O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 71 de 83

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O Historiador

Capítulo 68

Setembro de 1962

Minha querida filha

M aldito I nglês! M as quando tento escrever-te em Húngaro, umas poucas frases, sei de

imediato que não estás a ouvir. Tu estás a crescer em I nglês. O teu pai, que pensa que morri, fala

contigo em I nglês quando te põe aos ombros. Fala I nglês contigo quando te calça os sapatos já

deves usar sapatos a sério há anos e fala I nglês quando te agarra a mão para passear no parque.

No entanto, se falo contigo em I nglês, tenho a impressão de que não consegues ouvir-me. Não te

escrevo há muito tempo porque não conseguia ouvir-te a aprender em língua nenhuma. Sei que o

teu pai pensa que morri porque nunca tentou encontrar-me. Se tivesse tentado, teria conseguido.

Mas ele não consegue ouvir-me em língua nenhuma

A tua mãe que te adora, Helen

 

Maio de 1963

Minha querida filha

Não sei quantas vezes te expliquei em silêncio que, nos primeiros meses, tu e eu fomos muito

felizes juntas. Ver-te acordar do teu sono, as tuas mãos a mexerem-se antes que qualquer outra

parte de ti despertasse, as tuas pestanas escuras a palpitarem em seguida e depois o teu

espreguiçar, o teu sorriso, enchia-me completamente o coração. E ntão, alguma coisa aconteceu.

Não era nada fora de mim, nem uma ameaça externa a ti. E ra dentro de mim. Comecei a

procurar constantemente no teu corpo perfeito algum sinal preocupante. M as o mal estava em

mim, muito antes desta ferida no meu pescoço, e nunca iria sarar completamente. P assei a ter

medo de te tocar, meu anjo perfeito

A tua mãe que te adora, Helen

 

Julho de 1963

Minha querida filha:

Hoje, tenho a impressão de que sinto a tua falta mais do que nunca. E stou nos arquivos

universitários de Roma. J á aqui estive sete vezes nos últimos dois anos. Os guardas conhecem-

me, os arquivistas conhecem-me, o empregado do café do outro lado da rua conhece-me, e

gostaria de me conhecer melhor se eu não lhe virasse as costas com frieza, fingindo que não noto

o interesse dele. E ste arquivo contém registros de uma peste de 1517, cujas vítimas apresentavam

apenas uma chaga, um ferimento vermelho no pescoço. O P apa ordenou que fossem enterradas

com estacas cravadas no coração e alho dentro da boca. Em 1517. Estou a tentar fazer um mapa

dos movimentos dele através dos tempos ou já que é impossível saber a diferença, os movimentos

dos seus servos. E sse mapa, na verdade uma lista no meu caderno de anotações, já enche muitas

páginas. M as ainda não sei como vou usá-lo. E nquanto trabalho, estou à espera de tentar

descobrir.

A tua mãe que te adora, Helen

 

Setembro de 1963

Minha querida filha:

E stou prestes, ou quase, a desistir e a voltar para ti. O teu aniversário é este mês. Como

posso perder outro aniversário teu? Voltaria para ti imediatamente, mas sei que, se o fizer, vai

acontecer a mesma coisa. Vou sentir a minha impureza, como senti há seis anos vou sentir o

horror dessa impureza, vou ver a tua perfeição. Como posso ficar perto de ti, sabendo que estou

maculada? Que direito tenho de tocar na tua face macia?

A tua mãe que te adora, Helen

 

Outubro de 1963

Minha querida filha:

E stou em A ssis. E stas extraordinárias igrejas e capelas, subindo a colina, dão-me uma

sensação de desespero. P odíamos ter vindo aqui, tu com o teu vestidinho e o teu chapéu, e eu, e o

teu pai, os três de mãos dadas, como turistas. E m vez disso, estou a trabalhar no meio dopo de

uma biblioteca monástica, a ler um documento de 1603. Dois monges morreram aqui em

Dezembro desse ano. Foram encontrados caídos na neve com as gargantas só ligeiramente

feridas. O meu latim ainda resiste muito bem, e o meu dinheiro compra toda a ajuda de que

preciso para interpretar, traduzir, lavar a minha roupa. Serve também para comprar vistos,

passaportes, bilhetes de comboio, um bilhete de identidade falso. Nunca tive dinheiro quando

estava a crescer. A minha mãe, na aldeia, mal sabia o que isso era. A gora estou a aprender que o

dinheiro compra tudo. Não, nem tudo. Nem tudo o que quero.

A tua mãe que te adora, Helen