O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 15 de 83

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O Historiador

Capítulo 13

A nossa próxima viagem levou-nos novamente para leste, para lá dos Alpes J ulianos. A pequena cidade de K ostanjevica, "lugar dos castanheiros", estava mesmo cheia de castanhas naquela época do ano, algumas já no chão, de modo que se pousássemos mal o sapato nos paralelepípedos das ruas, este escorregava perigosamente num ouriço espinhoso. E m frente da casa do presidente da C âmara, construída originalmente para abrigar um funcionário administrativo austro-húngaro, havia castanhas espalhadas por toda a parte, com as suas cascas de aparência agressiva, uma profusão de minúsculos porcos-espinhos.

O meu pai e eu caminhávamos devagar, saboreando o fim de um dia quente de Outono no dialeto local conhecido por "verão cigano", como nos dissera uma mulher numa loja, e eu refletia sobre as diferenças entre o mundo ocidental, distante só algumas centenas de quilómetros, e aquele mundo oriental, apenas um pouco a sul de E mona. Aqui, tudo me parecia igual em todas as lojas, e os vendedores também me pareciam exatamente iguais uns aos outros, com uniformes azul-vivo e lenços estampados de flores ao pescoço, os dentes de ouro ou de aço inoxidável a cintilarem para nós por cima do balcão meio vazio. Tínhamos comprado uma enorme barra de chocolate para completar o nosso piquenique de rodelas de salame, pão escuro e queijo, e o meu pai transportava garrafas de Naranca, uma bebida de laranja que já me fazia lembrar de Ragusa, Emona, Veneza.

A última reunião em Zagreb acabara no dia anterior, enquanto eu finalizava o meu trabalho de H istória com um floreado final. O meu pai queria que eu estudasse agora também alemão, e eu estava ansiosa por isso, não por causa da insistência dele, mas apesar dela; começaria no dia seguinte, com um livro de uma livraria de Amsterdã especializada em línguas estrangeiras. E u trazia um vestido novo, verde e curto, com meias amarelas até ao joelho, o meu pai sorria lembrando-se de uma trapaça ininteligível feita por um diplomata a outro nessa manhã, e as garrafas de Naranca tilintavam uma de encontro à outra no nosso saco de rede. M ais adiante, havia uma ponte baixa de pedra que atravessava o rio K ostan. C orri à frente para o ver pela primeira vez, o que desejava fazer sozinha, sem ter sequer o meu pai ao meu lado.

O rio fazia uma curva junto à ponte e desaparecia da vista, e nessa curva aninhava-se um castelo diminuto, um castelo eslavo do tamanho de uma villa, com cisnes a nadar suavemente abaixo dos seus muros ou a alisar as penas na margem. E nquanto eu olhava, uma mulher de casaco azul abriu uma janela do andar superior, empurrando-a para fora e fazendo os vidros brilharem ao sol, e sacudiu do lado de fora um pano de pó. Sob a ponte, jovens salgueiros encostavam-se uns nos outros e andorinhas voavam, indo e vindo do solo lamacento das suas raízes. No parque do castelo, vi um banco de pedra (não muito próximo dos cisnes, que eu ainda temia, mesmo na adolescência) com castanheiros debruçados por cima dele, e dos muros do castelo descia uma sombra reconfortante. O fato limpo do meu pai estaria em segurança ali, e ele poderia ficar sentado mais tempo do que pretendia e falar, mesmo contrariado.

— Durante todo o tempo em que examinei aquelas cartas no meu apartamento —

disse o meu pai, limpando os restos de salame das mãos com um lenço —, uma coisa, para além do trágico problema do desaparecimento de Rossi, não me saía da cabeça. Quando acabei de ler a carta contando o horrível acidente com o seu amigo H edges, senti-me demasiado indisposto por uns momentos para pensar com clareza. Tinha a impressão de ter caído um mundo doentio, um submundo do familiar ambiente acadêmico que conhecera durante tantos anos, um subtexto da narrativa histórica habitual que me habituara a ter como garantida. N a minha experiência de historiador, os mortos permaneciam respeitavelmente mortos, na I dade M édia tinham acontecido horrores reais, não sobrenaturais, Drácula fora uma pitoresca lenda do Leste europeu ressuscitada pelo cinema na minha infância, e 1930 fora três anos antes de H itler assumir o poder na Alemanha, um terror que certamente excluía todas as outras possibilidades.

