O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 32 de 83

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O Historiador

Capítulo 29

Descer de um comboio, mesmo de um comboio moderno, na G are du Nord , com a sua magnífica estrutura de ferro e vidro antigos, a sua beleza de balão cheio de luz, é entrar diretamente em P aris. B arley e eu descemos do comboio, segurando a bagagem, e ficamos de pé por alguns minutos absorvendo tudo aquilo. P elo menos, era o que eu estava a fazer, embora já tivesse ali estado muitas vezes, de passagem ou nas minhas viagens com o meu pai. A gare ecoava com o barulho dos freios dos comboios, de pessoas a falar, passos, apitos, o roçagar das asas dos pombos, o tilintar de moedas. Um velho com uma boina preta passou por nós de braço dado com uma jovem. O cabelo ruivo da rapariga estava lindamente penteado, usava batom cor-de-rosa e imaginei, por um momento, trocar de lugar com ela. Ah, ser igual a ela, ser parisiense, ser adulta e ter botas de salto alto e seios de verdade e um artista elegante e idoso ao lado’ E ntão, ocorreu-me que o homem podia ser o pai da rapariga, e senti-me muito sozinha.

V irei-me para B arley, que aparentemente tinha estado a absorver os cheiros, mais do que as imagens.

— M eu Deus, estou com fome — resmungou. — J á que estamos aqui, vamos aproveitar para comer bem.

Disparou para um dos cantos da estação, como se conhecesse o caminho de cor; o fato é que ele não só conhecia o caminho, mas também a mostarda e as fatias de presunto finamente cortadas, e depressa estávamos a comer duas grandes sanduíches embrulhadas em papel branco B arley nem sequer se deu ao trabalho de se sentar no banco que eu encontrara.

E u também estava com fome, mas sobretudo preocupada com o que fazer a seguir. Agora que estávamos fora do comboio, B arley poderia ir a qualquer telefone público e encontrar uma forma de ligar para M rs. C lay, ou para o reitor J ames, ou talvez para um exército de gendarmes que me levaria algemada de regresso a Amsterdã. Olhei para ele, desconfiada, mas o seu rosto estava quase totalmente escondido pela sanduíche. Quando finalmente emergiu para um gole de laranjada, pedi-lhe:

— Barley, queria pedir-lhe um favor.

— O que é, desta vez?

— P or favor, não faça nenhum telefonema. P or favor. B arley, não me traia. V ou sair daqui para o Sul, seja como for. Compreende que não posso ir para casa sem saber onde está o meu pai e o que está a acontecer-lhe, não compreende?

Ele bebeu o refresco gravemente.

— Compreendo.

— Por favor, Barley.

— Por quem me toma?

— N ão sei — disse, desconcertada. — P ensei que estivesse zangado comigo por ter fugido, e ainda se sentisse na obrigação de me denunciar.

— P ense um pouco — disse B arley. Se eu fosse realmente honesto, poderia agora

mesmo estar a voltar para casa, para as aulas de amanhã e para um raspanete do reitor J ames, consigo a reboque. M as aqui estou eu, obrigado, por galantaria... e curiosidade, a acompanhar uma dama até ao Sul de França sem pensar duas vezes. Acha que eu gostaria de perder esta oportunidade?

— Não sei — repeti, mais grata, desta vez.

— É melhor irmos pedir informações sobre o próximo comboio para P erpignan — disse

Barley, dobrando a embalagem da sanduíche com decisão.

— Como é que descobriu? — perguntei, surpreendida. — Ah, com que então acha-se muito misteriosa — B arley parecia outra vez irritado. —

N ão lhe traduzi toda aquela história sobre o vampiro na biblioteca de Oxford? P or onde iria começar, se não por aquele mosteiro nos P irenéus Orientais? C omo se eu não conhecesse o mapa da França! Vamos, deixe de me lançar esse olhar mal-humorado. T orna-lhe o rosto tão menos piquant.

E fomos na direção do bureau de change de braço dado.

 

Quando Turgut pronunciou o nome de Rossi com aquele inconfundível tom de

familiaridade, tive a súbita sensação de um mundo que mudava, de pedaços de cor e de forma a serem tirados dos seus lugares e a formarem uma imagem absurda e complexa. E ra como se estivesse a assistir a um filme conhecido e, sem mais nem menos, uma personagem que nunca fizera parte dele entrasse no ecrã, juntando-se à ação, imperceptivelmente, mas sem qualquer explicação.

