O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 40 de 83

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O Historiador

Capítulo 37

H elen estava de fato cansada e, relutantemente, deixei-a na pensão para dormir uma sesta. N ão me agradava que ficasse lá sozinha, mas ela alegou que a luz do dia era suficiente como proteção. M esmo que o perverso bibliotecário soubesse onde estávamos, não era provável que entrasse a meio do dia em quartos trancados, e ela trazia consigo o seu pequeno crucifixo. T ínhamos muitas horas pela frente antes de H elen ligar de novo para a tia, e não podíamos tomar nenhuma providência para a nossa viagem até recebermos instruções dela. Deixei a minha pasta ao cuidado de H elen e forcei-me a sair, sentindo que enlouqueceria se permanecesse ali, fingindo ler ou tentando pensar.

P arecia uma boa oportunidade para visitar mais alguma coisa em I stambul; por isso, dirigi-me sem grandes dificuldades para o complexo labiríntico e cheio de cúpulas do palácio T opkapi, destinado pelo sultão M ehmed a ser a nova sede da sua conquista. Atraíra-me desde a nossa primeira tarde na cidade, tanto a sua imagem à distância como a do meu guia turístico. O T opkapi cobre uma grande área no promontório de I stambul e é rodeado em três dos seus lados pela água: o B ósforo, a baía do C orno de Ouro e o mar de M ármara. E u desconfiava que, se deixasse de vê-lo, perderia a oportunidade de um contacto com a essência da história otomana de I stambul. Talvez estivesse outra vez a desviar-me para muito longe de Rossi, mas reflecti que o próprio Rossi teria feito o mesmo se tivesse umas horas de ócio forçado.

Fiquei decepcionado ao descobrir, passeando pelos parques, pátios e pavilhões onde o coração do I mpério pulsara durante centenas de anos, que pouca coisa do tempo de M ehmed estava exposta ali — apenas alguns adornos saídos do seu tesouro e algumas das suas espadas, amassadas e riscadas por um uso intenso. P enso que esperava sobretudo ter uma noção mais exata de como era o sultão cujo exército combatera Vlad Drácula e cujo tribunal de polícia se preocupara com a segurança da sua suposta tumba em Snagov. E ra antes — pensei, recordando o jogo dos velhos no bazar como tentar determinar a posição do shah do adversário no shak-mat sabendo apenas qual é a posição do seu próprio shah.

N o entanto, havia muita coisa no palácio para manter o meu espírito ocupado. De acordo com o que H elen me dissera no dia anterior, aquele era um mundo no qual mais de cinco mil criados, com títulos como o de G rande E nrolador de Turbantes, tinham outrora obedecido a vontade do sultão, onde eunucos eram os guardiões da virtude do seu enorme harém no que parecia uma prisão ornamentada, onde o sultão Suleimão, o M agnífico, que reinou em meados do século dezesseis, consolidou o I mpério, codificou as suas leis e transformou I stambul numa metrópole tão grandiosa como tinha sido no tempo dos imperadores bizantinos. Como eles, o sultão atravessava a cidade uma vez por semana para fazer as suas devoções em H agia Sophia — mas a sexta-feira, o dia sagrado dos muçulmanos, e não aos domingos E ra um mundo de rígido protocolo e de refeições sumptuosas, de tecidos e tapetes maravilhosos e mosaicos deslumbrantes, de vizires vestidos de verde e camareiros de vermelho, de botas fantasticamente coloridas e turbantes altos como torres.

I mpressionara-me particularmente a descrição que H elen fizera dos janízaros, uma

unidade de elite de guardas selecionados entre os rapazes capturados por todo o I mpério. E u sabia que já lera a respeito deles, daqueles rapazes nascidos cristãos em lugares como a Sérvia e a Valáquia e criados no I slã, treinados para odiar os povos de onde haviam saído e, quando atingiam a idade adulta, lançados ao ataque desses mesmos povos como falcões as suas presas. N a realidade, tinha visto imagens desses janízaros em qualquer lado, talvez nalgum livro ilustrado. P ensando nos seus rostos jovens e inexpressivos, congregados para proteger o sultão, senti o frio que emanava dos edifícios do palácio cerrar-se a minha volta.

