O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 81 de 83

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O Historiador

Capítulo 78

B ailey e eu olhávamos um para o outro por cima dos postais da minha mãe. C omo as cartas do meu pai, interrompiam-se sem me permitir compreender muito do presente. O principal, o que ficara marcado no meu cérebro, eram as datas dos postais. E screvera-os depois da sua morte.

— Ele foi para o mosteiro — disse eu.

— Foi — concordou Barley.

Juntei os bilhetes-postais e coloquei-os em cima do tampo de mármore do toucador.

— Vamos — chamei-o. P rocurei na minha bolsa a pequena faca de prata, desembainhei-a e guardei-a com cuidado no bolso.

Barley curvou-se e deu-me um beijo na cara. Surpreendeu-me.

— Vamos lá — disse ele.

A estrada para Saint-M a hieu era mais comprida do que eu me lembrava, quente e poeirenta mesmo no fim da tarde. N ão havia táxis em L ês B ains pelo menos nenhum à vista, portanto partimos a pé, atravessando com passo ligeiro terras cultivadas que subiam e desciam em ondulações suaves, até alcançarmos a orla da floresta. Dali em diante, a estrada começou a subir a montanha. P enetrar no bosque, com a sua mistura de oliveiras e pinheiros, os seus carvalhos gigantescos, era como entrar numa catedral; havia sombra e frescura, e baixamos a voz, apesar de não estarmos a falar muito. E u estava com fome, no meio da ansiedade; não tínhamos esperado sequer pelo café do maître. B arley tirou o boné de algodão da cabeça e enxugou a testa.

— E la não teria sobrevivido a uma queda daquelas — disse eu, através da garganta apertada.

— Não.

— O meu pai nunca se interrogou, pelo menos, não o fez nas suas cartas se ela foi empurrada por alguém.

— É verdade — concordou Barley, voltando a pôr o boné.

Fiquei calada por um momento. O barulho dos nossos passos no asfalto irregular — a estrada ainda era alcatroada naquele ponto — era o único som que se ouvia. E u não queria dizer aquelas coisas, mas de alguma maneira elas vinham à tona dentro de mim.

— O professor Rossi escreveu que o suicídio põe a pessoa em risco de se tornar um... de se tornar...

— L embro-me disso — disse B arley simplesmente. Arrependi-me de ter falado. A estrada sinuosa tornara-se mais íngreme.

— Talvez apareça algum carro — acrescentou ele.

Mas não apareceu nenhum carro e andávamos cada vez mais depressa, de tal maneira que a certa altura arfávamos em vez de conversar. Os muros do mosteiro apanharam-me de surpresa quandos saímos do bosque e contornamos a última curva; não me lembrava daquela curva, nem da inesperada abertura no pico da montanha, a enorme tarde à nossa volta. Mal me lembrava também da área plana e poeirenta abaixo do portão principal, onde desta vez não havia nenhum carro estacionado. Onde estavam os turistas? perguntei-me. N o momento seguinte, chegamos suficientemente perto para ler a placa em obras, fechado aos visitantes este mês. Não foi o bastante para diminuir o ritmo dos nossos passos.

— Vamos — disse Barley.

Agarrou-me na mão e ainda bem, porque ela tinha começado a tremer. Os muros de cada lado do portão estavam agora ornamentados com andaimes. Uma

betoneira portátil. C imento? Ali? B arrava-nos o caminho. As portas de madeira na fachada principal estavam firmemente fechadas mas não trancadas, como descobrimos, experimentando puxar o anel de ferro. N ão me agradava entrar daquela maneira; não gostava do fato de não haver qualquer sinal do meu pai. Talvez ele ainda estivesse lá em baixo, em L ês B ains, ou noutro lugar qualquer. C omecei a arrepender-me do nosso impulso de vir diretamente para o mosteiro. Ainda por cima, embora ainda faltasse cerca de uma hora para o verdadeiro crepúsculo, o Sol estava a cair rapidamente a oeste, por detrás dos P ireneus, escondendo-se visivelmente atrás das montanhas mais altas. Os bosques de onde havíamos saído já estavam mergulhados na escuridão e em breve as últimas cores do dia iriam apagar-se dos muros do mosteiro.

