O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 26 de 83

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O Historiador

Capítulo 24

O meu pai arranjou uma desculpa plausível para estar a ler o acervo sobre vampiros de Oxford em vez de estar na sua reunião. A reunião fora cancelada, explicou, apertando a mão de Stephen B arley com a sua cordialidade habitual. Fora até ali por um hábito antigo aqui parou, quase mordendo os lábios, e tentou outra saída. P rocurava um pouco de paz e sossego (no que eu facilmente acreditava). A sua gratidão pela presença de Stephen, pela sua estatura, a sua saúde e juventude exuberantes, a sua aparência tranquilizadora envolta na camisola de lã, foi palpável. Afinal, o que me diria o meu pai se o tivesse surpreendido ali sozinha? C omo teria explicado, ou fechado tão despreocupadamente o in-fólio sob a sua mão? Fê-lo, mas tarde demais; eu já tinha visto o título de um dos capítulos destacado no grosso papel cor de marfim: "Vampires de Provence et dês Pyrenees."

Dormi mal naquela noite na cama de dossel e chintz da casa do reitor da faculdade, acordando de estranhos sonhos com intervalos de poucas horas. N um desses momentos, vi a luz acesa por baixo da porta da casa de banho entre o meu quarto e o do meu pai, o que me tranquilizou. De vez em quando, porém, a sensação de que ele não estava a dormir, de que havia uma atividade silenciosa no quarto ao lado, arrancava-me subitamente ao meu descanso. P erto do amanhecer, quando uma névoa cor de ardósia começou a aparecer através das cortinas, acordei definitivamente.

Dessa vez, foi o silêncio que me acordou. Tudo estava demasiado parado: a tênue silhueta das árvores no pátio (espreitei pelo canto das cortinas), o imenso guarda-fatos junto da minha cama e, acima de tudo, o quarto do meu pai, ao lado. N ão é que eu esperasse vê-lo de pé àquela hora; no mínimo, devia estar ainda a dormir talvez a ressonar ligeiramente, se estivesse deitado de costas —, tentando apagar da cabeça as preocupações do dia anterior, adiando a massacrante agenda de conferências, seminários e debates que tinha diante de si. Durante as nossas viagens, ele costumava dar uma pancadinha jovial na minha porta quando eu me levantava, um convite para me apressar a juntar-me a ele para uma caminhada antes do pequeno-almoço.

N essa manhã, o silêncio oprimia-me sem qualquer razão, e desci de minha grande cama, vesti-me e atirei uma toalha por cima do ombro. I ria lavar a cara no lavatório da casa de banho e ao mesmo tempo ouvir a respiração noturna do meu pai. B ati ao de leve na porta da casa de banho para ter a certeza de que ele não estava lá dentro. O silêncio tornou-se ainda mais profundo quando me vi diante do espelho, a enxugar a cara. E ncostei o ouvido à porta dele. Devia estar a dormir um sono pesado. Sabia que seria desumano interromper o seu merecido sono, mas o pânico começava a tomar conta dos meus braços e pernas. B ati ao de leve. N ão ouvi qualquer ruído. Durante anos, tínhamos mantido intacta a privacidade um do outro mas naquele momento, sob a cinzenta luz matinal que entrava pela janela da casa de banho, rodei a maçaneta e abri a porta. As espessas cortinas do quarto do meu pai ainda estavam fechadas, de modo que levei alguns segundos a reconhecer o contorno indistinto dos móveis e dos quadros. O silêncio fez-me arrepiar a pele da nuca. Dei um passo na direção da cama, falei com ele. De perto, entretanto, a cama estava feita e intacta, escura no quarto escuro. O quarto estava vazio. Deixei escapar a respiração que prendera. E le saíra, saíra para caminhar sozinho, provavelmente, a precisar de solidão e de tempo para refletir. M as alguma coisa me fez acender a luz junto da cama e olhar em volta com mais cuidado. Sob o círculo de luz, havia um bilhete que me era dirigido e, em cima do papel, havia duas coisas que me apanharam de surpresa: um pequeno crucifixo de prata num fio grosso e uma cabeça de alho. A crua realidade desses objetos deu-me a volta ao estômago antes mesmo de ler as palavras do meu pai.

