O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 65 de 83

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O Historiador

Capítulo 62

H ouve poucas ocasiões em todos os meus anos de pesquisa, escrita e pensamento em

que tivesse sido acometido por um acesso tão repentino de lucidez como no momento em que H elen formulou a sua hipótese em voz alta na biblioteca de Rila. Vlad Drácula tinha voltado a C onstantinopla por causa da sua cabeça — ou, antes, o abade de Snagov enviara o seu corpo para lá com o intento de o reunir à cabeça. Teria Drácula pedido de antemão que isto fosse feito, sabendo a recompensa que em vida fora prometida pela sua famosa cabeça, conhecendo o pendor do sultão para exibir a cabeça dos seus inimigos à populaça? Ou teria o abade chamado a si essa missão, não querendo que o corpo sem cabeça do seu possivelmente herético ou perigoso patrono permanecesse em Snagov? Sem dúvida que um vampiro sem cabeça não era uma grande ameaça — a cena era quase cómica, mas as perturbações entre os seus monges podiam ter convencido o abade a dar a Drácula um enterro cristão apropriado noutro lugar. E ra pouco provável que o abade se tivesse incumbido da destruição do corpo do seu príncipe. E quem sabe que promessas o abade fizera a Drácula anteriormente?

Uma imagem singular voltou-me à mente: o palácio T opkapi em I stambul, onde fora

passear naquela recente manhã ensolarada, e os portões onde os carrascos otomanos tinham exibido as cabeças dos inimigos do sultão. A cabeça de Drácula teria merecido uma das estacas mais altas, pensei — o E mpalador finalmente empalado. Quantas pessoas teriam ido vê-la, aquela prova do triunfo do sultão? H elen contou-me certa vez que mesmo os habitantes de I stambul tinham temido Drácula, receando que ele pudesse fazer chegar as suas tropas à própria cidade. J á nenhum acampamento turco precisaria tremer à sua aproximação; o sultão assumira finalmente o controle daquela região conturbada e podia instalar um vassalo otomano no trono da Valáquia, como quisera fazer anos antes. Tudo o que restava do Empalador era um horrível trofeu, com os seus olhos baços e o cabelo e o bigode emaranhados, cobertos de sangue coagulado.

O nosso companheiro parecia estar a meditar sobre uma imagem semelhante. L ogo que

nos certificamos de que o irmão Rumem saíra, ele disse em voz baixa:

— Sim, é bem provável. M as como é que os monges de P anachrantos tiraram a cabeça

de Drácula do palácio do sultão? E ra de fato um tesouro, como a definiu Stefan na sua narrativa.

— C omo é que nós conseguimos vistos para entrar na B ulgária? — perguntou H elen,

levantando as sobrancelhas. — Bakshish. Uma quantia enorme. Os mosteiros estavam bastante empobrecidos depois da conquista, mas alguns deles poderiam ter reservas escondidas: moedas de ouro, jóias, que tentariam até mesmo os guardas do sultão.

Ponderei a questão.

— O nosso guia de I stambul dizia que as cabeças dos inimigos do sultão eram atiradas

ao Bósforo depois de ficarem algum tempo expostas. Talvez alguém de Panachrantos tenha interceptado a cabeça nessa etapa do processo. Seria menos perigoso do que tentar tirá-la dos portões do palácio.

— N ão temos maneira de saber a verdade quanto a isso — disse Stoichev, mas acho que o palpite de M iss Rossi é muito bom. Resgatar a cabeça dele seria o objetivo mais provável dos monges em Tsarigrado. H á uma boa razão teológica, igualmente, para terem feito isso. De acordo com as nossas crenças ortodoxas, o corpo deve estar, tanto quanto possível, inteiro na morte — não praticamos a cremação, por exemplo porque no Dia do Juízo Final ressuscitaremos nos nossos corpos.

— E quanto aos santos, com as suas relíquias espalhadas por toda a parte? — perguntei, com ceticismo. — C omo serão ressuscitados inteiros? Sem falar que, há alguns anos, vi cinco mãos de S. Francisco em Itália.

Stoichev achou graça.

— Os santos têm privilégios especiais — respondeu. — M as Vlad Drácula, apesar de ser um excelente matador de Turcos, não era certamente um santo. De fato, pelo menos de acordo com a narrativa de Stefan, E upraxius estava bastante preocupado com a alma imortal de Drácula.

