O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 80 de 83

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O Historiador

Capítulo 77

Fiquei ali três semanas, em L ês B ains e no mosteiro, vasculhando os penhascos e as florestas com a polícia local e com uma equipe que contratei em P aris. A minha mãe e o meu pai apanharam um avião para França e passavam horas a brincar contigo, dando-te de comer e empurrando o teu carrinho pela cidade penso que era isso que faziam. E u preenchia formulários em pequenos escritórios sonolentos. Fazia telefonemas inúteis, procurando as palavras certas em francês para expressar a urgência da minha perda. Dia após dia, esquadrinhava os bosques no sopé do penhasco, às vezes na companhia de um detetive de rosto impassível e da sua equipe, as vezes sozinho com as minhas lágrimas.

De início, só queria ver H elen viva, caminhando na minha direção com o seu habitual sorriso irônico, mas acabei reduzido a um doloroso anseio de encontrar o seu corpo, esperando dar com ele nalgum ponto dos rochedos e arbustos. Se pudesse levar o corpo para os E stados Unidos ou para a H ungria, pensava as vezes, embora o modo como entraria na H ungria controlada pelos Soviéticos fosse um enigma, teria alguma coisa dela para honrar, para enterrar, uma forma de acabar com aquilo e ficar sozinho com a minha dor. Quase não admitia para mim mesmo que queria o seu corpo também por outro motivo para verificar se a sua morte fora completamente natural, ou se precisaria de mim para cumprir a mesma penosa tarefa que levara a cabo por Rossi. P or que não encontrava o seu corpo. Às vezes, sobretudo de manhã, pensava que ela simplesmente caíra, que nunca nos deixaria de propósito. C onseguia então acreditar que repousava num túmulo inocente e elementar algures nos bosques, mesmo que eu nunca o encontrasse. Quando chegava a tarde, porém, só me lembrava das suas depressões, dos seus estranhos humores.

Eu sabia que iria sofrer para o resto da vida, mas aquela falta absoluta, até do seu corpo, atormentava-me. O médico local deu-me um sedativo, que eu tomava a noite para poder dormir e recuperar as forças para procurar nos bosques outra vez no dia seguinte. Quando a polícia ficou ocupada com outras questões, passei a procurar sozinho.

P or vezes, deparava-me com outras relíquias na vegetação rasteira: pedras, chaminés em ruínas e, certa vez, parte de uma gárgula despedaçada teria caído para tão longe como Helen? Havia agora poucas gárgulas nas paredes do mosteiro.

P or fim, a minha mãe e o meu pai convenceram-me de que eu não podia fazer aquilo para sempre, que devia levar-te para N ova I orque por uns tempos, que poderia sempre voltar e procurar de novo. A polícia por toda a E uropa tinha sido alertada, através da rede francesa; se H elen estivesse viva diziam-me, com suavidade na voz, alguém a encontraria. P or fim, desisti, não por causa desses argumentos, mas por causa da própria floresta, da meteórica inclinação dos penhascos, da cerrada vegetação rasteira que me rasgava as calças e o casaco quando andava pelo meio dela, da altura e largura descomunal das árvores, do silêncio que me rodeava sempre que eu parava de me movimentar, de tatear, e ficava parado alguns minutos.

Antes de partirmos, pedi ao abade que dissesse uma bênção por H elen na extremidade

do claustro, de onde ela tinha saltado. E le fez uma celebração, reunindo os monges à sua volta, erguendo um objeto ritual depois do outro — não me importava saber o que eram realmente e entoando cânticos para uma enormidade de espaço que engolia a sua voz. Os meus pais mantiveram-se junto de mim, a minha mãe a enxugar os olhos rapidamente, e tu a agitares-te nos meus braços. E u segurava-te com força; quase esquecera, durante aquelas semanas, como o teu cabelo escuro era macio, como eram fortes as tuas pernas que protestavam. Acima de tudo, estavas viva; respiravas de encontro ao meu queixo e o teu bracinho abraçava o meu pescoço, afetuosamente. Quando um soluço me sacudiu, agarraste-me o cabelo, puxaste-me a orelha. E nquanto te segurava, jurei que iria tentar recuperar um pouco de vida, de alguma forma de vida.