O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 39 de 83

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O Historiador

Capítulo 36

A noite que passei naquela casa de quinta em B oulois, com B arley do outro lado do quarto, foi uma das mais despertas que alguma vez tivera. Fomo-nos deitar por volta das nove horas, já que não havia muito para fazer ali exceto ouvir as galinhas e ver a luz esmaecer por cima dos estábulos baixos. Para meu espanto, não havia luz elétrica na quinta. "Não reparou que não havia fios elétricos?" perguntou Barley — e a proprietária deixou-nos uma lanterna e duas velas antes de nos desejar boa noite. A sua luz, as sombras da antiga mobília encerada cresciam e erguiam-se acima de nós, e o bordado na parede tremeluzia suavemente

Depois de alguns bocejos, B arley deitou-se vestido sobre uma das camas e adormeceu logo. N ão me atrevi a fazer o mesmo, mas também tive medo de deixar as velas arderem toda a noite. Finalmente apaguei-as, deixando apenas a lanterna acesa, que aprofundava terrivelmente as sombras a minha volta e fazia a escuridão atrás da nossa única janela parecer querer entrar pelo quarto dentro. T repadeiras roçavam contra a vidraça, as árvores pareciam aproximar-se, e um barulho suave que poderia ser de corujas ou de pombos chegava-me fantasmagoricamente aos ouvidos enquanto permanecia deitada encolhida na minha cama. B arley parecia muito distante, a princípio, tinha ficado contente com aquelas camas completamente separadas, de modo que não haveria constrangimentos na hora de ir para a cama, mas agora queria que tivéssemos sido forçados a dormir costas com costas

Depois de ficar deitada ali tempo suficiente para me sentir congelada na mesma posição, vi uma luz difusa surgir aos poucos sobre as tábuas do soalho, vinda da janela. A L ua nascia, e com ela senti um certo abrandamento do meu terror, como se uma velha amiga tivesse vindo fazer-me companhia Tentei não pensar no meu pai, em qualquer outra viagem podia ter sido ele a estar deitado naquela outra cama com o seu pijama impecável, um livro caído ao seu lado Teria sido o primeiro a reparar naquela antiga casa de quinta, teria sabido que a sua parte central remontava aos tempos da Aquitânia, teria comprado três garrafas de vinho à simpática proprietária e conversado com ela sobre a sua vinha.

Ali deitada, perguntei-me involuntariamente o que faria caso o meu pai não sobrevivesse àquela viagem a Saint-M a hieu. N ão era possível voltar para Amsterdã, e ficar a vaguear pela nossa casa sozinha com M rs. C lay; isso só aumentaria o meu desgosto. No sistema europeu, ainda tinha dois anos de liceu antes de ir para uma universidade. Mas quem tomaria conta de mim até lá? B arley voltaria para a sua antiga vida; eu não podia esperar que ele se preocupasse comigo. L embrei-me do reitor J ames, com o seu sorriso profundo e triste e as rugas bondosas à volta dos olhos. E ntão pensei em G iulia e M assimo, na sua casa de campo na Umbria. Vi Massimo a servir-me vinho – "E o que está a linda filha do P aolo a estudar?" e G iulia, dizendo que eu devia ficar com o melhor quarto. E les não tinham filhos; gostavam muito do meu pai. Se o meu mundo se desmoronasse, iria para junto deles.

Apaguei a lanterna, agora mais corajosa, e fui até à janela em bicos dos pés para olhar lá

para fora. M al se via a L ua, num céu cheio de nuvens esgarçadas. P ela sua frente flutuou uma imagem que eu conhecia muito bem — não, foi apenas por um instante, e foi apenas uma nuvem, não foi? As asas abertas, a cauda retorcida? A imagem dissolveu-se imediatamente, mas fui para a cama de B arley, em vez de para a minha, e fiquei deitada durante horas tremendo, encostada ao seu corpo adormecido.