— Ou com o seu corpo imortal — observou Helen.

— Quer dizer — resumi — que talvez os monges de P anachrantos tenham levado a cabeça para dar a Drácula um enterro apropriado, com o risco das suas vidas, e os janízaros descobriram o roubo e começaram a procurar, e por isso o abade mandou-a para fora de I stambul em vez de a enterrar ali. Talvez houvesse peregrinos que iam à B ulgária de tempos a tempos — relanceei os olhos para Stoichev esperando a sua confirmação — e a cabeça foi enviada para ser enterrada em, digamos, Sveti G eorgi, ou em qualquer outro mosteiro búlgaro onde eles tinham contatos. E então os monges de Snagov chegaram, mas tarde demais para juntar o corpo à cabeça, e o abade de Panachrantos soube disso e foi falar com eles, e os monges de Snagov decidiram completar a sua missão indo atrás dos outros com o corpo. Além do mais, tinham de partir antes que os janízaros se interessassem também por eles.

— M uito bom, como especulação — Stoichev dirigiu-me um largo sorriso. — C omo eu disse, não podemos saber com certeza porque são fatos que os nossos documentos apenas insinuam. M as não há dúvida de que traçou um esboço convincente deles. Vamos acabar por fazer com que deixe os mercadores holandeses de lado.

Senti o meu rosto corar, em parte por prazer e em parte por vergonha, mas o sorriso dele era cordial.

— E ntão, a rede otomana foi alertada pela presença e pela partida dos monges de Snagov — H elen deu seguimento à possível história — e talvez tenham revistado os mosteiros e descoberto que os monges tinham estado em Santa I rina, e mandaram informações sobre a viagem dos monges para os seus homens ao longo do percurso deles — talvez para E dirne e depois para H askovo. H askovo foi a primeira grande cidade búlgara onde os monges entraram, e é lá que são qual é o termo? Detidos.

— Sim — terminou Stoichev. — Os funcionários otomanos torturaram dois deles para

obter informações, mas os dois corajosos monges nada disseram. E os oficiais revistaram a carroça e só encontraram comida. M as isto levanta uma questão: por que é que os soldados otomanos não encontraram o corpo?

Hesitei.

— Talvez não estivessem à procura de um corpo. Talvez ainda estivessem à procura

da cabeça. Se os janízaros não tivessem descoberto muita coisa em I stambul sobre toda a questão, poderiam pensar que os monges de Snagov transportavam a cabeça. A "C rônica" de Zacharias diz que os Otomanos ficaram muito zangados quando abriram umas trouxas e só encontraram comida. O corpo poderia ter sido escondido nos bosques dos arredores se os monges tivessem sido avisados de que haveria uma busca.

— Ou talvez tenham construído a carroça de tal modo que houvesse um lugar especial

para o esconder — sugeriu Helen.

— Mas um cadáver iria cheirar mal — lembrei, sem rodeios. — Depende daquilo em que acreditas. — E fez-me o seu sorriso zombeteiro,

encantador.

— Daquilo em que acredito?

— Sim. E stás a ver, um corpo que corre o risco de se transformar num morto-vivo, ou

que já se transformou, não se deteriora, decompõe-se mais lentamente. De acordo com a tradição, quando os aldeões da E uropa Oriental suspeitavam de vampirismo, desenterravam os cadáveres para verificar a decomposição e destruíam ritualmente os que não estavam a decompor-se da maneira adequada. Ainda fazem isso às vezes. M esmo agora.

Stoichev estremeceu.

— Uma atividade bem peculiar. Ouvi falar disso até na B ulgária, se bem que hoje, é

claro, seja ilegal. A I greja sempre censurou a profanação de túmulos, e agora o nosso governo desencoraja todas as superstições... tanto quanto pode.

Helen quase encolheu os ombros.

— É mais estranho isso do que esperar pela ressurreição dos corpos? — perguntou ela,

mas sorriu para Stoichev e também ele ficou encantado.

— M inha senhora — disse ele —, temos interpretações muito diferentes da nossa

herança cultural, mas cumprimento-a pela sua agilidade mental. E agora, meus amigos, gostaria de ter algum tempo para estudar os vossos mapas. Ocorreu-me que há material nesta biblioteca que pode auxiliar-me na leitura deles. Dêem-me uma hora o que vou fazer agora vai ser aborrecido para vocês e demorado de explicar.

