O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 53 de 83

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O Historiador

Capítulo 50

Turgut B ora e Selim Aksoy estavam à nossa espera no aeroporto de I stambul. P aulo

Turgut abraçou-me e beijou-me e deu-me palmadinhas nos ombros.

— Senhora P rofessora — E apertou a mão de H elen nas suas. — G raças aos céus, estão

sãos e salvos. Bem-vindos ao vosso retorno triunfal!

— Bem, eu não diria triunfal — disse eu, rindo a contragosto. — H avemos de conversar, havemos de conversar! — exclamou Turgut, batendo-me

nas costas. Selim Aksoy acompanhou tudo isto com uma saudação menos efusiva. Uma hora mais tarde, estávamos à porta do apartamento de Turgut, onde M rs B ora se mostrou visivelmente satisfeita por voltar a ver-nos. Tanto H elen como eu expressamos a nossa admiração em voz alta quando a vimos: naquele dia, estava vestida de um azul muito pálido, como uma pequena flor primaveril. Ela olhou-nos sem compreender.

— Gostamos do seu vestido — explicou Helen, apertando a pequena mão de Mrs. Bora

na sua mão comprida. Ela riu.

— Obrigada — disse. — Sou eu própria que faço todas as minhas roupas. E m seguida, ela e Selim Aksoy serviram-nos café e uma coisa que ela explicou ser borek,

um rolinho de massa com recheio de queijo salgado, além de um jantar de cinco ou seis outros pratos.

— Agora, meus amigos, contem-nos o que descobriram. E ra um pedido difícil, porque havia muito a dizer, mas juntos contamos-lhes o que se

tinha passado na conferência em B udapeste, o meu encontro com H ugh J ames, a história da mãe de H elen, as cartas de Rossi. Turgut escutou com os olhos arregalados a narrativa de como H ugh J ames encontrara o seu livro do dragão. Ao relatar tudo isto, achei que de fato tínhamos descoberto muita coisa. Infelizmente, nada que levasse à localização de Rossi.

Turgut contou-nos, por sua vez, que tinham acontecido coisas graves durante a nossa

ausência de I stambul; duas noites antes, o seu bom amigo, o arquivista, fora atacado pela segunda vez, no apartamento onde estava a repousar. O primeiro homem que tinham a vigiá-lo adormecera em serviço e não vira nada. Agora tinham um novo guarda, que, esperavam, seria mais cuidadoso. E stavam a tomar todas as precauções, mas o pobre bibliotecário estava muito mal.

Também tinham notícias de outro gênero. Turgut engoliu a segunda chávena de café

e apressou-se a ir buscar uma coisa ao seu inquietante escritório na porta ao lado. (Foi um alívio não ter sido convidado a entrar lá de novo.) Reapareceu trazendo um caderno e voltou a sentar-se perto de Selim Aksoy. Olharam ambos para nós com ar sério.

— E u contei-lhe ao telefone que encontramos uma carta na sua ausência — disse

Turgut. — A carta original está em E slavómo, a antiga língua das igrejas cristãs. C omo lhe contei, foi escrita por um monge dos Cárpatos e refere-se às suas viagens a Istambul. O meu amigo Sehm ficou surpreendido ao ver que a carta não está em latim, mas talvez este monge fosse eslavo. Querem que a leia de imediato?

— É claro — disse eu, mas Helen levantou a mão.

— Um momento, por favor. Como e onde a encontraram?

Turgut fez um gesto de aprovação com a cabeça.

— N a verdade, M r. Aksoy encontrou-a no arquivo, o mesmo que os senhores visitaram conosco P assou três dias lá a examinar todos os manuscritos do século quinze que o arquivo contém. E ncontrou esta carta junto com uma pequena coleção de documentos das igrejas infiéis, ou seja, das igrejas cristãs que foram autorizadas a permanecer abertas em I stambul durante o reinado do C onquistador e dos seus sucessores. N ão há muitas cartas como esta no arquivo porque, em geral, eram guardadas pelos mosteiros, principalmente pelo P atriarcado de C onstantinopla. M as alguns documentos dessas igrejas chegaram as mãos do sultão, sobretudo os que diziam respeito a novos acordos para as igrejas sob o I mpério — a um acordo desse tipo chamava-se um "firmão". Às vezes, o sultão recebia cartas de... como se diz?... petição sobre algum assunto relacionado com as igrejas, e essas também estão no arquivo.

