O Historiador
Capítulo 54
A minha primeira impressão da B ulgária e a lembrança que guardei dela para sempre
foi a de montanhas vistas do ar, montanhas altas e profundas, de vegetação escura e quase intocada por estradas, embora aqui e ali uma tira castanha corresse entre aldeias ou ao longo de súbitos penhascos a pique. H elen estava sentada em silêncio ao meu lado, os olhos fixos na pequena janela do avião, a mão dentro da minha debaixo do meu casaco dobrado. Sentia o calor da palma da sua mão, os dedos finos ligeiramente frios e a ausência de anéis. Avistávamos de vez em quando veios cintilantes nas fendas das montanhas, que deviam ser rios, pensava eu, e esforçava-me sem grandes esperanças para distinguir o formato de uma cauda ondulante de dragão que pudesse ser a resposta ao nosso enigma. N ada, evidentemente, se ajustava aos contornos que eu já conhecia de olhos fechados.
E provavelmente nada se ajustaria, lembrei a mim próprio, quanto mais não fosse para
mitigar aquela esperança que renascia incontrolavelmente dentro de mim à vista daquelas antigas montanhas. A sua própria obscuridade, a impressão que davam de não terem sido tocadas pela história moderna, a misteriosa ausência de cidades ou industrialização alimentava essa esperança. T inha a vaga sensação de que, naquele país, quanto mais escondido estivesse o passado, maior a probabilidade de ter sido preservado. Os monges, cujo rastro perdido sobrevoávamos agora, tinham viajado através de montanhas como aquelas talvez passado por aqueles mesmos picos, apesar de não sabermos qual teria sido o seu percurso. C omentei isto com H elen, querendo ouvir-me expressar as minhas esperanças em voz alta. Ela abanou a cabeça.
— N ão sabemos se de fato chegaram à B ulgária ou até se se dirigiram para lá —
lembrou-me ela, mas amenizou o inexpressivo tom acadêmico com uma carícia na minha mão sob o casaco.
— Não sei nada sobre a história da Bulgária — confessei. — Vou ficar perdido lá. Helen sorriu.
— Também não sou perita no assunto, mas posso dizer-te que os E slavos migraram do
N orte para esta região nos séculos seis e sete, e uma tribo turca conhecida por B úlgaros veio para ca no século sete, creio. Uniram-se sabiamente contra o I mpério B izantino e o seu primeiro governante foi um búlgaro chamado Asparuh. O czar B oris I fez do C ristianismo a religião oficial no século nove. Apesar disso, é considerado um grande herói no país. Os B izantinos governaram do século onze ao princípio do século treze, e então a B ulgária tornou-se muito poderosa até que os Otomanos a esmagaram, em 1393.
— Quando é que os Otomanos foram expulsos? — perguntei, interessado. P arecíamos
deparar com eles em toda a parte
— Só em 1878 — admitiu Helen — A Rússia ajudou a Bulgária a expulsá-los E depois a Bulgária apoiou o Eixo nas duas guerras — Sim, e o exército soviético trouxe uma revolução gloriosa logo depois da guerra. — O que faríamos sem o exército soviético? H elen fez me o seu sorriso mais brilhante e amargo, mas apertei lhe a mão
— Fala baixo — pedi — Se não tiveres cuidado, vou precisar ter cuidado pelos dois.
O aeroporto de Sófia era diminuto, eu esperava um palácio do moderno comunismo, mas descemos numa pista modesta e atravessamo-la a pé juntamente com os outros passageiros. Quase todos eram búlgaros, presumi, tentando captar alguma coisa das suas conversas. E ram pessoas bonitas, algumas extremamente bonitas, e os seus rostos variavam dos eslavos de pele clara e olhos escuros para os de um bronzeado típico do M édio Oriente, um caleidoscópio de ricas colorações e fartas sobrancelhas desgrenhadas, narizes longos e de narinas largas, ou aquilinos, ou muito aduncos, raparigas com cabelos negros encaracolados e testas majestosas, homens idosos quase sem dentes mas cheios de energia. Sorriam ou riam e conversavam animadamente uns com os outros, um homem alto gesticulava para o companheiro com um jornal dobrado. As suas roupas eram claramente não ocidentais, embora me fosse difícil apontar o que havia nos cortes dos fatos e das saias, nos sapatos pesados e nos chapéus escuros que não me era familiar
Também tive a impressão de que havia uma alegria mal disfarçada nessas pessoas quando os seus pés tocaram no solo ou asfalto búlgaro, o que não correspondia a imagem que levava comigo, a de uma nação inabalavelmente aliada aos Soviéticos, ainda a principal aliada de Stalin, mesmo agora, um ano depois da sua morte um país sem alegria preso a ilusões de que talvez nunca despertasse. As dificuldades para obter um visto búlgaro em I stambul uma etapa oleada em grande parte pelos fundos fornecidos por Turgut provenientes da G uarda do Sultão e pelos telefonemas da homônima búlgara da tia E va em Sofia só fizeram aumentar a minha ansiedade em relação ao país, e os desalentados burocratas que finalmente e de má vontade tinham carimbado a sua aprovação nos nossos passaportes em B udapeste pareceram-me já embalsamados em opressão. H elen confidenciara-me que o próprio fato de a embaixada búlgara nos ter concedido os vistos a deixava inquieta.
