O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 50 de 83

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O Historiador

Capítulo 47

Meu querido amigo,

Não consigo imaginar o que irá pensar desta correspondência estranha e unilateral quando

finalmente lhe chegar às mãos, mas sinto-me impelido a continuar, ainda que seja apenas para

tomar notas para mim mesmo. Ontem à tarde, regressamos à aldeia no A rges de onde iniciamos

a nossa viagem até à fortaleza de Drácula, e G eorgescu partiu para Snagov, com um abraço

caloroso, um abanão nos meus ombros e o desejo de que possamos um dia retomar o contato um

com o outro. Foi o mais bem-humorado dos guias e certamente vou sentir a sua falta. No último

momento, senti uma pontada de culpa por não lhe ter contado tudo o que vi em I stambul, mas

não consegui romper o meu próprio silêncio. De qualquer forma, ele não teria acreditado,

portanto não valeria a pena contar-lhe. P odia imaginar muito bem a sua risada franca, o seu

científico sacudir de cabeça, a sua troça da minha fantástica imaginação.

P ediu-me que viajasse com ele até T ârgoviste, mas eu já tinha resolvido ficar mais alguns

dias nesta região para visitar algumas igrejas e mosteiros locais e aprender, talvez, um pouco

sobre a área que circundava o baluarte de Vlad. E sta foi pelo menos a justificação que dei a mim

mesmo e a G eorgescu, e ele recomendou-me vários locais que Drácula sem dúvida terá visitado

em vida. P enso que tinha outra motivação, meu amigo, que é a sensação de que talvez nunca

mais volte a um lugar assim, tão remoto, tão distante das minhas pesquisas habituais e tão

pungentemente belo. Tendo decidido passar aqui os meus últimos dias livres em vez de correr

para a G récia antes do previsto, tenho-me descontraído um pouco na taberna, tentando

melhorar os meus conhecimentos de Romeno, tentando com pouco sucesso conversar com os mais

velhos sobre as lendas da região. Hoje passeei pelos bosques próximos da aldeia e cheguei a um

altar solitário, debaixo de uma árvore. Foi construído com pedras antigas e tem um telhado de

colmo, e penso que a sua parte original deve estar ali desde muito antes de as tropas de Drácula

galoparem por estas estradas A s flores no interior tinham murchado há pouco, e cera derretida

de velas acumulava-se por baixo do crucifixo.

Quando regressava à aldeia, deparei com uma visão igualmente impressionante uma

rapariga da aldeia, parada no meu caminho com o seu traje de camponesa, parecendo uma figura

saída da História. Como não dava sinais de se afastar, parei para falar com ela e, para minha

surpresa, deu-me de presente uma moeda. E ra visivelmente muito antiga, medieval e numa das

faces mostrava a figura de um dragão. T ive a certeza, embora não tivesse provas, de que deve ter

sido cunhada para a Ordem do Dragão. É claro que a rapariga só falava Romeno, mas consegui

entender que a moeda lhe fora dada por uma mulher que descera a esta aldeia vinda dos

penhascos do rio próximo do castelo de Vlad. A rapariga também me contou que o seu nome de

família é G e i, se bem que ela aparentemente não tenha qualquer noção do que isso significa.

P ode imaginar a minha excitação perante isto: havia uma grande probabilidade de estar frente a

frente com uma descendente de Vlad Drácula. A idéia era ao mesmo tempo espantosa e

assustadora (ainda que os traços puros da rapariga e as suas maneiras graciosas estivessem o

mais longe possível de qualquer coisa monstruosa ou cruel). Quando tentei devolver-lhe a moeda,

insistiu para que eu ficasse com ela, o que fiz até agora, mas certamente tentarei de novo

devolver-lha. Combinamos conversar mais amanhã, e agora tenho de parar de escrever para

fazer um desenho da moeda e estudar o meu dicionário, na esperança de conseguir perguntar-lhe

mais informações sobre a sua família e as origens dela.

Meu querido amigo,

Ontem à noite, fiz mais um pequeno progresso ao conversar com a rapariga de quem lhe

falei o seu apelido é realmente G e i, e ela soletrou-o do mesmo modo que G eorgescu fizera ao

ditá-lo para as minhas anotações. Fiquei admirado com a rapidez com que ela me compreendia à

medida que tentávamos conversar, e descobri que, além dos seus grandes talentos naturais de

percepção, sabe ler e escrever e conseguiu ajudar-me a encontrar palavras no dicionário. Gostei de

observar o seu rosto vivo e os seus olhos escuros, brilhantes, a abrir-se a cada nova coisa que

compreendia. Nunca aprendeu outro idioma, é claro, mas não tenho dúvidas de que poderia fazê-

lo com facilidade se tivesse o ensino adequado.

