação de saber mais sobre Rossi, sobretudo se isso me fizer ultrapassá-lo na pesquisa dele. M as se me parecer apenas louco, aviso-o que não conte muito com a minha simpatia. Seria um azar para mim se ele fosse internado como doente mental antes de eu ter a minha justa oportunidade de o torturar.

O sorriso dela não era propriamente um sorriso.

— Ótimo. — N ão fiz caso da última observação nem da careta feia, forçando-me a não olhar para os seus dentes caninos, que eu via perfeitamente que não eram maiores do que o normal. P orém, antes de concluirmos a nossa negociação, eu tinha de lhe mentir num ponto. — L amento dizer que não tenho as cartas comigo. T ive medo de andar com elas por aí hoje. — N a realidade, tivera medo de as deixar no apartamento, e estavam escondidas na minha pasta. Ora, com os diabos literalmente, talvez —, eu não ia exibi-las ali no meio da cafetaria. N ão sabia quem poderia estar ali, a espiar-nos os amiguinhos do arrepiante bibliotecário, por exemplo? H avia outro motivo também, um teste que eu precisava de fazer, apesar de ser tão desagradável que me dava arrepios. P recisava de ter a certeza de que H elen Rossi, quem quer que ela fosse, não estava mancomunada com bem, não seria plausível que o inimigo do seu inimigo já fosse seu amigo? — V ou ter de ir a casa buscá-las. E tenho de pedir-lhe que as leia na minha presença; são frágeis e muito preciosas para mim.

— Está bem — disse ela, friamente. — Podemos encontrar-nos amanhã à tarde? — É tarde demais. G ostava que as visse imediatamente. Desculpe, sei que parece

estranho, mas vai compreender a minha urgência quando as ler.

Ela encolheu os ombros.

— Se não levar muito tempo.

— Não vai levar. Pode encontrar-se comigo na... na Igreja de Saint Mary? E sse teste, pelo menos, podia fazê-lo com um cuidado digno de Rossi. H elen Rossi

olhou para mim sem pestanejar, o seu rosto, duro e irônico, impassível.

— Fica na Elm Street, a dois quarteirões do... — Sei onde fica interrompeu ela, — segurando nas luvas e calçando-as com elegância.

Voltou a pôr a écharpe azul, que cintilou no seu pescoço como lápis-lazúli.

— A que horas?

— Dê-me meia hora para ir buscar os papéis ao meu apartamento e encontrar-me

consigo lá.

— N a igreja. E stá bem. V ou parar na biblioteca para procurar um artigo de que preciso

hoje. Por favor, seja pontual. Tenho muito que fazer.

Fiquei a vê-la sair, as suas costas esguias e fortes debaixo do casaco preto. P ercebi tarde

demais que ela tinha pago os nossos cafés.