Ranov acabara de entrar outra vez, desassossegado, e ficou a olhar em volta da sala. Eu

esperava que ele não tivesse ouvido a referência aos nossos mapas. Stoichev pigarreou.

— Talvez queiram visitar a igreja e admirar a sua beleza.

Stoichev olhou de relance para Ranov. H elen levantou-se imediatamente e dirigiu-se a Ranov para o envolver numa complicação qualquer, enquanto eu procurava discretamente na minha pasta e tirava as minhas cópias dos mapas. Quando vi a sofreguidão com que Stoichev lhes pegou, o meu coração deu um salto de esperança.

I nfelizmente, Ranov parecia mais interessado em bisbilhotar o trabalho de Stoichev e confabular com o bibliotecário do que em seguir-nos, embora eu desejasse ardentemente que conseguíssemos arrastá-lo para fora.

— P ode ajudar-nos a encontrar um sítio para jantar? — perguntei-lhe. O bibliotecário permaneceu calado, observando-me com cuidado. Ranov sorriu.

— E stá com fome? Ainda não são horas da refeição aqui, que é uma ceia às seis horas. Vamos esperar por ela. Infelizmente, temos de comer com os monges.

V irou-nos as costas e começou a examinar uma prateleira de volumes encadernados em couro, encerrando a conversa.

Helen seguiu-me até à porta e agarrou-me na mão.

— Vamos dar uma volta? — propôs, assim que saímos.

— N ão tenho certeza se ainda sei fazer alguma coisa sem Ranov por perto — disse eu, mordaz. — De que é que vamos conversar, sem a companhia dele?

Ela riu, mas reparei que também estava preocupada.

— Será melhor eu voltar e tentar novamente distraí-lo?

— N ão — decidi. — É melhor não. Quanto mais fizermos isso, mais ele vai querer saber de que é que Stoichev está à procura. N ão podemos livrar-nos dele, é como querer livrar-se de uma mosca.

— Ele dava uma boa mosca.

H elen deu-me o braço. O sol estava ainda brilhante no pátio, e quente, quando saímos da sombra das imensas muralhas e galerias do mosteiro. Ao olhar para cima, avistava as encostas cobertas de florestas em volta do mosteiro, e os picos rochosos verticais acima delas. N o alto, ao longe, uma águia inclinou-se para um lado e volteou no céu. M onges vestidos com pesadas túnicas negras e cintos, chapéus negros de copa alta e compridas barbas negras, iam e vinham entre a igreja e o piso térreo do mosteiro, ou varriam os soalhos de madeira das galerias, ou sentavam-se num triângulo de sombra perto do pórtico da igreja. P erguntava-me como é que eles suportavam o calor do Verão com aqueles trajes. O interior da maravilhosa igreja esclareceu-me um pouco: tinha a frescura de uma daquelas construções erguidas em cima de riachos para refrigerar os alimentos, iluminada apenas por velas tremeluzentes e o cintilar do ouro, do latão dourado, das jóias. As paredes interiores tinham motivos decorativos em dourado e pinturas com imagens de santos e profetas.

— T rabalho do século dezenove — disse H elen, segura; e eu fiz uma pausa diante de uma imagem particularmente sóbria, um santo com uma longa barba comprida e cabelo branco impecavelmente dividido ao meio, que olhava diretamente para nós. H elen soletrou a inscrição perto do seu halo: — "Ivan Rilski."

— Aquele cujos ossos foram trazidos para cá oito anos antes de o nosso amigo valáquio

ter entrado na Bulgária? A "Crônica" menciona-o.

— Sim. — H elen demorou-se diante da imagem, como se achasse que poderia falar

conosco caso ela esperasse o suficiente.

A espera infindável estava a dar-me cabo dos nervos. — H elen, vamos fazer uma caminhada — sugeri. — P odemos subir a montanha ali e

ver a paisagem.

Se não fizesse um pouco de exercício, ficaria maluco de tanto pensar em Rossi. — E stá bem H elen — concordou e olhou-me atentamente, como se adivinhasse a

minha impaciência. — Se não for demasiado longe. Ranov nunca permitiria que nos afastássemos muito.

O caminho montanha acima serpenteava através de uma densa floresta que nos

protegia do calor da tarde tanto como a igreja o fizera. Era tão bom ficar livre de Ranov que, durante alguns minutos, balancei com simplicidade a mão de H elen para a frente e para trás enquanto andávamos.