Ele traduziu rapidamente para Aksoy, que queria que ele explicasse mais uma coisa.

— Sim; o meu amigo dá-nos uma boa informação sobre este assunto. E stá a lembrar-me de que, logo depois que o Conquistador tomou a cidade, nomeou um novo patriarca para os cristãos, o patriarca G ennadius. — Ao ouvir o nome, Aksoy fez que sim vigorosamente com a cabeça. — E o sultão e G ennadius tinham uma amizade muito cordial. C omo já lhes disse, o C onquistador era tolerante com os cristãos no seu I mpério depois da conquista. O sultão M ehmed pediu a G ennadius que lhe escrevesse uma explicação da fé ortodoxa e depois a mandasse traduzir, para a sua biblioteca pessoal. H á uma cópia dessa tradução no arquivo. Também há cópias de alguns forais das igrejas, que tinham de ser submetidos ao C onquistador, e esses também lá estão. O meu amigo estava a examinar um desses documentos, de uma igreja da Anatólia, e entre duas das suas páginas encontrou esta carta.

— Obrigada Helen — reclinou-se novamente nas almofadas.

— I nfelizmente, não lhes posso mostrar o original, mas é evidente que não podíamos retirá-lo dos arquivos. Se quiserem, podem ir vê-los pessoalmente enquanto aqui estiverem. É uma carta escrita em bela caligrafia, numa pequena folha de pergaminho, com um dos cantos rasgado. Agora, vou ler-lhes a nossa tradução, que foi feita em inglês. P or favor, tenham em conta que se trata da tradução de uma tradução, e que um pouco do sentido pode ter-se perdido no caminho.

E leu-nos o seguinte:

A Sua Excelência, Abade-mor Maxim Eupraxius:

Um humilde pecador implora a vossa atenção. Como já relatei, houve grande controvérsia

nesta companhia desde que a nossa missão falhou ontem. A cidade não é um lugar seguro para

nós, e no entanto acreditávamos que não a podíamos deixar sem descobrir o que aconteceu com o

tesouro que procuramos. E sta manhã, pela graça do T odo-P oderoso, um novo caminho se abriu,

de que vos devo informar aqui. O abade de P anachrantos, ao ouvir do abade nosso hospedeiro,

seu bom amigo, a nossa amarga e particular aflição, veio em pessoa até nós, em Santa I rina. É

um afável e santo homem de cinquenta anos, que viveu a sua longa vida primeiramente no

mosteiro de G rande Lavra em Athos, e agora, há muitos anos, como monge e abade em

P anachrantos. A o chegar, reuniu-se a sós com o nosso hospedeiro, e em seguida falaram conosco

nos aposentos do nosso hospedeiro, em completo segredo, tendo antes todos os noviços e servos

deixado os aposentos. Disse-nos que até àquela manhã não ouvira falar da nossa presença aqui e,

ao tomar conhecimento dela, viera junto do seu amigo para dar-lhe notícias que não

compartilhara com ninguém até então, não o querendo pôr em perigo a ele ou aos seus monges.

E m suma, revelou-nos que o que procuramos já foi transportado para fora da cidade, para um

refúgio nas terras ocupadas dos B úlgaros. T ransmitiu-nos as mais secretas instruções para a

nossa segurança durante a viagem até lá e deu-nos o nome do santuário que devemos encontrar.

