O Historiador
Capítulo 61
Se a minha primeira visão da casa de Stoichev me enchera de súbito desalento, a
minha primeira visão do M osteiro de Rila encheu-me de uma admiração reverente. O mosteiro estava encravado num vale espectacularmente profundo ocupando-o quase por inteiro, naquele ponto e acima das suas muralhas e cúpulas elevavam-se as montanhas de Rila, que são muito escarpadas e cobertas de altas bétulas. Ranov estacionou o carro à sombra, fora do portão principal, e entramos juntamente com vários grupos de outros turistas. O dia estava quente e seco; o verão dos B alcãs parecia avançar de todos os lados, e a poeira do chão nu rodopiava à volta dos nossos tornozelos. As grandes portas de madeira estavam abertas e passamos por elas para dar com uma visão que nunca poderei esquecer. À nossa volta, erguiam-se as muralhas listadas da fortaleza do mosteiro, com os seus padrões alternados de preto e vermelho sobre reboco branco, contornadas por compridas galerias de madeira. Ocupando um terço do enorme pátio, havia uma igreja de requintadas proporções, com pórtico pesadamente revestido de frescos, as cúpulas de um verde pálido iluminadas pelo Sol do meio-dia. Ao lado, uma torre robusta, quadrada, de pedra cinzenta, visivelmente mais antiga do que tudo o resto ali. Stoichev disse-nos que se tratava da T orre H relyo, construída por um nobre da I dade M édia para lhe servir de refúgio contra os seus inimigos políticos. E ra a única parte remanescente do antigo mosteiro que existiu naquele lugar, queimado pelos Turcos e reconstruído séculos depois no seu esplendor listado. E nquanto ali estávamos, os sinos da igreja começaram a tocar, espantando um bando de pássaros. V oaram todos, assustados, e, ao acompanhá-los com os olhos, vi de novo os picos quase inimaginavelmente altos acima de nós um dia inteiro, pelo menos, para serem escalados. Sustive a respiração; estaria Rossi algures aqui, neste lugar antigo?
H elen, de pé junto de mim com um lenço fino amarrado sobre o cabelo, passou o braço
pelo meu e lembrei aquele momento em H agia Sophia, aquele entardecer em I stambul que parecia ser já história mas que na realidade acontecera apenas dias antes, em que ela apertara a minha mão com força. Os Otomanos tinham conquistado aquela terra muito antes de tomarem Constantinopla; logicamente, devíamos ter começado a nossa viagem ali, e não em H agia Sophia. P or outro lado, antes disso ainda, as doutrinas do B izantinos, a sua arte e a sua arquitetura elegantes tinham vindo de C onstantinopla para dar sabor à cultura búlgara. Agora, Santa Sophia era um museu entre mesquitas, enquanto aquele vale fantasticamente isolado transbordava de cultura bizantina.
Stoichev, ao nosso lado, não disfarçava o seu prazer pelo nosso assombro. I rma, com
um chapéu de abas largas, segurava-lhe firmemente o braço. Só Ranov se mantinha à parte, contemplando a bela cena com uma expressão carrancuda, virando a cabeça, desconfiado, quando um grupo de monges encapuzados de preto passou por nós a caminho da igreja. Fora uma luta persuadi-lo a ir buscar Stoichev e I nna no seu carro e trazê-los conosco; queria que Stoichev tivesse a honra de nos mostrar Rila, mas não via razão para que não apanhasse o autocarro como o resto do povo búlgaro. C ontrolei-me para não comentar que ele próprio, Ranov, não parecia andar muito de autocarro. A nossa vontade prevalecera, o que não impedira Ranov de resmungar sobre o velho professor durante quase todo o percurso de Sofia até à casa de Stoichev. Stoichev usara a sua fama para incentivar a superstição e idéias antipatrióticas, toda a gente sabia que ele se recusara a abandonar a sua muito pouco científica fidelidade à igreja ortodoxa; tinha um filho a estudar na Alemanha Oriental que era quase tão mau como ele. M as tínhamos ganho a batalha, Stoichev pôde vir conosco e I rma, durante a nossa paragem para almoçar numa taberna das montanhas, sussurrou-nos, agradecida, que teria tentado impedir que o tio viesse, se tivessem mesmo de apanhar o autocarro, ele não aguentaria uma viagem tão incomoda com aquele calor
— Aqui é a ala onde os monges ainda vivem — disse Stoichev. — E lá adiante, daquele lado, é a hospedaria onde vamos dormir. Verão como é tranquilo à noite, apesar de todos estes visitantes durante o dia. E ste é um dos nossos grandes tesouros nacionais e muita gente vem vê-lo, sobretudo no Verão. M as à noite torna-se muito sossegado outra vez. Venham — acrescentou —, vamos entrar para ver o abade. Telefonei-lhe ontem e está à nossa espera.
