O Historiador
Capítulo 41
Quando o professor J ózsef se inclinou sobre a nossa mesa com a sua pergunta amistosa, por um momento não soube o que dizer. E u tinha de falar outra vez com H ugh J ames logo que fosse possível, mas em particular, não no meio de toda aquela gente, e certamente não com a pessoa com quem H elen me dissera para ter cuidado por que motivo? — a respirar-me em cima do pescoço. Finalmente, consegui juntar algumas palavras.
— E stávamos a trocar idéias sobre a nossa paixão por livros antigos — disse. — Qualquer acadêmico deveria admiti-la, não acha?
N essa altura, H elen estava já junto de nós e olhava-me com o que interpretei como uma mistura de alarme e aprovação. L evantei-me para puxar uma cadeira para ela. N o meio da minha necessidade de dissimular perante G éza J ózsef, devo ter demonstrado um pouco de nervosismo, porque ela olhava fixamente de mim para H ugh. G éza olhava para todos nós com cordialidade, mas pensei ter visto semicerrarem-se levemente os seus belos olhos epicânticos; deve ter sido assim, pensei, que os H unos devem ter olhado para o Sol do Ocidente através das fendas dos seus elmos de couro. P rocurei não olhar para ele novamente.
Teríamos ficado ali o dia inteiro cruzando ou evitando olhares se o professor Sándor não tivesse aparecido de repente.
— M uito bem — disse ele aos brados. — Vejo que estão a apreciar o almoço. J á acabaram? E agora, se fizer a gentileza de vir comigo, vamos dar início a sua palestra.
E ncolhi-me na verdade, por alguns minutos esquecera a tortura que me aguardava, mas levantei-me, obediente. G éza colocou-se respeitosamente atrás do professor Sándor um pouco respeitosamente demais?, perguntei a mim mesmo, o que me deu um momento abençoado em que pude olhar para H elen. Arregalei os olhos e indiquei H ugh J ames, que também se levantara educadamente quando H elen chegara, e agora estava de pé junto à mesa, em silêncio. Ela franziu a testa, intrigada, e então o professor Sándor, para meu alívio, agarrou G éza pelo ombro e levou-o consigo. P ensei ter notado uma certa contrariedade nas costas grandes e encasacadas do jovem húngaro, mas talvez eu já estivesse demasiado impregnado da paranóia de H elen em relação a ele. De qualquer maneira, aquilo dera-nos um momento de liberdade.
— H ugh encontrou um livro — sussurrei, traindo desavergonhadamente o segredo do inglês.
Helen olhou para mim, sem compreender.
— Hugh?
Inclinei rapidamente a cabeça na direção do nosso companheiro, e ele olhou fixamente para nós. Então o queixo de Helen caiu. Hugh, por sua vez, olhou para ela:
— Ela também...?
— N ão — sussurrei. — E stá a ajudar-me. É H elen Rossi, antropóloga. — H ugh apertou-lhe a mão de modo caloroso mas brusco, ainda com o olhar parado. N o entanto, o professor Sándor tinha voltado e estava à nossa espera, e não havia outra alternativa senão segui-lo. Helen e Hugh saíram colados a mim, como se fôssemos um rebanho de ovelhas.
O auditório já estava a começar a encher-se, e escolhi um lugar na primeira fila,
tirando as minhas notas da pasta com uma mão que quase não tremia. O professor Sándor e o seu assistente estavam outra vez a mexer no microfone, e ocorreu-me que talvez os espectadores não conseguissem ouvir-me, e nesse caso não teria com que me preocupar. C edo demais, no entanto, o equipamento começou a funcionar e o amável professor apresentou-me, balançando a cabeça branca com entusiasmo enquanto falava, baseando-se no que lia num papel. C itou novamente as minhas notáveis credenciais, descreveu o prestígio da minha universidade nos E stados Unidos e felicitou a plateia pelo raro privilégio de me ouvir, desta vez tudo em inglês, provavelmente para que eu entendesse. De repente, dei-me conta de que não tinha um intérprete para traduzir para o Alemão, enquanto eu falava, as minhas notas, escritas naquelas folhas amassadas, e essa idéia despertou em mim um surto de confiança enquanto me levantava para enfrentar aquela provação.
