O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 60 de 83

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O Historiador

Capítulo 57

N o momento em que Stoichev nos contou que possuía uma das cartas do irmão K ino,

Helen e eu entreolhamo-nos, pasmados.

— O que quer dizer? — disse ela, por fim.

Stoichev bateu com os dedos excitados na cópia de Turgut — Tenho um manuscrito que me foi dado em 1924 pelo meu amigo Atanas Angelov.

Descreve uma parte diferente da mesma viagem, tenho certeza. Não sabia da existência de outros documentos sobre essas viagens. N a verdade, o meu amigo morreu repentinamente logo a seguir a ter-mo dado, pobre tipo. E sperem — levantou-se, cambaleando com a pressa, e tanto eu como H elen levantamo-nos de um salto para o amparar, se caísse N o entanto, ele endireitou-se sem ajuda e entrou numa das divisões menores, fazendo um gesto para que o seguíssemos e tentássemos não tropeçar nas pilhas de livros que o contornavam. E xaminou as prateleiras e depois esticou-se para agarrar numa caixa que o ajudei a trazer para baixo. Dela tirou uma pasta de cartão atada com um cordão desfiado. L evou a pasta até a mesa e abriu-a sob os nossos olhos ansiosos, retirando um documento tão frágil que estremeci só de o ver manipulá-lo. Ficou ali a olhar para ele por um longo minuto, como que paralisado, e então suspirou

— Este é o original, como podem ver. A assinatura. I nclinamo-nos sobre ele e, com um arrepio que me percorreu os braços e o pescoço, vi

um nome em cinlico, caligrafado com tanto esmero que até eu era capaz de o ler — K iril e o ano 6985. Olhei para H elen, e ela mordeu o lábio. O nome desbotado daquele monge era terrivelmente real. Assim como real era o fato de que outrora estivera tão vivo como nós e tinha apoiado uma pena sobre aquele pergaminho com a sua mão quente, viva.

Stoichev parecia quase tão impressionado como eu, embora a visão de um manuscrito

tão antigo devesse ser o seu quinhão quotidiano.

— Traduzi-o para o Búlgaro — disse, depois de um momento, e puxou outra folha, esta

datilografada em papel vegetal. Sentámo-nos — Vou tentar lê-la.

Aclarou a garganta e deu nos uma versão tosca mas adequada de uma carta que desde

então foi amplamente traduzida.

A Sua Excelência, Abade-mor Eupraxius:

T omo da pena para cumprir a tarefa de que na vossa sabedoria me incumbísteis, e para vos

relatar os particulares da nossa missão conforme chegarmos a eles. P ossa eu fazer-lhes jus e aos

vossos desejos, com a ajuda de Deus. Dormimos esta noite perto de Virbius, a dois dias de viagem

de vós, no mosteiro de S. Vladimir, onde os santos irmãos nos deram as boas-vindas em vosso

nome. De acordo com as vossas instruções, fui sozinho junto do abade-mor e contei-lhe a nossa

missão em grande segredo, sem que nenhum noviço ou criado estivesse presente. E le deu ordens

para que a nossa carroça ficasse trancada nos estábulos dentro do pátio, com dois guardas de

entre os seus monges e dois dos nossos. E spero que possamos encontrar muitas vezes tanta

compreensão e proteção, pelo menos até entrarmos em terras infiéis. Como me instruísteis, deixei

o livro nas mãos do senhor abade com as vossas recomendações e vi que ele o escondeu

imediatamente, sem sequer o abrir na minha frente.

Os cavalos estão cansados depois da subida através das montanhas e dormiremos aqui

outra noite ainda, depois desta. Nós próprios estamos agora refeitos pelos serviços da sua igreja

aqui, na qual dois ícones da mais pura Virgem realizaram milagres apenas há oitenta anos. Um

deles ainda mostra as lágrimas milagrosas que E la chorou por um pecador e que se

transformaram em pérolas raras. Rezamos-lhe preces fervorosas para que nos proteja na nossa

missão, para que possamos alcançar em segurança a grande cidade e que até mesmo na capital do

inimigo possamos encontrar um abrigo a partir do qual desempenharmos a nossa tarefa.