E seguiu à nossa frente com um vigor surpreendente, olhando em volta com animação, como se o local lhe desse uma vida nova.
As salas de audiência do abade, quando lá chegamos, ficavam no andar térreo da ala monástica. Um monge de túnica negra com uma comprida barba castanha segurou a porta para nos dar passagem e entramos, Stoichev tirando o seu chapéu e entrando primeiro. O abade levantou-se de um banco perto da parede e adiantou-se para nos receber. E le e Stoichev cumprimentaram-se com muita cordialidade. Stoichev beijou a mão do abade e este abençoou o velho professor. O abade era um homem magro e direito de uns sessenta anos, a barba grisalha e os olhos azuis fiquei bastante surpreendido ao constatar que havia búlgaros de olhos azuis muito serenos. Apertou-nos a mão de uma forma bem moderna, assim como a Ranov, que o tratou com óbvio desdém. Depois, fez sinal para nos sentarmos e um monge entrou com uma bandeja com copos — que naquele lugar não estavam cheios de rakiya, mas de água fresca, acompanhada de pratinhos daquela pasta com cheiro a rosas que já havíamos provado em I stambul. N otei que Ranov não bebeu a sua água, como se desconfiasse que estava envenenada.
O abade mostrou-se claramente encantado por ver Stoichev, e imaginei que a visita fosse um prazer especial para ambos. P erguntou-nos, por intermédio de Stoichev, de que parte da América éramos, se tínhamos visitado outros mosteiros na B ulgária, o que podia fazer para nos ajudar, quanto tempo poderíamos ficar. E m seguida Stoichev falou com ele lentamente, traduzindo de bom grado para que pudéssemos responder às perguntas do abade. P oderíamos usar a biblioteca tanto quanto desejássemos, disse o abade; poderíamos dormir na hospedaria; recomendava que assistíssemos às cerimônias na igreja; éramos bem-vindos em toda a parte, exceto nas dependências reservadas aos monges isto com uma delicada inclinação de cabeça para H elen e I rina e estava fora de questão que os amigos do professor Stoichev pagassem a hospedagem. Agradecemos efusivamente e Stoichev pôs-se de pé.
— Agora — declarou ele, — já que dispomos dessas amáveis autorizações, vamos à
biblioteca.
E stava já a dirigir-se para a porta, depois de ter beijado a mão do abade, inclinando-se
para ele.
— O meu tio está muito excitado — sussurrou-nos I rina. — Disse-me que a vossa carta
é uma grande descoberta para a história da Bulgária.
P erguntei a mim próprio se ela saberia o que estava em jogo naquela pesquisa, que
sombras havia no nosso caminho, mas era-me impossível ler fosse o que fosse na sua expressão. Ajudou o tio a sair e nós seguimo-los ao longo das descomunais galerias de madeira que contornavam o pátio, Ranov na retaguarda com um cigarro aceso na mão.
A biblioteca consistia numa comprida galeria no piso térreo, quase defronte dos
aposentos do abade. À entrada, um monge de barba negra recebeu-nos; era um homem alto, de rosto macilento, e pareceu-me que olhou intensamente para Stoichev antes de nos cumprimentar com um gesto da cabeça.