I sto pareceu-me um fenómeno extraordinário, encontrar uma tal inteligência neste lugar

remoto e simples; talvez seja mais uma prova de que ela é descendente de gente nobre, educada,

inteligente. A família do pai veio para cá há tanto tempo que já ninguém se lembra disso, mas

alguns eram húngaros, pelo que consegui entender. E la disse-me que o pai acredita ser o herdeiro

do príncipe do Castelo A rgês, e que há lá um tesouro enterrado, o que aparentemente todos os

camponeses daqui também acham. Com dificuldade, deduzi que acreditam que nos dias de alguns

santos uma luz sobrenatural ilumina o local do tesouro enterrado, mas nas aldeias todos têm

demasiado medo para ir procurá-lo. A s qualidades da rapariga, tão nitidamente superiores ao

seu meio, fazem-me lembrar a maravilhosa Tese de D’Urberville, de Hardy. Sei que não se

aventura para lá de 1800, meu amigo, mas reli o livro o ano passado e recomendo-lho como um

desvio às suas deambulações habituais. J á agora, duvido que haja algum tesouro, ou G eorgescu

já o teria encontrado.

E la também me explicou o fato surpreendente de que um membro de cada geração da sua

família tem, marcado na pele, um pequeno dragão. I sto, tanto como o seu nome e a história do

seu pai sobre ele, convenceu-me de que ela faz parte de um ramo vivo da Ordem do Dragão.

G ostaria de conversar com o pai dela, mas, quando o sugeri, mostrou-se tão aflita que seria

grosseiro da minha parte insistir. E sta é uma cultura tradicional, extremamente tradicional, e

tomo o maior cuidado para não colocar em risco a reputação dela perante a sua gente — tenho

certeza de que já se arriscou só por falar comigo sozinha, e estou-lhe muito grato pelo seu

interesse e pela sua ajuda.

A gora vou passear um pouco nos bosques, tenho tanto em que pensar que sinto necessidade

de arejar um pouco a cabeça.

 

Meu querido amigo, meu único confidente,

P assaram-se dois dias e não sei bem como escrever-lhe sobre eles, ou se algum dia mostrarei

isto a alguém. E stes dois dias fizeram para mim a diferença de uma vida. E ncheram-me, em doses

iguais, de esperança e de medo. Sinto que, no seu decurso, atravessei uma linha e entrei numa

nova vida. O que tudo isto vai significar, no fim, não sei dizer. Sou ao mesmo tempo o homem

mais feliz da Criação e o mais ansioso.

Há dois dias, ao cair da tarde, depois de lhe ter escrito pela última vez, encontrei mais uma

vez a rapariga angelical que já lhe descrevi, e a nossa conversa, desta vez, levou a uma mudança

repentina, um beijo, na verdade — antes que ela fugisse. P assei a noite sem dormir e, quando a

manhã chegou, saí do meu quarto na aldeia e ao vaguear pelo bosque. A ndei um pouco,

sentando-me de vez em quando numa pedra ou tronco de árvore, sob a luminosidade esverdeada

e cambiante do começo da manhã, vendo o seu rosto por entre as árvores ou na própria luz e

interrogando-me muitas vezes se deveria deixar a aldeia imediatamente, pois podia tê-la já

ofendido.

O dia inteiro passou-se desta maneira, enquanto eu caminhava por aqui e por ali, voltando

à aldeia apenas para a refeição do meio-dia, com medo de a encontrar a cada instante e ao

mesmo tempo esperando que isso acontecesse. M as não vi sinal dela, e à tardinha voltei ao nosso

ponto de encontro, pensando que, se ela aparecesse, lhe diria, da melhor maneira possível, que lhe

devia um pedido de desculpas e que não a incomodaria mais. Quando já estava a perder a

esperança de a ver e tinha concluído que a ofendera profundamente e devia deixar a aldeia na

manhã seguinte, ela surgiu entre as árvores. Vi-a por um segundo com as suas saias pesadas e o

carpete preto, a cabeça descoberta e escura como madeira polida, a trança sobre o ombro. Os

seus olhos também escuros estavam assustados, mas a radiosa inteligência do seu rosto atingiu-

me em cheio.