P ortanto, senti-me indisposto por um instante, zangado com o meu desaparecido

mentor por me transmitir aquelas detestáveis ilusões. E m seguida, o tom de arrependimento e delicadeza das suas cartas tomou conta de mim outra vez e fiquei cheio de remorsos pela minha deslealdade. Rossi contava comigo — só comigo; se me recusasse a abandonar o meu ceticismo por causa de um princípio pedante, certamente não voltaria a vê-lo.

H avia outra coisa que me incomodava. À medida que o meu espírito recuperava a

lucidez, percebi que era a lembrança da rapariga na biblioteca, que conhecera apenas duas horas antes, embora me parecesse ter sido há dias. L embrei-me da extraordinária luz nos olhos dela ao ouvir a minha explicação sobre as cartas de Rossi, o gesto masculino de juntar as sobrancelhas para se concentrar melhor. P or que razão estaria a ler sobre Drácula na mesma mesa que eu, com tantas outras mesas, exatamente naquela tarde, tão perto de mim? P or que mencionara I stambul? J á me abalara demais o que lera nas cartas de Rossi para pôr outra vez de lado o meu ceticismo, para rejeitar a idéia de uma coincidência a favor de algo mais forte. E por que não? Se aceitava uma ocorrência sobrenatural, podia certamente aceitar outras, nada mais lógico.

Suspirei e agarrei na última carta de Rossi Depois disto, só precisaria de analisar o resto

do material escondido naquele envelope inócuo e estaria por minha conta. Qualquer que fosse o significado do aparecimento da rapariga e provavelmente não seria nada fora do normal, não é verdade?, não tinha tempo para descobrir quem ela era ou por que partilhávamos este interesse pelo oculto. E ra estranho pensar em mim como alguém interessado pelo oculto; no fundo, não era o caso, de maneira nenhuma. O que de fato me interessava era encontrar Rossi.

A última carta, ao contrário das outras, era manuscrita — numa folha pautada de

caderno, com uma tinta escura. Desdobrei-a.

19 de Agosto de 1931 Cambridge, Mass., EUA Meu caro e infeliz sucessor:

B em, não posso fingir que você talvez já não esteja aí, algures, empenhado em ajudar-me,

esperando para me salvar se a minha vida um dia ruir. E porque possuo ainda mais algumas

informações para acrescentar a tudo o que você (presumivelmente) já investigou, acho que devo

encher esta amarga taça até ao fim. "Saber só um pouco é perigoso", teria citado o meu amigo

Hedges. M as ele partiu, e sou tão responsável por isso como se tivesse aberto a porta do meu

gabinete e desferido o golpe eu próprio e depois gritado a pedir socorro. Não o fiz, é claro. Se

persistiu em ler até aqui, acreditará na minha palavra.

M as finalmente duvidei da minha própria força há alguns meses, por motivos ligados ao

exasperante e terrível fim de Hedges. Fui do túmulo dele diretamente para a A mérica quase

literalmente: a minha nomeação para o cargo tornara-se realidade e já estava a empacotar os

meus pertences quando tirei um dia de folga para ir a Dorset ver o sítio onde ele descansava em

paz. Depois de ter partido para a A mérica, decepcionando algumas pessoas em Oxford e

entristecendo os meus pais, receio eu, encontrei-me num mundo novo e mais animado, onde o

semestre começa mais cedo (fui nomeado para trabalhar durante três deles e vou lutar para

conseguir mais) e os alunos têm uma perspectiva mais franca e prática que não se vê em Oxford.

