O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 74 de 83

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O Historiador

Capítulo 71

Quando vimos o ícone que B aba Yanka transportava, não sei quem sufocou um grito

primeiro, se H elen ou eu, mas ambos nos controlamos no mesmo instante. Ranov estava encostado a uma árvore a menos de dez metros dali e, aliviado, notei que ele olhava para longe, na direção do vale, entediado e desdenhoso, ocupado com o seu cigarro, e tudo indicava que nem tinha reparado no ícone. Segundos depois, Baba Yanka afastara-se e ela e a outra mulher, mantendo o mesmo passo ligeiro e altivo, saíram do fogo a dançar, dirigindo-se para o padre. Devolveram os ícones aos dois meninos, que os voltaram a cobrir imediatamente. N ão perdi Ranov de vista. O padre abençoou as mulheres e em seguida estas foram levadas pelo irmão I van, que lhes deu água a beber. B aba Yanka lançou-nos um olhar orgulhoso quando passou por nós, corada, sorridente, quase a piscar-nos o olho, e H elen e eu curvamo-nos para ela, cheios de reverência. P restei atenção aos seus pés quando ela passou; os pés nus, maltratados, pareciam não ter sofrido nenhum dano, assim como os da outra mulher. Só os rostos delas revelavam os efeitos do calor do fogo, como se estivessem queimados pelo sol.

— O dragão — segredou-me Helen enquanto as víamos afastar-se. — Sim — disse eu. — Temos de descobrir onde eles guardam esse ícone e de que época

é. Vamos. O padre prometeu mostrar-nos a igreja.

— E quanto a Ranov?

— Só podemos rezar para que ele não decida seguir-nos — respondi. — Acho que ele

não viu o ícone.

O padre estava a voltar para a igreja e as pessoas começavam, pouco a pouco, a ir-se

embora. Fomos atrás dele devagar e encontramo-lo a repor o ícone de Svetí P etko no seu suporte. Os outros dois ícones não estavam à vista. Agradeci-lhe, inclinando-me, e disse-lhe em inglês como achara bonita a cerimônia, fazendo gestos com as mãos e apontando para fora. E le pareceu contente. Depois, fiz um gesto abrangendo a igreja e levantei as sobrancelhas, dizendo:

— Podemos dar uma volta?

— V olta? — E le franziu a testa por um segundo, depois sorriu de novo e fez um sinal

significando: "E sperem." I a apenas tirar a túnica. Quando voltou, na sua roupa preta de todos os dias, levou-nos a ver cada um dos nichos, apontando e dizendo ikoni, e Hristos, e outras coisas que mais ou menos entendemos. P arecia saber bastante sobre o lugar e a sua história, se ao menos tivéssemos sido capazes de o compreender. P or fim, perguntei-lhe onde estavam os outros ícones, e ele apontou para o buraco escuro que eu vira anteriormente numa das capelas laterais. Aparentemente, tinham sido levados de novo para a cripta, onde eram guardados. E le pegou na sua lanterna, obsequioso, e guiou-nos para baixo.

Os degraus de pedra eram íngremes e o sopro frio que vinha do subterrâneo fazia a própria igreja parecer quente. Segurei a mão de H elen com firmeza enquanto descíamos atrás da lanterna do padre, que iluminava as velhas pedras em volta. O pequeno aposento lá em baixo, porém, não estava totalmente às escuras; havia dois suportes com velas acesas junto a um altar e pouco depois conseguimos vislumbrar, ainda que pouco distintamente, que não se tratava de um altar mas de um relicário de latão dourado trabalhado, em parte coberto por um pano ricamente bordado de damasco vermelho. E m cima dele, encontravam-se os dois ícones com molduras de prata, a V irgem e dei um passo adiante — o dragão e o cavaleiro.

— Sveti Petko — disse o padre, jovial, tocando o relicário.

Apontei para a V irgem, e ele disse alguma coisa que parecia ter a ver com Bachkwski manastir, que foi só o que compreendemos. Depois, apontei para o outro ícone e o padre sorriu largamente.

— Sveti Georgi — disse ele, indicando o cavaleiro. Apontou para o dragão.

— Drákula.

— Isso provavelmente só quer dizer — dragão advertiu-me Helen. Concordei.

— Como podemos — perguntar-lhe de que época será?

— Star f Staro? -arriscou Helen.