A bri a boca para falar com ela, mas nesse momento ela voou na minha direção,

atravessando a distância que nos separava, e lançou-se nos meus braços. P ara minha surpresa,

parecia entregar-se-me completamente, e os nossos sentimentos em breve nos levaram a uma

intimidade completa, tão terna e pura quanto fora espontânea. Descobri que podíamos falar

livremente um com o outro em qual das nossas línguas já não tenho a certeza e que eu podia

interpretar o mundo e talvez todo o meu futuro na escuridão dos olhos dela, com as suas

pestanas espessas e a delicada dobra asiática nos cantos.

Quando ela foi embora e fiquei sozinho com as minhas emoções, tentei considerar o que

tinha feito, o que tínhamos feito, mas a minha sensação de plenitude e felicidade interferiam no

meu raciocínio. Hoje voltarei lá para esperar por ela de novo, porque não consigo evitar, porque

todo o meu ser parece estar agora ligado a um ser tão diferente de mim e ao mesmo tempo tão

estranhamente familiar que dificilmente posso compreender o que aconteceu.

 

Meu querido amigo (se é ainda para si que escrevo),

Vivi os últimos quatro dias no paraíso, e o meu amor pelo anjo que lhe preside parece ser

exatamente isso amor. Nunca senti por nenhuma mulher o que sinto agora, neste lugar

estrangeiro. Com apenas mais alguns dias para refletir, evidentemente que tenho procurado

considerar a situação de todos os ângulos. A idéia de a deixar e nunca mais a ver parece-me tão

impossível como a de nunca mais voltar a ver a minha terra. P or outro lado, tenho pensado

muito sobre o que significaria levá-la comigo ou seja: em primeiro lugar, iria afastá-la cruelmente

do seu lar e da sua família, e não sei quais seriam as consequências se ela fosse comigo para

Oxford. E ste último pensamento é extremamente complicado, mas a crueza da situação está

muito clara para mim: se eu me fosse embora sem ela, partiria os nossos dois corações, além de

ser também um ato covarde e vil depois do que se passou entre nós.

Decidi finalmente fazer dela minha esposa o mais depressa possível. A s nossas vidas

tomarão sem dúvida um caminho singular, mas tenho a certeza de que a natural graciosidade

dela e a sua inteligência aguda vão ajudá-la a superar o que quer que se nos depare. Não posso

deixá-la aqui e passar toda a minha vida a imaginar como poderia ter sido, nem posso

abandoná-la numa situação como esta. Decidi que esta noite vou pedir-lhe que se case comigo

daqui a um mês. P enso voltar primeiro à G récia, onde posso pedir emprestado aos meus colegas

ou mandar vir por telégrafo dinheiro suficiente para dar ao pai dela como compensação por a

levar daqui; tenho pouco dinheiro comigo, e não ousaria enfrentar esta situação de outro modo.

A lém disso, sinto que devo apresentar-me na escavação arqueológica para que fui convidado, o

túmulo de um nobre, perto de Cnossos. O meu trabalho no futuro pode estar relacionado com

esses colegas, e com ele poderei mantê-la e a mim na vida que construiremos juntos.

Depois, voltarei para a vir buscar e como serão longas essas quatro semanas de separação.

Quero ver se os padres de Snagov nos podem casar lá, e assim G eorgescu poderia ser nossa

testemunha. E videntemente, se os pais dela insistirem que devemos casar-nos antes de deixar a

aldeia, estou disposto a fazê-lo. E m qualquer dos casos, viajará comigo como minha mulher.

P enso mandar um telegrama aos meus pais da G récia, e depois levá-la-ei para passar uma

temporada com eles quando chegarmos a I nglaterra. E você, querido amigo, se já estiver a ler

estas linhas, poderia tentar saber alguma coisa sobre a questão das acomodações fora da

universidade? Muito discretamente e levando em conta que o preço é muito importante. Gostaria

também que ela começasse a aprender inglês o mais breve possível, tenho a certeza de que se sairá

muito bem. Talvez o Outono o encontre sentado à nossa lareira, meu amigo, e então há-de

compreender a razão da minha loucura. Até lá, é a única pessoa com quem me sinto a vontade

para comentar este assunto, logo que eu conseguir enviar-lhe estas cartas, e peço-lhe que me

julgue com benevolência, com toda a grandeza do seu coração

Seu amigo, feliz e ansioso, Rossi