O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 47 de 83

Páginas do PDF

O Historiador

Capítulo 44

E stava profundamente emocionado ao pegar nas cartas de Rossi mas, antes de pensar nelas, tinha uma obrigação a cumprir.

— H elen — disse eu, virando-me para ela —, sei que por vezes sentiu que eu não acreditava na história do seu nascimento. É verdade que em certos momentos duvidei. P or favor, perdoe-me

— E stou tão surpreendida como você — respondeu H elen em voz baixa. — A minha mãe nunca me contou que tinha cartas de Rossi. M as não foram escritas para ela, pois não? Pelo menos, essa primeira não foi.

— N ão — disse eu — M as reconheço o nome. E ra um grande historiador da literatura inglesa, escrevia sobre o século dezoito. L i um dos seus livros na faculdade, e Rossi mencionou-o nas cartas que me deu.

Helen parecia confusa.

— O que é que isto tem a ver com Rossi e a minha mãe?

— Tudo, talvez. N ão está a ver? Deve ter sido H edges, o amigo de Rossi, era por esse nome que Rossi o tratava, lembra-se? Rossi deve ter-lhe escrito da Romênia, embora isso não explique por que razão a sua mãe tem estas cartas

A mãe de H elen mantinha-se sentada com as mãos entrelaçadas, olhando para nós com uma expressão de grande paciência, mas pensei ter detectado um rubor de excitação no seu rosto. Depois falou, e Helen traduziu-me.

— E la diz que vai contar-lhe a sua história toda. — H elen falava com a voz embargada e eu prendi a respiração.

E ra um sistema cheio de pausas, a mulher mais velha a falar devagar e H elen a funcionar como tradutora, parando de tempos a tempos para expressar a sua própria surpresa. Aparentemente, H elen só ouvira até então os contornos da história, e agora estava chocada. Quando voltei para o hotel naquela noite, passei-a para o papel, de memória, o melhor que pude, lembro-me de que isso me levou uma boa parte daquela noite. E ntretanto, muitas outras coisas estranhas tinham acontecido, e eu devia estar cansado, mas ainda me lembro de a ter registado com uma espécie de meticulosidade exaltada.

— Quando eu era pequena, vivia na aldeia de R, na T ransilvânia, muito perto de Arges. T inha muitos irmãos e irmãs, e a maioria deles ainda vive naquela região. O meu pai sempre dizia que descendíamos de famílias antigas e nobres, mas que os meus antepassados tinham passado por dificuldades, e cresci sem sapatos nem cobertores quentes. E ra uma região pobre, e as únicas pessoas que viviam bem eram umas poucas famílias húngaras, nas suas grandes casas junto à margem do rio. O meu pai era terrivelmente severo e nós todos tínhamos medo do seu chicote. A minha mãe estava muitas vezes doente. E u trabalhava no nosso campo fora da aldeia desde muito pequena. Às vezes, o padre trazia-nos comida ou mantimentos, mas, em geral, tínhamos de nos governar como podíamos, sozinhos.

Quando eu tinha mais ou menos dezoito anos, uma velha chegou à nossa aldeia vinda

de outra aldeia, lá em cima nas montanhas, a montante do rio. E ra uma vidente, e disse ao meu pai que tinha um presente para ele e para os seus filhos, que tinha ouvido falar da nossa família e queria dar-lhe algo de mágico que era dele por direito. O meu pai era um homem impaciente, sem tempo para superstições de velhas, embora ele próprio esfregasse sempre alho em todas as aberturas da nossa casa — a chaminé e o batente da porta, o buraco da fechadura e as janelas — para espantar os vampiros. E nxotou a velha rudemente, dizendo que não tinha dinheiro para lhe dar, fosse o que fosse que ela queria impingir-lhe. M ais tarde, quando fui ao poço da aldeia buscar água, encontrei-a lá e dei-lhe um gole de água e um pedaço de pão. E la abençoou-me e disse que eu era mais bondosa do que o meu pai, e que recompensaria a minha generosidade. E ntão, tirou de uma bolsa que trazia a cintura uma pequena moeda e pôs-ma na mão, dizendo-me que a escondesse e a guardasse em segurança, porque pertencia a nossa família. Também disse que a moeda vinha de um castelo a montante do Arges.

E u sabia que devia mostrar a moeda ao meu pai, mas não o fiz, porque pensei que ele

ficaria zangado por eu ter falado com a velha bruxa. E ntão, escondi-a no meu canto da cama, que dividia com as minhas irmãs, e não contei a ninguém sobre a moeda. As vezes, pegava nela, quando sabia que ninguém estava a ver. Segurava-a na mão e perguntava-me com que intenção a velha ma teria dado. N uma das faces da moeda via-se uma estranha criatura com a cauda enrolada, e, na outra, um pássaro e uma pequena cruz.

P assaram-se alguns anos e eu continuei a trabalhar a terra do meu pai e a ajudar a

minha mãe em casa. O meu pai ficava desesperado por ter várias filhas. Dizia que nunca nos casaríamos porque ele era demasiado pobre para nos dar um dote, e que seríamos sempre um problema para ele. M as a minha mãe contava-nos que todos na aldeia diziam que éramos tão bonitas que alguém acabaria por casar conosco. E u tentava manter as minhas roupas limpas e o meu cabelo penteado e bem entrançado para que um dia alguém me escolhesse. N ão gostava de nenhum dos rapazes que me convidavam para dançar nas festas, mas sabia que em breve teria de me casar com um deles para não me tornar um fardo para os meus pais. A minha irmã E va partira há muito para B udapeste com a família húngara para quem trabalhava, e às vezes mandava-nos algum dinheiro. Uma vez, mandou-me mesmo um bom par de sapatos, sapatos de couro da cidade, nos quais tinha muito orgulho.

E ra essa a minha situação quando conheci o professor Rossi. N ão era vulgar que

estrangeiros viessem à nossa aldeia, especialmente alguém de tão longe, mas um dia todos comentaram a novidade, que um homem de B ucareste estivera na taberna, e com ele um homem de outro país. Faziam perguntas sobre as aldeias ao longo do rio e sobre o castelo em ruínas nas montanhas mais acima do rio, a um dia de viagem a pé da nossa aldeia. O vizinho que passou lá em casa para nos contar esta novidade também sussurrou qualquer coisa ao meu pai, que estava sentado no seu banco à porta de casa. O meu pai fez o sinal da cruz e cuspiu no chão de terra.