O padre balançou a cabeça, concordando.

— Mnogo star — respondeu, solene.

Olhamos para ele. L evantei a mão e mostrei os dedos: três? Quatro? C inco? E le sorriu. Cinco. Cinco dedos — cerca de quinhentos anos.

— E le acha que é do século quinze — disse H elen. — M eu Deus, como vamos perguntar-lhe de onde veio?

Apontei para o ícone, fiz um gesto à volta da cripta, apontei para a igreja acima de nós. Quando ele compreendeu, fez o gesto universal de quem ignora: os ombros e as sobrancelhas subiram e desceram juntos. N ão sabia. P areceu tentar dizer-nos que o ícone estava ali em Sveti Petko há centenas de anos mais do que isso, não sabia.

P or fim, virou-se, sorridente, e preparámo-nos para o seguir e à sua lanterna de volta pelos degraus íngremes acima. E teríamos deixado para sempre aquele lugar, em completa desesperança, se H elen não tivesse prendido o salto fino do sapato entre duas pedras do piso. E la resmungou, aborrecida eu sabia que não trouxera outro par de sapatos — e baixei-me depressa para a ajudar. O padre quase desaparecera, mas as velas acesas junto do relicário proporcionavam-me luz suficiente para ver o que estava gravado na parte vertical do último degrau, ao lado do pé de H elen. E ra um pequeno dragão, tosco mas inconfundível, e inegavelmente com o mesmo desenho do dragão do meu livro. C aí de joelhos no chão de pedra e acompanhei o seu contorno com a mão. H elen baixou-se junto de mim, esquecendo o sapato.

— Meu Deus disse ela, lentamente. — Que lugar é este?

— Sveti Georgi — disse eu, devagar. Aqui deve ser Sveti Georgi.

Ela olhou-me de perto na penumbra, o cabelo a cair-lhe nos olhos. — M as a igreja é do século dezoito — objetou. Depois, o seu rosto abriu-se. — Achas

que...

— M uitas igrejas têm fundações muito mais antigas, não é verdade? E sabemos que

esta foi reconstruída depois de os Turcos queimarem a original. N ão poderia ter sido uma igreja de mosteiro, de um mosteiro esquecido por todos há muito tempo? — E u sussurrava, cheio de excitação. — P odia ter sido reconstruída décadas ou séculos mais tarde, e recebido o nome do mártir de quem se lembravam.

Helen virou-se, aterrada, e olhou para o relicário de latão atrás de nós. — Também achas que...

— N ão sei — respondi devagar. — N ão me parece provável que tivessem confundido

um conjunto de relíquias com outro, mas há quanto tempo achas que essa caixa foi aberta pela última vez?

— Não me parece suficientemente grande — observou ela. E não conseguiu dizer mais

nada.

— N ão parece mesmo — concordei, — mas temos de experimentar. P elo menos, eu

tenho. Quero que fiques fora disto, Helen.

E la lançou-me um olhar interrogativo, como se estivesse espantada por eu pensar

sequer em mandá-la embora.

— É muito grave invadir uma igreja e profanar o túmulo de um santo. — Eu sei — disse eu. — Mas, e se não for o túmulo de um santo? H avia dois nomes que nenhum de nós dois tinha coragem de pronunciar ali naquele

lugar escuro e frio, com as suas luzes bruxuleantes e o cheiro a cera de vela e a terra. Um desses nomes era o de Rossi.

— Agora mesmo? Ranov deve estar à nossa procura — disse H elen. Quando saímos da

igreja, as sombras das árvores junto dela estavam a alongar-se, e Ranov procurava-nos, impaciente. O irmão I van encontrava-se ao lado dele, embora eu notasse que mal se falavam.

— A sesta foi boa? — perguntou Helen, gentil. — E stá na hora de voltarmos para B achkovo — a voz de Ranov era outra vez brusca;

perguntei-me se estaria desapontado por aparentemente não termos encontrado ali nada. — Vamos voltar para Sofia amanhã cedo. Tenho assuntos para resolver lá. E spero que estejam satisfeitos com a vossa pesquisa.

— Quase — disse eu. — G ostaria de visitar B aba Yanka de novo e agradecer a ajuda

dela.

— Muito bem.