— Achas que foi difícil para ele escolher entre nós e Stoichev? — Ah, não — respondeu H elen, categórica. — E le certamente mandou alguém seguir-

nos. Vamos encontrar essa pessoa, seja quem for, daqui a algum tempo, principalmente se ficarmos longe mais de meia hora. Provavelmente, tem ordens para não nos deixar sozinhos e tem de vigiar Stoichev para descobrir aonde nos vai levar a nossa pesquisa.

— Falas de uma maneira tão óbvia — disse-lhe, contemplando o seu perfil enquanto

ela caminhava pelo caminho de terra. E mpurrara o chapéu para trás e o rosto estava um pouco afogueado. — N ão consigo imaginar como deve ter sido crescer sabendo todas essas coisas cínicas, viver sob vigilância.

Helen encolheu os ombros.

— Não parecia tão terrível porque eu não conhecia nada de diferente. — E no entanto quiseste sair do teu país e ir para o Ocidente. — Sim — disse ela, olhando-me de esguelha. — E u quis sair do meu país. — P aramos

para descansar por alguns minutos numa árvore caída perto do caminho.

— Tenho pensado na razão por que nos deixaram vir à B ulgária — confessei. Até ali,

no meio do bosque, eu baixava a voz. — E por que razão nos deixam vaguear por aí sozinhos. — Ela assentiu. — Já pensaste nisso? Tenho a impressão — disse eu devagar — de que, se não nos estão a impedir de encontrar o que quer que seja que estamos a procurar, o que poderiam fazer facilmente, é porque querem que encontremos o que procuramos.

— Muito bem, Sherlock. Estás a aprender umas coisas. — P ortanto, digamos que eles de fato sabem ou desconfiam do que estamos à procura.

O que os levaria a pensar que fosse possível que Vlad Drácula fosse um morto-vivo? — Foi-me difícil dizer isto em voz alta, embora a minha voz não passasse de um sussurro. — Tu mesma me disseste muitas vezes que os governos comunistas desprezam as superstições dos camponeses. P or que é que eles nos encorajariam desta maneira, não nos impedindo de agir? Pensarão que podem obter alguma espécie de poder sobrenatural sobre o povo búlgaro se encontrarmos a tumba dele aqui?

Helen sacudiu a cabeça.

— N ão deve ser isso. O interesse deles tem certamente a ver com poder, mas tem sempre uma abordagem científica. Além disso, se houver alguma descoberta interessante, não vão querer que seja um Americano a receber os louros por ela. — Refletiu um pouco. — P ensa bem, o que poderia ser mais importante para a ciência do que a descoberta de que os mortos podem ser trazidos de regresso à vida ou à morte em vida, em todo o caso? Sobretudo para o B loco de L este, com os seus grandes líderes embalsamados nos seus mausoléus?

A visão do rosto cor de cera de G eorgi Dimitrov no mausoléu de Sofia veio-me à mente num relance.

— M ais uma razão para destruir Drácula — disse eu, mas podia sentir a transpiração a brotar-me na testa.

— E eu pergunto-me — disse H elen, sombria — se destruí-lo faria assim tanta diferença no futuro. Vê o que Stalin fez com o seu povo, e H itler. N ão precisaram viver quinhentos anos para cometer aqueles horrores.

— Eu sei — disse eu. — Também já pensei nisso.

— O mais estranho, sabes, é que Stalin admirava abertamente I van, o Terrível. Dois líderes dispostos a esmagar e a matar o seu próprio povo, a fazer qualquer coisa para consolidar o seu poder. E quem achas que Ivan, o Terrível, admirava?

Senti o sangue a fugir-me do coração.

— Disseste-me que há muitas histórias russas sobre Drácula.

— Sim. Exatamente.

Olhei fixamente para ela.

— P odes imaginar um mundo em que Stalin vivesse durante quinhentos anos? — Raspou com a unha um pedaço macio do tronco da árvore. — Ou talvez para sempre?

Dei comigo a cerrar os punhos.

— Achas que podemos encontrar um túmulo medieval sem indicar o caminho a mais ninguém?

— Vai ser muito difícil, talvez impossível. E les têm gente por toda a parte. — N esse momento, um homem surgiu de uma curva do caminho. Apanhei um susto tão grande com a sua aparição repentina que quase deixei escapar um palavrão em voz alta. M as era uma pessoa de aspecto simples, vestido com trajes grosseiros e com um feixe de ramos secos ao ombro, que acenou jovialmente para nós e prosseguiu o seu caminho. Olhei para Helen.