Nós esperaríamos um pouco aqui de bom grado para entrar em contacto com Vossa Senhoria e

aguardar as vossas ordens sobre este assunto, mas estes abades disseram-nos também que algum

janízaros da corte do sultão já vieram junto do patriarca para o questionarem sobre o

desaparecimento daquilo que procuramos. É muito perigoso para nós agora demorarmo-nos nem

que seja mais um dia aqui, e estaremos mais seguros mesmo durante a nossa viagem através das

terras infiéis do que estamos aqui. E xcelência, perdoai-nos a nossa obstinação em partir sem

esperarmos as vossas instruções, e que a bênção de Deus e a vossa estejam conosco nesta nossa

decisão. Se necessário, destruirei mesmo este registro antes que chegue às vossas mãos e virei

contar-vos tudo acerca da nossa busca com a minha própria língua, se não for cortada antes.

O humilde pecador Irmão Kiril Abril do Ano 6985 de Nosso Senhor

Fez-se um silêncio profundo quando Turgut acabou. Selim e M rs. B ora permaneceram

sentados em silêncio, e Turgut esfregou a cabeleira cor de prata com uma mão agitada. Helen e eu entreolhamo-nos.

— O ano 6985 de Nosso Senhor? — disse eu, por fim. — O que significa isso? — Os documentos medievais eram datados a partir de um cálculo da data da C riação,

no Génesis — explicou Helen.

— Sim — concordou Turgut. — 6985, pela datação atual, corresponde a 1477. Não consegui evitar um suspiro.

— É uma carta muito vívida, e revela uma grande preocupação com alguma coisa.

M as ainda estou perdido confessei, pesaroso. A data, evidentemente, faz suspeitar que haja alguma relação entre esta carta e o trecho que M r. Aksoy encontrou antes. M as que prova temos de que o monge que escreveu esta nova carta vinha dos C árpatos? E por que é que acham que isto está relacionado com Vlad Drácula?

Turgut sorriu.

— Excelentes perguntas, como sempre, meu jovem cético. Deixe-me tentar responder-

lhes. C omo já lhe contei, Selim conhece muito bem a cidade e quando encontrou esta carta e compreendeu o suficiente dela para ver que poderia ser útil, levou-a a um amigo seu que é o responsável pela antiga biblioteca do mosteiro de Santa I rina, que ainda existe. E sse amigo traduziu-a para turco a seu pedido e ficou muito interessado na carta, porque mencionava o seu mosteiro. N o entanto, na biblioteca deste não encontrou qualquer registro dessa visita em 1477 ou a visita não foi registrada, ou quaisquer documentos sobre ela desapareceram há muito tempo.

— Se a missão que eles descrevem era secreta e perigosa — observou Helen, — é pouco provável que a tenham registrado.

— M uito verdadeiro, cara senhora. — Turgut fez-lhe um gesto com a cabeça. — De qualquer maneira, o amigo monástico de Selim ajudou-nos numa questão importante: procurou as mais antigas histórias de igrejas que estão ali guardadas e descobriu que o abade a quem a carta era dirigida, esse M axim E upraxius, foi numa fase mais tardia da sua vida um grande abade no monte Athos. M as, em 1477, quando a carta lhe foi escrita, era abade do mosteiro do lago Snagov. — Turgut proferiu estas últimas palavras com uma ênfase triunfante.

P or alguns instantes, ficamos mergulhados num silêncio excitado. Finalmente, H elen quebrou-o:

— "Somos homens de Deus, homens dos Cárpatos" — murmurou ela.

— Como disse? — Turgut olhou-a com interesse.

— Sim! — retomei a frase de H elen. – "H omens dos C árpatos." É de uma canção, uma canção folclórica romena que Helen encontrou em Budapeste.

Descrevi-lhes a hora que passáramos a folhear o antigo livro de canções na biblioteca da Universidade de B udapeste, a bela xilogravura no alto da página, de um dragão e uma igreja escondidos entre as árvores. As sobrancelhas de Turgut subiram quase até aos seus cabelos desgrenhados quando a mencionei, e vasculhei rapidamente a minha papelada.