E ntramos, cautelosos, e seguimos para o pátio e o claustro. A fonte de mármore

vermelho borbulhava, ruidosa, ao centro. H avia as delicadas colunas espiraladas de que me lembrava, o claustro comprido e o jardim de rosas no fim. A luz dourada fora-se, substituída por sombras de um tom profundo de ferrugem. Não se via ninguém.

— Acha que devíamos voltar para Lês Bains? — sussurrei a Barley. E le ia responder quando percebemos um som cânticos, vindos da igreja do outro lado

do claustro. As portas estavam fechadas, mas ouvíamos distintamente uma cerimônia que se desenrolava no interior, com intervalos de silêncio.

— E stão todos lá dentro — disse B arley. — Talvez o seu pai também esteja. — M as eu

duvidava disso.

— Se ele estiver aqui, provavelmente desceu... — fiz uma pausa e olhei à volta do

pátio. T inham passado quase dois anos desde a minha visita ali com o meu pai a minha segunda visita, sabia agora — e não conseguia lembrar-me onde ficava a entrada para a cripta. De repente, vi o portal, como se ele se tivesse aberto na parede do claustro sem eu dar por isso. Agora vinham-me à memória as criaturas extravagantes esculpidas na pedra em volta dele: grifos e leões, dragões e pássaros, estranhos animais que eu não sabia identificar, híbridos do bem e do mal.

B arley e eu olhamos para a igreja, mas as portas mantinham-se bem fechadas, e

atravessamos furtivamente o pátio até à entrada da cripta. P arada um instante sob o olhar daqueles animais petrificados, vi apenas as trevas onde teríamos de penetrar, e o meu coração apertou-se dentro de mim. Então, lembrei-me de que o meu pai poderia estar lá em baixo — e poderia, na realidade, estar em grandes dificuldades. E B arley ainda estava a agarrar-me na mão, magricela e destemido ao meu lado Quase esperava que ele fosse resmungar a qualquer momento sobre as coisas estranhas em que a minha família se metia, mas ele estava alerta junto de mim, preparado como eu para o que viesse.

— Não temos nenhuma luz — murmurou.

— B em, não podemos entrar na igreja para ir buscar uma — observei, desnecessariamente.

— T rouxe o meu isqueiro. — B arley tirou-o do bolso. N ão sabia que ele fumava. Acendeu-o por um instante, ergueu-o acima dos degraus e descemos juntos para a escuridão.

A princípio estava totalmente escuro, e descemos a tatear os íngremes degraus antigos, depois vi uma luz cintilar fracamente nas profundezas da cripta — não era a do isqueiro de B arley, que ele reacendia com intervalos de segundos e fiquei com um medo terrível. A claridade incerta era pior do que o escuro absoluto. B arley apertou-me a mão até eu sentir quase a circulação parar. A escada fazia uma curva no fim e, quando demos a última volta, lembrei-me de que o meu pai me contara que ali havia sido a nave da primitiva igreja. L á estava o grande sarcófago de pedra do abade. L á estava a tenebrosa cruz entalhada na antiga abside, a abóbada baixa por cima de nós, uma das mais antigas manifestações do românico em toda a Europa.

N o entanto, apercebi-me de tudo isto apenas de relance, porque naquele exato momento uma sombra do outro lado do sarcófago destacou-se das trevas mais densas e levantou-se: um homem segurando uma lanterna. E ra o meu pai. O seu rosto parecia exangue na luz imprecisa. V iu-nos no mesmo instante em que o vimos, creio, e soltou uma exclamação: "Jesus Cristo!" Olhamos um para o outro.

— O que estão aqui a fazer? — perguntou em voz baixa, olhando de mim para B arley, segurando a lanterna diante dos nossos rostos. O seu tom de voz era agressivo cheio de raiva, medo, amor. L arguei a mão de B arley e corri para o meu pai, contornando o sarcófago, e ele recebeu-me nos seus braços. — J esus — disse, acariciando-me o cabelo por um segundo. — Este é o último lugar onde deverias estar.

— Lemos o capítulo no arquivo de Oxford — sussurrei. — Tive medo que estivesse... — e não consegui terminar a frase. Agora que o tinha encontrado e que ele estava vivo, e parecia o mesmo de sempre, toda eu tremia.