— T olice e disparate — disse. — N inguém devia fazer perguntas dessas. É um convite ao Demônio.

M as fiquei curiosa. Saí para ir buscar água e poder ouvir mais sobre aquela história e, quando entrei na praça da aldeia, vi os estrangeiros sentados a uma das duas mesas do lado de fora da taberna, a conversar com um velho que estava sempre ali. Um dos estrangeiros era alto e moreno, como um cigano, mas usava roupas de cidade. O outro vestia um casaco castanho de um estilo que eu nunca tinha visto, calças largas enfiadas em botas de caminhar, e um chapéu castanho de abas largas na cabeça. Fiquei do outro lado da praça, perto do poço, e dali não conseguia ver o rosto do estrangeiro. Duas das minhas amigas queriam ver mais de perto, e chamaram-me baixinho para ir com elas. Fui, relutante, sabendo que o meu pai não aprovaria.

Quando passamos em frente da taberna, o homem estrangeiro olhou para mim e vi, para minha surpresa, que era jovem e bonito, com uma barba dourada e brilhantes olhos azuis como as pessoas das aldeias alemãs do nosso país. E stava a fumar cachimbo e a falar em voz baixa com o seu companheiro. N o chão, perto dele, havia uma bolsa de lona muito usada, com tiras para os ombros, e ele estava a escrever qualquer coisa num livro com capa de cartão. T inha um aspecto de que gostei imediatamente era distraído, amável e muito vivo, tudo ao mesmo tempo. C umprimentou-nos levando a mão ao chapéu e desviou rapidamente o olhar, e o homem feio levou também a mão ao chapéu e olhou para nós, e em seguida voltaram a conversar com o velho I van e a anotar coisas. O homem grandalhão parecia estar a falar em romeno com o velho I van, e de vez em quando virava-se para o homem mais novo e dizia qualquer coisa numa língua que eu não entendia. C ontinuei a andar depressa com as minhas amigas, não querendo que o belo estrangeiro pensasse que eu era mais atrevida do que elas.

N a manhã seguinte, dizia-se na aldeia que os estrangeiros tinham dado dinheiro a um jovem na taberna para lhes mostrar o caminho até ao castelo em ruínas chamado P oenari, muito acima do Arges. Ficariam fora até ao dia seguinte. Ouvi o meu pai contar a um amigo que eles estavam à procura do castelo do príncipe Vlad. L embrava-se de outra vez em que o doido com cara de cigano estivera lá, à procura do castelo.

— Os doidos nunca aprendem — dizia o meu pai, com raiva.

E u nunca tinha ouvido aquele nome príncipe Vlad — antes. As pessoas da nossa aldeia costumavam chamar ao castelo P oenari ou Arefu. O meu pai disse que o homem que levara os estrangeiros até lá era louco por dinheiro. J urou que dinheiro nenhum no mundo seria capaz de fazer com que ele, o meu pai, passasse lá a noite, porque as ruínas estavam cheias de espíritos malignos. Disse que provavelmente o estrangeiro estava à procura de algum tesouro, o que era uma loucura, porque todo o tesouro do príncipe que vivera ali estava enterrado bem fundo, e havia um feitiço maligno relacionado com ele. O meu pai disse que, se alguém o encontrasse e o tesouro fosse exorcizado, ele deveria receber uma parte, porque parte daquele tesouro lhe pertencia por direito próprio. Depois, reparou que eu e as minhas irmãs estávamos a ouvir e calou-se.

O que o meu pai disse fez-me lembrar a pequena moeda que a velha me dera, e pensei,

cheia de remorsos, que tinha uma coisa que devia ter dado ao meu pai. M as uma revolta cresceu dentro de mim, e decidi encontrar uma maneira de dar a minha moeda ao belo estrangeiro, já que ele estava à procura do tesouro no castelo. Quando tive uma oportunidade, tirei a moeda do seu esconderijo e atei-a no canto de um lenço, que, por sua vez, amarrei ao meu avental.

O estrangeiro só voltou a aparecer dois dias depois, e então vi-o sentado sozinho à

mesma mesa, parecendo muito cansado, com as roupas sujas e rasgadas. As minhas amigas disseram que o cigano da cidade partira naquele dia e que o estrangeiro estava sozinho. N inguém sabia por que é que ele queria ficar mais tempo. T inha tirado o chapéu e pude ver os seus cabelos castanho-claros, despenteados. H avia outros homens com ele, e estavam a beber. N ão ousei aproximar-me ou falar com o estrangeiro porque aqueles homens estavam com ele, e parei para conversar um pouco com uma amiga. E nquanto conversávamos, o estrangeiro levantou-se e entrou na taberna.

Fiquei muito triste e pensei que seria impossível dar-lhe a minha moeda. Mas eu estava

com sorte naquela tarde. Quando ia a sair do campo do meu pai, onde ficara a trabalhar enquanto os meus irmãos e irmãs estavam ocupados com outras tarefas, vi o estrangeiro a caminhar sozinho nos limites do bosque.

Andava ao longo do atalho que levava ao rio, com a cabeça baixa e as mãos atrás das

costas. E stava completamente sozinho e, agora que tinha oportunidade de falar com ele, senti medo. P ara me dar coragem, segurei o nó do lenço onde a moeda estava escondida. Andei na direção dele e parei no atalho, esperando que se aproximasse.

T ive a impressão de que demorou muito tempo, enquanto fiquei ali à espera. E le não

deve ter notado a minha presença até estarmos quase cara a cara. E ntão, levantou o olhar, parecendo surpreendido e embaraçado. T irou o chapéu e afastou-se para o lado, como a dar-me passagem, mas fiquei muito quieta, a ganhar coragem, e saudei-o. E le inclinou-se um pouco e sorriu e ficamos ali a olhar-nos por um momento. N ão havia nada no seu rosto ou nas suas maneiras que me fizesse sentir medo, mas estava quase paralisada pela timidez.

Antes de perder a coragem, desamarrei o lenço do meu cinto e desembrulhei a moeda.

Dei-lha, em silêncio, e ele pegou nela e virou-a, examinando-a com cuidado. De repente, um clarão surgiu no seu rosto e olhou para mim novamente com um olhar muito penetrante, como se pudesse ver através do meu coração. T inha os olhos mais brilhantes, mais azuis que se pode imaginar. Senti-me tremer toda.