Minha querida filha:

Lamento muitíssimo surpreender-te desta maneira, mas fui chamado para resolver um novo

negócio e não quis perturbar-te durante a noite. Vou estar fora apenas uns dias, segundo espero.

Combinei com o reitor J ames fazer-te chegar a casa em segurança na companhia do nosso jovem

amigo Stephen B arley. E le foi dispensado das aulas por dois dias e vai levar-te para A msterdã

esta noite. G ostaria que fosse M rs. Clay a vir-te buscar, mas a irmã está doente e ela teve de

voltar para Liverpool. Vai tentar estar em nossa casa esta noite para te receber. De qualquer

maneira, estarás bem acompanhada e espero que te portes ajuizadamente. Não te preocupes com

a minha ausência. T rata-se de um assunto confidencial, mas estarei em casa o mais cedo que

puder e nessa altura explicarei tudo. E ntretanto, peço-te, do fundo do meu coração, que uses o

crucifixo e tragas sempre um pouco de alho em cada bolso. Sabes que nunca te pressionei no que

se refere a religião ou superstição, e continuo firmemente a não acreditar em nenhuma das duas.

Mas temos de lidar com o mal de acordo com os seus próprios termos, tanto quanto possível, e já

conheces o alcance desses termos. Suplico-te, com o meu coração de pai, que não ignores os meus

desejos sobre este ponto.

O bilhete estava assinado "com muito afeto", mas pude verificar que o escrevera à

pressa. O meu coração batia com força. P rendi rapidamente o fio em volta do pescoço e dividi o alho para colocar nos bolsos do meu vestido. E ra mesmo do meu pai, pensei, olhando em volta do quarto vazio, fazer a cama com tanto esmero no meio de uma pressa silenciosa para sair da universidade. M as porquê essa pressa? Fosse qual fosse a sua incumbência, não poderia ser uma simples missão diplomática, ou ter-me-ia contado. J á tinha acorrido com frequência a emergências profissionais; eu sabia que já tivera de partir quase de repente para ajudar a resolver crises do outro lado da E uropa, mas sempre me dissera para onde ia. Desta vez, o meu coração a bater descompassadamente dizia-me que não fora em trabalho. Além disso, teria supostamente de permanecer em Oxford durante aquela semana, a fazer conferências e a participar em reuniões. N ão era pessoa para quebrar um compromisso levianamente.

Não. O seu desaparecimento devia estar relacionado com a tensão que vinha a mostrar

ultimamente, e apercebi-me então de que há muito tempo receava algo assim. Ainda por cima, havia a considerar aquela cena da véspera no Radcliffe, o meu pai mergulhado em... o que estaria ele a ler, exatamente? Ah, e para onde, para onde teria ido? P ara onde, sem mim? Pela primeira vez, em todos os anos de que me lembrava, todos os anos em que o meu pai me protegera da solidão de uma vida sem mãe, sem irmãos, sem país natal, todos os anos em que ele fora pai e mãe para mim — pela primeira vez, senti-me órfã.

O reitor foi muito amável quando apareci com a minha mala feita e o meu impermeável no braço. Expliquei-lhe que podia perfeitamente viajar sozinha. Assegurei-lhe de que ficava muito grata pela sua oferta em fazer-me acompanhar até a casa por um aluno atravessando todo o C anal e que nunca esqueceria a sua bondade. Senti uma pontada, uma pequena mas nítida sensação de decepção — como seria agradável viajar um dia inteiro com Stephen B arley a sorrir-me do banco oposto do comboio! M as tinha de dizer aquilo. E staria em casa em segurança dentro de poucas horas, repeti, reprimindo a súbita imagem mental de uma bacia de mármore vermelho cheia de uma água melodiosa, receando que aquele homem de sorriso bondoso a adivinhasse em mim ou a visse mesmo no meu rosto. Depressa estaria em casa, em segurança, e poderia telefonar-lhe se fosse preciso, para o tranquilizar. E , além disso, é claro, acrescentei com uma duplicidade ainda maior, o meu pai também estaria em casa dentro de poucos dias.