— O senhor conhece o professor Rossi? — repetiu Turgut, no mesmo tom. E u ainda

estava sem fala, mas Helen parecia ter tomado uma decisão.

— O professor Rossi é o orientador de P aul no departamento de H istória da nossa

universidade.

— Mas isso é incrível — disse Turgut lentamente. — Já ouviu falar dele? — perguntei.

— N unca o conheci pessoalmente — disse Turgut. — Ouvi falar dele de uma forma

bastante singular. P or favor, isso é uma história que preciso lhes contar, acho. Sentem-se, meus amigos. — Fez um gesto hospitaleiro, mesmo no meio do seu espanto. H elen e eu tínhamo-nos levantado de um salto, mas sentamo-nos novamente junto dele. — H á aqui algo de extraordinário — e interrompeu-se, parecendo obrigar-se a explicar-nos. — H á anos atrás, quando me apaixonei por este arquivo, pedi ao bibliotecário todas as informações possíveis sobre ele. C ontou-me que, tanto quanto se lembrava, nunca tinha sido examinado por mais ninguém, mas achava que o seu antepassado — quero dizer, o bibliotecário antes dele — sabia alguma coisa sobre o assunto. Fui falar com o antigo bibliotecário.

— Ainda é vivo? — perguntei, com a voz entrecortada.

— Oh, não, meu amigo. Sinto muito. J á era muito idoso na época, e morreu um ano depois de falar comigo, creio. M as a sua memória era excelente, e contou-me que tinha trancado a coleção porque tinha uma má sensação a respeito dela. Disse que um professor estrangeiro a tinha visto certa vez e ficara muito... como se diz?... muito transtornado e quase louco, e de repente saíra a correr para fora do edifício. O velho bibliotecário disse que, uns dias depois de isto acontecer, estava ele sozinho na biblioteca a trabalhar em alguma coisa e, quando levantou o olhar, deu com um homem alto a examinar os mesmos documentos. N inguém tinha entrado e a porta da rua estava trancada porque já era de noite e passava do horário de abertura ao público. N ão percebia como é que o homem entrara. P ensou que afinal talvez não tivesse trancado a porta e não tivesse ouvido o homem subir as escadas, embora lhe parecesse pouco plausível. Depois contou-me — Turgut inclinou-se para a frente e baixou ainda mais a voz —, contou-me que, quando se aproximou do homem para lhe perguntar o que estava a fazer, o homem levantou a cabeça e — vejam bem — tinha um fio de sangue a escorrer-lhe de um canto da boca.

Senti uma onda de repugnância e H elen levantou os ombros, como se reprimisse um calafrio.

— A princípio, o velho bibliotecário não queria contar-me essa história. C reio que receava que eu pensasse que estava a ficar senil. C ontou-me que aquela cena o deixou prestes a desmaiar, e, quando olhou novamente, o homem tinha saído. M as os documentos ainda estavam espalhados sobre a mesa e, no dia seguinte, ele comprou esta caixa sagrada no mercado de antiguidades e colocou os documentos dentro dela. M anteve-os trancados e disse que ninguém mais lhes voltou a mexer enquanto ele foi bibliotecário aqui. N unca mais viu o homem estranho.

— E Rossi? — perguntei.

— B em, eu estava decidido a investigar todas as pistas dessa história, por isso perguntei-lhe o nome do investigador, mas ele não conseguia lembrar-se de nada, exceto que pensava que fosse italiano. Disse-me para procurar nos registros de 1930, se quisesse, e o meu amigo aqui permitiu-me fazê-lo. E ncontrei o nome do professor Rossi depois de pesquisar um pouco, e descobri que era de I nglaterra, de Oxford. E escrevi-lhe uma carta, para Oxford.

— Ele respondeu-lhe? — Helen estava quase a devorar Turgut com os olhos.

— Sim, mas já não estava em Oxford. T inha ido para uma universidade americana — H arvard e a carta só lhe chegou depois de muito tempo, e foi então que respondeu. Disse que sentia muito, mas não sabia nada sobre o arquivo a que me referia e não podia ajudar-me. H ei-de mostrar-lhes a carta no meu apartamento, quando forem jantar comigo. Chegou pouco antes da guerra.

— É muito estranho — murmurei. — Não consigo entender.

