O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 6 de 83

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O Historiador

Capítulo 4

— Como já te contei — disse o meu pai, pigarreando uma ou duas vezes, — o professor Rossi era um excelente acadêmico e um verdadeiro amigo. N ão gostaria que tivesses dele uma opinião diferente. Sei que tudo o que te contei antes, e talvez tenha sido um erro da minha parte, faz com que Rossi pareça... meio louco. Deves lembrar-te de que ele me descreveu algo terrivelmente difícil de acreditar. E que me deixou estupefato e cheio de dúvidas a seu respeito, embora visse sinceridade e aceitação no seu rosto. Quando acabou de falar, fixou em mim aqueles olhos perspicazes.

— O que está a dizer? — devo ter balbuciado.

— V ou repetir — disse Rossi, enfático. — Descobri em I stambul que Drácula está vivo entre nós hoje. Ou estava naquela época, pelo menos.

Fiquei a olhar para ele, pasmado.

— Deve estar a pensar que enlouqueci — disse ele, suavizando nitidamente o tom. — E admito que qualquer pessoa que se ponha a remexer nessa história durante algum tempo pode muito bem enlouquecer. — E suspirou. — E m I stambul, há um acervo de material que pouca gente conhece, fundado pelo sultão M ehmed I I , que tomou a cidade aos B izantinos em 1453. E sse arquivo é, na sua maior parte, uma miscelânea reunida mais tarde pelos Turcos à medida que foram, por sua vez, sendo derrotados nas franjas do seu império. M as também guarda documentos do final do século quinze e, entre estes, alguns mapas que supostamente davam indicações a respeito da Tumba ímpia de um matador de turcos, que pensei poder ser Vlad Drácula. N a realidade, havia três mapas, graduados em escala para mostrar a mesma região em pormenores cada vez maiores. N ão havia nada nesses mapas que eu reconhecesse ou pudesse associar a qualquer região que conhecesse. Estavam catalogados principalmente em árabe e datavam de cerca de 1500, segundo os bibliotecários do arquivo. — B ateu com a mão no pequeno livro estranho que, como te contei, se parecia tanto com o que eu encontrara. — As informações no centro do terceiro mapa estavam escritas num dialeto eslavo muito antigo. Só um estudioso com múltiplos recursos linguísticos ao seu dispor teria conseguido dar sentido àquele texto. Fiz o melhor que pude, mas era um trabalho impreciso.

Nesse ponto, Rossi abanou a cabeça, como se ainda lamentasse as suas limitações.

— O esforço que dediquei a essa descoberta afastou-me excessivamente e pouco razoavelmente das minhas pesquisas oficiais desse Verão sobre o comércio de C reta na Antiguidade. M as eu já estava para lá da razão, creio, sentado naquela biblioteca abafada e quente em I stambul. L embro-me de que via os minaretes de H agia Sophia através das janelas sujas. T rabalhei ali, com aquelas pistas do reino de Vlad segundo a visão dos Turcos, espalhadas na mesa à minha frente, revirando os meus dicionários, tomando extensas notas e copiando os mapas à mão. P ara encurtar a história de uma longa pesquisa, chegou o dia em que me vi próximo do ponto da Tumba ímpia cuidadosamente marcado no terceiro e mais complicado dos mapas. L embras-te de que Vlad Tepes foi supostamente enterrado no mosteiro de uma ilha do lago Snagov, na Romênia. Aquele mapa, assim como os outros dois, não mostrava qualquer lago com uma ilha mas havia um rio que passava na região e se alargava no meio. Eu já tinha traduzido todos os nomes à volta das margens com a ajuda de um professor de língua árabe e otomana da Universidade de I stambul — provérbios enigmáticos sobre a natureza do mal, muitos deles tirados do C orão. Aqui e ali no mapa, aninhadas entre montanhas toscamente esboçadas, havia algumas palavras escritas que à primeira vista pareciam ser topónimos num dialeto eslavo, mas que se traduziam como enigmas, provavelmente um código para ocultar localizações verdadeiras: Vale dos Oito C arvalhos, Aldeia dos P orcos Roubados, e assim por diante — estranhos nomes camponeses que nada significavam para mim. B em, no centro do mapa., sobre o sítio da Tumba ímpia, onde quer que fosse suposto estar localizada, havia um esboço tosco de um dragão, usando um castelo na cabeça como uma espécie de coroa. O dragão não se parecia nada com o do meu — dos nossos — livros antigos, mas conjecturei que deveria ter chegado aos Turcos juntamente com a lenda de Drácula. Abaixo do dragão, alguém tinha escrito a tinta palavras minúsculas, numa língua que inicialmente pensei ser árabe, como os provérbios nas margens do mapa. Observando-as com a lupa, percebi de repente que estavam escritas em G rego, e traduzi-as em voz alta antes de pensar em regras de cortesia — embora não houvesse mais ninguém na sala da biblioteca alem de mim e de um bibliotecário entediado que aparecia, de vez em quando, decerto para se certificar de que eu não roubava nada. N aquele momento, estava absolutamente sozinho. As letras infinitesimais dançavam-me diante dos olhos à medida que as lia: "N este lugar, ele reside no mal. L eitor, desenterra-o com uma palavra."