— Onde é que está isso? — Um momento depois tinha encontrado a minha tradução manuscrita, entre os papéis da minha pasta. Meu Deus, pensei, se eu algum dia perder esta pasta! e li-a em voz alta, fazendo pausas para que Turgut traduzisse para Selim e Mrs. Bora:

Chegaram aos portões, às portas da grande cidade. Chegaram à grande cidade vindos da

terra da morte. "Somos homens de Deus, homens dos Cárpatos. Somos monges e homens santos,

mas trazemos más notícias. T razemos notícias de uma peste na grande cidade. Servindo o nosso

mestre, vimos chorar a sua morte." Chegaram aos portões e a cidade chorou com eles Quando

nela entraram.

— C éus, como é peculiar e assustador — disse Turgut. — T odas as vossas canções locais são assim, minha senhora?

— Sim, a maioria — disse Helen, sorrindo.

N otei que na minha excitação me esquecera, por dois minutos, de que ela estava sentada junto de mim. C om dificuldade, forcei-me a não estender a minha mão para pegar na dela, a não olhar fixamente para o seu sorriso ou para a melena de cabelo escuro que lhe caía para a cara.

— E o nosso dragão no cimo, escondido entre árvores... Deve haver alguma relação. — G ostaria de saber qual — suspirou Turgut. E ntão, bateu com a mão na beira da mesa

de latão, tão subitamente que todas as nossas chávenas tremelicaram. M rs. B ora pôs-lhe suavemente a mão no braço e ele acariciou-a, tranquilizando-a. — N ão... vejam bem: a peste! — V irou-se para Selim e os dois trocaram uma rápida saraivada de palavras em turco.

— O quê? — Helen apertara os olhos, concentrada. — A peste citada na canção? — Sim, minha cara — Turgut penteou os cabelos para trás com a mão. — Além da

carta, encontramos outro fato sobre I stambul nesse exato período, algo que na verdade o meu amigo Aksoy já sabia. N o final do Verão de 1477, sob um calor intenso, houve o que os nossos historiadores chamam P equena P este. C eifou muitas vidas no antigo bairro Pêra, a que agora, chamamos G aiata. Os corpos eram empalados no coração antes de serem queimados. I sto é muito pouco habitual, diz ele, porque normalmente os corpos dos infelizes eram simplesmente queimados fora dos portões da cidade, para evitar outras infecções. Mas foi uma epidemia breve e não levou muitas pessoas.

— Acha que estes monges, se é que eram os mesmos, trouxeram a peste à cidade? — É claro que não podemos saber — admitiu Turgut. — Mas se a sua canção descrever

o mesmo grupo de monges..

— E stive a pensar numa coisa — H elen pousou a chávena. — N ão me lembro, P aul, se

já te contei, mas Vlad Drácula foi um dos primeiros estrategas militares na H istória a usar.. como se diz... doenças na guerra.

— Armas biológicas — ajudei-a — Hugh James contou-me. — Sim. — E la encolheu os pés debaixo do corpo. — Durante as invasões da Valáquia

pelo sultão, Drácula gostava de enviar pessoas doentes de peste ou varíola para os campos otomanos disfarçadas de turcos. I nfectavam o maior número possível de pessoas antes de morrerem ali mesmo.

Se aquilo não fosse tão horrível, eu teria sorrido. O príncipe da Valáquia era tão

formidavelmente criativo como era destrutivo, um inimigo extremamente inteligente. Um segundo depois, percebi que acabara de pensar nele no presente.

— P ercebo — assentiu Turgut. — A senhora quer dizer que talvez esse grupo de

monges, se eram realmente os mesmos monges, tenha trazido a peste consigo, da Valáquia.

— M as no entanto isso não explica uma coisa — H elen franziu a testa. — Se alguns

deles estivessem doentes com a peste, por que teria o abade de Santa Inna permitido que se hospedassem lá?

— M inha senhora, isso é verdade — admitiu Turgut. — E ntretanto, se não fosse a

peste, mas outro tipo de contaminação... Mas não há maneira de saber.

Ficamos ali sentados, frustrados, meditando sobre a questão.