E , mesmo depois de tudo isto, não consegui decidir-me a abandonar de vez o meu relacionamento

com os mortos-vivos. Como consequência, tudo indica que ele, aquilo — também não se decidiu a

abandonar por completo o seu relacionamento comigo.

Deve lembrar-se de que, na noite em que Hedges foi atacado, eu fizera a inesperada

descoberta do significado da xilogravura no centro do meu sinistro livro e verificado que a

Tumba ímpia dos mapas que encontrara em I stambul devia ser a sepultura de Vlad Drácula.

Fizera a pergunta que me restava em voz alta

— Onde ficava a sepultura? —, assim como exclamara alto no arquivo em I stambul,

invocando pela segunda vez uma terrível presença, que dera livre curso à sua ira mandando-me

um aviso à custa da vida do meu querido amigo. Talvez só um ego anormal pensasse num

confronto com forças naturais — sobrenaturais, neste caso —, mas juro-lhe que esse castigo me

enfureceu, sobrepondo-se ao medo durante algum tempo, e fez-me prometer solenemente

investigar as últimas pistas e, se tivesse forças, perseguir o meu perseguidor até ao seu covil. E ste

pensamento bizarro tornou-se-me tão normal como o desejo de publicar o meu próximo artigo

ou o de conquistar um lugar permanente na nova e animada universidade pela qual o meu

exausto coração ansiava.

Depois de me adaptar à rotina das minhas obrigações acadêmicas e me preparar para um

breve regresso à I nglaterra no fim do semestre, altura em que entregaria as páginas da minha

tese de doutoramento à amável imprensa inglesa, que me tratava cada vez melhor, fui mais uma

vez atrás do rasto de Vlad Drácula, o histórico ou o sobrenatural, o que quer que ele provasse

ser. A chava que a minha próxima tarefa deveria ser descobrir mais coisas sobre o meu estranho

livro antigo: de onde viera, quem o desenhara, de que época era. E ntreguei-o (com relutância,

admito) aos cuidados dos laboratórios do Smithsonian I nstitute. E les abanaram a cabeça

perante a especificidade das minhas perguntas e insinuaram que o recurso a meios para além dos

que possuíam custaria mais caro. M as eu estava obstinado e achava que nem um tostão da

herança que recebera do meu avô ou das minhas modestas economias de Oxford seria usado para

me vestir, alimentar ou divertir enquanto Hedges ficasse por vingar (mas, graças a Deus, em

paz) num cemitério onde o seu caixão não deveria ter entrado antes dos cinquenta anos mais

próximos. J á não temia as consequências, pois o pior que poderia imaginar já me acontecera:

neste sentido, pelo menos, as forças das trevas tinham falhado os cálculos.

Não foi, porém, a brutalidade do que ocorreu em seguida que me fez mudar de idéias e tomar

outra vez consciência do verdadeiro significado do medo. Foi a habilidade, a inteligência da coisa.

Quem se ocupava do meu livro no Smithsonian era um bibliófilo chamado Howard M artin,

um homenzinho pequeno e afável, embora taciturno, que se empenhara no meu caso como se

conhecesse a história toda. (Não — pensando melhor, se soubesse a história toda, talvez me

pusesse porta fora na minha primeira visita.) M as, aparentemente, o que ele via era apenas a

minha paixão pela História, com o que ele simpatizava, e fazia o seu melhor por mim. O seu

melhor era muito bom, muito completo, e ele assimilava o que os laboratórios lhe enviavam com

um cuidado mais digno de Oxford do que daqueles departamentos demasiado burocráticos dos

museus de Washington. Fiquei impressionado, e mais ainda, com os conhecimentos dele sobre a

feitura de livros na Europa nos séculos imediatamente anteriores e posteriores a Gutenberg.