— B oa tarde, colegas, companheiros historiadores comecei, — e então, sentindo que
aquilo era pomposo demais, pus de lado as minhas notas. — Obrigado por me darem a honra de falar para vocês hoje. G ostaria de discorrer um pouco sobre o período da incursão otomana na T ransilvânia e na Valáquia, dois principados que conhecem bem como parte da atual Romênia.
O mar de rostos atenciosos olhava fixamente para mim, e pareceu-me detectar uma
súbita tensão na sala. A T ransilvânia, para os historiadores húngaros, assim como para muitos outros húngaros, era um assunto delicado.
— C omo sabem, o I mpério Otomano manteve territórios em todo o L este E uropeu por
mais de quinhentos anos, administrando-os a partir de uma base segura depois da sua conquista da antiga C onstantinopla em 1453. O I mpério foi bem sucedido na invasão de uma dúzia de países, mas houve algumas regiões que nunca foi capaz de dominar, muitas delas, bolsas montanhosas nos confins da E uropa Oriental, cuja topografia e povos nativos desafiavam a conquista. Uma dessas regiões foi a Transilvânia.
C ontinuei desta maneira, em parte baseado nas minhas notas e em parte de memória,
de vez em quando sentindo uma onda de pânico acadêmico, ainda não conhecia bem o assunto, embora as lições de H elen sobre ele estivessem nitidamente gravadas na minha mente. Depois dessa introdução, fiz uma breve descrição geral sobre as rotas comerciais otomanas na região e então enumerei os diversos príncipes e nobres que haviam tentado repelir a incursão otomana. I ncluí Vlad Drácula entre eles do modo mais casual que consegui, porque H elen e eu tínhamos concordado que deixá-lo completamente de fora poderia parecer suspeito para qualquer historiador que conhecesse a sua importância como destruidor de exércitos otomanos. Deve ter-me custado mais do que eu imaginava pronunciar aquele nome na frente de uma multidão de estranhos porque, quando comecei a falar sobre o empalamento de vinte mil soldados turcos, fiz um gesto demasiado brusco com a mão e entornei o meu copo de água.
— Oh, perdão! — exclamei, olhando constrangido para a massa de rostos solidários, com exceção de dois deles. H elen estava pálida e parecia tensa, e G éza J ózsef inclinava-se um pouco para a frente, sem sorrir, como se a minha gafe o interessasse extremamente. O aluno de camisa azul e o professor Sandor vieram em meu auxílio com os seus lenços e logo a seguir pude continuar, o que fiz com toda a dignidade que consegui reunir. Ressaltei que, embora os Turcos tivessem finalmente conseguido vencer Vlad Drácula e muitos dos seus camaradas, achei que devia inserir aquela palavra nalgum ponto, rebeliões daquele tipo persistiram durante gerações, até que sucessivas revoluções locais derrubaram o I mpério. Fora a natureza local dessas rebeliões, com a sua capacidade de desaparecer no seu próprio território depois de cada ataque, que acabou por minar a grande máquina otomana.
A minha intenção era terminar de maneira mais eloquente, mas pelos vistos agradara à plateia, e houve uma sonora salva de palmas. P ara minha surpresa, tinha acabado. N ada de terrível acontecera. H elen afundou-se na cadeira, visivelmente aliviada, e o professor Sandor veio a sorrir apertar-me a mão. Olhando em volta, vi E va no fundo da sala, aplaudindo com o seu largo sorriso adorável. N o entanto, havia qualquer coisa de errado na sala, e um minuto depois notei que o vulto imponente de G éza desaparecera. N ão me lembrava de o ter visto sair, mas talvez a parte final da minha palestra tivesse sido demasiado enfadonha para ele.