Ocorreu-me, enquanto andava de sala em sala, que o jovem Vlad Drácula teria dado

um excelente janízaro. O I mpério perdera uma oportunidade, uma bela oportunidade, de incorporar um pouco mais de crueldade a sua enorme força. Teria sido preciso apanhá-lo bem jovem, pensei, mantendo-o talvez na Ásia Menor em vez de o devolver ao seu pai. Ele tornara-se demasiado independente depois disso, um renegado, leal apenas a si próprio e a mais ninguém, tão pronto a executar os seus próprios seguidores como a matar os seus inimigos turcos. C omo Stalin — espantei-me com esse salto mental enquanto contemplava o cintilar das águas do B osforo. Stalin morrera no ano anterior e novas histórias sobre as suas atrocidades tinham transpirado para a imprensa ocidental. L embrei-me de um relato sobre um general, supostamente leal, que, pouco antes da guerra, Stalin acusara de querer derrubá-lo. O general fora retirado do seu apartamento a meio da noite e pendurado de cabeça para baixo nas traves de uma movimentada estação ferroviária fora de M oscou durante vários dias, até morrer. T odos os passageiros que entravam e saíam dos comboios o viram, mas nenhum se atreveu a olhar duas vezes na sua direção. M uito tempo depois, os moradores daquele bairro não foram capazes de chegar a um acordo sobre se aquilo teria ou não realmente acontecido.

I ncómodos pensamentos deste gênero acompanharam-me de um maravilhoso

aposento para outro, pelo palácio inteiro; em toda a parte sentia que havia algo sinistro ou perigoso, o que poderia ser simplesmente a esmagadora evidência do supremo poder do sultão, um poder mais revelado do que disfarçado pelos corredores estreitos, passagens sinuosas, janelas gradeadas e jardins enclausurados. P or fim, buscando um pouco de alívio da sensação provocada pela mistura de sensualidade e confinamento, de elegância e opressão, voltei para o ar livre, para as árvores batidas pelo sol do pátio exterior.

L á fora, porém, encontrei o mais alarmante de todos os fantasmas, pois o meu guia

indicava que aquele tinha sido o local das execuções e explicava com pormenores generosos o costume do sultão de decapitar funcionários ou qualquer pessoa de quem discordasse. As cabeças eram expostas nas pontas de ferro dos portões do sultão, um duro exemplo para a populaça. O sultão e o renegado da Valáquia formavam uma boa dupla, pensei, saindo dali, incomodado. Um passeio pelo parque circundante acalmou-me os nervos, e o reflexo baixo, vermelho, da luz do sol nas águas, transformando um navio de passagem numa silhueta negra, lembrou-me de que a tarde estava a chegar ao fim e que tinha de voltar para junto de Helen e saber se havia alguma notícia da sua tia.

Quando cheguei, Helen estava à espera no vestíbulo, a ler um jornal inglês.

— Como é que foi o seu passeio? — perguntou, levantando a cabeça.

— Horripilante — respondi. — Fui ao palácio Topkapi.

— Ah — e fechou o jornal. — Tenho pena de ter perdido isso.

— N ão tenha. C omo vão as coisas no grande mundo? — E la correu um dedo pelas manchetes do jornal.

— Horripilantes. Mas tenho boas notícias para si.

— Falou com a sua tia? — Deixei-me cair numa das cadeiras desconjuntadas perto dela.

— Sim, e ela foi extraordinária, como sempre. Tenho a certeza de que vai ralhar comigo quando chegarmos, mas não faz mal. O importante é que encontrou uma conferência para participarmos.

— Uma conferência?