— E ste é o irmão Rumen — apresentou-nos Stoichev. — É atualmente o monge-
bibliotecário. Vai mostrar-nos o que precisamos ver.
Alguns livros e manuscritos estavam expostos em vitrinas e etiquetados, para os
turistas; eu teria gostado de os examinar, mas encaminhávamo-nos para um recanto ao fundo que se abria para a parte mais recuada da sala. O ar era um milagre de frescura nas profundezas do mosteiro, e mesmo as poucas e cruas lâmpadas elétricas não conseguiam dissipar a profunda escuridão dos cantos mais recônditos. Neste santuário interior, armários e prateleiras de madeira estavam carregados de caixas e bandejas de livros. N um dos cantos havia um pequeno altar com um ícone da V irgem com o menino, rígido e precoce, ladeados por dois anjos de asas vermelhas, iluminado por uma candeia dourada e cravejada de pedras preciosas. As paredes muito, muito velhas estavam caiadas de branco e o cheiro que nos envolvia era o odor familiar de pergaminho, velino e veludo em lenta decomposição. Fiquei satisfeito ao ver que Ranov tivera pelo menos a delicadeza de apagar o cigarro antes de penetrar conosco naquela casa do tesouro.
Stoichev bateu com o pé no chão de pedra como se conjurasse espíritos. — Aqui — disse ele, — estão a contemplar o coração do povo búlgaro. Foi aqui que
durante centenas de anos os monges preservaram a nossa herança, muitas vezes em segredo. G erações de monges dedicados copiaram estes manuscritos, ou esconderam-nos quando o mosteiro era atacado pelos infiéis. Esta é uma pequena percentagem do legado do nosso povo; grande parte foi destruída, é claro. Mas estamos gratos pelo que restou.
Falou com o bibliotecário, que começou a examinar com cuidado as caixas etiquetadas nas prateleiras. M inutos depois, trouxe para baixo uma caixa de madeira e tirou de dentro dela diversos volumes. O de cima estava decorado com uma extraordinária pintura representando C risto ou o que achei que fosse C risto — com um globo numa mão e um cetro na outra, o rosto ensombrecido pela melancolia bizantina. P ara minha decepção, as cartas do irmão K iril não estavam guardadas naquele esplêndido volume, mas num mais simples, com aspecto de osso antigo. O bibliotecário levou-o para uma mesa e Stoichev sentou-se ansioso diante dele, abrindo-o com grande satisfação. H elen e eu pegamos nos nossos cadernos de anotações e Ranov deambulou por entre as estantes da biblioteca, como se estivesse demasiado entediado para ficar parado no mesmo lugar.
— Tanto quanto me lembro — disse Stoichev —, há duas cartas aqui, e não se sabe se haveria mais, se o irmão K iril escreveu outras que não subsistiram. — Apontou para a primeira página. E stava coberta por uma caligrafia apertada, arredondada, e o pergaminho estava muito velho, quase castanho. Stoichev virou-se para o bibliotecário e fez-lhe uma pergunta. — Sim — disse-nos, contente. — E les datilografaram estes documentos em B úlgaro e mais alguns outros documentos raros desse período. O bibliotecário colocou uma pasta diante dele e Stoichev ficou calado por algum tempo, examinando as páginas datilografadas e voltando a olhar para o antigo manuscrito. Fizeram um excelente trabalho declarou, por fim. — Vou traduzir-vos o melhor que puder, para poderem tomar notas.
E leu-nos uma versão, intercalada por pequenas pausas, das duas cartas:
A Sua Excelência, Abade-Mor Eupraxius:
Faz hoje três dias que saímos de Laota e estamos a viajar pela estrada principal em direção
a Vin. Uma noite dormimos no estábulo de um bom lavrador e outra noite na ermida de S.