O que eu mais temia era a sessão de perguntas e respostas depois da palestra, especialmente uma do tipo que normalmente fazíamos no nosso departamento na universidade uma oportunidade para o corpo docente criticar o orador convidado, uma espécie de disputa entre a equipe da casa e a equipe de fora. E u mesmo já participara daqueles massacres. Rossi, folgo em dizer, matava com gentileza, mas alguns dos outros professores viam aquelas sessões como uma oportunidade para uma carnificina. Felizmente, essa tradição parecia não existir ali; nenhum dos outros oradores se tinha oferecido para responder a uma só pergunta depois das suas palestras, portanto achei que era perfeitamente justificável recolher a minha papelada enquanto os aplausos morriam e voltar depressa para o meu lugar.
I mediatamente, todos se levantaram e começaram a conversar numa confusão de línguas. T rês ou quatro dos historiadores húngaros vieram apertar a minha mão e felicitar-me. O professor Sándor estava radiante.
— E xcelente! — exclamou. — É um grande prazer ver que os senhores na América entendem tão bem a nossa história da Transilvânia.
I maginei o que ele pensaria se soubesse que eu aprendera todo o tema da palestra com uma das suas colegas, sentado à mesa de um restaurante de Istambul.
E va aproximou-se e estendeu-me a mão. N ão sabia se devia beijá-la ou apertá-la, mas finalmente decidi-me pela segunda opção. E va parecia ainda mais alta e mais majestosa do que na véspera, no meio daquela multidão de homens com fatos coçados. Usava um vestido verde-escuro e pesados brincos de ouro, e os seus cabelos, encaracolados por baixo de um pequeno chapéu verde, tinham mudado de magenta para negro da noite para o dia.
H elen também veio falar com ela, e notei como foram formais uma com a outra nesse
encontro; era difícil acreditar que H elen correra para os seus braços na noite anterior. Helen traduziu-me os cumprimentos da tia:
— E xcelente trabalho, meu jovem amigo. P elo que pude ver nos rostos de todos,
conseguiu não ofender ninguém; por isso, provavelmente não deve ter dito muita coisa. Mas mantém-se direito no pódio e olha a plateia nos olhos... isso há-de levá-lo longe.
A tia E va misturava essas observações com o seu sorriso ofuscante, de dentes
impecáveis.
— Agora tenho de voltar para casa para resolver algumas coisas, mas vemo-nos ao
jantar amanhã à noite. Podemos jantar no vosso hotel.
Eu não sabia que iríamos jantar com ela outra vez, mas fiquei feliz por sabê-lo. — Sinto muito não poder oferecer-lhe um jantar realmente bom lá em casa, como
gostaria — desculpou-se. — M as se lhe disser que estou em obras, como o resto de B udapeste, tenho a certeza de que você compreende. N ão poderia receber visitas na minha sala de jantar no meio daquela confusão.
O seu sorriso prendia-me completamente a atenção, mas consegui colher duas
informações desse discurso — uma, que naquela cidade de apartamentos (presumivelmente) pequenos, ela dispunha de uma sala de jantar; e, dois, houvesse ou não confusão, ela era demasiado desconfiada para dar um jantar a um americano estranho em sua casa.
— P reciso conversar com a minha sobrinha. H elen pode ficar comigo esta noite, se a
puder dispensar.
Helen traduziu tudo isto com uma exatidão cheia de culpa. — É claro — disse eu, retribuindo o sorriso da tia E va. — E stou certo de que têm muito
que conversar depois de uma separação tão longa. E julgo que também tenho planos para o jantar. — Os meus olhos já estavam à procura do casaco de tweedde H ugh J ames no meio da multidão.
