O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 12 de 83

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O Historiador

Capítulo 10

N os últimos anos, desde o final da minha adolescência estudiosa com o meu pai e o

início das primeiras décadas da minha aventurosa vida adulta, por várias vezes experimentei as sensações desse legado peculiar que o tempo dá ao viajante: o desejo de ir a um lugar pela segunda vez, de encontrar deliberadamente aquilo que antes se encontrou por acaso, de reviver a sensação de descoberta. E m certas ocasiões, procuramos rever mesmo um lugar que nada tinha de extraordinário só porque nos lembramos dele. Quando o reencontramos, tudo está diferente, é claro. A porta de madeira tosca ainda lá está, mas é muito menor; o dia está nublado, não claro como da outra vez; é P rimavera, em vez de Outono; estamos sós, e já não com três amigos. Ou pior, com três amigos em vez de sozinhos.

O viajante muito jovem conhece pouco esse fenómeno mas, antes que eu própria o

conhecesse, vi-o acontecer com o meu pai em Saint-M a hieu-des-P yrénées-Orientales. P ressenti nele, mais do que vi claramente, o mistério da repetição, sabendo que estivera ali três anos antes. E , de uma forma estranha, aquele lugar provocava nele um alheamento que não revelara em nenhum dos outros que tínhamos visitado. Estivera uma vez na região de E mona antes da nossa visita e diversas vezes em Ragusa. V isitara a villa de pedra de Massimo e Giulia para outros jantares felizes, em anos anteriores.

M as, em Saint-M a hieu, percebi que ele realmente ansiara por este lugar, pensara

nele vezes sem conta por algum motivo que eu não conseguia descortinar, revivera-o sem dizer nada a ninguém. N ão me disse naquele momento que já ali estivera, exceto ao reconhecer em voz alta a curva da estrada antes que esta finalmente desembocasse junto ao muro da abadia e, mais tarde, ao saber que portas se abriam para o santuário, para o claustro e, por fim, para a cripta. A sua capacidade para memorizar pormenores não era nova para mim; já o vira antes dirigir-se para a porta certa em igrejas famosas, ou seguir na direção correcta para um antigo refeitório, ou parar para comprar bilhetes na entrada certa no caminho de cascalho certo, e lembrar-se mesmo onde tomara antes o melhor café.

A diferença em Saint-M a hieu era o estado de alerta, a forma quase apressada como

esquadrinhava as paredes e os corredores dos claustros. E m vez de parecer dizer para si mesmo: "Ah, lá está aquele belo tímpano sobre as portas; não me lembrava bem, pensei que ficasse deste lado", o meu pai dava a impressão de estar apenas a conferir locais que poderia ter descrito de olhos fechados. P ouco a pouco, antes mesmo de acabarmos de subir o terreno sombreado de ciprestes que antecedia a entrada principal, concluí que não era de pormenores arquitetonicos que ele se lembrava, mas de acontecimentos.

Um monge com um longo hábito castanho encontrava-se junto às portas de madeira a

entregar folhetos aos turistas.

— C omo te disse, é um mosteiro ainda em atividade — disse-me o meu pai com a sua

voz de sempre. Pusera os óculos escuros, embora o muro do mosteiro projetasse uma grande sombra sobre nós.

E les mantêm o ruído das pessoas sob controle ao permitirem visitas apenas durante algumas horas por dia sorriu para o monge quando nos aproximámos e estendeu a mão para pegar num folheto.

— Merci beaucoup. Só precisamos de um — disse, no seu francês impecável.

Nessa altura, com a precisão instintiva com que os jovens analisam os pais, tive mais do que a certeza de que ele não se limitara a ver aquele lugar, com a máquina fotográfica na mão. N ão o "vira" na verdadeira acepção da palavra, ainda que soubesse todas as referências artísticas e históricas que constavam do guia turístico. E m vez disso, eu tinha a certeza de que alguma coisa lhe acontecera ali.

A minha segunda impressão foi tão fugaz como a primeira, mas mais aguda: quando abriu o folheto e pôs o pé na soleira de pedra, curvando a cabeça demasiado casualmente para o papel, em vez de olhar para os animais em relevo por cima da porta (que normalmente teriam atraído a sua atenção), vi que não deixara de sentir uma antiga emoção relacionada com o santuário em que estávamos prestes a entrar. Aquela emoção, percebi, sem respirar no intervalo entre a minha intuição e o pensamento que se lhe seguiu, era desgosto ou medo, ou uma terrível combinação dos dois.

Saint-M a hieu-des-P yrénées-Orientales está situado a uma altura de mais de mil e duzentos metros acima do nível do mar e o mar não fica tão longe como nos faz supor aquela paisagem em que as montanhas surgem como muralhas junto às quais as águias volteiam em círculos. C om telhados vermelhos e precariamente alcandorado no topo, parece ter-se erguido diretamente de um único pináculo de rocha, o que de certo modo é verdade, já que a primitiva igreja foi escavada na própria rocha no ano 1000. A entrada principal da abadia é uma expressão tardia do românico, influenciada pela arte dos muçulmanos que, ao longo de séculos, lutaram para tomar o pico da montanha: um portal de pedra retangular, coroado por bordaduras geométricas, islâmicas, e dois monstros cristãos em baixo-relevo, as caras contorcidas num esgar, num rugido, criaturas que poderiam ser leões, ursos, morcegos ou grifos — animais impossíveis cuja estirpe poderia ser qualquer uma.