M iguel, onde nenhum monge vive agora mas que nosofereceu pelo menos o abrigo seco de uma
gruta. Na última noite fomos obrigados pela primeira vez a acampar na floresta, espalhando
mantas no chão rústico e deitando-nos dentro de um círculo formado pelos cavalos e pela
carroça. Os lobos chegaram suficientemente perto durante a noite para escutarmos os seus uivos,
o que fez os cavalos, apavorados, tentarem fugir Com grande dificuldade os controlamos. A gora
estou sinceramente feliz com a presença dos irmãos I van e T heodosius, com a sua força e a sua
altura, e bendigo a vossa sabedoria ao colocá-los entre nós.
E sta noite fomos bem recebidos na casa de um pastor com alguns meios de fortuna e
também um homem piedoso, possui três mil ovelhas nesta região, segundo nos diz, e fomos
instados a dormir nas suas peles de carneiro e colchões macios, embora eu, pelo meu lado, tenha
escolhido o chão, mais apropriado as nossas orações. E stamos fora da floresta aqui, entre colinas
abertas que ondulam de todos os lados, onde podemos caminhar com igual bênção a chuva ou ao
sol O bom homem da casa contou-nos que por duas vezes foram vítimas dos ataques do infiel
vindo do outro lado do rio, que agora fica apenas a uns poucos dias de caminho, se o irmão
A ngelus sarar e conseguir acompanhar-nos. P ensei em deixá-lo montar um dos cavalos, embora
o sagrado peso que carregam seja já demasiado para eles. Felizmente, não vimos sinal de
soldados infiéis na estrada
Vosso mui humilde servo em Cristo,
Irmão Kiril
Abril do ano 6985 de Nosso Senhor
A Sua Excelência, Abade-Mor Eupraxius
Deixamos a cidade para trás há algumas semanas e estamos agora a avançar abertamente
pelo território dos infiéis. Não ouso escrever a nossa localização para o caso de virmos a ser
capturados. Talvez devêssemos, afinal, ter escolhido a rota do mar, mas Deus será o nosso
P rotetor ao longo do caminho que escolhemos. Vimos os restos queimados de dois mosteiros e
uma igreja. A igreja ainda fumegava. Cinco monges foram ali enforcados por conspirarem para
uma rebelião e os seus irmãos sobreviventes já estão dispersos por outros mosteiros. E stas foram
as únicas notícias que soubemos, pois não podemos conversar muito com as pessoas que se
aproximam da nossa carroça. Contudo, não há motivos para crer que um destes mosteiros seja
aquele que buscamos. La, o sinal será claro, o monstro iguala o santo. Se esta missiva puder ser-
vos entregue, meu senhor, será o mais breve possível
Vosso mui humilde servo em Cristo,
Irmão Kiril
Junho do ano 6985 de Nosso Senhor
Quando Stoichev terminou, permanecemos em silêncio. H elen estava ainda a tomar
notas, o rosto concentrado na tarefa. Irma estava sentada com as mãos entrelaçadas, Ranov encostara se negligentemente a um armário, coçando o pescoço sob o colarinho da camisa. E u, por minha vez, desistira de registrar os acontecimentos descritos na carta, de qualquer modo, H elen anotaria tudo. N ão havia ali qualquer indicação clara de um destino em particular, nem menção de uma tumba, nenhuma cena de funeral — o meu desapontamento sufocava-me.
Mas Stoichev não parecia nada desanimado — I nteressante — disse ele, depois de longos minutos de pausa. — I nteressante Vejam
bem, cronologicamente, a vossa carta de I stambul deve estar entre estas duas. N a primeira e na segunda cartas, eles estão a viajar através da Valáquia na direção do Danúbio, como os topônimos deixam claro. Depois, vem a vossa carta, que o irmão K iril escreveu em C onstantinopla, talvez esperando enviá-la de lá juntamente com as anteriores. M as não pôde ou teve medo de as enviar — a não ser que estas sejam apenas cópias — não temos maneira de saber. E a última carta está datada de J unho. E les fizeram um percurso por terra igual ao que é descrito pela "C rônica" de Zachanas. N a verdade, deve ter sido o mesmo percurso, de C onstantinopla passando por E dirne e H askovo, por que essa era a principal estrada de Tsangrado para a Bulgária
Helen levantou a cabeça
— M as como podemos ter certeza de que é de fato a B ulgária que esta última carta
descreve?