— M uito bem. — E la estendeu-me novamente a mão, e desta vez beijei-a como um
verdadeiro H úngaro, a primeira vez que beijei a mão de uma mulher, e a tia E va foi-se embora.
Ao intervalo seguiu-se uma palestra em francês sobre revoltas camponesas em França
no início da época moderna, a que se seguiram outras intervenções em alemão e húngaro. Ouvi-as sentado novamente ao fundo da sala, ao lado de H elen, saboreando o meu anonimato. Quando o russo que estudava os E stados B álticos deixou o pódio, H elen assegurou-me em voz baixa de que já ficáramos ali tempo suficiente e podíamos ir-nos embora.
— A biblioteca ainda está aberta mais uma hora. Vamos pôr-nos a andar agora.
— Um momento — disse eu. — Quero garantir a minha companhia para o jantar.
N ão precisei me esforçar muito para encontrar H ugh J ames outra vez; ele estava claramente também a minha procura. C oncordamos encontrar-nos às sete no vestíbulo do hotel da universidade. H elen apanharia um autocarro para a casa da tia, e vi no seu rosto que passaria o tempo a perguntar-se o que Hugh James teria para nos dizer.
As paredes da biblioteca da universidade, quando chegamos, eram de um ocre imaculado e brilhante, e dei por mim mais uma vez maravilhado com a velocidade com que a nação húngara se reconstruía depois da catástrofe da guerra. N em mesmo o mais tirânico dos governos podia ser completamente mau se era capaz de recuperar tanta beleza para os seus cidadãos em tão pouco tempo. E sse esforço fora provavelmente alimentado tanto pelo nacionalismo húngaro, especulei, lembrando-me dos comentários evasivos da tia Eva, como pelo fervor comunista.
— E m que é que está a pensar? — perguntou-me H elen T inha calçado as luvas e a mala estava firmemente pendurada no braço.
— Estou a pensar na sua tia
— Se gosta tanto assim da minha tia, talvez a minha mãe não seja bem o seu estilo — disse, com uma risada provocante. — M as vamos ver, amanhã. Agora, vamos procurar uma coisa lá dentro.
— O quê? Não seja tão misteriosa.
E la ignorou-me e entramos na biblioteca juntos através de portas pesadamente esculpidas.
— Renascença? — sussurrei para Helen, mas ela abanou a cabeça.
— É uma imitação feita no século dezenove. A coleção original daqui nem sequer estava em P este até ao século dezoito, penso eu; estava em B uda, como a universidade original. L embro-me de um dos bibliotecários me ter dito uma vez que muitos dos livros mais antigos desta coleção foram doados à biblioteca por famílias que estavam a fugir dos invasores otomanos no século dezesseis. C omo vê, devemos algumas coisas aos Turcos, afinal. De outra forma, quem sabe onde estariam agora todos estes livros?
E ra bom entrar numa biblioteca novamente; o cheiro era familiar. Aquela era uma preciosa construção neoclássica, toda de madeira escura entalhada, com balcões, galerias, frescos. Mas o que me chamou a atenção foram as filas de livros, centenas de milhares deles a forrar as salas, do teto ao chão, as suas encadernações vermelhas e castanhas e douradas em fileiras cerradas, as suas capas marmoreadas e as suas guardas macias ao toque, as vértebras salientes das lombadas, acastanhadas como velhos ossos. P erguntei-me onde teriam sido escondidos durante a guerra, e quanto tempo tinha sido necessário para os arrumar de novo em todas aquelas prateleiras reconstruídas.
Ainda havia alguns estudantes a folhear livros nas mesas compridas, e um jovem
estava a pôr em ordem pilhas deles atrás de uma grande secretária. H elen parou para lhe falar e ele concordou com um gesto da cabeça, levando-nos até uma grande sala de leitura que eu já vira através de uma porta aberta. Ali, localizou-nos um grande fólio, colocou-o sobre uma mesa e deixou-nos. Helen sentou-se e tirou as luvas.