— N aquele momento, ouvi uma porta bater lá em baixo no vestíbulo. P assos pesados

subiam a escada. E ntretanto, eu estava ainda ocupado com o lampejo de uma idéia: a lupa acabara de me dizer que aquele mapa, ao contrário dos dois primeiros, mais genéricos, fora catalogado por três pessoas diferentes em três línguas diferentes. As caligrafias, assim como as línguas, eram dissemelhantes. E também as cores das velhas tintas. E tive uma visão repentina sabes, aquela intuição em que um estudioso quase pode confiar quando está apoiado em semanas de trabalho meticuloso.

— T inha a impressão de que o mapa consistira originalmente naquele esboço central e

nas montanhas que o rodeavam, com a frase em G rego no centro. P rovavelmente, só mais tarde fora catalogado naquele dialeto eslavo para identificar os lugares a que o mapa aludia em código, pelo menos. Depois, caíra em mãos otomanas e o desenho fora contornado por frases do C orão, que pareciam encerrar ou aprisionar aquela ameaçadora mensagem no centro, ou cercá-la com talismãs contra as trevas. Se isto fosse verdade, alguém, que sabia G rego, teria marcado primeiro o mapa, talvez o tivesse mesmo desenhado. Sabia que o G rego era usado pelos eruditos bizantinos do tempo de Drácula, mas não pela maioria dos eruditos do mundo otomano. Antes que eu pudesse sequer fazer uma anotação sobre esta teoria, que envolveria testes que ultrapassavam as minhas capacidades, a porta do outro lado dos conjuntos de estantes abriu-se com estrondo e um homem alto e bem constituído entrou, passou apressado e impetuoso pelos livros e parou do outro lado da mesa onde eu trabalhava. O efeito foi chocante, incómodo. E le não escondia o fato de estar consciente da sua intrusão e eu tinha a certeza de que não se tratava de um dos bibliotecários. Senti também, por qualquer razão, que deveria levantar-me, mas um certo orgulho impediu-me de o fazer; poderia parecer uma deferência, quando a interrupção fora inesperada e bastante descortês.

— E ncarámo-nos e fiquei ainda mais surpreendido. O homem não se encaixava definitivamente naquele ambiente esotérico. E ra bem-parecido e elegante, muito moreno, parecendo um Turco ou um E slavo do Sul, com bastos bigodes caídos e fato escuro como o de um homem de negócios ocidental. Os seus olhos fitaram os meus com agressividade, e as suas pestanas compridas pareciam de certa forma repulsivas naquele rosto severo. A pele era amarelada e pálida mas impecável, perfeita, sem qualquer mancha, e os lábios muito vermelhos.

— Senhor — disse ele, a voz baixa e hostil, quase um rosnado num inglês com sotaque turco, — não creio que tenha as autorizações necessárias para isso.

— Para quê? — os meus brios acadêmicos reagiram de imediato.

— P ara essas pesquisas. O senhor está a lidar com material que o G overno turco considera arquivo confidencial da Turquia. Posso ver os seus documentos, por favor?

— Quem é o senhor? — perguntei, com idêntica frieza. — Posso ver os seus?