— N ão podemos ter certeza absoluta — admitiu Stoichev — N o entanto, creio que é bastante provável Se eles viajaram de Tsangrado, ou seja, C onstantinopla, para uma região onde mosteiros e igrejas estavam a ser queimados no final do século quinze, É muito provável que seja a B ulgária. Além disso, na vossa carta de I stambul, ele declara que pretendem ir para a Bulgária
Não consegui deixar de manifestar a minha frustração
— M as não há mais nenhuma informação sobre a localização do mosteiro de que eles estavam a procura Presumindo que era mesmo Sveti Georgi
Ranov instalara se a mesa conosco e estava a contemplar os polegares, ponderei se deveria esconder dele o meu interesse por Sven G eorgi, mas de que outra maneira poderíamos interrogar Stoichev sobre isso?
— N ão — concordou Stoichev — O irmão K iril certamente não escreveria nas cartas o nome do lugar para onde se dirigiam, assim como não citou Snagov juntamente com os títulos de E upraxius no início delas. Se fossem apanhados, esses mosteiros poderiam sofrer posteriormente ainda mais perseguições, ou pelo menos serem revistados.
— H á aqui uma frase interessante — H elen terminara as suas anotações. — N ão se importa de a ler outra vez? A frase que diz que o sinal no mosteiro que procuravam era um monstro que iguala um santo. O que pensa que isto significa?
L ancei um rápido olhar para Stoichev; aquela frase também me chamara a atenção. Ele suspirou.
P ode referir-se a um fresco ou um ícone que haveria no mosteiro. E m Sveti G eorgi, se o destino deles era mesmo esse. É difícil imaginar o que uma imagem assim poderia ter sido. E mesmo se pudéssemos encontrar o próprio Sveti G eorgi, não há muita esperança de que um ícone que estava lá no século quinze ainda permaneça no mesmo lugar, sobretudo se levarmos em conta que o mosteiro foi provavelmente queimado pelo menos uma vez. N ão sei o que significa. Talvez seja até uma referência teológica que o abade compreenderia mas que nós não, ou talvez se refira a alguma combinação secreta entre eles. N o entanto, precisamos ter isso presente, pois o irmão K iril refere-se-lhe como sendo o sinal que lhes indicará que chegaram ao lugar certo.
E u ainda estava a lutar com a minha decepção; apercebi-me de que esperava que aquelas cartas, nos seus invólucros desbotados, contivessem a chave definitiva da nossa busca, ou pelo menos lançassem alguma luz sobre os mapas que eu ainda esperava usar.
— H á uma questão mais ampla que é muito estranha — Stoichev passou a mão no queixo. — A carta de I stambul diz que o tesouro que eles procuram, talvez uma relíquia sagrada de Tsarigrado, está num determinado mosteiro na B ulgária, e que é por isso que precisam de ir para lá. P or favor, professor, faça-me a gentileza de ler aquela passagem outra vez.
E u tirara da pasta o texto da carta de I stambul para o ter ao meu lado enquanto estudávamos as outras missivas do irmão Kiril.
— A passagem diz: "... o que procuramos já foi transportado para fora da cidade, para
um refúgio nas terras ocupadas dos Búlgaros."
— É esse o trecho — disse Stoichev. — A questão é... — tamborilou com o longo dedo
indicador na mesa à sua frente — por que motivo uma relíquia sagrada, por exemplo, teria sido levada clandestinamente para fora de Constantinopla em 1477? A cidade era otomana desde 1453 e a maior parte das suas relíquias foi destruída durante a invasão. P or que razão o mosteiro de P anachrantos enviaria uma relíquia para a B ulgária vinte e quatro anos depois, e por que seria essa relíquia em especial que os monges teriam ido procurar em Constantinopla?