— De onde? De onde? — gesticulou ele para me explicar a sua pergunta. Fiquei

espantada por ele conhecer algumas palavras na nossa língua. E le bateu com o pé no chão, e compreendi. Eu tinha tirado a moeda da terra? Sacudi a cabeça.

— De undé?

Tentei imitar uma mulher velha, com um lenço na cabeça e apoiada numa bengala — imitei-a a dar-me a moeda. E le fez que sim com a cabeça, franziu a testa. Depois fez os gestos da mulher e apontou ao longo do atalho na direção da nossa aldeia.

— De lá?

N ão sacudi a cabeça de novo e apontei rio acima e para o céu, para onde achava que o castelo ficava, e para a aldeia onde a velha morava. Apontei para ele e imitei os pés a caminhar — lá para cima! O clarão apareceu novamente no seu rosto e ele fechou a mão sobre a moeda. Quis devolver-ma, mas eu recusei, apontando para ele e sentindo que estava a corar. E le sorriu, pela primeira vez, e inclinou-se para mim, e eu senti-me como se o céu se tivesse aberto diante dos meus olhos por um momento.

— Multumesc — disse ele. — Obrigado.

E ntão, quis ir-me embora a correr, antes que o meu pai desse pela minha falta à mesa do jantar, mas o estrangeiro deteve-me com um gesto rápido. Apontou para si mesmo.

— M a numesc B artolomeo Rossi — disse. Repetiu, depois escreveu o nome na terra aos nossos pés. Ri ao tentar pronunciar o nome dele. E depois ele apontou para mim.

-Vot? — disse. — Qual é o teu nome?

Respondi e ele repetiu, sorrindo de novo.

— Família? — ele parecia estar à procura das palavras.

— O nome da minha família é Getzi — disse-lhe eu.

O seu rosto pareceu encher-se de surpresa. Apontou na direção do rio, depois para mim, e disse qualquer coisa várias vezes, seguida da palavra "Drácula", que compreendi significar "do dragão". N ão conseguia entender o que queria dizer. P or fim, abanando a cabeça e suspirando, ele disse: "amanhã". Apontou para mim, para ele, para o lugar onde estávamos, e para o Sol no céu. P ercebi imediatamente que estava a pedir-me para estar ali à mesma hora na tarde seguinte. Sabia que o meu pai ficaria muito zangado se descobrisse. Apontei para o chão, depois levei um dedo aos lábios. N ão conhecia outra maneira de lhe dizer que não falasse sobre aquilo com ninguém na aldeia. E le pareceu alarmado, mas depois levou por sua vez o dedo aos lábios e sorriu-me. Até àquele momento, eu ainda sentia um pouco de medo dele, mas o seu sorriso era maravilhosamente gentil e os seus olhos azuis brilhavam. Tentou mais uma vez devolver-me a moeda e, quando voltei a recusar, inclinou-se, pôs o chapéu na cabeça e voltou para o bosque na direção de onde tinha vindo. P ercebi que estava a permitir-me voltar sozinha para a aldeia, e parti rapidamente, sem me virar para trás para olhar para ele.

T oda aquela noite, à mesa do meu pai, lavando e limpando a louça com a minha mãe, pensei no estrangeiro. P ensava nas suas roupas estrangeiras, nos seus modos bem-educados, na expressão do seu rosto, que era distraída e alerta ao mesmo tempo, nos seus olhos brilhantes. P ensei nele durante todo o dia seguinte enquanto fiava com as minhas irmãs, preparava o jantar, ia buscar água e trabalhava no campo. A minha mãe repreendeu-me muitas vezes por não estar a prestar atenção ao que fazia. A tardinha, fiquei para trás a acabar de arrancar as ervas daninhas, e fiquei aliviada quando os meus irmãos e o meu pai desapareceram na direção da aldeia.

L ogo que eles se foram embora, corri para a orla do bosque. O estrangeiro estava lá

sentado, encostado a uma árvore, e, quando me viu, pôs-se de pé num salto e ofereceu-me um lugar para me sentar num tronco próximo do atalho. M as eu tinha medo que alguém da aldeia passasse e levei-o mais para dentro do bosque, com o coração a bater com força pelo que estava a fazer. L á, sentámo-nos em duas pedras. O bosque estava cheio dos sons vespertinos dos pássaros era o início do Verão e tudo estava muito verde e impregnado de calor.

O estrangeiro tirou do bolso a moeda que eu lhe dera e colocou-a no chão, com

cuidado. Depois, tirou uns livros da mochila e começou a folheá-los. M ais tarde soube que eram dicionários de Romeno e da língua que ele falava. M uito devagar, consultando frequentemente os seus livros, perguntou-me se eu tinha visto outras moedas como a que lhe dera. Respondi que não. E xplicou-me que o animal na moeda era um dragão e perguntou-me se eu já tinha visto aquele dragão em qualquer outro lugar, num edifício ou num livro. Respondi que tinha um igual no meu ombro.

A princípio, não percebeu nada do que eu estava a dizer. E u orgulhava-me de saber

escrever o nosso alfabeto e ler um pouco houvera uma escola na aldeia durante algum tempo, quando eu era pequena, e um padre vinha ensinar-nos. O dicionário do estrangeiro era muito confuso para mim, mas juntos encontramos a palavra "ombro". E le pareceu intrigado e perguntou-me novamente: "Drákula?" P egou na moeda. T oquei no meu ombro por cima da blusa e fiz que sim com a cabeça. E le olhou para o chão, com o rosto a ficar corado, e de repente senti que eu era a mais corajosa dos dois. Desabotoei o meu casaco de lã e despi-o, depois abri a gola da minha blusa. O coração batia-me com força, mas alguma coisa tomara conta de mim e eu não conseguia parar. E le olhou para o outro lado, mas baixei a manga da blusa e apontei.

N ão conseguia lembrar-me desde quando tinha um pequeno dragão verde-escuro

estampado no ombro. A minha mãe dizia que o dragão era marcado num filho de cada geração da família do meu pai, e que ele me escolhera porque pensava que eu provavelmente seria a mais feia de todas quando crescesse. O meu pai dizia que o avô dele lhe contara que aquilo era necessário para manter os espíritos malignos longe da nossa família. Ouvi aquela história apenas uma ou duas vezes, porque normalmente o meu pai não gostava de falar no assunto, e eu não sabia sequer quem era o parente da geração dele que possuía a marca, se estava no seu corpo ou no de um dos seus irmãos ou irmãs. O meu dragão era muito diferente do pequeno dragão da moeda e, por isso, até o estrangeiro me perguntar se eu tinha mais qualquer coisa com a imagem de um dragão, nunca associara os dois.