E le tirou uma carteira do bolso interior do casaco, escancarou-a em cima da mesa à minha frente e fechou-a de seguida com um gesto rápido. Só tive tempo de ver um cartão cor de marfim com uma misturada de títulos turcos e árabes. A mão do homem tinha um aspecto desagradável, como se fosse de cera, com unhas compridas e um tufo de pêlos escuros nas costas.

— M inistério dos Recursos C ulturais — disse ele, gélido. — Fui informado de que não fez qualquer acordo de fato com o Governo turco para examinar esse material. É verdade?

— De maneira nenhuma. — M ostrei-lhe uma carta da B iblioteca N acional declarando que me concedia o direito de realizar pesquisas em qualquer uma das suas divisões em Istambul.

— N ão é suficiente — disse ele, atirando a carta para o meio dos meus papéis. — Talvez tenha de me acompanhar.

— P ara onde? — L evantei-me, sentindo-me agora mais seguro de pé, mas esperando que ele não tomasse o meu gesto como uma manifestação de obediência.

— Para a polícia, se necessário.

— I sto é uma afronta. — N o caso de uma dúvida burocrática, aprendera eu, levanta a voz. — Sou doutorando na Universidade de Oxford e cidadão do Reino Unido. Registrei-me na universidade daqui no dia em que cheguei e recebi esta carta como prova da minha posição. Não admito ser interrogado pela polícia — ou pelo senhor.

— E stou a ver. — Sorriu de uma maneira que me deu um nó no estômago. L era um

pouco sobre as prisões turcas e os seus esporádicos hóspedes ocidentais, e a minha situação pareceu-me precária, embora não compreendesse em que tipo de dificuldade poderia estar metido. T inha esperança de que um dos vagarosos bibliotecários me tivesse ouvido e viesse recomendar silêncio. Depois, ocorreu-me que eles tinham certamente permitido a entrada daquele sujeito, com o seu intimidante cartão-de-visita, para falar comigo. Talvez fosse realmente alguém importante. E le inclinou-se para a frente. — Vejamos o que está a fazer aqui. Afaste-se, por favor. — C ontra a minha vontade, cheguei-me para o lado e ele inclinou-se para o meu trabalho, fechando ruidosamente os meus dicionários para ler as respectivas capas, sempre com aquele sorriso inquietante. E ra uma presença maciça por cima da mesa, e reparei que exalava um odor esquisito, como o de uma água-de-colônia usada sem muito sucesso para disfarçar algum mau cheiro. P or fim, pegou no mapa em que eu estava a trabalhar, as mãos de repente delicadas, segurando-o quase com carinho. Olhou para o mapa como se não precisasse de examinar muito para saber do que se tratava, embora eu achasse que devia estar a fazer bluff.

— Este é o material do arquivo que está a usar, não é? — É — respondi, zangado.

— I sto é propriedade valiosa do G overno turco. N ão creio que vá precisar dela para

qualquer finalidade estrangeira. E foi este pedaço de papel, este pequeno mapa, que o fez vir da sua universidade estrangeira até Istambul?

C heguei a pensar em argumentar que viera também com outros objetivos, para o

desviar do tema dos meus estudos, mas percebi imediatamente que isso poderia levar a mais perguntas da sua parte.

— Sim, essencialmente.

— E ssencialmente? — repetiu, num tom mais ameno. — B em, acho que vou ter de

confiscar isto temporariamente. — Que vergonha para um investigador estrangeiro. E u fervia de raiva ali parado, tão perto da minha solução, e dei graças a Deus por não ter trazido naquela manhã as cópias meticulosas que fizera de velhos mapas dos C árpatos, que pretendia começar a comparar com aquele mapa no dia seguinte. E stavam escondidas na minha mala, no hotel.

— O senhor não tem o direito de confiscar material para o qual já recebi autorização

para trabalhar — disse eu, rangendo os dentes. — V ou levar imediatamente a questão à B iblioteca N acional. E à E mbaixada da I nglaterra. Seja como for, qual é a sua objeção a que eu estude estes documentos? São fragmentos obscuros de história medieval. Tenho a certeza de que nada têm a ver com os interesses do Governo turco.