— B em, e não é o mais estranho de tudo — disse Turgut, com veemência. V irou-se para o pergaminho sobre a mesa, para a bibliografia, e o seu dedo procurou o nome de Rossi no fim da lista. — Olhando para o nome, vi outra vez as palavras que vinham depois. E stavam em latim, tinha certeza, embora o meu latim, que remontava aos primeiros dois anos de faculdade, jamais tivesse sido digno de nota e agora estava, no mínimo, enferrujado.

— O que diz aí? O senhor sabe latim?

— Para meu alívio, Turgut fez que sim com a cabeça. — Aqui diz: "Bartolomeo Rossi, O Espírito o Fantasma na Ânfora." Os meus pensamentos giraram, num turbilhão. — M as eu conheço essa frase. Acho... tenho certeza de que é o título do artigo em que

ele tem estado a trabalhar nesta P rimavera. — I nterrompi-me. — E stava a trabalhar. E le mostrou-me o artigo há menos de um mês. É sobre a tragédia grega e os objetos que os teatros gregos às vezes usavam como adereços no palco. — H elen estava a olhar para mim com atenção. — É... tenho certeza de que se trata do seu trabalho atual.

— O que é muito, muito estranho — disse Turgut, e desta vez detectei o medo na sua

voz —, é que já olhei para esta lista muitas vezes e nunca tinha visto esta inserção. Alguém acrescentou aqui o nome de Rossi.

Olhei para ele, pasmado.

— Descubra quem foi — disse eu, a custo. — Temos de descobrir quem andou a alterar

estes documentos. Quando foi a última vez que aqui esteve?

— H á cerca de três semanas — disse Turgut, sombriamente. — E sperem, por favor;

vou perguntar primeiro a Mr. Erozan. Não saiam daqui.

M as, logo que ele se levantou, o atento bibliotecário viu-o e veio na sua direção.

Trocaram algumas palavras rápidas.

— O que foi que ele disse? — perguntei.

— C omo é que ele não se lembrou de me contar antes? — lamentou-se Turgut. —

Ontem, veio aqui um homem e examinou esta caixa. — I nterrogou novamente o amigo, e o bibliotecário apontou para a porta. — Foi aquele homem que entrou há pouco, aquele homem com quem ele estava a falar.

V oltamo-nos, aterrorizados, e o bibliotecário apontou novamente, mas era tarde

demais. O homenzinho com o gorro branco e a barba grisalha tinha desaparecido.

 

Barley estava a revistar a carteira.

— B em, precisamos de trocar todo o dinheiro que tenho — disse, num tom aborrecido.

— Tenho o dinheiro do reitor James e mais algumas libras da minha mesada.

— E u trouxe algum dinheiro — disse eu. — De Amsterdã, quero dizer. P ago os bilhetes

para o Sul, e penso que posso pagar as nossas refeições e a nossa hospedagem, pelo menos por uns dias.

Estava a pensar, comigo própria, se poderia pagar o apetite de Barley. Era estranho que uma pessoa tão magra pudesse comer tanto. E u também ainda era magra, mas não conseguia imaginar-me a engolir duas sanduíches com a velocidade que B arley tinha acabado de demonstrar. J ulgava que a preocupação com o dinheiro fosse a única razão do insistente peso na minha mente até chegarmos ao balcão de câmbio e uma rapariga com u m blazer azul-escuro olhar para nós. B arley falou com ela sobre a taxa de câmbio e, em seguida, ela pegou no telefone e virou-nos as costas para falar junto do bocal do telefone.

— O que está ela a fazer? — sussurrei, nervosa, para B arley. E le olhou para mim, um pouco espantado.

— E stá a verificar o câmbio, por algum motivo — disse. — N ão sei. O que pensou que fosse?

N ão conseguia explicar. Talvez fosse só a influência perniciosa das cartas do meu pai, mas tudo me parecia suspeito. Era como se estivéssemos a ser seguidos por olhos que eu não conseguia ver.

 

Turgut, que parecia ter mais presença de espírito do que eu, correu para a porta e desapareceu no pequeno vestíbulo. Um segundo depois, estava de volta, a abanar a cabeça.

— Desapareceu — anunciou, com o rosto carregado. — N ão vi sinal dele na rua. Desapareceu no meio da multidão.