O estrangeiro examinou com atenção o dragão na minha pele, segurando a moeda perto dele, mas sem me tocar ou mesmo aproximar-se. O seu rosto continuava corado e pareceu aliviado quando fechei novamente a minha blusa e vesti o casaco. C onsultou os seus dicionários e perguntou-me com dificuldade quem pusera o dragão ali. Quando eu disse que fora o meu pai com a ajuda de uma velha da aldeia, uma curandeira, perguntou se podia falar com o meu pai sobre aquilo. E u neguei com tanta força que ele ficou muito vermelho outra vez. E ntão disse-me, com muita dificuldade, que a minha família descendia de um príncipe maligno que construíra o castelo a montante do rio. E sse príncipe tinha sido chamado "o filho do dragão", e havia morto muitas pessoas. Disse que o príncipe se tornara um pricolic, um vampiro. Fiz o sinal da cruz e pedi à V irgem M aria que me protegesse. P erguntou se eu conhecia aquela história e eu respondi que não. P erguntou-me a idade, se tinha irmãos e irmãs e se havia outras pessoas na aldeia com o nosso apelido.

Finalmente, apontei para o Sol, que já se tinha quase posto, para mostrar que tinha de voltar para casa, e ele levantou-se rapidamente, com uma expressão séria. Deu-me a mão e ajudou-me a levantar. Quando segurei na sua mão, o coração saltou-me para os dedos. Fiquei embaraçada e voltei-me rapidamente. M as refleti que ele estava demasiado interessado nos espíritos malignos e poderia correr algum perigo. Talvez eu devesse dar-lhe alguma coisa que o protegesse. Apontei para o chão e para o Sol. "Venha amanhã", disse-lhe. E le hesitou por um instante e finalmente sorriu. Pôs o chapéu e levou a mão à aba. Depois desapareceu no bosque.

N a manhã seguinte, quando fui ao poço, ele estava sentado na taberna com os velhos, a escrever outra vez qualquer coisa. P ensei tê-lo visto olhar para mim, mas ele não deu qualquer sinal de me reconhecer. E u estava muito feliz por dentro, porque vi que ele tinha mantido o nosso segredo. À tarde, quando o meu pai, a minha mãe, e os meus irmãos e irmãs estavam fora de casa, fiz uma coisa feia. Abri o baú de madeira dos meus pais e tirei dele uma pequena adaga de prata que vira lá muitas vezes. A minha mãe tinha-me dito uma vez que servia para matar vampiros se eles viessem incomodar as pessoas ou os rebanhos. Também peguei num punhado de cabeças de alho da horta da minha mãe. Escondi tudo no lenço quando fui para o campo.

Daquela vez, os meus irmãos trabalharam durante muito tempo ao meu lado e eu não conseguia livrar-me deles, mas finalmente disseram que iam voltar para a aldeia e queriam que eu fosse com eles. E u disse-lhes que ia apanhar umas ervas no bosque e já voltava. E stava muito nervosa quando finalmente cheguei junto do estrangeiro, que encontrei no fundo do bosque, no nosso ressalto de pedras. E stava a fumar o seu cachimbo, mas, quando me aproximei, pô-lo de lado e levantou-se rapidamente. Sentei-me junto dele e mostrei-lhe o que trouxera. Ficou espantado quando viu a faca, e muito interessado quando lhe expliquei que poderia usá-la para matar pricoliri. N ão queria aceitá-la, mas insisti com tanta veemência para que a levasse, que ele parou de sorrir e guardou-a com ar pensativo na mochila, embrulhando-a primeiro no meu lenço. A seguir, entreguei-lhe as cabeças de alho e mostrei-lhe que devia ter sempre algumas no bolso do casaco.

P erguntei-lhe quanto tempo ficaria na nossa aldeia e ele mostrou-me cinco dedos mais

cinco dias. Deu-me a entender que visitaria várias aldeias nas redondezas, indo a pé para cada uma delas a partir da nossa aldeia, para conversar com as pessoas sobre o castelo. P erguntei-lhe para onde iria quando deixasse a nossa aldeia ao fim dos cinco dias. Disse que iria para um país chamado G récia, de que eu já tinha ouvido falar antes, e depois para a sua cidade, no seu país. Fez um desenho no chão da floresta, mostrando-me que o seu país, que se chamava I nglaterra, era uma ilha muito longe dali. M ostrou-me também onde ficava a sua universidade não percebi o que ele quis dizer e escreveu o nome dela na terra. Ainda me lembro daquelas letras: OXFORD. E u escrevia-as às vezes, mais tarde, para poder olhar para elas outra vez. Era a palavra mais estranha que eu já vira.

De repente, tomei consciência de que ele partiria em breve e que eu nunca mais o

veria, ou a alguém como ele, e os meus olhos encheram-se de lágrimas. E u não queria chorar nunca tinha chorado pelos rapazes enfadonhos da aldeia —, mas as minhas lágrimas não me obedeciam e desciam-me pela cara. Ele parecia muito aflito e tirou um lenço branco do bolso do casaco e deu-mo. O que acontecera? Sacudi a cabeça. E le levantou-se devagar e deu-me a mão para me ajudar a levantar, como tinha feito na noite anterior. E nquanto eu me levantava, tropecei e caí em cima dele sem querer, e, quando ele me segurou, beijámo-nos. Depois, virei-me e corri pelo bosque. Quando cheguei ao atalho, olhei para trás. L á estava ele, de pé, imóvel como uma árvore, a olhar para mim. Fui a correr até à aldeia e fiquei toda a noite acordada com o lenço dele escondido na mão.

N a tarde seguinte, ele estava no mesmo lugar, como se nunca tivesse saído de onde eu

o tinha deixado. C orri para ele, que abriu os braços e me recebeu neles. Quando não podíamos mais beijar-nos, ele estendeu o casaco no chão e deitámo-nos juntos. Durante essa hora, aprendi sobre o amor, um momento de cada vez. De perto, os olhos dele eram tão azuis como o céu. Pôs-me flores nas tranças e beijou-me os dedos. Surpreendi-me com muitas coisas que fez, e com outras que eu fiz, e sabia que era errado, um pecado, mas sentia a alegria do céu abrir-se à nossa volta.