Os B úlgaros de carne e osso, contudo, pareciam ser uma raça inteiramente diferente. Ao entrar no edifício do aeroporto, vimo-nos nas filas da alfândega, e ali o alarido de risadas e conversas era mais alto ainda, com parentes a acenar por cima das barreiras e a gritar saudações. E m torno de nós, as pessoas declaravam às autoridades pequenas quantidades de dinheiro e lembranças trazidas de I stambul e de destinos anteriores. Quando chegou a nossa vez, fizemos o mesmo.
As sobrancelhas do jovem funcionário da alfândega desapareceram sob o boné ao ver os nossos passaportes, que pôs de lado por uns minutos para consultar outro funcionário.
— Não é bom sinal — disse Helen, baixinho.
V ários homens uniformizados cercaram-nos, e o mais velho e de aparência mais imponente começou a interrogar-nos em alemão, depois em francês e finalmente num inglês rudimentar. Seguindo as instruções de tia E va, apresentei calmamente a nossa carta da Universidade de B udapeste, que solicitava ao governo da B ulgária que nos deixasse entrar no país para uma importante atividade acadêmica e a outra carta que a tia E va conseguira de um amigo na embaixada búlgara.
N ão sei que efeito causou no funcionário a carta acadêmica com a sua extravagante
mistura de inglês, húngaro e francês, mas a carta da embaixada estava escrita em búlgaro e ostentava o selo da embaixada. O funcionário leu-a em silêncio, as suas imensas sobrancelhas escuras a juntar-se acima do nariz, e em seguida o seu rosto assumiu uma expressão de surpresa, mesmo de assombro, e olhou para nós com espanto. I sto pôs-me ainda mais nervoso do que a sua hostilidade anterior, e ocorreu-me que a tia E va tinha sido muito vaga sobre o teor daquela carta da embaixada. E videntemente, eu não podia perguntar agora ao homem de que se tratava, e senti-me desnorteado, aflito, quando o funcionário abriu um sorriso e me deu umas palmadinhas no ombro. E ncaminhou-se para um telefone numa das pequenas cabinas da alfândega e, depois de um esforço considerável, conseguiu entrar em contacto com alguém. N ão gostei da maneira como ele sorria para o telefone e relanceava o olhar para nós de vez em quando. H elen mexia-se, inquieta, junto de mim e eu sabia que ela devia estar a interpretar ainda melhor do que eu o significado de tudo aquilo. P or fim, o funcionário desligou o telefone com um floreado, ajudou-nos a reencontrar as nossas malas empoeiradas e levou-nos para um bar dentro do aeroporto, onde nos ofereceu pequenas doses de uma aguardente fortíssima chamada rakiya, que ele próprio também ia bebendo. P erguntou-nos nos seus vários idiomas estropiados há quanto tempo estávamos envolvidos com a revolução, quando tínhamos entrado para o P artido, e assim por diante, nenhuma das perguntas contribuindo para me deixar mais à vontade. Tudo isto me fez ponderar mais do que nunca nas possíveis incorreções da nossa carta de apresentação, mas segui o exemplo de H elen e limitei-me a sorrir ou a fazer observações neutras. E le brindou à amizade entre os operários de todas as nações, voltando a encher os nossos copos e o dele. Se um de nós dizia alguma coisa alguma trivialidade sobre visitar o seu bonito país, por exemplo —, abanava a cabeça de um lado para outro com um sorriso aberto, como se discordasse das nossas afirmações. Aquilo estava a deixar-me nervoso até H elen me sussurrar que lera algures sobre aquela idiossincrasia cultural: os Búlgaros abanavam a cabeça para os lados quando concordavam e sacudiam-na para cima e para baixo quando discordavam.
Quando já havíamos tomado mais rakiya do que eu podia impunemente aguentar,
fomos salvos pelo aparecimento de um homem de ar austero com um fato escuro e chapéu. P arecia ser apenas um pouco mais velho do que eu e teria sido considerado bonito se alguma expressão de prazer tivesse alguma vez aflorado ao seu rosto. Tal como era, o seu bigode escuro mal escondia os lábios apertados de modo desaprovador e a melena de cabelo negro não disfarçava a sua testa franzida. O funcionário cumprimentou-o com deferência e apresentou-o como sendo o guia que nos fora sido designado na B ulgária, explicando que era um privilégio porque K rassimir Ranov era muito respeitado no governo búlgaro, estava associado à Universidade de Sofia e conhecia como ninguém os pontos turísticos mais interessantes do seu antigo e glorioso país.