Quando considerou que fizera tudo o que era possível por mim, escreveu-me a comunicar que

eu receberia os resultados da pesquisa e que me devolveria o livro pessoalmente, tal como eu lho

tinha entregue, se eu não quisesse que fosse despachado para o Norte. Fiz a viagem de comboio

para o Sul, visitei alguns pontos turísticos na manhã seguinte e apresentei-me no seu gabinete

dez minutos antes da hora combinada. O coração batia-me com força e tinha a boca seca,

ansiava por ter o meu livro na mão outra vez e saber o que ele tinha descoberto sobre as suas

origens.

Mr. Martin abriu a porta e convidou-me a entrar com um leve sorriso. — E stou muito contente por ter podido vir — disse, com o sotaque americano fanhoso e

monocórdico que se tornara para mim o mais acolhedor do mundo.

A ssim que nos sentamos no seu gabinete repleto de manuscritos, vi-me face a face com ele e,

de imediato, chocou-me a mudança na sua aparência. Tivéramos apenas um breve encontro meses

antes e lembrava-me do rosto dele, mas nada, na correspondência concisa e profissional que

mantivera comigo, dera a entender que estivesse doente. A gora, mostrava-se esgotado e pálido,

de tal forma abatido que a pele adquirira um tom cinzento-amarelado, os lábios coloridos de um

vermelho pouco natural. P erdera muito peso, tanto que o seu fato fora de moda pendia-lhe,

folgado, dos ombros magros. Sentava-se ligeiramente curvado para a frente, como se uma dor ou

fraqueza o impedisse de manter o corpo direito. Parecia que a vida se lhe esvaía.

Tentei convencer-me de que isto se devia apenas ao fato de eu estar com pressa na minha

primeira visita e que o contacto pelo correio com ele me tornara mais observador desta vez, ou

mais compassivo nas minhas observações, mas não conseguia tirar da cabeça a impressão de que

ele definhara num curto período de tempo. Disse a mim mesmo que talvez sofresse de alguma

doença maligna ou degenerativa, um cancro de progressão rápida. É claro que a delicadeza não

me permitiu fazer qualquer alusão à sua aparência.

— B em, doutor Rossi — começou ele, à sua maneira americana, — acho que não tem a

noção de como é valiosa a peça que teve nas mãos todo este tempo.

— Valiosa? — E le não tinha a menor noção do valor que aquele livro tinha para mim,

pensei, nem com todas as análises químicas do mundo. O livro era a minha chave para a

vingança.

— Sim. É um exemplar raro da tipografia medieval da E uropa Central, uma peça muito

interessante e fora do comum, e estou convencido de que foi provavelmente impresso por volta de

1512, talvez em E uda ou na Valáquia. A data de1512 pode situá-lo com segurança depois do

São Lucas de Corvinus, mas antes do Novo Testamento húngaro de 1520, que, a existir, decerto

teria influenciado uma obra assim. — M exeu-se na cadeira, que rangeu. — É mesmo possível que

a xilogravura do seu livro tenha na realidade influenciado o Novo Testamento de 1520, que

possui uma ilustração semelhante, um Satanás alado. M as não há como provar isto. De

qualquer forma, seria uma influência engraçada, não é? Quer dizer, ver uma parte da B íblia

decorada com uma ilustração diabólica como essa.

— Diabólica? — Deu-me prazer escutar o som da condenação vindo dos lábios de outra

pessoa.

— Com certeza. Pôs-me na pista da lenda de Drácula, mas pensa que parei por aí? O tom de voz de M r. M artin era tão natural e animado, tão americano, que demorei um

instante a reagir. Nunca ouvira uma referência àquele sinistro abismo numa voz tão

absolutamente normal. E ncarei-o, perplexo, mas o tom fora-se e o rosto dele estava inexpressivo.

Examinava uma pilha de papéis que retirara de uma pasta.

— A qui estão os resultados dos nossos exames — disse. — P assei tudo a limpo, juntamente

com o meu parecer, e creio que vai achá-los interessantes. Não acrescentam muito ao que acabei

de lhe dizer — ah, existem dois fatos adicionais interessantes. De acordo com a análise química,

parece que este livro ficou guardado, provavelmente por muito tempo, num ambiente saturado de

pó de pedra, e que isto ocorreu antes de 1700. A lém disso, a parte de trás ficou manchada em

determinado momento com água salgada — talvez por ter sido exposto a uma viagem marítima.