Depois daquilo, houve três tardes antes de ele partir. E ncontrávamo-nos cada dia mais

cedo. Dava qualquer desculpa que conseguia inventar ao meu pai e à minha mãe e chegava sempre a casa com ervas do bosque, como se tivesse ido lá para as colher. T odas as tardes, B artolomeo dizia que me amava e implorava que eu me fosse embora com ele quando ele deixasse a aldeia. E u queria, mas tinha medo do grande mundo de onde ele vinha, e não conseguia imaginar como escaparia ao meu pai. T odas as tardes lhe perguntava por que é que ele não podia ficar comigo na aldeia, e ele sacudia a cabeça e dizia que tinha de voltar para a sua casa e para o seu trabalho.

N o último dia antes de ele deixar a aldeia, comecei a chorar assim que nos tocamos. E le

abraçou-me e beijou-me o cabelo. E u nunca tinha conhecido um homem tão gentil e bondoso. Quando parei de chorar, ele tirou do dedo um pequeno anel de prata com um brasão. N ão tenho a certeza, mas hoje acho que era o brasão da universidade dele. Usava no dedo mindinho da mão esquerda. T irou-o e colocou-o no meu anular. E pediu-me em casamento. Devia ter andado a estudar o dicionário, porque eu percebi imediatamente.

A princípio, parecia uma idéia tão impossível que comecei outra vez a chorar eu era muito jovem, mas depois aceitei. E le fez-me entender que voltaria para me buscar daí a quatro semanas. I ria à G récia para resolver qualquer coisa eu não conseguia entender o que era. Depois, voltaria para me buscar e daria dinheiro ao meu pai para ele ficar feliz. Tentei explicar-lhe que não tinha dote, mas ele não ouvia. Sorrindo, mostrou-me a adaga e a moeda que eu lhe dera, fez um círculo com as mãos em volta do meu rosto e beijou-me.

E u devia ter ficado feliz, mas tinha a sensação de que havia espíritos malignos presentes e tive medo de que acontecesse alguma coisa que o impedisse de voltar. C ada momento que passamos juntos naquela tarde foi muito doce, porque eu pensava que cada um seria o último. E le estava tão confiante, tão seguro de que nos voltaríamos a ver em breve. N ão consegui dizer-lhe adeus enquanto não ficou quase escuro no bosque, mas comecei a ter medo da raiva do meu pai e por fim beijei B artolomeo uma última vez, certificando-me de que o alho estava no seu bolso, e deixei-o. V irei-me uma vez, e mais outra. A cada vez que eu olhava para trás, avistava-o parado no bosque, segurando o chapéu nas mãos. Parecia muito solitário.

C horei a medida que andava, e tirei o anelzinho do meu dedo, beijando-o, e atei-o no meu lenço. Quando cheguei a casa, o meu pai estava zangado e queria saber onde é que eu tinha estado depois do pôr do Sol sem autorização. Disse-lhe que a minha amiga M aria tinha perdido um cabrito e que eu tinha andado a ajudá-la a procurá-lo. Fui para a cama com o coração pesado, sentíndo-me ora esperançada, ora triste de novo.

N a manhã seguinte, ouvi dizer que B artolomeo tinha deixado a aldeia, viajando com um lavrador na carroça deste, na direção de T ârgoviste. O dia foi muito longo e triste para mim, e à tardinha fui ao nosso ponto de encontro no bosque para aí ficar sozinha. Ver aquele lugar fez-me chorar outra vez. Sentei-me nas nossas pedras e finalmente deitei-me no mesmo sítio onde nos tínhamos deitado todas as tardes. E ncostei a cara à terra e solucei. E ntão, senti que a minha mão esbarrava em qualquer coisa entre as avencas, e, para minha surpresa, encontrei um pacote de cartas em envelopes. N ão conseguia ler o que estava escrito no lugar onde estavam endereçados a alguém, mas no remetente de cada envelope estava estampado o lindo nome dele, como num livro. Abri algumas cartas e beijei a escrita dele, embora pudesse ver que não me eram dirigidas. P or um momento, perguntei-me se não teriam sido escritas para outra mulher, mas afastei imediatamente esta idéia da cabeça. P ercebi que as cartas deviam ter caído da mochila quando ele a abrira para me mostrar a adaga e a moeda que eu lhe dera.

P ensei em tentar enviar-lhas para Oxford, na ilha da I nglaterra, mas não era capaz de encontrar nenhuma maneira de as enviar sem dar nas vistas. Também não sabia como poderia pagar para enviar fosse o que fosse. Devia custar dinheiro enviar um pacote para aquela ilha distante, e eu nunca tivera nenhum dinheiro além da pequena moeda que dera a Bartolomeo. Decidi guardar as cartas para lhas devolver quando ele voltasse para mim.

Quatro semanas passaram, muito, muito devagar. E u fazia cortes numa árvore perto

do nosso local secreto para poder contar os dias. T rabalhava no campo, ajudava a minha mãe, fiava e tecia para as nossas roupas do próximo I nverno, ia à igreja e ficava de ouvido alerta onde era possível, esperando notícias de B artolomeo. A princípio, os velhos falavam um pouco dele, e sacudiam as cabeças por causa do seu interesse por vampiros. "N ada de bom pode vir daquilo", dizia um deles, e os outros concordavam. Ouvir isso causava-me uma mistura terrível de felicidade e dor. Ficava feliz ao ouvir alguém falar dele, já que não podia dizer uma palavra a ninguém, mas também sentia um arrepio ao pensar que ele podia estar a atrair a atenção dos pricolici.

I maginava constantemente o que aconteceria quando ele voltasse. I ria até a porta do

meu pai, bateria e pediria ao meu pai a minha mão em casamento? I maginava como a minha família ficaria surpreendida. H aviam de se reunir todos à porta e ficariam a olhar enquanto B artolomeo lhes dava presentes e eu lhes dava beijos de despedida. E ntão, ele levava-me embora numa carroça que estaria à nossa espera, talvez até num automóvel. P artiríamos da aldeia e atravessaríamos terras que eu nem podia imaginar, para lá das montanhas, para lá da grande cidade onde a minha irmã E va vivia. E sperava que pudéssemos parar para visitar E va, pois sempre gostara mais dela que dos outros. B artolomeo também haveria de gostar dela, porque era forte e corajosa, uma viajante como ele.