— M uitos monges ortodoxos passavam por C onstantinopla em peregrinação, mesmo depois da conquista — disse H elen, por fim — Talvez fossem simplesmente um grupo de peregrinos.

— M as estavam à procura de alguma coisa que, aparentemente, não encontraram na sua peregrinação, pelo menos não em Constantinopla — observei.

— E o irmão K inl diz que estavam a caminho da B ulgária disfarçados de peregrinos, como se não fossem realmente peregrinos. Pelo menos é o que ele parece estar a dizer.

Turgut coçou a cabeça.

— M r. Aksoy pensou nisso — disse. — E xplicou-me que a maior parte das relíquias cristãs importantes das igrejas de C onstantinopla foram destruídas ou roubadas durante a invasão: ícones, cruzes, ossos de santos. E videntemente, não havia aqui tantos tesouros em 1453 como na época em que B izâncio era uma grande potência, porque as mais belas coisas antigas foram roubadas pela C ruzada L atina de 1204 — sem dúvida que sabem isso — e levadas para Roma e Veneza e outras cidades do Ocidente. — Turgut abriu as mãos a sua frente, com um gesto de reprovação. — O meu pai falou-me dos maravilhosos cavalos da B asílica de São M arcos em Veneza, roubados de B izâncio por cruzados. Os invasores cristãos eram tão maus como os otomanos, sabem. De qualquer modo, meus amigos, durante a invasão de 1453, certos tesouros das igrejas foram escondidos e alguns foram mesmo levados para fora da cidade, antes do cerco do sultão M ehmed, e escondidos em mosteiros fora das muralhas ou levados em segredo para outras terras Se os nossos monges fossem peregrinos, talvez tivessem vindo à cidade na esperança de visitar um objeto sagrado e então descobriram que já lá não estava. Talvez o que o abade do segundo mosteiro lhes contou tenha sido a história de um grande ícone levado em segurança para a B ulgária. M as não temos maneira de saber só com esta carta.

— Agora percebo por que é que quer que a gente vá à B ulgária. — Resisti novamente à vontade de pegar na mão de H elen. — E mbora eu não consiga imaginar como poderemos descobrir mais pormenores dessa história quando lá chegarmos, e muito menos como conseguiremos entrar no país. O senhor tem a certeza de que não há outro lugar em Istambul onde possamos procurar?

Turgut fez que não com a cabeça, sombrio, e pegou na sua chávena de café abandonada.

Usei todas as fontes de informação que me ocorreram, incluindo algumas, sinto muito dizer-lhes, que não posso mencionar. M r. Aksoy procurou em todos os lugares, nos seus próprios livros, nas bibliotecas dos seus amigos, nos arquivos da universidade. C onversei com todos os historiadores que encontrei, inclusive um que estuda os cemitérios de I stambul, os senhores já viram os nossos belos cemitérios. N ão conseguimos encontrar uma única referência a um enterro fora do comum de um estrangeiro naquele período. P ode ser que tenhamos deixado escapar alguma coisa, mas não sei onde procurar mais em pouco tempo. Olhou para nós com seriedade. Sei que seria muito difícil irem à Bulgária. Eu próprio iria, mas para mim seria ainda mais difícil, meus amigos. Sendo turco, não poderia participar sequer numa das suas conferências acadêmicas. N inguém odeia mais os descendentes do Império Otomano do que os Búlgaros.

— Ah, os Romenos fazem o melhor que podem — assegurou-lhe H elen, mas as suas

palavras foram amenizadas por um sorriso que ele lhe retribuiu.

— M as... meu Deus — recostei-me outra vez nas almofadas do sofá, sentindo-me

submergir em mais uma daquelas ondas de irrealidade que ultimamente passavam por mim com uma frequência cada vez maior. — Não sei como vamos conseguir.

Turgut inclinou-se e colocou à minha frente a tradução em inglês da carta do monge. — Ele também não sabia.

— Quem? — gemi.

— O irmão Kiril. Escute, meu amigo, quando é que Rossi desapareceu? — Há mais de duas semanas --admiti.