Ranov parecia aborrecido, mas seguiu à frente quando nos dirigimos de regresso à

aldeia, o irmão I van andando calado atrás de nós. A rua estava quieta à luz dourada do entardecer e por toda a parte havia cheiro a comida a ser cozinhada. V i um homem idoso aproximar-se da bomba de água central e encher um balde. N a extremidade da pequenina rua de B aba Yanka, um rebanho de cabras e carneiros estava a ser conduzido para o redil; ouvimos os seus balidos lamentosos e vimo-los a amontoar-se entre as casas até surgir um rapazinho que os fez desaparecer numa esquina.

B aba Yanka ficou encantada por nos ver. C umprimentámo-la, através de Ranov, pelo seu maravilhoso canto e pela dança no fogo. O irmão I van abençoou-a com um gesto mudo.

— Como é possível que não se queime? — perguntou-lhe Helen.

— Ah, é o poder de Deus — disse ela mansamente.— N unca me lembro depois como aconteceu. Às vezes, sinto os pés quentes depois, mas nunca os queimo. É o dia mais bonito do ano para mim, apesar de não me lembrar muito bem do que se passa. Durante meses, fico tão calma como um lago.

T irou uma garrafa sem rótulo do armário e serviu-nos um licor castanho-claro. Dentro da garrafa, flutuavam ervas compridas, que Ranov explicou servirem para dar sabor. O irmão I van recusou, mas Ranov aceitou um copo. Depois de uns goles, começou a interrogar o irmão I van sobre qualquer coisa com uma voz tão amistosa como um braçado de urtigas. Depressa estavam mergulhados num debate que não podíamos acompanhar, e no qual eu captava frequentemente a palavra politicheski.

Depois de estarmos sentados a ouvir durante algum tempo, interrompi a conversa para pedir a ajuda de Ranov e perguntar a B aba Yanka se podíamos usar a casa de banho. Ele riu-se de maneira desagradável. Voltara sem dúvida ao seu velho humor, pensei.

— Receio que não seja muito confortável disse ele.

B aba Yanka riu também e apontou para a porta das traseiras. H elen disse que iria também e esperaria a sua vez. A pequena construção onde ficava a casa de banho, no quintal de B aba Yanka, era ainda mais precária do que a sua cabana, mas suficientemente larga para ocultar a nossa fuga silenciosa por entre as árvores e colmeias até ao portão do fundo. N ão se via ninguém, mas afrouxamos o passo quando chegamos à estrada, entramos sorrateiros no meio dos arbustos e escalamos a colina. Felizmente, também já não havia ninguém em volta da igreja, que estava imersa em sombras densas. O braseiro reluzia fracamente sob as árvores.

N em tentamos a porta da frente, onde poderíamos ser vistos da estrada, e corremos para a das traseiras. Havia ali uma janela baixa, tapada por dentro com cortinas roxas.

— Deve ir dar ao interior do santuário — disse Helen.

A moldura de madeira da janela não estava trancada, apenas fechada com um trinco, e bastou um empurrão para a abrirmos e deslizarmos para dentro por entre as cortinas, fechando tudo cuidadosamente atrás de nós. Ao entrarmos, verifiquei que H elen tinha razão: estávamos atrás do iconóstase.

— As mulheres não podem entrar aqui — disse ela em voz baixa, mas olhava à sua volta com uma curiosidade de acadêmica enquanto falava.

O aposento atrás do iconóstase era dominado por um grande altar coberto de finos

tecidos e de velas. Dois livros antigos repousavam num suporte de latão junto dele e, de ganchos nas paredes, pendiam as vestes deslumbrantes que tínhamos visto o padre usar anteriormente. Tudo estava terrivelmente parado, terrivelmente silencioso. E ncontrei o portal sagrado através do qual o padre aparecia perante a sua congregação, e penetramos cheios de culpa na igreja às escuras. Entrava alguma luz pelas janelas estreitas, mas todas as velas tinham sido apagadas, provavelmente para evitar incêndios, e demorei a encontrar uma caixa de fósforos numa prateleira. E scolhi uma vela para cada um de nós de um dos candelabros e acendi-as. Depois, descemos as escadas com grande cautela.

— Detesto isto — ouvi H elen murmurar atrás de mim, mas sabia que ela não queria

dizer que desistia, fossem quais fossem as circunstâncias. — Quanto tempo pensas que Ranov vai demorar a dar pela nossa falta?