P assei quatro semanas desta maneira e, no fim da quarta semana, estava cansada e

pouco conseguia comer ou dormir. Quando já tinha feito quase quatro semanas de talhos na árvore, comecei a ficar à espera de um indício do seu regresso. T odas as vezes que uma carroça chegava à aldeia, o som das rodas fazia o meu coração dar um salto. I a buscar água ao poço três vezes por dia, de olhos e ouvidos atentos, à espera de notícias. Dizia a mim mesma que ele provavelmente não viria depois de quatro semanas exatas, e que eu devia esperar mais uma semana. Depois da quinta semana, adoeci e tive a certeza de que o príncipe dos pricolici o matara. Uma vez, cheguei mesmo a pensar que o meu amado poderia voltar para mim sob a forma de um vampiro. C orri para a igreja em pleno dia e rezei em frente do ícone da Virgem para me livrar daquela idéia horrível.

N a sexta e na sétima semanas, comecei a perder as esperanças. N a oitava semana,

soube, através de muitos sinais de que tinha ouvido falar as mulheres casadas, que ia ter um filho. E ntão, chorei em silêncio na cama das minhas irmãs, à noite, e senti que o mundo inteiro, até mesmo Deus e a M ãe Santíssima, se tinha esquecido de mim. N ão sabia o que acontecera com B artolomeo, mas pensava que devia ter sido algo terrível, porque sabia que ele me amava de verdade. E m segredo, colhi as ervas e raízes que sabia que impediam uma criança de vir ao mundo, mas foi inútil. O meu bebê estava forte dentro de mim, mais forte do que eu, e comecei a amar aquela força, mesmo sem querer. Quando levava a mão discretamente à barriga, sentia o amor de B artolomeo e acreditava que ele não podia ter-se esquecido de mim.

Sabia que teria de abandonar a aldeia antes de trazer vergonha à minha família e desencadear a ira do meu pai sobre mim. P ensei em tentar encontrar a velha mulher que me dera a moeda. Talvez ela me acolhesse e me deixasse cozinhar e limpar a casa. E la viera de uma das aldeias acima do Arges, perto do castelo do pricolic, mas não sabia que aldeia era, nem se ela ainda estava viva. H avia ursos e lobos nas montanhas e muitos espíritos malignos, e eu não me atrevia a deambular pela floresta sozinha.

Finalmente, resolvi escrever à minha irmã E va, o que fizera uma ou duas vezes antes. T irei papel e um envelope da casa do padre, onde às vezes trabalhava na cozinha. N a carta, contei-lhe a minha situação e implorei-lhe que viesse buscar-me. A resposta dela demorou outras cinco semanas a chegar. G raças a Deus, o lavrador que a trouxe, juntamente com alguns mantimentos, entregou-me e não ao meu pai, e eu li-a em segredo, no bosque. A parte do meio do meu corpo já estava a crescer e a arredondar-se, provocando-me uma sensação estranha quando me sentava num tronco, embora ainda conseguisse esconder a barriga com o avental.

H avia algum dinheiro na carta, dinheiro romeno, mais do que eu alguma vez vira, e o bilhete de E va era curto e prático. Dizia que eu deveria deixar a aldeia a pé, caminhar até à próxima aldeia, a cerca de cinco quilômetros de distância, e aí arranjar boleia numa carroça ou num caminhão até T ârgoviste. Dali, poderia conseguir transporte até B ucareste, e, em B ucareste, apanhar o comboio até à fronteira com a H ungria. O marido dela iria esperar-me no posto fronteiriço de T . no dia vinte de Setembro ainda me lembro da data. Dizia-me para eu programar a minha viagem da melhor maneira possível para chegar lá nesse dia. Dentro da carta, encontraria um convite timbrado do G overno da H ungria que me ajudaria a entrar no país. Despedia-se com afeto, dizia para eu ter muito cuidado e desejava-me uma viagem segura. Quando cheguei ao fim da carta, beijei a assinatura dela e abençoei-a com todo o meu coração.

Arrumei os meus poucos pertences numa pequena bolsa, incluindo os meus sapatos bons, guardados para a viagem de comboio, as cartas que B artolomeo perdera e o seu anel de prata. Uma manhã, ao sair da nossa casa, abracei e beijei a minha mãe, que estava a ficar velha e mais doente. Queria que ela soubesse, mais tarde, que de alguma forma eu me despedira dela. Acho que ficou surpreendida, mas não me fez nenhuma pergunta. N essa manhã, em vez de ir para o campo, atravessei o bosque, evitando a estrada. P arei para me despedir do lugar secreto no bosque onde me deitara com B artolomeo. As quatro semanas de cortes na árvore já estavam a desaparecer. N aquele mesmo sítio, pus o anel de prata no dedo e atei um lenço à cabeça, como uma mulher casada. Sentia o I nverno a chegar nas folhas amareladas e no ar fresco. Fiquei ali parada por alguns momentos e depois parti ao longo do atalho até à aldeia mais próxima.

N ão me lembro de toda a viagem, apenas de que estava muito cansada e às vezes ficava com muita fome. Uma noite, dormi em casa de uma senhora idosa que me deu uma boa sopa e disse que o meu marido não devia deixar-me viajar sozinha. Outra vez, tive de dormir num celeiro. Finalmente, consegui transporte até T ârgoviste, e depois para B ucareste. Quando podia, comprava pão, mas, como não sabia de quanto dinheiro precisaria para o comboio, fui muito cuidadosa. B ucareste era muito grande e bonita, mas assustava-me porque havia tantas pessoas, todas muito bem vestidas, e homens que me olhavam com ousadia nas ruas. T ive de dormir na estação de caminho-de-ferro. O comboio também era assustador, um enorme monstro negro. Depois de me sentar lá dentro, junto de uma janela, senti o meu coração ficar mais leve. P assamos por muitas paisagens maravilhosas montanhas e rios e campos de girassóis, todos a virar as cabeças na mesma direção.