 

O processo de transportar o bibliotecário e instalá-lo na sala de estar oriental de Turgut

— onde ele ficou, pálido mas composto, deitado num dos compridos divãs levou quase a manhã inteira. Ainda lá estávamos quando M rs. B ora voltou ao meio-dia da escola. E ntrou, cheia de vivacidade, carregando um saco de compras em cada pequena mão enluvada. Usava um vestido amarelo e um chapéu florido, de modo que parecia um narciso em miniatura. O seu sorriso também era doce e fresco, mesmo ao ver-nos de pé na sua sala à volta de um homem prostrado. N ada que o seu marido fizesse parecia surpreendê-la, pensei; talvez isso fosse um dos segredos para uma união bem sucedida.

Turgut explicou-lhe a situação em turco e a sua expressão alegre transformou-se

primeiro num ar de óbvio ceticismo e depois de horror crescente quando ele lhe mostrou delicadamente a ferida no pescoço do seu mais recente hóspede. L ançou-nos, a H elen e a mim, um olhar de consternação muda, como se aquilo fosse para ela apenas o início de um terrível conhecimento. Depois, segurou a mão do bibliotecário, que, como eu sabia, um momento antes estava não só branca, mas fria. Segurou-a por um instante, enxugou os olhos e foi de seguida para a cozinha, de onde ouvimos o estrépito distante das suas panelas e frigideiras. O que quer que acontecesse mais, o pobre homem teria seguramente uma boa refeição. Turgut convenceu-nos a ficar e H elen, para minha surpresa, foi atrás de Mrs. Bora para a ajudar.

Quando nos certificamos de que M r. E rozan descansava confortavelmente, Turgut

levou-me para o seu lúgubre escritório por uns minutos. C om alívio, vi que as cortinas estavam bem fechadas sobre o retrato. Sentámo-nos para discutir a situação.

— Acha que é seguro o senhor e a sua mulher hospedarem este homem aqui? — não

pude deixar de lhe perguntar.

— V ou tomar todas as precauções. Se ele melhorar dentro de um ou dois dias,

arranjarei um sítio para ele ficar, e alguém para tomar conta dele.

Turgut tinha-me puxado uma cadeira e instalara-se atrás da sua secretária. E ra quase,

pensei, como estar de novo com Rossi no seu gabinete na universidade, excepto que o gabinete de Rossi era indiscutivelmente alegre, com as suas plantas viçosas e o café fumegante, e este era tão excentricamente sombrio.

— N ão espero que se dê aqui nenhum outro ataque, mas, se houver, o nosso amigo

americano vai enfrentar uma defesa formidável.

Vendo a sua sólida corpulência por detrás da mesa, não foi difícil acreditar.

— Sinto muito — disse eu. — P arece que lhe trouxe muitos problemas, professor, inclusivamente ao importar do meu país esta ameaça até à sua casa.

Resumi em poucas palavras os nossos encontros com o bibliotecário contaminado, entre eles o da noite anterior, em frente a Hagia Sophia.

— E xtraordinário — disse Turgut. Os seus olhos estavam iluminados por um sombrio interesse e tamborilava com as pontas dos dedos no tampo da secretária.

— Também tenho uma pergunta para lhe fazer — confessei. — E sta manhã, no arquivo, disse que já tinha visto antes um rosto como aquele. Quando e como foi isso?

— Ah! — e o meu amigo erudito cruzou as mãos em cima da mesa. — Sim, vou contar-lhe isso. J á foi há muitos anos, mas lembro-me de tudo claramente, e, de fato, aconteceu poucos dias depois de eu receber a carta do professor Rossi a dizer que nada sabia sobre o arquivo daqui. E u estivera no arquivo ao final da tarde, depois das minhas aulas isto foi quando a coleção estava guardada no antigo edifício da biblioteca, antes de se mudar para as atuais instalações. L embro-me de que estava a fazer pesquisa para um artigo sobre uma peça perdida de Shakespeare, O Rei de Tasbkani, que, na opinião de algumas pessoas, se passava numa versão ficcionada de Istambul. Talvez já tenha ouvido falar dessa peça?