A cripta era o lugar mais escuro em que já alguma vez estive, com todas as suas velas

apagadas, e fiquei satisfeito pelos dois pontos de luz que trazíamos. Acendi as velas com a que tinha na mão. A chama delas ergueu-se, fazendo cintilar os bordados a ouro do relicário. As minhas mãos tinham começado a tremer bastante, mas consegui tirar a pequena adaga de Turgut do meu bolso, onde a guardava desde que saíra de Sofia. P ousei-a no chão junto do relicário, e H elen e eu tiramos delicadamente os dois ícones dos seus lugares dei comigo a desviar os olhos do dragão e São J orge e encostamo-los a uma parede. Removemos o pesado tecido e H elen dobrou-o e pô-lo de lado. Durante todo esse tempo, eu estava atento com todas as fibras do meu corpo a qualquer ruído, ali ou na igreja por cima, até que o próprio silêncio começou a zumbir e a sibilar nos meus ouvidos. H ouve um momento em que H elen agarrou na minha manga e ficamos a ouvir juntos, mas nada se mexeu.

Quando o relicário ficou descoberto, olhamos trêmulos para ele. A parte de cima era

maravilhosamente esculpida em baixo-relevo um santo de cabelos compridos com uma das mãos levantada para nos abençoar, presumivelmente uma representação do mártir cujos ossos poderíamos encontrar lá dentro. Dei por mim a esperar que de fato só encontrássemos uns fragmentos de ossos e depois fechássemos tudo outra vez. M as então seria o vazio que viria em seguida a falta de Rossi, a ausência de vingança, a perda. A tampa do relicário parecia estar pregada, ou trancada, e tentei tudo para a abrir, em vão. E nquanto tentávamos, torcemo-lo um pouco e qualquer coisa deslizou lá dentro, assustadoramente, parecendo bater contra as paredes internas. N a verdade, o relicário era pequeno demais, nele só caberia um corpo de criança, ou pedaços soltos, mas era muito pesado. Ocorreu-me, durante um medonho instante, que talvez só a cabeça de Vlad tivesse afinal acabado ali, embora isso deixasse muitas outras coisas por explicar. C omecei a suar e a pensar se não deveria subir para procurar uma ferramenta qualquer na igreja, mesmo sem muita esperança de encontrar qualquer coisa

— Vamos tentar pô-lo no chão — disse eu através dos dentes cerrados, e juntos conseguimos fazer a caixa descer em segurança.

Ali, poderia ver melhor as argolas e dobradiças da parte de cima, pensei, ou até tentar abri-la com um puxão forte. Estava quase a tentar isso quando Helen deu um grito breve.

— Paul, olha!

V irei-me depressa e vi que o mármore empoeirado sobre o qual o relicário estivera pousado não constituía um bloco sólido; a parte de cima deslocara-se um pouco com o nosso esforço para remover o relicário. C reio que já nem respirava, mas juntos, sem palavras, conseguimos remover a laje de mármore. N ão era grossa mas pesava tremendamente, e estávamos ambos ofegantes quando a apoiamos na parede do fundo. P or baixo, havia uma comprida lousa de pedra, da mesma pedra do chão e das paredes, uma pedra do comprimento de um homem. A efígie que vimos ali era extremamente rude, cinzelada diretamente na superfície dura não era o rosto de um santo mas de um homem verdadeiro, um homem de traços duros com olhos amendoados abertos, nariz comprido, um longo bigode um rosto cruel encimado por um chapéu triangular que conseguia ter uma aparência garbosa mesmo naquele traço rudimentar.

H elen recuou, os lábios brancos à luz das velas, e lutei contra o impulso de lhe agarrar no braço e subir as escadas a correr.

— Helen — comecei a falar, baixinho, mas não havia mais nada a dizer.

P eguei na adaga e H elen enfiou a mão algures dentro da sua roupa nunca cheguei a saber onde — e tirou a pistola diminuta, que colocou ao seu alcance, perto da parede. E ntão, agarramos na borda da pedra tumular e levantamo-la. A lápide deslizou para fora até meio, uma estrutura maravilhosamente construída. E stávamos ambos a tremer visivelmente, tanto que quase deixamos cair a lápide. Quando acabamos de a tirar, olhamos para o corpo no interior, os olhos pesadamente fechados, a pele amarelada, os lábios excessivamente vermelhos, a respiração oca, sem ruído. Era o professor Rossi.