N a estação da fronteira, fiquei a saber que era dezenove de Setembro e dormi num

banco até que um dos guardas me deixou entrar na sua barraca e me deu café quente. P erguntou onde estava o meu marido e eu disse-lhe que ia para a H ungria para me encontrar com ele. N a manhã seguinte, um homem de fato e chapéu pretos veio procurar-me. T inha um rosto muito bondoso, beijou-me nas duas faces e chamou-me irmã. Amei o meu cunhado desde aquele momento até ao dia em que ele morreu, e ainda o amo. Foi mais meu irmão do que qualquer outro irmão da minha família. T omou conta de tudo, ofereceu-me um jantar quente no comboio, que comemos a uma mesa com toalha. C omíamos e olhávamos pela janela do comboio para todas as coisas que passavam.

E va estava à nossa espera na estação de B udapeste. Usava um fato de saia e casaco e

um lindo chapéu, e achei que ela parecia uma rainha. Abraçou-me e beijou-me muitas vezes. O meu bebê nasceu no melhor hospital de B udapeste. E u queria chamar-lhe E va, mas E va disse que preferia ser ela a escolher o nome, e chamou-lhe E lena. E ra um bebê adorável, com grandes olhos escuros, e sorriu muito cedo, com apenas cinco dias de vida. T odos diziam que nunca tinham visto um bebê sorrir tão cedo. T ivera esperanças que nascesse com os olhos azuis de Bartolomeo, mas parecia-se apenas com a minha família.

E sperei para lhe escrever até que o bebê nascesse, porque queria contar-lhe de um

bebê verdadeiro, e não falar apenas sobre a minha gravidez. Quando E lena fez um mês, pedi ao meu cunhado que me ajudasse a encontrar a morada da universidade de B artolomeo, Oxford, e fui eu própria que escrevi aquela estranha palavra no envelope. O meu cunhado escreveu-me a carta em alemão e assinei-a com a minha mão. N a carta, contei a B artolomeo que tinha esperado três meses por ele, e que deixara a aldeia porque sabia que esperava um filho seu. C ontei-lhe as minhas viagens e da casa da minha irmã em Budapeste. Contei-lhe de Elena, como ela era doce, como era feliz. Disse que o amava e que tinha medo de que algo de terrível tivesse acontecido que o tivesse impedido de voltar. P erguntei-lhe quando o veria, e se ele podia vir a B udapeste buscar-nos, a mim e a E lena. Disse-lhe que, fosse o que fosse que tivesse acontecido, o amaria até ao fim da minha vida.

E ntão, esperei de novo, dessa vez por um longo, longo tempo e, quando E lena já estava a dar os primeiros passos, chegou uma carta de B artolomeo. V inha da América, e não da I nglaterra, e estava escrita em alemão. O meu cunhado traduziu-me com uma voz muito gentil, mas percebi que ele era demasiado honesto para alterar o que ela dizia. Na sua carta, B artolomeo dizia que recebera uma carta minha que tinha seguido primeiro para a sua antiga morada em Oxford. Dizia-me, educadamente, que nunca tinha ouvido falar em mim nem vira o meu nome antes, e que nunca estivera na Romênia, de maneira que a criança que eu descrevia não podia ser dele. L amentava muito ouvir uma história tão triste e desejava-me boa sorte. E ra uma carta curta e muito delicada, não ríspida, e não havia nela qualquer indício de que ele realmente me conhecesse.

C horei durante muito tempo. E ra jovem e não percebia que as pessoas podem mudar, que as suas mentes e os seus sentimentos podem mudar. Quando já estava na H ungria há vários anos, comecei a compreender que é possível ser-se uma pessoa na sua terra e uma pessoa diferente quando se está num país diferente. P ercebi que alguma coisa desse gênero tinha acontecido com B artolomeo. N o fim, o meu único desejo era que ele não tivesse mentido, não tivesse dito que não me conhecia. Queria isso porque, quando estávamos juntos, tinha sentido que ele era uma pessoa honrada, uma pessoa de confiança, e não queria pensar mal dele.

E duquei E lena com a ajuda dos meus parentes e ela tornou-se uma rapariga linda e brilhante. Tenho a certeza disto porque ela tem o sangue de B artolomeo. C ontei-lhe sobre o pai nunca lhe menti. Talvez não tenha contado o suficiente, mas ela era demasiado nova para entender que o amor torna as pessoas cegas e tolas. Foi para a universidade e eu tinha muito orgulho nela, e contou-me que ouvira dizer que o pai era um grande letrado na América. E u tinha esperança de que um dia ela pudesse encontrá-lo. M as não sabia que ele estava na universidade para onde foste — acrescentou a mãe de E lena, virando-se quase com censura na voz para a filha, e foi desse modo abrupto que terminou a sua história.

H elen murmurou o que podia ser uma desculpa ou uma manifestação de autodefesa, e abanou a cabeça. P arecia tão atordoada como eu. Durante toda a história, tinha ficado quieta, traduzindo como se mal respirasse, murmurando qualquer coisa só quando a mãe descreveu o dragão no seu ombro. M uito mais tarde, H elen contou-me que a mãe nunca se despira na sua presença, e também nunca a levara aos banhos públicos como Eva fazia.

A princípio, ficamos em silêncio sentados à mesa, mas depois Helen virou-se para mim, e fez um gesto de impotência na direção do pacote de cartas à nossa frente, em cima da mesa. E u percebi; estava a pensar a mesma coisa. P or que razão não enviara algumas daquelas cartas a Rossi para provar que ele estivera com ela na Romênia?

H elen olhou para a mãe com uma profunda hesitação no olhar, pareceu-me e então aparentemente fez a pergunta. A resposta da mãe, quando a traduziu, trouxe-me um nó à garganta, um sofrimento que era em parte por ela e, em parte, pelo meu pérfido mentor.

— P ensei em fazê-lo, mas a carta dele fez-me compreender que mudara completamente de idéia. C oncluí que para mim não faria qualquer diferença mandar-lhe estas cartas, só me traria mais dor, e teria perdido as poucas coisas que possuía dele. — E stendeu a mão como para tocar a letra dele, depois recolheu-a. — Só lamentava não lhe devolver o que de fato lhe pertencia. M as ele tinha ficado com tanto de mim, talvez não fosse errado eu ficar com as cartas? — E olhava de H elen para mim, os olhos subitamente menos tranquilos. N ão era desafio o que via neles, pensei, mas o fogo de uma paixão antiga, muito antiga. Desviei o olhar.