Abanei a cabeça, negando.

— É citada na obra de diversos historiadores ingleses. Através deles, sabemos que, na peça original, um espectro maligno chamado Dracole aparece ao rei de uma bela cidade antiga que ele — o rei conquistou à força. O espectro diz que outrora fora inimigo do rei, mas que agora vinha felicitá-lo pela sede de sangue que demonstrara. E ntão, insta o rei a beber o sangue dos habitantes da cidade, que agora são seus vassalos. É um excerto arrepiante. Alguns dizem que não é de Shakespeare, mas eu — e bateu confiante com a mão na beira da secretária, — eu acredito que a fraseologia, se o texto for citado corretamente, só pode ser de Shakespeare, e que a cidade é I stambul, rebatizada com o nome pseudoturco de "Tashkani". — I nclinou para a frente. — E também acredito que o tirano a quem o espectro aparece é o sultão Mehmed II, o conquistador de Constantinopla.

Senti um calafrio na nuca.

— Que significado atribui a isso? No que se refere à carreira de Drácula, quero dizer.

— B em, meu amigo, é muito interessante para mim constatar que a lenda de Drácula, de tão poderosa que era, se infiltrou mesmo na I nglaterra protestante por volta de, digamos, 1590. Além do mais, se Tashkani for mesmo I stambul, isso mostra como era real a presença de Drácula na cidade no tempo de M ehmed. O sultão entrou na cidade em 1453. Só cinco anos depois de o jovem Drácula ter regressado à Valáquia vindo do seu cativeiro na Ásia M enor, e não há indícios seguros de que ele tenha voltado alguma vez à nossa região durante a sua vida, apesar de alguns estudiosos acharem que ele prestou pessoalmente tributo ao sultão. N ão creio que isto possa ser provado. Tenho uma teoria de que ele deixou uma herança de vampirismo aqui, se não durante a vida, então após a morte. M as — e suspirou, — a fronteira entre a literatura e a história é por vezes muito inconstante, e eu não sou historiador.

— O senhor é um excelente historiador — disse eu, humildemente. — E stou

impressionado com todas a as linhas de investigação histórica que seguiu, e com que sucesso.

— E o senhor é muito amável, meu jovem amigo. Seja como for, certa noite, estava a

trabalhar no meu artigo sobre essa teoria — que nunca foi publicado, lamentavelmente, porque os editores dos jornais a quem o submeti declararam que o seu conteúdo era demasiado supersticioso, e trabalhei até bastante tarde. Depois de cerca de três horas no arquivo, fui para um restaurante do outro lado da rua para tomar um borek. V ocê já experimentou um baretz?

— Ainda não — admiti.

— Deve experimentar assim que tiver oportunidade, é uma das nossas deliciosas

especialidades nacionais. Assim, fui para esse restaurante. J á estava escuro lá fora, porque era I nverno. Sentei-me a uma das mesas e, enquanto esperava, peguei na carta do professor Rossi que estava no meio dos meus papéis e reli-a. C omo já disse, estava na posse da carta havia apenas alguns dias e estava bastante perplexo com ela. O criado trouxe-me a refeição e, por acaso, vi-lhe a cara enquanto servia os pratos. T inha os olhos baixos, mas pareceu-me que de repente reparou na carta que eu estava a ler, com o nome de Rossi no cimo da folha. L ançou-lhe um ou dois olhares rápidos e penetrantes, depois pareceu apagar qualquer expressão do rosto, mas notei que parou atrás de mim para colocar mais um prato na mesa e tive a impressão de que olhava para a carta outra vez, por cima de meu ombro.