P resumo que poderia ter sido no mar Negro, se as nossas suposições sobre o local em que foi

produzido estiverem corretas, mas é claro que há várias outras possibilidades. Receio que não

tenhamos contribuído para fazer avançar a sua pesquisa mais longe do que isto — não me disse

que estava a escrever uma história da Europa medieval?

Levantou os olhos e deu-me aquele sorriso descontraído, simpático, esquisito naquele rosto

debilitado, e instantaneamente dei-me conta de duas coisas que me gelaram a espinha enquanto

estava ali sentado.

A primeira era que não lhe dissera nada sobre estar a escrever uma história da E uropa

medieval; dissera-lhe que precisava de informações sobre aquele volume para me ajudar a

completar uma bibliografia de material relacionado com a vida de Vlad, o E mpalador, conhecido

na lenda como Drácula. Howard M artin era tão rigoroso como curador como eu como estudioso

da minha área, e nunca teria cometido um engano desses por distração. A sua memória já me

chamara anteriormente a atenção por ser quase fotográfica na sua capacidade para apreender

pormenores, uma característica em que reparo e que aprecio sempre que a encontro noutras

pessoas.

A segunda coisa que notei naquele momento foi que, talvez devido à doença de que sofria —

pobre homem, quase disse para mim próprio —, os seus lábios tinham um aspecto flácido e

decadente quando sorria, descobrindo os dentes caninos superiores, de tal forma proeminentes que

conferiam a todo o rosto uma aparência desagradável. Fazia-me lembrar muito o funcionário de

I stambul, embora não houvesse qualquer problema com o pescoço de Howard M artin, pelo

menos até onde eu podia ver. Conseguira controlar o meu tremor e receber o livro e as anotações

da sua mão, quando ele falou de novo;

— Aquele mapa, aliás, é notável.

— M apa? — respondi, gelado. Só conhecia um mapa três, na verdade, em escala graduada

que tivesse alguma coisa a ver com as minhas atuais intenções, e tinha a certeza de nunca ter

sequer mencionado a sua existência àquele estranho.

— Foi o senhor que o desenhou? Não é antigo, obviamente, mas não o estou a ver como um

artista. Pelo menos, não como um daqueles artistas mórbidos, se me permite dizer

Olhei para ele, incapaz de decifrar as suas palavras e temendo deixar escapar algo se lhe

perguntasse de que estava a falar. Teria deixado algum dos meus desenhos dentro do livro? Que

idiota era, se tivesse deixado. E ntretanto, estava certo de ter verificado com todo o cuidado se o

livro tinha folhas soltas antes de lho entregar.

— Bem, voltei a pô-lo no livro, está aí dentro — disse ele, tranquilizador. — Agora, doutor

Rossi, posso encaminhá-lo para o nosso departamento financeiro, se preferir, ou posso

providenciar para que lhe enviem a fatura.

A briu-me a porta e fez-me novamente o seu sorriso profissional. T ive a presença de espírito

suficiente para não começar a folhear ali mesmo o livro que tinha na mão e vi, à luz do corredor,

que devia ter imaginado o sorriso peculiar de Martin e talvez até a sua doença; a sua pele parecia

normal e estava só um pouco curvado por décadas de trabalho entre as folhas do passado, nada

mais. Ficou parado junto à porta com a mão estendida para uma cordial despedida à moda de

Washington e eu apertei-lha, murmurando que gostaria que a conta fosse enviada para a minha

morada em Harvard.

A fastei-me com cautela até perder de vista a sua porta, depois para fora daquele corredor e

finalmente para longe daquele grande castelo vermelho que abrigava todas as atividades dele e as

dos seus colegas. A o ar livre do M ail, o coração político deste enorme país, atravessei a relva

muito verde até um banco e sentei-me, tentando parecer e sentir-me despreocupado.