— Sim — disse baixinho. — Acho que é este de que me lembrava. E xaminei este
volume antes de sair de B udapeste no ano passado, mas nessa altura não achava que tivesse grande importância.
Abriu o livro na página de título e vi que estava escrito numa língua que eu não
conhecia. As palavras pareciam-me estranhamente familiares, e no entanto não era capaz de ler uma sequer.
— O que é isto? — P us um dedo sobre o que eu achava que era o título. A folha era de
bom papel espesso, impressa a tinta castanha.
— É romeno — disse Helen.
— Consegue lê-lo?
— C laro. — P ousou a mão sobre a página, junto da minha. N otei que as nossas mãos
eram quase do mesmo tamanho, embora a dela tivesse ossos mais finos e as pontas dos dedos fossem quadradas e estreitas.
— Veja — disse ela. — Você estudou francês? — Sim — respondi. E ntão, percebi o que ela queria dizer e comecei a decifrar o título.
Baladas dos Cárpatos, 1790.
— Bom — disse ela. — Muito bem.
— Julguei que não sabia falar romeno — disse eu. — Falo muito mal, mas sei ler, mais ou menos. E studei latim durante dez anos na
escola, e a minha tia ensinou-me a ler e a escrever em romeno. C ontra a vontade da minha mãe, é claro. A minha mãe é muito teimosa. Raramente fala da T ransilvânia, mas também nunca a abandonou, no seu coração.
— E que livro é este?
H elen virou a primeira página, delicadamente. V i uma longa coluna de texto, de que à
primeira vista não consegui entender nada; além da falta de familiaridade com as palavras, várias letras latinas com que o texto estava escrito eram ornamentadas com cruzes, cedilhas, acentos circunflexos e outros símbolos. P arecia-se mais com bruxaria do que com uma língua românica.
— E ncontrei este livro durante as minhas últimas pesquisas, antes de partir para
I nglaterra. N a verdade, não há muito material sobre ele nesta biblioteca. M as encontrei alguns documentos sobre vampiros em geral, porque M átyás C orvinus, o nosso rei bibliófilo, tinha curiosidade sobre eles.
— Hugh disse o mesmo — murmurei.
— O quê?
— Explico-lhe depois. Continue.
— B em, não queria deixar nenhuma ponta por atar aqui, por isso, li uma enorme quantidade de coisas sobre a história da Valáquia e da T ransilvânia. L evei meses. Forcei-me a ler mesmo o que estava em romeno. E videntemente, muitos documentos e histórias sobre a T ransilvânia estão em húngaro, dos séculos de domínio da H ungria, mas também há algumas fontes romenas. E sta é uma coletânea de letras de canções folclóricas da T ransilvânia e da Valáquia, publicada por um colecionador anônimo. Algumas são mais do que canções folclóricas, são poemas épicos.
Senti um ligeiro desapontamento; estava à espera de um documento histórico raro, qualquer coisa sobre Drácula.
— Alguma delas menciona o nosso amigo?
— N ão, creio que não. M as havia uma canção aqui que me ficou na cabeça, e pensei nela de novo quando você me disse o que Selim Aksoy queria que víssemos no arquivo em I stambul sabe, aquele texto sobre os monges dos C árpatos que entravam na cidade de I stambul com a sua carroça e as suas mulas, lembra-se? Foi pena não termos pedido a Turgut que nos traduzisse o texto.
C omeçou a folhear o livro com muito cuidado. Alguns dos longos textos eram ilustrados no alto da página com xilogravuras, na maioria ornamentos com aspecto de bordados populares, mas havia também árvores, casas, animais. A impressão era perfeita, mas o livro propriamente dito tinha algo de tosco, de feito em casa. H elen correu o dedo ao longo das primeiras linhas dos poemas, com os lábios a mover-se lentamente, e abanou a cabeça.