— É. E xcelente, aliás. Vai haver uma conferência internacional de historiadores em B udapeste esta semana. Vamos participar como professores convidados e ela arranjou maneira de obtermos os nossos vistos aqui. — Sorriu. — Aparentemente, a minha tia tem um amigo que é historiador na Universidade de Budapeste.

— Qual é o tema da conferência? — perguntei, apreensivo.

— Questões de Trabalho na Europa de 1600.

— Um assunto bastante amplo. E imagino que vamos participar na qualidade de especialistas em assuntos otomanos?

— Exato, meu caro Watson. — Dei um suspiro.

— Nesse caso, foi boa idéia ter dado um salto ao Topkapi.

H elen sorriu-me, mas eu não soube distinguir se o sorriso era um pouco malicioso ou se manifestava confiança na minha capacidade de dissimulação.

— A conferência começa na sexta-feira; portanto, temos dois dias para chegar lá. Durante o fim-de-semana, vamos assistir a palestras e você vai ser um dos conferencistas. N o domingo, os historiadores têm uma parte do dia livre para explorarem a B udapeste histórica, e nós vamos escapulir-nos para explorar a minha mãe.

— E u vou fazer o quê?! — N ão pude evitar fulminá-la com o olhar, mas ela alisou um caracol em volta da orelha e encarou-me com um sorriso ainda mais inocente.

— Ah, uma palestra. Você vai fazer uma palestra. É o nosso pretexto para entrar lá.

— Uma palestra sobre quê, posso saber?

— Sobre a presença otomana na T ransilvânia e na Valáquia, creio. N esta altura, a minha tia já deve ter feito a gentileza de a acrescentar ao programa. N ão precisa de ser uma palestra longa, tanto mais que, é claro, os Otomanos nunca foram capazes de conquistar completamente a T ransilvânia. Achei que seria um bom tema para si porque nós dois já sabemos tanto sobre Vlad, e ele foi fundamental para os manter à distância, na época.

— Foi muito simpático da sua parte — trocei. — Você é que sabe muito sobre ele. Está a

dizer-me que tenho de me levantar e falar sobre Drácula à frente de uma plateia internacional de acadêmicos? N ão se esqueça de que a minha tese é sobre as guildas de mercadores holandeses, e que nem a acabei ainda. P or que é que não é você a fazer a palestra?

— Seria ridículo — disse H elen, cruzando as mãos sobre o jornal. — E u sou... como é

que se diz... um filme já visto. T oda a gente na universidade já me conhece e está farta de conhecer o meu trabalho. Um conferencista americano vai acrescentar um brilho extra ao espetáculo e vão agradecer-me por tê-lo levado, mesmo sendo em cima da hora. Ter um americano como convidado vai fazê-los ficar menos envergonhados com o decadente albergue da universidade e com as ervilhas enlatadas que vão servir no grande jantar da última noite. Vou ajudá-lo a escrever a palestra — ou até escrevê-la eu mesma, se pretende continuar a ser tão desagradável — e pode fazê-la no sábado. Acho que a minha tia disse por volta da uma da tarde.

Dei um gemido. E la era a pessoa mais insuportável que eu já encontrara. Ocorreu-me

que a minha presença lá, na sua companhia, também poderia ser um compromisso político maior do que ela queria admitir.

— B em, e o que é que os Otomanos na T ransilvânia e na Valáquia têm a ver com as

questões de trabalho na Europa?

— Ah, havemos de arranjar maneira de introduzir umas questões de trabalho. É isso

que faz a beleza da sólida educação marxista que você não teve o privilégio de receber. Acredite, é possível encontrar questões de trabalho em qualquer tema, se procurarmos bem. Além disso, o I mpério Otomano era uma grande potência econômica e Vlad deu-lhes cabo das rotas comerciais e do acesso aos recursos naturais na região do Danúbio. N ão se preocupe, vai ser uma palestra fascinante.

— Jesus! — disse eu, finalmente.