— N ão conseguia explicar o comportamento dele, que me causava uma sensação

extremamente desconfortável, portanto dobrei a carta e preparei-me para começar a comer. E le afastou-se em silêncio e não pude evitar observá-lo enquanto andava pelo restaurante. E ra um homem grande, pesado, de ombros largos e cabelo escuro puxado para trás, olhos grandes também escuros. Teria sido bonito se não tivesse uma aparência — como direi? — um tanto sinistra. P areceu ignorar-me durante uma hora, mesmo depois de eu terminar a refeição. P eguei num livro para ler por alguns minutos e então, de repente, ele aproximou-se de novo da mesa e colocou uma chávena de chá fumegante à minha frente. E u não tinha pedido chá e fiquei surpreendido. P ensei que fosse uma espécie de cortesia, ou um engano. "O seu chá" — disse ele, ao servi-lo. — "Assegurei-me de que estivesse bem quente."

— E ntão, olhou-me diretamente nos olhos e não sei explicar como o seu rosto me

aterrorizou. E ra pálido, quase amarelo, como se estivesse... não sei como dizer... deteriorado por dentro. Os olhos eram negros e brilhantes, quase como os de um animal, encimados por grandes sobrancelhas. A boca parecia feita de cera vermelha e os dentes eram muito brancos e compridos, estranhamente saudáveis num rosto doentio. Sorriu quando se curvou com o chá e senti o seu estranho odor, que me fez sentir doente e enjoado. Pode rir-se, meu amigo, mas era um pouco como um cheiro que sempre achei agradável noutras circunstâncias, o cheiro de livros velhos. C onhece esse cheiro, de pergaminho, de couro e... de qualquer coisa mais?

Eu conhecia, e não tive vontade nenhuma de rir. Turgut prosseguiu:

— Um segundo depois, afastou-se, dirigindo-se sem pressa para a cozinha do restaurante, e tive a impressão de que tinha querido mostrar-me alguma coisa. O seu rosto, talvez. Queria que eu o visse bem, e no entanto nada havia de específico nele que eu pudesse definir para justificar o meu terror.

Turgut empalidecera, agora, recostado na sua cadeira medieval.

— P ara acalmar os nervos, pus açúcar no chá de uma taça que havia em cima da mesa, peguei na colher e mexi-o. E stava decidido a acalmar-me com a bebida quente, mas uma coisa muito... muito estranha aconteceu.

A sua voz arrastou-se, como se quase se arrependesse de ter começado a história. E u conhecia muito bem aquela sensação e fiz um gesto com a cabeça para o incentivar.

— Por favor, continue.

— A história parece estranha contada agora, mas estou a dizer a verdade. O fumo subiu da chávena — sabe como o fumo gira em espiral quando se mexe uma coisa quente? — e, quando mexi o chá, subiu na forma de um minúsculo dragão, que girou por cima da chávena e pairou ali por alguns segundos antes de desaparecer. V i-o claramente com os meus próprios olhos. P ode imaginar como me senti, naquele momento, inseguro, sem confiar em mim mesmo, e então juntei rapidamente os meus papéis, paguei a conta e fui-me embora. A minha boca estava seca.

— E voltou a ver esse criado?

— N unca mais. N ão voltei ao restaurante durante algumas semanas; porém, a curiosidade venceu-me, e entrei lá certo dia depois do anoitecer, mas não havia sinal dele. C heguei a perguntar por ele a um dos outros criados, e esse criado disse-me que o homem trabalhara lá apenas por pouco tempo e que não sabia o apelido dele. O nome próprio, segundo o criado, era Akmar. Nunca mais vi nem sombra dele.

— E acha que a cara dele mostrava que estava... hesitei.

— Fiquei apavorado com aquela cara. É o que lhe teria dito na altura. Quando vi o rosto do bibliotecário que, de acordo com as suas palavras, importou do seu país, foi como se já o conhecesse .N ão é apenas a aparência da morte. H á qualquer coisa na expressão... — voltou-se, inquieto, e lançou um olhar para o nicho coberto pela cortina onde o retrato estava pendurado. Uma coisa que me intriga na história que me contou, na informação que acabou de me dar, é que esse bibliotecário americano fez progressos em prol de sua condenação espiritual desde que vocês os dois o encontraram pela primeira vez.