Através da névoa do álcool, apertei a mão do homem, fria como um peixe morto, e implorei aos céus que pudéssemos ver a B ulgária sem um guia. H elen parecia menos surpreendida com o fato e cumprimentou-o, pareceu-me, com a mistura certa de enfado e desprezo. M r. Ranov ainda não tinha pronunciado sequer uma palavra, mas deu-me a impressão de antipatizar profundamente com H elen antes mesmo que o funcionário informasse que ela era húngara e estava a estudar nos E stados Unidos. A explicação fez o bigode dele retorcer-se por cima de um sorriso soturno.
— P rofessor, minha senhora — disse ele, falando conosco pela primeira vez e virando-nos as costas logo de seguida.
O funcionário da alfândega sorriu radiante, apertou-nos a mão, deu-me uma palmada no ombro, como se já fôssemos velhos amigos e depois fez um gesto a indicar que devíamos seguir Ranov.
Fora do aeroporto, Ranov chamou um táxi, que possuía o interior mais antiquado que já vi num automóvel, um tecido preto estofado com um recheio que presumi ser crina de cavalo, e comunicou-nos do banco da frente que nos tinham sido reservados quartos num hotel com uma excelente reputação.
— Acredito que vão achá-lo confortável, e tem um excelente restaurante. Amanhã, encontrar-nos-emos lá para o pequeno-almoço e poderão explicar-me a natureza da vossa pesquisa e de que maneira posso ajudá-los a levá-la a cabo. C ertamente vão querer encontrar-se com os vossos colegas na Universidade de Sofia e os ministérios convenientes. Depois, providenciaremos uma rápida excursão por alguns locais históricos da Bulgária.
Sorriu um sorriso azedo e fiquei a olhar para ele com um horror crescente. O inglês dele era bom demais; apesar do sotaque acentuado, tinha o som correto e sem inflexões de um desses discos com que se aprende um idioma em trinta dias.
O rosto dele tinha também algo de familiar. E videntemente, nunca o vira antes, mas fazia-me lembrar alguém que eu conhecia, com a frustração inerente de não conseguir identificar quem diabo poderia ser. E ssa sensação persistiu durante aquele primeiro dia em Sofia, atormentando-me durante a nossa visita excessivamente guiada pela cidade. Sofia era singularmente bela, contudo uma mistura de elegância do século dezenove, esplendor medieval e brilhantes monumentos novos no estilo socialista. N o centro da cidade, percorremos um lúgubre mausoléu que guardava o corpo embalsamado do ditador estalinista G eorgi Dimitrov, que morrera cinco anos antes. Ranov tirou o chapéu antes de entrar no edifício e fez H elen e eu passarmos à sua frente. E ntramos numa fila de búlgaros silenciosos que desfilavam diante do caixão aberto de Dimitrov. O rosto do ditador era cor de cera, com um espesso bigode escuro como o de Ranov. P ensei em E sfaime, cujo corpo se dizia ter ido para junto do de L enin, num mausoléu semelhante na P raça Vermelha. E stas culturas ateístas ainda preservavam diligentemente as relíquias dos seus santos, disso não havia dúvida.
Os meus maus pressentimentos em relação ao nosso guia aumentaram quando lhe
perguntei se poderia pôr-nos em contacto com Anton Stoichev e o vi recuar.
— M r. Stoichev é um inimigo do povo — assegurou-nos com a sua voz irritada. — P or
que é que querem vê-lo? — E depois, estranhamente: — E videntemente, se assim o desejam, posso providenciar. E le já não dá aulas na universidade; com os seus pontos de vista religiosos, não oferece confiança para lidar com a nossa juventude. M as é famoso, e talvez seja por esse motivo que desejam encontrar-se com ele?
— Ranov foi instruído para fazer tudo o que quisermos — disse-me H elen em voz
baixa quando tivemos um momento a sós, fora do hotel. — P or que será? P or que é que alguém pensa que é uma boa idéia?
Entreolhamo-nos, receosos.
— Eu gostaria muito de saber — disse eu.
— Temos de ter muito cuidado aqui — o rosto de H elen estava sério, a voz, baixa, e eu
não me atrevia a beijá-la em público. — Vamos combinar que, de agora em diante, só vamos revelar os nossos interesses acadêmicos, e mesmo assim o mínimo possível, se tivermos de falar do nosso trabalho na frente dele.
— Combinado.