O burocrata olhava através de mim, como se as agulhas das torres de H agia Sophia se

apresentassem sob um ângulo novo e interessante que ele nunca tivera ocasião de ver antes

— É para seu próprio bem — prosseguiu ele, impassível. — É muito melhor deixar outra pessoa trabalhar nisso. Talvez noutra altura.

P ermaneceu imóvel, com a cabeça voltada para a janela, quase como se quisesse que eu seguisse o seu olhar em direção a um determinado ponto. T ive a sensação infantil de que não deveria fazê-lo porque poderia ser um ardil, por isso preferi olhar para ele e esperar. E ntão vi, como se ele tivesse a intenção que a oleosa luz do dia incidisse exatamente ali, o seu pescoço a sair do colarinho da camisa cara. N o lado do seu pescoço musculoso, onde a carne é mais profunda, havia duas crostas castanhas de fendas, não abertas mas sem estarem ainda completamente cicatrizadas, semelhantes a perfurações feitas por dois espinhos ou a cortes com a ponta de uma faca

Recuei, afastei-me da mesa, imaginando que perdera o juízo com todas as minhas leituras mórbidas, que realmente estava a ficar desequilibrado. M as a luz do dia era perfeitamente vulgar, o homem do fato de lã escura perfeitamente real, até no cheiro de falta de banho, de suor, ou de outra coisa qualquer por baixo do perfume da água-de-colônia. N ada desapareceu ou mudou. N ão conseguia tirar os olhos daquelas duas pequenas fendas mal cicatrizadas. Depois de alguns segundos, ele virou as costas à vista absorvente, parecendo satisfeito com o que vira — ou com o que eu vira — e sorriu de novo.

— Para seu próprio bem, professor.

Fiquei ali sem fala, estático, enquanto ele saía da sala com o mapa enrolado na mão, e ouvi o som dos seus passos morrer aos poucos nas escadas. M inutos depois, um dos bibliotecários idosos entrou, um homem com uma espessa cabeleira grisalha, transportando dois fólios, que se preparou para deixar numa prateleira baixa.

— Desculpe — disse-lhe eu, com a voz meio presa na garganta, — desculpe, mas isto é um absurdo. — E le olhou-me, espantado. — Quem era aquele homem? O funcionário do Ministério?

— Funcionário do Ministério — repetiu o bibliotecário, gaguejando.

— P reciso que me dê imediatamente uma carta oficial confirmando o meu direito de trabalhar neste arquivo.

— M as o senhor tem todo o direito de trabalhar aqui — disse ele, em tom apaziguador. — Fui eu mesmo que fiz a sua inscrição.

— Eu sei, eu sei. Por isso tem de ir atrás dele e obrigá-lo a devolver o mapa.

— Ir atrás de quem?

— Do homem do Ministério, o que acabou de descer. O senhor não o deixou entrar?

Olhou-me com uma expressão curiosa por baixo da sua trunfa grisalha.

— Alguém entrou aqui? N inguém entrou neste lugar nas últimas três horas. Sou eu próprio que fico na entrada. Infelizmente, poucas pessoas vêm aqui pesquisar.

— O homem... — comecei a falar, mas calei-me. De repente, vi a minha própria figura, um estrangeiro maluco a gesticular. — E le levou o meu mapa. Quer dizer, o mapa do arquivo.

— O mapa, Herr Professor?

— Eu estava a trabalhar num mapa. O que requisitei esta manhã no balcão. — Não é aquele? — E apontou para a minha mesa de trabalho. Mesmo no meio, estava

um vulgar mapa de estradas dos B alcãs que eu nunca vira na vida. C ertamente não estivera ali cinco minutos antes. Achava que devia estar a perder a minha sanidade mental, mas tinha a certeza absoluta de que aquele mapa não estava ali. O bibliotecário guardou o seu segundo fólio.

— Não tem importância.