— Alguns são tão tristes disse. — Sabe, no fundo, nós, Romenos, somos diferentes dos Húngaros.
— Como é isso?
— B em, há um provérbio húngaro que diz: "O M agiar vive os seus prazeres com tristeza." E é verdade. A H ungria também está cheia de canções tristes, e as aldeias são cheias de violência, de álcool, de suicídios. M as os Romenos são ainda mais tristes, ainda mais tristes. N ão somos tristes por causa da vida mas por natureza, acho. I nclinou a cabeça para o livro antigo e baixou os olhos. Ouça isto; é típico destas canções.
T raduziu, hesitante, e o resultado foi qualquer coisa como o que se segue, embora esta canção não seja a mesma e venha de um pequeno volume de traduções do século dezenove que agora se encontra na minha biblioteca particular:
Uma irmãzinha, a criança que morreu tinha. Depois que ela se foi, ainda que cedo fosse, Ficou bem mais alegre aquela sua irmãzinha. E disse à mãe: "Seu lindo sorriso doce, A que morreu, quando partiu, me deu: E a vida toda que ela não viveu. Agora vive por inteiro em mim." M as a mãe, ao ouvi-la falar assim, Pôs-se a chorar, a sua cabeça pendeu, Lembrando apenas a filha que morreu.
— Santo Deus — disse eu, estremecendo. — É fácil ver como uma cultura capaz de criar uma canção dessas acreditava em vampiros; chegou a produzi-los, aliás.
— Sim — disse H elen, abanando a cabeça, mas já a procurar outra coisa mais adiante
no mesmo livro. — E spere — e parou de repente. — P ode ter sido esta. — Apontou para um poema curto com uma elaborada xilogravura por baixo que parecia representar construções e animais enredados numa floresta espinhosa.
Fiquei em suspense durante longos minutos enquanto H elen lia o poema em silêncio,
até que finalmente ela levantou os olhos para mim. H avia no seu rosto uma centelha de excitação; os seus olhos brilhavam.
— Ouça este. Vou traduzir o melhor que puder. E aqui reproduzo para ti, minha filha, uma tradução exata, que guardei nos últimos
vinte anos com os meus papéis:
C hegaram aos portões, às portas da grande cidade. C hegaram à grande cidade vindos
da terra da morte. "Somos homens de Deus, homens dos C árpatos. Somos monges e santos homens, mas trazemos más notícias. T razemos notícias de uma peste à grande cidade. Servindo o nosso mestre, viemos chorar a sua morte." C hegaram aos portões e a cidade chorou com eles Quando nela entraram.
Senti um calafrio ao ouvir aqueles estranhos versos, mas tive de objetar. — É demasiado impreciso. Os C árpatos são mencionados, mas devem aparecer em
dezenas, mesmo centenas de textos antigos. E a "grande cidade" pode significar qualquer coisa. Talvez signifique a Cidade de Deus, o Reino dos Céus.
Helen fez que não com a cabeça.
— N ão me parece — disse. P ara os povos dos B alcãs e da E uropa C entral, cristãos ou
muçulmanos, a grande cidade sempre foi C onstantinopla, a não ser que se leve em consideração as pessoas que fizeram peregrinações a J erusalém ou a M eca através dos séculos. E a referência a uma peste e a monges, parece-me de certo modo relacionada com a história de Selim Aksoy. N ão seria possível que o mestre de que falam seja o próprio Vlad Tepes?
— É possível — disse eu, duvidando, — mas gostaria de mais qualquer coisa em que
nos apoiarmos. De que época será essa canção?
— É sempre muito difícil dizer, no caso de letras de canções folclóricas. — H elen ficou
pensativa. — E ste volume foi impresso em 1790, como pode ver, mas não tem o nome do editor nem o local onde foi impresso. As canções folclóricas podem facilmente sobreviver dois, três ou quatro séculos; portanto, estas podem ser alguns séculos mais antigas do que o livro. A canção pode ser do final do século quinze ou ainda mais antiga, o que não serviria os nossos objetivos.
