O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 73 de 83

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O Historiador

Capítulo 70

Dezembro de 1963

Minha querida filha:

E stou agora em Nápoles, E ste ano, estou a tentar ser mais sistemática na minha pesquisa.

Nápoles é quente em Dezembro e ainda bem, porque estou com uma gripe forte. Nunca soube o

que significava estar só antes de vos deixar, porque nunca tinha sido amada como o teu pai me

amou e tu também, penso eu. A gora, sou uma mulher sozinha numa biblioteca, a assoar o nariz

e a tomar notas. Não sei se alguém alguma vez se sentiu tão solitário como eu estou aqui, e no

meu quarto de hotel. E m público, uso a minha écharpeou uma camisola de gola alta. E nquanto

almoço, sozinha, alguém sorri para mim e eu retribuo o sorriso. Depois, desvio o olhar. Tu não és

a única pessoa com quem não me posso relacionar.

A tua mãe que te adora, Helen

 

Fevereiro de 1964

Minha querida filha:

Atenas é suja e barulhenta, e tenho dificuldade em conseguir acesso aos documentos de que

preciso no I nstituto para a G récia M edieval, que me parece ser tão medieval como o seu

conteúdo. M as, esta manhã, sentada na A crópole, quase posso imaginar que um dia a nossa

separação vai acabar, e vamos sentar-nos tu, uma mulher adulta, talvez nestas pedras caídas e

contemplar a cidade de cima. Vejamos: vais ser alta como eu e como o teu pai, cabelos escuros

muito curtos, ou presos numa grossa trança? e usas óculos escuros e sapatos próprios para

caminhar, talvez um lenço na cabeça, se o vento estiver forte como hoje. E eu estarei a envelhecer,

enrugada, orgulhosa só de ti. Os empregados dos cafés vão olhar para ti e não para mim, eu vou

rir-me com orgulho e o teu pai vai olhar para eles por cima do jornal.

A tua mãe que te adora, Helen

 

Março de 1964

Minha querida filha:

A minha fantasia sobre a A crópole ontem foi tão forte que voltei aqui esta manhã só para

te escrever. E ntretanto, quando estava aqui sentada contemplando a cidade, a ferida no meu

pescoço começou a latejar, e pensei que uma presença próxima estava a alcançar-me, portanto só

pude olhar à volta constantemente, tentando ver alguém suspeito no meio da multidão de

turistas. Não consigo compreender por que razão esse demônio ainda não veio através dos

séculos para me encontrar. J á sou presa dele, já fui conspurcada, e de certo modo anseio por ele.

P or que não dá ele a estocada final e acaba com esta minha desgraça? M as, quando penso assim,

percebo que tenho de continuar a resistir-lhe, rodeando-me e protegendo-me com todos os

amuletos contra ele, e encontrar os seus muitos covis na esperança de o encontrar num deles,

apanhá-lo tão completamente desprevenido que talvez eu possa fazer história destruindo-o. Tu,

meu anjo perdido, és o fogo que está por detrás desta ambição desesperada.

A tua mãe que te adora, Helen