J untei os meus livros o mais depressa que pude e saí da biblioteca. N a rua

movimentada, cheia de tráfego, não havia sinal do burocrata, embora vários homens de altura e peso semelhantes, com fatos parecidos, tenham passado por mim com as suas pastas. Quando cheguei ao quarto em que estava hospedado, descobri que os meus pertences tinham sido deslocados devido a algum problema prático com o quarto. Os meus primeiros desenhos dos velhos mapas, assim como as anotações completas de que eu não precisara naquele dia, tinham desaparecido. A minha mala fora impecavelmente refeita. O pessoal do hotel disse que não sabia nada sobre isso. P assei a noite em claro, prestando atenção a todos os sons vindos do exterior. N a manhã seguinte, recolhi a minha roupa suja e os meus dicionários e apanhei o navio de regresso à Grécia.

O professor Rossi entrelaçou as mãos de novo e olhou para mim, como se esperasse

pacientemente a minha manifestação de descrença. E ntretanto, o que subitamente me abalava era a crença, não a dúvida.

— E voltou para a Grécia?

— V oltei, e passei o resto do Verão a tentar ignorar a recordação da minha aventura

em Istambul, embora não pudesse ignorar as suas implicações.

— Foi-se embora porque estava... assustado? — Apavorado.

— N o entanto, mais tarde fez, ou mandou fazer, todas aquelas pesquisas sobre o seu

estranho livro?

— Sim, principalmente a análise química no Smithsonian. M as quando o exame se

revelou inconclusivo, e ao mesmo tempo influenciado por outros fatores, abandonei por completo a questão e guardei o livro na estante. L á para cima, por acaso. — Fez um gesto com a cabeça na direção da prateleira mais alta da estante. — P enso de vez em quando naqueles acontecimentos, às vezes lembro-me deles com muita clareza, outras vezes só em fragmentos. I magino, porém, que a familiaridade acabe por desgastar mesmo as lembranças mais terríveis. E sem dúvida há períodos, anos a fio, em que não quero pensar de maneira nenhuma nisso.

— Mas acredita mesmo... aquele homem com as feridas no pescoço... — O que pensaria se ele estivesse à sua frente e você estivesse certo da sua própria sanidade?

E stava de pé encostado às estantes e, por um momento, o seu tom de voz soou irritado. Dei um último gole no café frio; o que restava dele estava muito amargo.

— E nunca tentou decifrar novamente o significado daquele mapa, ou saber de onde viera?

— N unca — fez uma pausa momentânea. — N ão. É uma das poucas pesquisas que estou certo de nunca vir a terminar. Tenho porém uma teoria de que essa linha de estudos horripilante, como tantas outras menos horrorosas, é apenas algo em que uma pessoa faz pequenos progressos, depois outra faz mais um pouco, cada uma contribuindo com uma pequena parcela durante a vida. Quem sabe, três dessas pessoas, há séculos atrás, fizeram exatamente isso ao desenhar aqueles mapas e fazer os acréscimos, embora eu admita que todas aquelas frases do C orão usadas como talismãs não devem ter contribuído em nada para aumentar os conhecimentos sobre a verdadeira localização da sepultura de Vlad Tepes. E é claro que tudo isto pode ser um grande disparate. E le pode muito bem ter sido enterrado no mosteiro daquela ilha, como reza a tradição romena, e ter lá ficado em paz, como uma boa alma. O que ele não era.

— Mas não acredita nisso.

Ele hesitou outra vez.

— O conhecimento precisa prosseguir. P ara o bem ou para o mal, mas inevitavelmente, em todos os campos.

— Alguma vez foi a Snagov para ver com os seus próprios olhos, fosse o que fosse?

Ele abanou a cabeça.

— Não. Desisti da pesquisa.

Pousei a minha chávena gelada na mesa, sondando a expressão do seu rosto.

— Mas guardou algumas informações — arrisquei, devagar.

E le enfiou novamente a mão entre os livros da prateleira mais alta, tirando de lá um envelope pardo lacrado.

— C laro. Quem seria capaz de destruir completamente uma pesquisa? C opiei de memória o que pude dos três mapas e guardei as minhas outras anotações, as que estavam comigo naquele dia no arquivo.

C olocou o pacote na mesa sem o abrir, entre nós os dois, e tocou nele com uma delicadeza que não combinava com o horror que revelara ter pelo seu conteúdo. Talvez tenha sido essa incongruência, ou o fim de tarde de P rimavera ter-se transformado em noite lá fora, que me fez ficar ainda mais nervoso.

— Não acha que isto pode ser um legado perigoso?