— B em — lembrei-lhe —, sabemos pela carta que os janízaros estavam à procura da
mesma relíquia, portanto também devia ter valor para o sultão.
Stoichev considerou o argumento.—
C erto, mas os janízaros procuraram-na depois de já ter sido levada em segurança para
fora do mosteiro.
— Devia ser um objeto sagrado com significado político para os Otomanos e, ao mesmo
tempo, um tesouro espiritual para os monges de Snagov.
Helen franzia a testa, batendo de leve com a caneta na cara. — Um livro, talvez?
— Sim — disse eu, animado. — E se fosse um livro contendo informações que os
Otomanos quisessem e de que os monges precisassem?
Ranov, do lado oposto da mesa, lançou-me subitamente um olhar duro. Stoichev sacudiu a cabeça devagar, mas lembrei-me um segundo depois que isso
significava desacordo.
— Os livros desse período geralmente não continham informações políticas, eram
textos religiosos, copiados várias vezes para serem usados nos mosteiros ou nas escolas religiosas islâmicas ou nas mesquitas, se fossem otomanos. É pouco provável que os monges empreendessem uma viagem tão perigosa mesmo por uma cópia dos E vangelhos. E já deviam possuir livros assim em Snagov.
— Só um minuto — os olhos de H elen estavam muito abertos, imersos em
pensamentos. — E sperem. Deve ter sido alguma coisa relacionada com as necessidades de Snagov, ou da Ordem do Dragão, ou talvez sobre o velório de Vlad Drácula; lembram-se da "Crônica"? O abade queria que Drácula fosse enterrado noutro lugar.
— I sso mesmo — Stoichev meditava. — E le queria mandar o corpo para Tsarigrado
mesmo pondo em risco as vidas dos seus monges.
— Sim — concordei. Acho que estava prestes a dizer alguma coisa, a enveredar por
outra linha de investigação, mas H elen virou-se subitamente para mim e sacudiu-me o braço.
— O que foi? — perguntei, mas nessa altura ela já se recompusera por completo. — Nada — disse baixinho, sem olhar para mim ou para Ranov.
P edi a Deus que ele se levantasse e saísse para fumar, ou se cansasse da conversa para que H elen pudesse falar à vontade. Stoichev lançou um olhar perspicaz a H elen e então começou a explicar num tom monótono como eram feitos os manuscritos medievais, como eram copiados por monges que muitas vezes eram analfabetos e introduziram neles gerações de pequenos erros e como as suas diferentes caligrafias foram sistematizadas pelos especialistas modernos. I ntrigava-me o motivo por que ele se estendia tanto neste assunto, embora o que ele dizia me interessasse muito. Felizmente, fiquei calado durante a sua explanação, pois daí a pouco Ranov começou de fato a bocejar. Finalmente, levantou-se e saiu da biblioteca, procurando um maço de cigarros no bolso do casaco. L ogo que ele saiu, Helen agarrou-me o braço de novo. Stoichev olhava atentamente para ela.
— P aul — disse ela, e o seu rosto estava tão estranho que a segurei pelos ombros, pensando que ia desmaiar. — A cabeça dele! N ão vês? Drácula voltou para C onstantinopla para recuperar a sua cabeça!
Stoichev tossiu, mas era tarde demais N aquele momento, ao olhar em volta, vi o rosto anguloso do irmão Rumen junto a extremidade de uma estante. V oltara silenciosamente para a sala e, apesar de estar de costas enquanto tirava qualquer coisa de uma prateleira, estava a ouvir. M omentos depois, o bibliotecário saiu, ainda silencioso, e nós ficamos sentados sem dizer palavra. H elen e eu entreolhamo-nos, sem poder fazer nada, e levantamo-nos para verificar a parte mais escura da sala. O homem tinha ido embora, mas era apenas uma questão de tempo antes que alguém — Ranov, por exemplo — soubesse da exclamação de Helen. E que uso poderia Ranov fazer daquela informação?