— O que quer dizer?

— Quando ele atacou M iss Rossi na biblioteca da sua universidade, o senhor conseguiu derrubá-lo. M as o meu amigo do arquivo, que ele atacou esta manhã, disse que ele é muito forte, e o meu amigo não é muito mais fraco do que você. O demônio também conseguiu tirar uma considerável quantidade de sangue do meu amigo, infelizmente. E contudo esse vampiro estava na rua durante o dia quando o vimos, portanto não pode estar totalmente contaminado. P resumo que a vida dessa criatura tenha sido sugada uma segunda vez na vossa universidade ou aqui em I stambul, e, se ele tem contatos aqui, em breve vai receber a sua terceira bênção maléfica e tornar-se morto-vivo para sempre.

— Sim — disse eu. — N ão há nada que possamos fazer em relação ao bibliotecário

americano sem sermos capazes de o encontrar; por isso, vai ter de guardar o seu amigo aqui com muito cuidado.

— É o que farei — disse Turgut, enfático e severo. C alou-se por um instante, depois

virou-se para a sua estante. Sem uma palavra, tirou um grande álbum com letras latinas escritas na capa. — Romeno — disse. — É uma coleção de imagens de igrejas da T ransilvânia e da Valáquia, feita por um historiador de arte que morreu recentemente. Reproduziu muitas imagens de igrejas que foram mais tarde destruídas pela guerra, lamento dizê-lo. P or isso este livro é tão precioso. E stendeu-me o livro. P or que não o abre na página vinte e cinco?

Obedeci. E ncontrei uma página dupla ocupada inteiramente pela gravura colorida de

um mural. A igreja que outrora o abrigara era mostrada numa pequena fotografia a preto e branco, sobreposta: uma construção elegante com campanários em espiral. M as foi a imagem maior que me chamou a atenção. À esquerda, sobressaía um dragão feroz a voar, a cauda enroscada não uma, mas duas vezes, o olho dourado revirando-se enlouquecido, a boca cuspindo fogo. P arecia prestes a lançar-se para atacar a figura à direita, um homem agachado usando uma cota de malha e turbante às riscas. O homem encolhia-se de medo, uma cimitarra curva numa das mãos e um escudo redondo na outra. A princípio, pensei que estivesse no meio de um campo de estranhas plantas, mas, quando olhei com atenção, vi que as formas em volta dos seus joelhos eram pessoas, uma diminuta floresta de pessoas, e que todas se contorciam, empaladas em estacas. Algumas usavam turbantes, iguais aos do gigante no centro, mas outras estavam vestidas com uma espécie de traje típico de camponeses. Outras ainda vestiam brocados ondulantes e barretes compridos de pele. H avia cabeças loiras e escuras, nobres com longos bigodes castanhos e até alguns padres ou monges de batinas negras e chapéus altos. H avia mulheres com tranças penduradas, meninos nus, bebés. Havia mesmo um ou dois animais. Todos num sofrimento atroz.

Turgut observava-me.

— E ssa igreja foi objeto de doações de Drácula durante o seu segundo reinado — disse

ele, baixinho.

Fiquei a olhar ainda um pouco para a imagem. Quando não aguentei mais, fechei o

livro. Turgut tirou-mo da mão e pô-lo de lado. Quando se voltou para mim, o seu olhar era ardente.

— E agora, meu amigo, como pretende encontrar o professor Rossi?

A pergunta abrupta penetrou em mim como uma lâmina.

— Ainda estou a tentar organizar todas estas informações na minha cabeça — admiti, falando devagar, — e, mesmo com todo o seu generoso trabalho da noite de ontem, e com o de Mr. Aksoy, não acho que saibamos muita coisa. Talvez Vlad Drácula tenha aparecido em I stambul depois da sua morte, mas como poderemos descobrir se foi sepultado aqui, ou se ainda aqui está sepultado? I sso continua a ser um mistério para mim. Quanto ao nosso próximo passo, só posso dizer-lhe que vamos a Budapeste por alguns dias.