— A xilogravura é curiosa — disse eu, olhando mais de perto. — O livro está cheio delas — murmurou H elen. — L embro-me de que me chamaram a
atenção da primeira vez que vi o livro. E sta parece não ter nada a ver com o poema; devia ser ilustrada com um monge a orar ou uma cidade com muralhas altas, qualquer coisa desse gênero.
— É verdade — disse eu, devagar, — mas veja bem de perto. — I nclinámo-nos sobre a pequena ilustração, as nossas cabeças quase a tocarem-se por cima dela.
— Quem me dera ter uma lupa — disse eu. — N ão acha que esta floresta, ou matagal, ou o que quer que seja, esconde alguma coisa? N ão há nenhuma grande cidade mas, se olhar com cuidado, verá uma construção que parece uma igreja, com uma cruz no cimo de uma cúpula, e, perto dela...
— Um pequeno animal — semicerrou os olhos. E então. — Meu Deus, — disse:
— É um dragão.
C oncordei com a cabeça, e debruçámo-nos ambos sobre a ilustração, mal respirando. A pequena forma tosca era assustadoramente familiar asas abertas, cauda curvando-se num anel minúsculo. N ão era necessário recorrer ao livro guardado na minha pasta para comparar os desenhos.
— O que significa?
A visão do dragão, mesmo em miniatura, fazia o meu coração palpitar incomodamente.
— E spere. — H elen examinava a xilogravura, com o rosto a poucos centímetros da página. — M eu Deus — disse. — Quase não consigo ver, mas há aqui uma palavra, acho eu, distribuída entre as árvores, uma letra de cada vez. São muito pequenas, mas tenho a certeza de que são letras.
— Drácula? — disse eu, no tom de voz mais baixo que consegui. E la fez que não com a cabeça.
— N ão. M as pode ser um nome: I vi. I vireanu. N ão sei o que é. N ão é uma palavra que eu já tenha visto, mas "u" é uma terminação comum dos nomes romenos. Que diabo será isto?
Suspirei.
— N ão sei, mas acho que o seu instinto está certo; esta página tem alguma ligação com Drácula, ou o dragão não estaria aqui. Não este dragão, pelo menos.
I mpotentes, entreolhamo-nos. A sala, tão agradável e convidativa meia hora antes, parecia-me agora lúgubre, um mausoléu de conhecimentos esquecidos.
— Os bibliotecários não sabem nada sobre este livro — disse H elen. — L embro-me de lhes ter perguntado, porque o livro é uma raridade.
— B em, então também não podemos solucionar isso — disse eu, por fim. — P elo menos, vamos levar uma tradução conosco, para sabermos o que vimos.
E screvi o que ela me ditou numa folha de caderno e fiz um esboço apressado da xilogravura. Helen olhava para o relógio.
— Tenho de voltar ao hotel — disse.
— E u também, ou vou me desencontrar de H ugh J ames. — Agarramos nas nossas coisas e voltamos a colocar o livro na respectiva prateleira, com toda a reverência que uma relíquia exige.
Talvez tenha sido o turbilhão de imaginação em que o poema e a sua ilustração me
lançaram, ou talvez estivesse mais cansado do que pensava, cansado da viagem, de ficar acordado até tarde no restaurante com a tia E va e de fazer uma palestra para uma multidão de desconhecidos. Quando entrei no meu quarto, levei um longo momento para registrar o que via, e um momento ainda mais longo para concluir que H elen poderia estar a ver a mesma coisa no seu quarto, dois andares acima. E ntão, receei pela segurança dela e corri para as escadas sem parar para examinar nada. O meu quarto tinha sido revistado, canto por canto, gavetas e armário e roupas de cama, e cada objeto que eu possuía fora revirado, danificado, destruído mesmo, por mãos não só apressadas, mas maldosas.