O livro abriu-se na minha mão com a sua habitual obsequiosidade sinistra e procurei em

vão uma folha solta ou algo que me surpreendesse dentro dele. Só folheando as páginas para trás

é que o encontrei um tracejado muito fino em papel químico, como se alguém tivesse tido diante

de si o terceiro e mais secreto dos meus mapas e tivesse copiado para mim todas as suas

misteriosas linhas. Os topónimos em dialeto eslavo eram exatamente os que eu conhecia do meu

próprio mapa "A ldeia dos P orcos Roubados", "Vale dos Oito Carvalhos". Na realidade, só

havia um pormenor no esboço que eu desconhecia. A baixo da inscrição "Tumba ímpia" havia

outra em latim feita com uma tinta que parecia ser a mesma dos outros títulos. A cima da

suposta localização da sepultura, arqueadas em torno dela como para provar a sua absoluta

associação com aquele lugar, as palavras: BARTOLOMEO ROSSI.

Leitor, considere-me um cobarde se quiser, mas desisti naquele mesmo instante. Sou um

professor jovem e vivo em Cambridge, M assachuse s, onde dou aulas, saio com os meus novos

amigos para jantar e escrevo para casa, para os meus velhos pais, todas as semanas. Não uso

alho nem me benzo quando ouço som de passos no corredor. Tenho uma proteção melhor parei de

esmiuçar aquela pavorosa encruzilhada da história. A lguém deve estar satisfeito por me ver

quieto porque não aconteceu mais nenhuma tragédia que me perturbasse.

E ntão, se tivesse de escolher entre a sua sanidade, a vida boa de que se lembrava, e a

instabilidade total, qual preferiria, qual consideraria a maneira adequada de um acadêmico

viver? Sei que Hedges não iria querer que eu mergulhasse de cabeça nas trevas. E , todavia, se

estiver a ler isto, significa que algum mal acabou por me acontecer. Você também tem de escolher.

Forneci-lhe todos os elementos que possuo relacionados com estes horrores. Conhecendo a minha

história, será capaz de me recusar ajuda?

Seu, com intenso pesar, Bartholomew Rossi

As sombras das árvores tinham-se alongado para proporções abismais e o meu pai deu

um pontapé num ouriço de castanha com os seus belos sapatos. T ive a súbita sensação de que, se fosse um homem mais grosseiro, teria cuspido no chão naquele momento para expelir da boca algum travo repulsivo. E m vez disso, parecia fazer força para engolir e recompor-se para sorrir.

— Deus do céu! Que conversa a nossa! Estamos soturnos demais esta tarde!

Tentou sorrir, mas também me lançou um olhar que exprimia preocupação, como se alguma sombra pudesse descer sobre mim, sobre mim em especial, e tirar-me de cena sem qualquer aviso.

Soltei a minha mão fria da beira do banco e esforcei-me por ficar igualmente despreocupada. Quando é que isto se tornara um esforço? perguntei a mim mesma, mas era demasiado tarde. E u estava a fazer o trabalho dele, distraindo-o como antes ele tentara distrair-me. Adotei um ar de ligeira impaciência mas não excessiva, para que ele não desconfiasse.

— Devo confessar que estou com fome outra vez, com fome de comida a sério.

Ele sorriu com um pouco mais de naturalidade e os seus bonitos sapatos bateram juntos no chão enquanto me oferecia galantemente a mão para me levantar do banco, ocupando-se em seguida em guardar no nosso saco as garrafas vazias de Naranca e os outros restos do nosso piquenique. Fiz a minha parte com energia, aliviada porque isso significava que voltaríamos para a cidade em vez de nos demorarmos a olhar para a fachada do castelo. E u já me virara uma vez, perto do final da história, e olhado para aquela janela lá em cima, onde uma figura escura e altiva tomara o lugar da velha mulher da limpeza. E u falava rapidamente sobre o que me vinha à cabeça. Desde que o meu pai não o visse também, não podia haver confronto. Talvez pudéssemos ficar seguros.