O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 66 de 83

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O Historiador

Capítulo 63

B arley ficou ao meu lado no quarto de hotel do meu pai, contemplando a desordem,

mas foi mais rápido do que eu e viu o que eu não vi os papéis e livros em cima da cama. E ncontramos um exemplar muito usado do Drácula de B ram Stoker, uma nova história das heresias medievais do Sul da França e um volume que parecia muito antigo sobre lendas europeias referentes a vampiros.

N o meio dos livros, havia papéis, incluindo anotações com a letra dele, e entre estes,

bilhetes-postais espalhados, escritos com uma caligrafia que me era completamente estranha, fina, com tinta escura, ordenada e miúda. B arley e eu começamos espontaneamente e mais uma vez fiquei contente por não estar sozinha a vasculhar tudo, e o meu primeiro instinto foi juntar os bilhetes-postais. Estavam enfeitados com selos de um arco-íris de países: P ortugal, França, I tália, M ónaco, Finlândia, Áustria. Os selos estavam imaculados, sem carimbos. As vezes, a mesma mensagem num bilhete continuava em mais quatro ou cinco outros, cuidadosamente numerados. E o mais espantoso é que todos estavam assinados "H elen Rossi". E todos me estavam endereçados a mim. B arley, espreitando por cima do meu ombro, percebeu a minha perplexidade e sentámo-nos juntos na beira da cama. O primeiro era de Roma; uma fotografia a preto e branco das ruínas esquálidas do Fórum.

Maio de 1962

Minha querida filha;

E m que língua devo escrever para ti, a filha do meu coração e do meu corpo, que não vejo há

mais de cinco anos? Devíamos ter estado a falar uma com a outra durante todo este tempo, uma

não-linguagem de pequenos sons e beijos, olhares, murmúrios. É-me tão difícil pensar sobre isto,

lembrar o que perdi, que tenho de parar de escrever hoje, quando apenas comecei a tentar.

Com todo o amor da tua mãe Helen Rossi

 

O segundo era um postal colorido, já desbotado, de flores e vasos "jardins de B oboli.

Boboli".

Maio de 962

Minha querida filha:

Vou contar-te um segredo: detesto o I nglês. O I nglês é um exercício de G ramática ou uma

aula de Literatura. No meu coração, sinto que poderia falar melhor contigo na minha própria

língua, o Húngaro, ou mesmo na língua que flui dentro do meu Húngaro — o Romeno. O

Romeno é a língua do demônio que estou a procurar, mas, para mim, nem mesmo isso a estragou.

Se estivesses sentada ao meu colo esta manhã admirando estes jardins, ensinava-te a primeira

lição: "M a numesc..." E , depois, sussurraríamos o teu nome, repetindo-o várias vezes na doce

língua que também é a tua língua materna. E u explicava-te que o Romeno é a língua de gente

boa, corajosa, triste, de pastores e camponeses, e da tua avó, cuja vida ele arruinou à distância.

Contava-te todas as coisas bonitas que ela me contou, as estrelas à noite no céu da aldeia dela,

as lanternas no rio. "M a numesc..."Contar-te tudo isto seria uma felicidade insuportável para

um único dia.

Com todo o amor da tua mãe Helen Rossi

B arley e eu entreolhámo-nos e ele passou o braço suavemente em volta do meu pescoço.