— Saiam daqui — disse, depois puxou-me mais para perto. — Não, é tarde demais, não os quero fora daqui sozinhos. Ainda temos alguns minutos antes que o Sol se ponha. T ome — e entregou-me a lanterna, — segure nisto, e você — para B arley, — ajude-me com a tampa. — B arley adiantou-se prontamente, embora eu tenha a impressão de ter visto as pernas dele a tremer também, e ajudou o meu pai a deslocar lentamente a tampa do grande sarcófago. V i então que o meu pai encostara uma comprida estaca na parede próxima. Devia estar preparado para encontrar dentro daquele caixão de pedra um horror que procurava há muito tempo, mas não para o que de fato viu. L evantei a lanterna, querendo e não querendo ver, e olhamos os três para um interior vazio, para o pó.

— Oh, meu Deus — gemeu ele. H avia na sua voz uma nota que eu nunca ouvira

antes, de absoluto desespero, e lembrei-me de que ele já tinha visto antes aquele vazio.

C ambaleou para a frente e ouvi a estaca a bater no chão de pedra. P ensei que ele fosse

chorar, ou arrancar os cabelos, ou curvar-se sobre aquele túmulo vazio, mas imobilizou-se na sua dor.

— M eu Deus — repetiu, quase sussurrando. — P ensei que finalmente estivesse no

lugar certo, na data certa. Pensei...

N ão completou o que dizia porque nesse momento surgiu das sombras do antigo

transepto, onde nenhuma luz penetrava, uma figura completamente diferente de tudo que alguma vez tínhamos visto. E ra uma presença tão estranha que eu nem teria podido gritar ao vê-la, mesmo que a minha garganta não se tivesse fechado imediatamente. A minha lanterna iluminava-lhe os pés e as pernas, um braço e um ombro, mas não o rosto encoberto, e eu estava demasiado aterrorizada para levantar mais a luz. E ncolhi-me junto do meu pai e B arley fez o mesmo, de modo que ficamos os três mais ou menos por detrás da barreira do sarcófago vazio.

A figura chegou mais perto e parou, o rosto ainda escondido. V ia agora que tinha a

forma de um homem, mas não se movimentava como um ser humano. Os seus pés estavam calçados com estreitas botas negras indescritivelmente diferentes de todas as botas que eu já vira, e produziram um som abafado nas pedras quando ele andou. E m volta deles caía um manto, ou talvez só uma sombra maior, e tinha pernas vigorosas vestidas de veludo escuro. N ão era tão alto como o meu pai, mas os seus ombros, sob o manto pesado, eram largos, e algo na sua silhueta indistinta dava a impressão de muito mais altura. O manto devia ter um capuz, porque o seu rosto era todo sombra. Depois do primeiro horrendo instante, vi as suas mãos, brancas como osso junto à roupa escura, e um anel com uma pedra num dos dedos.

E ra tão real, estava tão perto de nós que eu mal podia respirar; na verdade, comecei a

sentir que, se conseguisse forçar-me a aproximar-me dele, conseguiria respirar outra vez, e então comecei a ansiar por chegar um pouco mais perto. Sentia a faca de prata no bolso, mas nada me teria convencido a pegar-lhe. Algo brilhou onde deveria estar o seu rosto olhos vermelhos? Dentes, um sorriso e, com um jorro de palavras, ele falou. Digo que foi um jorro porque nunca tinha ouvido um som igual, um fluxo gutural de palavras que poderiam ser muitas línguas juntas ou uma língua estranha que nunca tinha ouvido. Um momento depois, organizou-se em palavras que eu conseguia compreender, e tinha a sensação de que eram palavras que eu conhecia com o meu sangue, não com os meus ouvidos.

Boa noite. Felicito-o

Com isto, o meu pai pareceu voltar à vida. Não sei como encontrou forças para falar. — Onde está ela? gritou. A sua voz tremia de medo e fúria.

O senhor é um estudioso notável.

N ão sei porquê, mas, naquele momento, o meu corpo pareceu mover-se por moto próprio na direção dele. O meu pai levantou a mão no mesmo segundo e agarrou-me no braço com muita força, fazendo a lanterna balançar e fantásticas sombras e luzes dançarem em torno de nós. N a claridade oscilante, vi um pouco do rosto de Drácula, apenas a curva de um bigode caído, uma das faces, que poderia ser só o osso.

Foi o mais determinado de todos. Venha comigo e dar-lhe-ei conhecimento para dez mil vidas.

E u ainda não sabia como conseguia compreendê-lo, mas pareceu-me que estava a chamar o meu pai.