L á dentro fica a pequenina igreja abacial de Samt-M a hieu com o seu claustro maravilhosamente delicado, cercado por roseiras mesmo àquela enorme altitude, rodeado por colunas simples de mármore vermelho, de aparência tão frágil que a sua forma retorcida parece ter saído das mãos de um Sansão artista. A luz do sol espalha-se em borrifos pelas lajes de pedra do pátio aberto e o céu azul arqueia-se subitamente por cima de nós.

M as o que primeiro me chamou a atenção, logo que entrámos, foi o ruído de água corrente, inesperado e encantador num local tão alto e seco e, no entanto, natural como o som de um riacho de montanha. V inha da fonte do claustro, em torno da qual os monges andavam outrora compassadamente enquanto meditavam: uma bacia hexagonal, de mármore vermelho, com o exterior plano decorado por um relevo cinzelado representando um claustro em miniatura, um reflexo do verdadeiro que nos rodeava. A grande bacia da fonte erguia-se sobre seis colunas de mármore vermelho (e um suporte central através do qual a água subia, creio eu). A sua volta, seis repuxos jorravam água para um tanque abaixo. A música que produzia era encantadora.

Quando me dirigi para o limite exterior dos claustros e me sentei num muro baixo, a

vista era de centenas de metros de altura e de finas cascatas de montanha, brancas contra a floresta azul a pique. M esmo empoleirados num pico, estávamos cercados pelas vertentes gigantescas e impossíveis de escalar das montanhas mais altas dos P irenéus Orientais. Àquela distância, as cascatas mergulhavam em silêncio das alturas, ou pareciam ser apenas névoa, enquanto a fonte viva atrás de mim escorria e gotejava audivelmente e sem pausa.

— A vida monástica — murmurou o meu pai, sentando-se junto de mim no muro. O

seu rosto estava estranho e pôs-me um braço a volta dos ombros, uma coisa que raramente fazia — Parece tranquila, mas é muito dura. E às vezes muito perversa, também.

Ficámos sentados a olhar para o despenhadeiro, tão profundo que a luz da manhã

ainda não alcançara, a ravina lá em baixo. Alguma coisa pairava e cintilava no ar abaixo de nós e percebi o que era antes mesmo de o meu pai apontar para ela: uma ave de rapina, a caçar lentamente ao longo dos paredões do pináculo, suspensa no ar como um floco de cobre flutuante.

— C onstruir mais alto do que as águias — comentou o meu pai. Sabes, a águia é um

símbolo cristão muito antigo, o símbolo de São J oão. M ateus. S. M ateus — é o anjo, e L ucas é o boi, e São M arcos é o leão alado, claro. E ncontramos esse leão por todo o Adriático, porque era o santo padroeiro de Veneza. Segura um livro entre as patas: se o livro está aberto, a estátua ou relevo foi esculpido num momento em que Veneza estava em paz. Fechado, significa que Veneza estava em guerra. V imo-lo em Ragusa, lembras-te? C om o livro fechado, em cima de um dos portões. E agora vimos também a águia, guardando este lugar, que bem precisa de guardas. — O meu pai franziu as sobrancelhas, levantou-se e voltou-se para sair. T ive a súbita impressão de que se arrependia, quase até às lágrimas, de termos feito aquela visita. — Vamos dar uma volta?

Foi só quando estávamos a descer as escadas para a cripta que vi de novo no meu pai

aquela indescritível atitude de medo. T ínhamos acabado o nosso percurso atento através dos claustros, das capelas, da nave e dos edifícios das cozinhas, gastos pelo vento. A cripta era o último ponto da nossa visita autoguiada, era a sobremesa dos mórbidos, como o meu pai dizia em algumas igrejas. Diante do vão de uma escadaria, pareceu ir em frente com uma deliberação um tanto excessiva, mantendo-me atrás dele sem sequer levantar um braço quando descemos à base da construção sobre o rochedo. Uma aragem incrivelmente fria subia da escuridão da terra. Os outros turistas tinham-se ido embora, dando por encerrada aquela atracção, e deixaram-nos sozinhos.

— E sta era a nave da primitiva igreja — explicou de novo, desnecessariamente, com a voz absolutamente normal. — Quando a abadia se tornou mais importante e puderam continuar a construir, limitaram-se a aproveitar o espaço aberto em cima e construíram uma igreja nova sobre a antiga.

Velas acesas em nichos escavados nas pesadas colunas de pedra interrompiam a escuridão. Uma cruz fora talhada na parede da abside; pairava como uma sombra por cima de um altar de pedra, ou sarcófago — era difícil saber —, que se encontrava na curva da abside. N as paredes laterais da cripta havia outros dois sarcófagos, pequenos e primitivos, sem qualquer marca. O meu pai respirou fundo e lançou um olhar em volta daquele frio e silencioso buraco na rocha.

— O lugar onde repousa o abade fundador e vários outros abades. E aqui acaba o nosso passeio. Muito bem. Agora, vamos almoçar.

Fiz uma pausa antes de sair. O impulso de perguntar ao meu pai o que é que ele sabia sobre Saint-M a hieu, até mesmo do que se lembrava, tomou conta de mim como uma onda, quase como um ataque de pânico. E ntretanto, as suas costas, largas no seu casaco de linho preto, diziam com toda a clareza, como se falassem: "E spera. C ada coisa a seu tempo." Olhei de relance para o sarcófago na extremidade da antiga basílica. A sua forma era tosca, impassível à luz que não vacilava. O que quer que escondesse pertencia ao passado, e tentar adivinhar não o iria desenterrar.

E havia outra coisa que eu sabia, sem precisar de adivinhar. A história que iria ouvir, à hora do almoço no terraço do mosteiro, num desnível discreto atrás dos aposentos dos monges, poderia acabar por ser sobre um lugar muito distante daquele.