— Viste? — disse ela em voz baixa.

Encontramos um afloramento rochoso no meio da subida para a montanha.

— Vamos sentar-nos aqui uns minutos — disse Helen.

O vale alcantilado e coberto de vegetação encontrava-se muito abaixo de nós, quase

todo ocupado pelos muros e telhados vermelhos do mosteiro. Agora, víamos claramente as enormes dimensões do conjunto de edifícios. Formava uma concha angulada em torno da igreja, cujas cúpulas reluziam à luz da tarde, e a torre Hrelyo elevava-se no meio.

— Vê-se bem aqui de cima como o lugar era bem fortificado. I magina quantas vezes os

inimigos devem ter olhado lá para baixo, como estamos a fazer.

— Ou os peregrinos — lembrou H elen. — P ara eles, devia ser um destino espiritual,

não um desafio militar.

E ncostou-se a um tronco de árvore, alisando a saia. T inha largado a bolsa, tirado o

chapéu e arregaçado as mangas da blusa clara para aliviar o calor. Uma leve transpiração aparecia-lhe na testa e nas faces. O seu rosto tinha a expressão de que eu mais gostava estava absorta nos seus pensamentos, olhando para dentro e para fora ao mesmo tempo, os olhos muito abertos e atentos, o queixo firme; por qualquer razão, eu gostava ainda mais daquele olhar do que dos que ela me dirigia diretamente. Usava o lenço em volta do pescoço, embora a marca do bibliotecário se tivesse reduzido a uma contusão, e o pequeno crucifixo brilhava abaixo dela. Senti uma pontada de tristeza ao contemplar a sua beleza severa, não só de desejo físico, mas de algo próximo da admiração reverente perante a sua perfeição. Ela era intocável, minha mas perdida para mim.

— H elen — disse eu, sem segurar a mão dela. N ão tivera intenção de falar, mas não

podia conter-me. — Gostaria de te perguntar uma coisa.

E la concordou com um gesto da cabeça, os olhos e os pensamentos ainda virados para

o imenso santuário lá em baixo.

— Helen, queres casar comigo?

E la virou-se lentamente para mim e eu não sabia se era espanto, vontade de rir ou

prazer o que via no seu rosto.

— Paul — disse ela, com ar sério. — Há quanto tempo nos conhecemos? — Vinte e três dias — admiti.

Apercebi-me naquele momento que não pensara com cuidado no que faria se ela

dissesse que não, mas era demasiado tarde para retirar o pedido, para o deixar para outra altura. E , se ela dissesse não, eu não podia atirar-me do alto de uma montanha no meio da minha tentativa para encontrar Rossi, ainda que ficasse tentado a fazê-lo.

— Achas que me conheces?

— De maneira nenhuma — respondi, lealmente. — E achas que eu te conheço?

— Não tenho certeza.

— Temos tão pouca experiência um do outro. P ertencemos a mundos completamente

diferentes. — E la sorriu desta vez, como para amenizar a crueza das palavras. — Além disso, sempre achei que não me casaria. N ão sou do gênero de casar. E quanto a isto? — T ocou no lenço que tinha ao pescoço. — C asavas-te com uma mulher que foi marcada pelo demônio?

— Eu protegia-te de qualquer demônio que se aproximasse de ti.

— E isso não seria um fardo demasiado pesado? E como poderíamos ter filhos — o seu olhar era duro e direto — sabendo que poderiam ser, de alguma forma, afetados por esta contaminação?

Era-me difícil falar, de tal modo tinha a garganta apertada.

— Então, a tua resposta é não, ou devo perguntar-te outra vez, noutra altura?

A mão dela eu não podia imaginar a vida sem aquela mão, com as suas unhas de pontas quadradas e a pele macia sobre os ossos duros fechou-se sobre a minha e pensei de repente que não tinha um anel para colocar nela.

Helen lançou-me um olhar grave.

— A resposta é que, evidentemente, quero casar contigo.

Depois de semanas procurando em vão a outra pessoa que eu mais amava no mundo, estava demasiado atordoado pela facilidade desta descoberta para dizer fosse o que fosse ou sequer beijá-la. Ficamos sentados em silêncio, olhando para os vermelhos e dourados e cinzentos do vasto mosteiro.