M r. E rozan parecia estar a desculpar-se, e Turgut falou com ele durante alguns segundos. Depois, virou-se para nós outra vez.

— H á algum motivo para imaginar que os senhores possam ser perseguidos aqui, por causa da vossa pesquisa?

— P erseguidos? — E u tinha todas as razões do mundo para pensar que sim, mas, perseguidos por quem, exatamente, não fazia a menor idéia.

Turgut olhou penetrantemente para mim e lembrei-me do aparecimento da cigana à nossa mesa na noite anterior.

— O meu amigo bibliotecário diz que esse homem queria ver os documentos que estávamos a examinar, e ficou zangado quando viu que já estavam a ser usados. Diz que o homem falava turco mas com sotaque, e ele acha que era estrangeiro. P or isso é que pergunto se alguém os está a seguir. M eus caros colegas, vamos sair daqui, mas fiquemos vigilantes. Disse ao meu amigo para vigiar os documentos e tomar nota se esse homem ou qualquer outra pessoa vier procurá-los. E le vai tentar descobrir quem é esse homem, se ele voltar. Talvez, se nos formos embora, ele volte mais depressa.

— M as os mapas! — P reocupava-me ter de deixar aqueles preciosos documentos na caixa. Além do mais, o que é que tínhamos descoberto até então? N ão tínhamos sequer começado a resolver o quebra-cabeça dos três mapas, mesmo ali parados a olhar para a sua miraculosa realidade sobre a mesa da biblioteca.

Turgut voltou-se novamente para M r. E rozan e um sorriso, um sinal de entendimento

mútuo, passou entre eles.

— N ão se preocupe, professor — tranquilizou-me Turgut. — Fiz cópias de todas estas

coisas, eu mesmo, à mão, e essas cópias estão em segurança no meu apartamento. Além disso, o meu amigo não permitirá que aconteça alguma coisa aos originais. P odem acreditar em mim.

E u queria acreditar. H elen estava a observar os nossos dois novos amigos e tive

curiosidade em saber o que pensava de tudo aquilo.

— Muito bem — concordei.

— Venham, meus amigos. — Turgut começou a recolher os documentos,

manuseando-os com um carinho que eu próprio não teria sido capaz de imitar.

— C reio que temos muito a discutir em privado. V ou levá-los para o meu apartamento

e lá conversaremos. Também posso mostrar-lhes mais material que consegui reunir sobre este assunto. N ão falemos dessas coisas na rua. Vamos sair da maneira mais visível que pudermos e... — gesticulou com a cabeça para o bibliotecário — vamos deixar o nosso melhor general a guardar o baluarte.

Mr. Erozan apertou a mão a cada um de nós, trancou cuidadosamente a caixa e levou-

a, desaparecendo entre as estantes de livros ao fundo da sala. Acompanhei-o com o olhar até desaparecer por completo, e então suspirei alto, involuntariamente. Não conseguia tirar da cabeça a idéia de que o destino de Rossi ainda estava escondido naquela caixa quase, Deus me perdoe, como se o próprio Rossi estivesse ali sepultado e não tivéssemos sido capazes de o resgatar.

Depois, deixamos o edifício, parando ostensivamente nos degraus por alguns minutos e

fingindo conversar. Os meus nervos estavam arrasados e H elen estava pálida, mas Turgut mostrava-se muito calmo.

— Se andar a rondar por aqui — disse ele, em voz baixa —, o malandro saberá que nos

vamos embora.

Ofereceu o braço a H elen, que o aceitou com menos relutância do que eu teria

previsto, e partimos juntos pelas ruas cheias de gente. E ra a hora do almoço e os odores de carne a assar e de pão quente vinham de todos os lados, misturando-se com um cheiro úmido que podia ser fumo de carvão ou óleo diesel, um cheiro que às vezes ainda me vem à memória sem aviso e que para mim significa o limiar do mundo oriental. O que viesse a seguir, pensei, seria outro enigma, como todo aquele lugar olhei à minha volta para os rostos da multidão turca, para as torres esguias dos minaretes no horizonte de cada rua, as cúpulas antigas entre as figueiras, as lojas cheias de objetos misteriosos era um enigma. O maior enigma de todos apertou-me novamente o coração e fê-lo doer:

Onde estaria Rossi? E staria ali, naquela cidade, ou muito longe dali? V ivo, morto, ou

num estado intermédio entre as duas coisas?