— Budapeste?

Quase dava para ver as conjecturas a sucederem-se rapidamente no seu rosto largo.

— Sim. Deve lembrar-se da história que H elen lhe contou sobre a mãe dela e o P rofessor... o seu pai. H elen está convencida de que a mãe pode dar-nos informações que nunca revelou antes, e por isso vamos conversar com ela pessoalmente. A tia de H elen é uma figura importante no governo e vai contornar as dificuldades, assim esperamos.

— Ah — ele quase sorriu. — Demos graças aos céus pelos amigos em altas esferas. Quando partem?

— Talvez amanhã ou depois de amanhã. Vamos ficar lá cinco ou seis dias, penso eu, e depois voltamos para cá.

— Muito bem. É melhor levarem isto convosco.

Turgut levantou-se e tirou de uma vitrina o pequeno estojo de caça aos vampiros que nos mostrara na véspera. Colocou-o diretamente a minha frente.

— M as é um dos seus tesouros — objectei. — De qualquer forma, é muito provável que não nos deixem passar na alfândega com ele.

— Oh, mas nunca deve mostrá-lo na alfândega. Tem de o esconder com o maior cuidado. Veja se pode escondê-lo no forro da sua mala, ou, melhor ainda, deixe ser M iss Rossi a levá-lo. N ão vão inspeccionar a bagagem de uma mulher tão minuciosamente. — Fez um aceno animador com a cabeça. — O meu coração não vai ficar tranquilo se não o levarem. E nquanto estão em B udapeste, vou examinar muitos livros antigos para tentar ajudá-los, mas estarão no encalço de um monstro. Por agora, guarde-o na sua pasta, é muito leve. P eguei na caixa de madeira sem dizer mais nada e acomodei-a dentro da pasta ao lado do meu livro do dragão. E enquanto estiverem a conversar com a mãe de H elen, o que considero uma excelente idéia, aliás, vou estar a esquadrinhar tudo por aqui em busca do menor vestígio de uma tumba. Ainda não desisti da idéia. Semicerrou os olhos. I sso explicaria grande parte das desgraças que têm atormentado a nossa cidade desde aquele período sobre o qual temos falado Se pudéssemos não só explicá-las, mas também acabar com elas...

N aquele momento, a porta do gabinete abriu-se e M rs. B ora chamou-nos para almoçar. Foi uma refeição tão deliciosa como a do dia anterior, mas muito mais sombria. Helen estava calada e parecia cansada. M rs. B ora passou os pratos com uma graciosidade silenciosa e M r. E rozan, apesar de se ter sentado por algum tempo à mesa para nos acompanhar, não conseguiu comer muito. Mrs. Bora fê-lo beber uma boa quantidade de vinho tinto, porém, e comer um pouco de carne, o que pareceu de certa forma recuperá-lo. Até Turgut estava mais moderado e parecia melancólico. H elen e eu despedimo-nos logo que as boas maneiras o permitiram.

Turgut levou-nos até à porta de casa e apertou-nos a mão com a cordialidade habitual,

insistindo em que lhe telefonássemos quando os nossos planos de viagem estivessem definidos e prometendo-nos a sua inabalável hospitalidade no regresso. Depois, acenou com a cabeça para mim e deu umas pancadinhas na minha pasta, e percebi que, sem falar, ele se referia ao estojo que estava lá dentro. Abanei a cabeça em resposta e fiz um pequeno gesto a H elen, para lhe dar a entender que lhe explicaria mais tarde de que se tratava. Turgut ficou a acenar até já não o distinguirmos sob as tílias e os choupos e, quando o perdemos de vista, H elen passou o seu braço cansado sob o meu. O ar cheirava a lilases e, por um minuto, naquela venerável rua cinzenta, caminhando através de manchas de luz solar onde dançavam partículas de pó, quase podia acreditar que estávamos de férias em Paris.