O vosso mais humilde servo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,

Irmão Kiril

Abril do ano 6985 de Nosso Senhor

Acho que H elen e eu mal respirávamos enquanto Stoichev lia isto em voz alta. T raduziu lenta e metodicamente, e com significativa habilidade. E u já estava a ponto de exclamar em voz alta sobre a inquestionável relação entre as duas cartas quando um ruído de pés lá em baixo na escada de madeira nos fez levantar os olhos.

— E stão a voltar — disse Stoichev, em voz baixa. G uardou a carta, e eu juntei-lhe a nossa, provisoriamente, por segurança. — O senhor Ranov... foi designado como vosso guia.

— Sim — disse eu depressa. — E parece estar demasiado interessado no nosso trabalho aqui. H á muito mais coisas que gostaríamos de lhe contar sobre a nossa pesquisa, mas é muito privado e também... — fiz uma pausa.

— P erigoso? perguntou Stoichev, voltando o seu velho e maravilhoso rosto na nossa direção.

— C omo adivinhou? — N ão conseguia esconder a minha surpresa. N ada do que disséramos até àquele momento dava a entender que houvesse algum tipo de perigo.

Ali abanou a cabeça, e no seu suspiro havia uma profundidade de experiência e pesar que eu não podia sequer imaginar.

— H á algumas coisas que também lhes quero contar. N unca pensei que veria outra destas cartas. Falem com o senhor Ranov o menos possível.

— N ão se preocupe — H elen abanou a cabeça e os dois entreolharam-se por um segundo com um sorriso.

— Silêncio disse Stoichev em voz baixa. — T omarei providências para que possamos voltar a conversar.

I rina e Ranov entraram na sala de estar fazendo barulho com os pratos, e I rina começou a distribuir copos e uma garrafa com um líquido cor de âmbar. Ranov veio atrás dela trazendo um pão e um prato de feijões brancos. E stava a sorrir e parecia quase domesticado. Desejei poder agradecer à sobrinha de Stoichev. E la sentou o tio confortavelmente na sua cadeira e convidou-nos a sentar, e percebi que a excursão daquela manhã me tinha deixado com uma fome terrível.

— Por favor, ilustres hóspedes, fiquem à vontade. — Stoichev fez um amplo gesto com

a mão sobre a mesa, como se ela pertencesse ao imperador de C onstantinopla. I rina encheu os copos de bebida — só o cheiro seria suficiente para matar um animal de pequeno porte e ele brindou-nos, galante, com o seu sorriso de dentes amarelos, mas aberto e franco. — B ebo à amizade entre estudiosos de todo o mundo.

T odos retribuímos o seu brinde com entusiasmo, exceto Ranov, que levantou o copo

ironicamente e olhou em volta para nós.

— Que os vossos estudos façam avançar o conhecimento do P artido e do povo —

disse, inclinando-se ligeiramente para mim. Aquilo quase me tirou o apetite; estaria ele a falar de um modo geral ou queria fazer avançar o conhecimento do P artido através de algo em especial que nós sabíamos? M as retribuí a saudação e engoli a minha raktya. Decidi que não havia outra maneira de a beber a não ser rapidamente, e que a queimadura de terceiro grau que recebia no fundo da garganta era logo substituída por uma ardência agradável. M ais um pouco desta bebida, pensei, e corro o risco de começar a gostar ligeiramente de Ranov.

— E stou feliz por ter a oportunidade de conversar com alguém interessado na nossa

história medieval — disse-me Stoichev. — Talvez seja interessante o senhor e M iss Rossi presenciarem uma festa que celebra duas das nossas grandes figuras medievais. Amanhã é o dia de K iril e M ethodii, criadores do grande alfabeto eslavónio. E m inglês, diz-se C yril e M ethodius e chamam ao alfabeto cirílico, não é? N ós chamamos-lhe kirilitsa, em homenagem a Kiril, o monge que o inventou.

P or um momento fiquei confuso, pensando no nosso irmão K iril, mas quando Stoichev

voltou a falar percebi o que ele tinha em mente, e como era engenhoso.

— H oje à tarde estou muito ocupado com os meus escritos — disse, — mas se quiserem

voltar amanhã, alguns dos meus antigos alunos estarão aqui para comemorar a data, e poderei contar-lhes mais sobre Kiril.