— Só Deus sabe como eu gostaria de dizer que não. M as talvez seja perigoso apenas no sentido psicológico. A vida é melhor, mais íntegra, quando não ruminamos horrores desnecessariamente. C omo sabe, a história humana está cheia de más ações, e talvez devêssemos pensar nelas com lágrimas, e não com fascínio. Foi há tantos anos que já nem sei se deva confiar nas minhas recordações de I stambul, onde nunca mais fiz questão de voltar. Além disso, tenho a impressão de que trouxe comigo tudo o que precisava saber.

— Para prosseguir a pesquisa?

— Sim.

— M as ainda não sabe quem teria concebido um mapa mostrando onde fica a

sepultura dele? Ou onde ficava?

— Não.

Estendi a mão para pegar no envelope pardo. — N ão precisarei de um rosário para levar juntamente com isto, ou algo do gênero, um

amuleto?

— E stou certo de que leva consigo a sua bondade, o seu sentido moral, ou como lhe

quiser chamar. Seja como for, gosto de pensar que a maioria de nós é capaz disso. E u também não sairia por aí com alho no bolso, de modo nenhum.

— Mas com algum forte antídoto mental.

— Sim, tentei. — O seu rosto estava profundamente triste, quase lúgubre. — Talvez

tenha feito mal em não recorrer a essas antigas superstições, mas suponho que sou um racionalista e assim continuarei.

Os meus dedos fecharam-se no envelope.

— E não se esqueça do seu livro. É interessante e desejo-lhe sorte para identificar a sua

origem. — E ntregou-me o meu livro encadernado em velino. A tristeza dos seus olhos desmentia o tom superficial das palavras. — V olte daqui a duas semanas e falaremos mais sobre o comércio em Utreque.

Devo ter pestanejado; até a minha tese me parecia irreal. — Claro, está bem.

Rossi recolheu as chávenas de café e eu guardei as coisas na minha pasta, com os

dedos rígidos.

— Mais uma coisa — disse-me com ar grave, quando me virei novamente para ele. — Sim?

— Não vamos voltar a falar sobre este assunto. — Não vai querer saber como estou a evoluir? Aquilo deixava-me aterrorizado, sozinho.

— E ncare as coisas assim, se quiser. N ão quero saber. A menos, é claro, que se veja em

dificuldades.

Apertou-me a mão com a sua habitual maneira afectuosa. O rosto estava realmente

triste, o que era novidade para mim, e então esforçou-se para sorrir.

— Está bem — disse eu.

— Daqui a duas semanas — lembrou ele num tom quase alegre enquanto eu saía. —

Traga um capítulo pronto, ou algo parecido.

O meu pai calou-se. P ara meu espanto e embaraço, vi que havia lágrimas nos seus olhos. Aquele vislumbre de emoção teria interrompido as minhas perguntas mesmo que ele não tivesse dito nada.

— P ois é, escrever uma tese não é brincadeira — disse ele, num tom despreocupado. — De qualquer forma, talvez tivesse sido melhor nem tocar neste assunto. É uma história antiga, tão complicada, e claro que afinal de contas tudo acabou bem, porque eu estou aqui, nem sou já sequer aquele professor soturno que era dantes, e tu estás aqui. — P iscou os olhos, estava a recompor-se. — É um final feliz, como devem ser os finais.

— Mas talvez haja muita coisa pelo meio — consegui dizer.

O calor do sol chegava-me apenas à pele, não aos ossos, enregelados por uma brisa fria vinda do mar. E spreguiçámo-nos e olhámos para um e outro lado, examinando a cidade, em baixo. O último grupo de turistas passara por nós ao longo da muralha e encontrava-se numa reentrância distante, apontando para as ilhas ou a posar para as câmaras uns dos outros. Relanceei os olhos para o meu pai, mas ele estava a contemplar o mar. Atrás dos outros turistas e já bem adiante de nós, havia um homem cuja presença eu não notara antes, caminhando devagar mas inexoravelmente fora de alcance, alto, de ombros largos e vestido com um fato escuro de lã. J á tínhamos encontrado outros homens de fato escuro naquela cidade; por que razão me era tão difícil deixar de olhar para aquele?