Helen era desafiadora, embora a mãe não o fosse. — E ntão, por que é que, pelo menos, não me mostrou as cartas há mais tempo? — A

pergunta era ameaçadora, e ela disparou-a à mãe no instante seguinte. A mulher mais velha sacudiu a cabeça.

— E la disse — relatou H elen, o rosto a endurecer — que sabia que eu odiava o meu

pai, e estava à espera de alguém que o amasse. — Como ela mesma ainda o ama, poderia eu ter completado, pois o meu próprio coração estava tão cheio que parecia dar-me uma percepção acrescida do amor enterrado durante anos naquela casinha despojada.

Os meus sentimentos não eram só por Rossi. Sentado ali à mesa, peguei a mão de Helen

com uma das minhas mãos, e a da sua mãe, gasta pelo trabalho, com a outra, e segurei-as com força. N aquele momento, o mundo em que eu crescera, a sua discrição e os seus silêncios, os seus usos e costumes, o mundo em que eu estudara e obtivera sucesso e ocasionalmente tentara amar, pareceu-me tão remoto como a V ia L áctea. N ão teria conseguido dizer uma palavra mesmo que quisesse, mas, se a minha garganta não estivesse tão apertada, talvez tivesse encontrado uma maneira de dizer a essas duas mulheres, ligadas a Rossi de maneiras tão diferentes mas igualmente intensas, que sentia a presença dele entre nós.

Depois de um momento, H elen soltou discretamente a sua mão da minha, mas a mãe

inclinava-se para mim, fazendo uma pergunta com a sua voz suave.

— Ela quer saber como pode ajudá-lo a encontrar Rossi. Diga-lhe que já me ajudou, e que vou ler estas cartas assim que partirmos para ver se

podem levar-nos mais longe. Diga-lhe que a avisaremos quando o encontrarmos.

A mãe de H elen curvou a cabeça humildemente e levantou-se para vigiar o guisado

no fogão. C heirava maravilhosamente e até H elen sorriu, como se este regresso a um lar que não era o seu tivesse as suas compensações. A paz do momento deu-me coragem.

— P or favor, pergunte-lhe se sabe alguma coisa a respeito de vampiros que possa

ajudar-nos nas nossas buscas.

Quando H elen traduziu isto, vi que acabava de quebrar a nossa frágil calma. A mãe

desviou o olhar e fez o sinal da cruz, mas um momento depois pareceu estar a reunir forças para falar. Helen ouviu com atenção e abanou a cabeça.

— E la diz que não se deve esquecer de que um vampiro pode mudar de forma. P ode

vir até si de muitas formas.

E u queria saber exatamente o que aquilo queria dizer, mas a mãe de H elen já se levantara para nos servir com mãos trêmulas. O calor do fogão e o aroma da carne e do pão encheram a pequena casa e todos comemos com vontade, embora em silêncio. De vez em quando, a mãe de H elen oferecia-me mais pão, tocando-me no braço, ou servia-me de chá. A comida era simples mas deliciosa e abundante, e a luz do sol entrava pelas janelas da frente para iluminar a nossa refeição.

Quando acabamos, H elen foi lá para fora com um cigarro, e a mãe fez-me sinal para que eu a seguisse, contornando a casa. N a parte de trás, havia uma casota com algumas galinhas debicando à volta e uma coelheira com dois coelhos de orelhas compridas. A mãe de H elen pegou num dos coelhos e ficamos juntos amigavelmente, como num filme mudo, coçando a cabeça macia do animal enquanto ele piscava e esperneava um pouco. Através de uma das janelas, ouvia H elen a lavar a louça dentro de casa. O sol batia-me, morno, na cabeça e, para lá da casa, os campos verdejantes rumorejavam e ondulavam com um inesgotável otimismo.

C hegou a hora de partirmos, de caminharmos de volta ao autocarro, e guardei as cartas de Rossi na minha pasta. Ao sairmos, a mãe de H elen deteve-se à porta; não parecia querer atravessar a aldeia a pé para nos acompanhar até ao autocarro. Segurou as minhas mãos nas suas e apertou-as calorosamente, olhando-me no rosto.

— E la diz que lhe deseja só viagens seguras, e que encontre o que deseja — explicou Helen.

Olhei para dentro das trevas dos olhos da mulher mais velha e agradeci-lhe de todo o meu coração. E la abraçou H elen, segurando-lhe o rosto tristemente entre as mãos por um momento e em seguida deixou-nos ir.

No fim da rua, virei-me para trás para a ver outra vez. Estava parada à porta, uma das mãos apoiada na ombreira, como se a nossa visita a tivesse enfraquecido. L arguei a pasta no chão poeirento e corri para ela tão depressa que, por um momento, nem me dei conta de que me estava a mover. Então, lembrando-me de Rossi, abracei-a e beijei-lhe o rosto macio e marcado pelo tempo. E la agarrou-se a mim, uma cabeça mais baixa do que eu, e escondeu o rosto no meu ombro. Subitamente, afastou-se e desapareceu dentro de casa. P ensei que quisesse ficar sozinha com as suas emoções e virei-me também, mas um segundo depois ela estava de volta. P ara minha surpresa, agarrou na minha mão e fechou-a em torno de um objeto pequeno e duro.

Quando abri os dedos, vi um anel de prata com um pequeno brasão. C ompreendi logo que era o anel de Rossi, que ela estava a devolver-lhe por meu intermédio. O seu rosto estava radiante por cima do anel; os seus olhos escuros brilhavam. I nclinei-me e beijei-a novamente, desta vez nos lábios. Os seus lábios eram quentes e doces. Quando a deixei, dirigindo-me rapidamente para onde deixara H elen e a minha pasta, vi no rosto da mulher o brilho de uma única lágrima. L i algures que não há uma lágrima única, essa velha metáfora poética. E talvez não haja mesmo, porque a lágrima dela era companheira da minha.

Assim que nos sentamos no autocarro, tirei as cartas de Rossi e abri a primeira, com

cuidado. Ao contar isto, honrarei o desejo de Rossi de proteger a privacidade do seu amigo com um nom-de-plume um nom-de-guerre, como ele lhe chamara. Foi muito estranho ver de novo a escrita de Rossi aquela sua versão mais jovem e menos comprimida nas folhas amareladas.

— Vai ler as cartas aqui? — Helen, debruçada no meu ombro, parecia chocada. — Porquê, você consegue esperar?

— Não — admitiu.