— É muito gentil da sua parte — disse H elen. — N ão queremos abusar muito do seu

tempo, mas seria uma honra estar aqui com o senhor. É possível, camarada Ranov?

Ranov não ignorou aquele "camarada", e franziu a testa por trás do seu segundo copo

de rakiya.

— C ertamente — disse. — Se é assim que desejam realizar a vossa pesquisa, fico feliz

por poder ajudar.

— M uito bem — disse Stoichev. — E ncontramo-nos aqui cerca da uma e meia, e I rina

terá alguma coisa boa para o nosso almoço. É sempre um grupo agradável. P oderão conhecer alguns estudiosos cujo trabalho acharão interessante.

Agradecemos profusamente e obedecemos a I rina, que insistia para que comêssemos,

embora eu notasse que Helen também estava a evitar o resto da rakiya. Quando acabamos a nossa refeição simples, Helen levantou-se imediatamente e todos a imitamos.

— Não queremos cansá-lo mais, professor — disse ela, pegando-lhe na mão.

— De maneira nenhuma, minha querida. — Stoichev apertou-lhe as mãos calorosamente, mas pensei que ele parecia realmente cansado. — Aguardo com ansiedade o nosso encontro amanhã.

Irina acompanhou-nos de novo até ao portão, através da horta e do jardim.

— Até amanhã — disse, sorrindo-nos, e acrescentou alguma coisa mais atrevida em búlgaro que fez com que Ranov alisasse o cabelo com a mão antes de voltar a pôr o chapéu.

— É uma rapariga muito bonita — observou, complacentemente, enquanto caminhávamos até ao carro, e Helen revirou os olhos para mim, nas costas dele.

Foi só à noite que tivemos alguns minutos a sós. Ranov tinha-se retirado após um jantar interminável na tristonha sala de jantar do hotel. H elen e eu subimos as escadas juntos o elevador estava outra vez avariado e ficamos um pouco no vestíbulo junto do meu quarto, momentos de doçura roubados à nossa peculiar situação. Quando achamos que Ranov tinha ido embora, descemos novamente as escadas, fomos até um café numa rua transversal ali perto e sentámo-nos sob as árvores.

— Alguém está a vigiar-nos aqui também — disse H elen em voz baixa, enquanto nos sentávamos a uma das mesas. P or prudência, pousei a minha pasta no colo; já desistira até de a deixar no chão por baixo das mesas dos cafés. H elen sorriu. — M as pelo menos aqui as nossas conversas não são interceptadas, como no meu quarto. E no teu. — Olhou para os ramos verdes por cima de nós. — T ílias — disse. — Dentro de poucos meses, vão estar cobertas de flores. N a minha terra, as pessoas fazem chá com elas; provavelmente aqui também. Quando nos sentamos numa mesa ao ar livre, como aqui, temos primeiro de limpar a mesa porque as flores e o pólen caem por toda a parte. Cheiram a mel, muito doces e frescas. — E fez um movimento leve, como se estivesse a afastar milhares de flores de um verde pálido.

P eguei-lhe na mão e virei-a de modo a poder ver-lhe a palma, com as suas linhas graciosas. E sperava que significassem uma vida longa e boa sorte, ambas partilhadas comigo.

— O que pensas do fato de Stoichev ter aquela carta?

— P ode ser um golpe de sorte para nós — ponderou ela. — N o início, pensei que fosse apenas uma peça de um quebra-cabeças histórico, uma peça maravilhosa, mas como iria ajudar-nos? M as quando Stoichev adivinhou que a nossa carta era perigosa, senti uma grande esperança de que ele saiba qualquer coisa importante.

— Também pensei o mesmo — admiti. — M as também pensei que ele podia simplesmente estar a querer dizer que era material politicamente sensível, como grande parte do seu trabalho, porque envolve a história da Igreja.

— Eu sei — Helen suspirou. — Pode significar só isso.

— E isso seria suficiente para ele preferir não discutir o assunto na presença de Ranov.

— Sim. Temos de esperar até amanhã para descobrir o que ele quis dizer. — Entrelaçou

os seus dedos nos meus. — Esta espera diária é terrível para ti, não é?

Fiz que sim com a cabeça, lentamente.

— Se conhecesses Rossi... — disse, e parei.