— N ão têm tempo a perder. Sabemos que Drácula não está no seu túmulo em Snagov.

Pensamos que não foi sepultado em Istambul. Mas — e bateu no papel com um dedo temos aqui um indício. — De quê, não sabemos, mas em 1477 alguém do mosteiro de Snagov foi à B ulgária; ou tentou ir. Vale a pena tentar saber mais. Se não encontrarem nada, pelo menos terão feito o que estava ao vosso alcance. E então podem voltar para casa e chorar o vosso mestre com o coração limpo, e nós, os vossos amigos, honraremos para sempre a vossa coragem. M as se não tentarem, passarão toda a vida a interrogarem-se e a mortificarem-se, sem alívio.

Pegou novamente na tradução, correu um dedo sobre ela e leu em voz alta: "É muito perigoso para nós agora demorarmo-nos nem que seja mais um dia aqui, e

estaremos mais seguros mesmo durante a nossa viagem através das terras infiéis do que estamos aqui." T ome, meu amigo. C oloque-a na sua bolsa. E sta cópia é para si, a tradução em inglês. E aqui está uma cópia em E slavónio, que o monge amigo de M r. Aksoy transcreveu.

Turgut inclinou-se para a frente.

— Ouvi dizer que há um estudioso na Bulgária a quem os senhores podem pedir ajuda.

O seu nome é Anton Stoichev. O meu amigo Aksoy admira muito o trabalho dele, já publicado em muitas línguas. — Ao ouvir o nome, Selim Aksoy assentiu com a cabeça. — Stoichev sabe mais sobre os B alcãs medievais do que qualquer outra pessoa viva, principalmente sobre a Bulgária. Vive perto de Sofia: terão de perguntar por ele.

H elen agarrou-me de repente na mão, às claras, surpreendendo-me; tinha pensado

que iríamos manter a nossa relação em segredo, mesmo aqui, entre amigos. V i Turgut a olhar de relance para o gesto dela. As linhas calorosas em volta dos seus olhos e da sua boca aprofundaram-se e M rs. B ora sorriu-nos abertamente, com as suas mãos de menina enlaçadas em torno dos joelhos. E ra evidente que ela aprovava a nossa união, e senti-a subitamente abençoada por aquelas pessoas de bom coração.

— N esse caso, vou telefonar para a minha tia — disse H elen com firmeza, apertando-me os dedos.

— Eva? O que pode ela fazer?

— C omo sabes, pode fazer tudo — H elen sorriu-me. — N ão, não sei exatamente o que pode e o que estará disposta a fazer. M as ela tem amigos, e inimigos, na polícia secreta do nosso país — baixou a voz, quase involuntariamente — e eles tem amigos em todo o L este E uropeu. E inimigos, evidentemente, eles espiam-se todos uns aos outros. É possível que venha a correr algum perigo, e é só isso que me preocupa E vamos precisar de uma grande, grande quantia para o suborno

— B akshish — assentiu Turgut — C om certeza Selim Aksoy e eu já pensamos no assunto. E ncontramos vinte mil liras que podem utilizar. E embora eu não possa ir convosco, meus amigos, dar-lhes-ei toda a ajuda que puder, assim como Mr Aksoy

Olhei fixamente para ele e para Aksoy — sentados a nossa frente, com as suas chávenas de café esquecidas, muito direitos e sérios. Alguma coisa nos seus rostos — o largo e corado de Turgut, o delicado de Aksoy, ambos de olhos penetrantes, ambos calmos mas alerta de uma forma quase ameaçadora — não me era estranha. Uma sensação que não conseguia identificar invadiu-me, por um segundo travou-me a pergunta na boca. E ntão apertei mais a mão de H elen na minha — aquela mão forte, rija e já amada — e olhei de frente os olhos escuros de Turgut.

— Quem são os senhores? — perguntei

Turgut e Selim entreolharam-se e algo pareceu passar silenciosamente entre eles E Turgut falou, numa voz baixa e clara.

— Nós trabalhamos para o sultão.