— N ão! — exclamei. Fiquei tão apavorada por ter falado com a criatura que senti a consciência abandonar-me momentaneamente. T inha a sensação de que aquela figura diante de nós podia estar a sorrir, embora o seu rosto estivesse de novo oculto pelas trevas.

Venha comigo, ou deixe a sua filha vir.

— O quê? — perguntou-me o meu pai, de modo quase inaudível. Foi então que percebi que ele não compreendia as palavras de Drácula, talvez nem ouvisse Drácula. O meu pai estava a responder ao meu grito.

A criatura pareceu pensar, calou-se. M oveu as suas estranhas botas no chão de pedra. H avia alguma coisa nas suas formas dentro das roupas antigas que era ao mesmo tempo horrível e graciosa, um velho hábito do poder.

Esperei muito tempo por um estudioso com os seus talentos.

A voz era agora suave e infinitamente perigosa. E stávamos numa escuridão que parecia fluir da sua tétrica figura.

Venha comigo de livre vontade.

N essa altura o meu pai pareceu inclinar-se um pouco para ele, sem largar o meu braço. O que não compreendia, parecia aparentemente sentir. O ombro de Drácula contraiu-se; transferiu o seu terrível peso de uma perna para a outra. A presença do seu corpo era como a presença da morte, e no entanto ele estava vivo e movia-se.

Não me faça esperar. Se não vier, vou eu buscá-lo.

O meu pai reuniu todas as suas forças.

— Onde está ela? — gritou. — Onde está Helen?

A figura ergueu-se e vi um brilho feroz de dentes, ossos, olhos, a sombra do capuz oscilando novamente acima do seu rosto, a mão inumana crispada no limiar da luz. T ive a pavorosa sensação de estar frente a um animal agachado para desferir o golpe, para saltar sobre nós, mesmo antes que ele se movesse, e então ouvimos passos nas escadas atrás dele e o relâmpago de um gesto, que sentimos no ar porque não o podíamos ver. L evantei a lanterna com um grito que pensei ter vindo de fora de mim, e vi o rosto de Drácula inesquecível para sempre e, para meu total assombro, vi outra figura de pé exatamente atrás dele. Esta segunda pessoa parecia ter acabado de descer as escadas, uma forma escura e incompleta como a dele, mas mais volumosa, a silhueta de um homem vivo. O homem movia-se com rapidez e tinha qualquer coisa brilhante na mão levantada. M as Drácula sentira a sua presença, virou-se com o braço estendido e empurrou o homem para longe. A força de Drácula devia ser prodigiosa porque a robusta figura humana colidiu com a parede da cripta. Ouvimos um baque surdo e um gemido. Drácula virou-se para um lado e para o outro, perturbado, furioso, primeiro para nós, depois para o homem que gemia.

Subitamente, houve outra vez som de passos nas escadas mais leves, desta vez,

acompanhados pelo feixe de luz de uma forte lanterna. Drácula foi apanhado desprevenido virou-se tarde demais, um borrão de sombra. Alguém esquadrinhou a cena velozmente com a lanterna, levantou uma arma e disparou uma vez.

Drácula não se moveu como eu tinha esperado um momento antes, arremessando-se

por cima do sarcófago na nossa direção; em vez disto, caiu, primeiro para trás, de tal modo que o seu rosto pálido e duramente cinzelado emergiu por um instante, depois para a frente, e outra vez para a frente, até à pancada na pedra, o som de ossos que se despedaçam. Teve alguns espasmos rápidos e parou. Depois, o seu corpo voltou ao pó, ao nada, até as suas roupas antigas se desfizeram à sua volta, ressequidas na claridade confusa.

O meu pai soltou-me o braço e correu para a luz da lanterna, contornando o volume

no chão.

— H elen — chamou, ou talvez chorasse o nome dela, ou o murmurasse. M as B arley

também se precipitou, agarrando a lanterna do meu pai. Um homem corpulento estava caído no piso de pedra, com uma adaga ao lado.

— Oh, E lsie — disse uma trémula voz inglesa. Um pouco de sangue escuro escorria-lhe

da cabeça e, enquanto olhávamos para ele, paralisados, o seu olhar imobilizou-se.

B arley ajoelhou-se depressa ao lado daquela forma humana desconjuntada. C om a voz

estrangulada de surpresa e pesar, disse:

— Reitor James?