Os seus olhos estavam fixos nos meus e lentamente empurrou para trás uma melena

de cabelo que tinha escapado dos ganchos. O gesto foi tão triste que deu um enorme peso ao que disse em seguida.

— Estou a começar a conhecê-lo, através de ti. N aquele momento, uma empregada de blusa branca aproximou-se e perguntou

qualquer coisa. Helen virou-se para mim.

— O que pedimos para beber? — A empregada olhava com curiosidade para nós,

criaturas que falavam uma língua estranha.

— Como sabes o que pedir? — perguntei, provocando-a. — Chá — disse ela, apontando para si mesma e para mim. — Chá, por favor. Molya. — Estás a aprender depressa — disse eu, quando a empregada voltou para dentro. Ela encolheu os ombros.

— Estudei um pouco de russo. O búlgaro é muito parecido. Quando a empregada voltou com o nosso chá, Helen mexeu-o, o rosto sombrio. — É um alívio tão grande estar longe de Ranov que nem posso pensar em voltar a vê-

lo amanhã. N ão vejo como vamos conseguir fazer uma pesquisa séria com ele nos nossos calcanhares.

— Se eu soubesse que ele realmente suspeita de algo sobre a nossa pesquisa, acho que

me sentiria melhor — confessei. — O que é estranho é que ele me lembra alguém que já encontrei antes, mas parece que tenho amnésia e não sei quem é.

Olhei para o rosto sério e lindo de H elen e no mesmo segundo senti o meu cérebro a

tatear em busca de alguma coisa, esvoaçando no limiar de um enigma, e não era a questão de existir ou não um possível gêmeo de Ranov. T inha a ver com o rosto de H elen no crepúsculo, e com o ato de levantar a chávena de chá para beber, e com a estranha palavra que eu escolhera. O meu espírito já tinha esbarrado ali antes, mas desta vez a idéia irrompeu de súbito.

— Amnésia — disse. — Helen, Helen, amnésia. — O quê? — ela franziu a testa, espantada com a minha veemência. — As cartas de Rossi! — P raticamente gritei. Abri a minha pasta com tanta pressa que

o nosso chá se derramou por cima da mesa. — A carta, a viagem à Grécia!

L evei vários minutos para encontrar o raio da coisa entre a minha papelada, e depois

para encontrar o excerto, e depois para o ler em voz alta para H elen, cujos olhos lentamente se arregalaram, enormes, escuros, chocados.

— L embras-te da carta sobre como ele voltou para a G récia, para C reta, depois de o

seu mapa ter sido roubado em I stambul, e de como a sua sorte mudou para pior e tudo começou a correr mal? — Sacudi a página em frente dela.

— Ouve isto: "Os velhos nas tabernas de C reta mostravam-se mais inclinados a contar-me as suas mil e uma histórias de vampiros do que a indicar-me onde poderia encontrar outros fragmentos de cerâmica como aquele, que navios antigos os seus avós tinham feito naufragar para depois os pilharem. C erta noite, deixei que um estranho me oferecesse uma rodada de uma especialidade local chamada, extravagantemente, amnésia, que me pôs doente durante todo o dia seguinte."

— Oh, meu Deus — disse Helen, baixinho.

— "Deixei que um estranho me oferecesse uma bebida chamada amnésia." — P arafraseei, tentando não levantar a voz. — Quem diabo achas que o estranho era? E foi por isso que Rossi se esqueceu...

— E le esqueceu — H elen parecia hipnotizada pela palavra. — E le esqueceu a Romênia...

— E squeceu completamente que tinha estado lá. As suas cartas para H edges dizem que estava a sair da Romênia para a G récia, para conseguir algum dinheiro e participar da escavação arqueológica...

— E ele esqueceu a minha mãe Helen — terminou a frase, de modo quase inaudível.

— A tua mãe — repeti, com a súbita imagem da mãe de H elen parada à porta de casa, vendo-nos partir. — E le nunca teve a intenção de não voltar. E squeceu-se de tudo. E foi... foi por isso que me disse que nem sempre conseguia lembrar-se claramente da sua pesquisa.

O rosto de H elen ficou pálido, as mandíbulas contraídas, os olhos com uma expressão dura e enchendo-se de lágrimas.

— Odeio-o — disse em voz baixa, e eu sabia que não estava a referir-se ao pai.