— Não — sacudiu a cabeça —, Jesus não, por favor. Só relações de trabalho. E ntão, não pude deixar de rir, nem de admirar em silêncio o brilho dos seus olhos

escuros.

— Só espero que ninguém na minha universidade saiba disto, imagino o que o meu júri

de tese diria se soubesse. P or outro lado, acho que Rossi teria apreciado muito toda a situação.

E comecei a rir-me de novo, pensando no correspondente brilho de malícia no vivo

olhar azul de Rossi, e parei. P ensar em Rossi estava a tornar-se um ponto tão doloroso no meu coração que dificilmente conseguia suportá-lo; ali estava eu, do outro lado do mundo, longe do gabinete onde ele fora visto pela última vez, e tinha todos os motivos para acreditar que nunca mais voltaria a vê-lo vivo, que talvez nunca viria a saber o que fora feito dele. O "nunca" estendeu-se longa e desalentadamente diante de mim por um segundo, e então afastei esse pensamento do meu espírito, íamos para a H ungria falar com uma mulher que supostamente o conhecera — o conhecera intimamente —, muito antes de eu próprio o ter conhecido, quando ele estava mergulhado na sua busca de Drácula. E ra uma linha de investigação que não podíamos dar-nos ao luxo de ignorar. Se eu tinha de fazer o papel de charlatão e fazer uma palestra para chegar lá, até isso eu faria.

H elen observava-me em silêncio, e sem, não pela primeira vez, a sua invulgar capacidade para ler os meus pensamentos. E la confirmou a minha sensação um momento depois, ao dizer:

— Vale a pena, não vale?

— Vale. — E desviei o olhar.

— M uito bem — disse ela, suavemente. — E stou contente que vá conhecer a minha tia, que é maravilhosa, e a minha mãe, que também é maravilhosa, mas de outra maneira, e que elas o vão conhecer a si.

Olhei rapidamente para ela — a doçura da sua voz fizera o meu coração contrair-se de repente —, mas o seu rosto readquirira a expressão habitual de ironia contida.

— Quando partimos, então? — perguntei.

— Vamos buscar os nossos vistos amanhã de manhã e apanhamos o avião no dia seguinte, se tudo correr bem com as nossas passagens. A minha tia disse-me que temos de ir ao consulado húngaro amanhã antes da hora de abrir, e tocar a campainha da porta da frente — mais ou menos às sete e meia. P odemos ir diretamente de lá para uma agência de viagens e comprar as passagens de avião. Se não houver lugar, teremos de ir de comboio, o que seria uma viagem muito longa.

E la abanou a cabeça, mas a súbita visão de um ruidoso e trepidante comboio dos B alcãs, a seguir o seu caminho de uma antiga capital para outra, fez com que eu desejasse que todos os voos da companhia aérea estivessem completamente esgotados, apesar do tempo que poderíamos perder.

— Estarei certo quando imagino que você se parece mais com essa tia do que com a sua mãe?

Talvez fosse apenas a aventura mental do comboio que me tenha feito sorrir para Helen. Ela hesitou apenas um segundo.

— C orreto de novo, Watson. Sou muito parecida com a minha tia, graças a Deus. M as você vai gostar mais da minha mãe a maioria das pessoas gosta. E agora posso convidá-lo para jantar comigo no nosso restaurante favorito e trabalhar na sua palestra durante o jantar?

— Com certeza — concordei, — desde que não haja ciganas por perto.

Ofereci-lhe o meu braço com solícita ironia e ela trocou o seu jornal pelo apoio oferecido. Ao saírmos para o anoitecer dourado das ruas bizantinas, refleti como é estranho que, mesmo sob as circunstâncias mais extraordinárias, durante os episódios mais perturbadores da vida, nos lugares mais distantes de casa e de tudo o que nos é familiar, possam existir esses momentos de incontestável alegria.

 

N uma manhã soalheira em B oulois, B arley e eu apanhamos o primeiro comboio para

Perpignan.