O reitor tinha a certeza de que eu era capaz de viajar sozinha; eu parecia ser uma rapariga independente, sem dúvida. A questão é que ele não podia e sorriu-me ainda com mais doçura, simplesmente não podia deixar de cumprir a palavra que dera ao meu pai, um velho amigo seu. E u era o tesouro mais precioso do meu pai, e o reitor não podia deixar-me partir sem uma proteção adequada. N ão era por mim, tinha de compreender, mas pelo meu pai tínhamos de lhe fazer a vontade. Stephen B arley materializou-se antes que eu pudesse apresentar mais objeções, ou mesmo assimilar o fato de o reitor e o meu pai serem velhos amigos, quando me parecia que eles se tinham encontrado pela primeira vez apenas dois dias antes. N ão tive tempo, todavia, para pensar nessa irregularidade. Stephen encontrava-se diante de mim e, por sua vez, parecia ser um velho amigo meu, segurando o seu casaco e a sua mala, e eu não estava completamente triste por vê-lo. L amentava o desvio que me iria custar, mas não tanto quanto deveria. E ra impossível acolher mal o seu sorriso largo e verdadeiro, ou o seu "L ivrou-me de uma quantidade de trabalho aqui, hein?".

O reitor James foi mais sóbrio.

— Ainda tem uma tarefa a cumprir, meu rapaz — disse ele. — Quero que me telefone de Amsterdã logo que chegar, e quero falar com a governanta. Aqui tem o dinheiro para os bilhetes e para algumas refeições, e traga-me as notas de despesa quando voltar. — E m seguida, piscou os olhos cor de avelã. — O que não quer dizer que não possa comprar um chocolate holandês na estação. T raga-me um, também. N ão é tão bom como o belga, mas serve. Agora vão-se embora, e juízo. — E m seguida, apertou-me a mão com ar grave e deu-me o seu cartão. — Adeus, minha querida. Venha ver-nos outra vez quando estiver a pensar numa universidade para si.

Ao sairmos do gabinete, Stephen segurou-me na mala. — Vamos, então. Os bilhetes são para o comboio das dez e meia, mas podemos ir

andando.

O reitor e o meu pai não tinham descurado nenhum pormenor, pensei, imaginando

quantos obstáculos ainda teria de enfrentar em casa. Por enquanto, tinha outros planos.

— Stephen? — comecei.

— Ah, prefiro que me chame B arley. — E riu-se. — T oda a gente me chama assim, e já

estou tão habituado que me dá arrepios ouvir o meu primeiro nome.

— E stá bem. — O sorriso dele era tão contagiante naquele dia como na véspera. —

B arley, posso pedir-lhe um favor antes de partirmos? E le concordou com a cabeça. — G ostava de ir ao Radcliffe mais uma vez. É tão bonito e... queria ver o acervo sobre os vampiros. Não cheguei a vê-lo, de fato.

Ele resmungou.

— Já reparei que gosta dessas coisas horríveis. Deve ser de família. — Eu sei.

Senti que corava.

— E stá bem, vamos lá de novo dar uma olhadela rápida, mas temos de correr. O reitor

James vai cravar-me uma estaca no coração se perdermos o comboio.

O E difício Radcliffe estava sossegado naquela manhã, quase vazio, e subimos depressa

uma escadaria bem encerada para chegar à saleta macabra onde tínhamos surpreendido o meu pai na véspera. Reprimi a vontade de chorar quando entramos na minúscula divisão: horas antes, o meu pai estivera ali sentado, com aquela expressão estranhamente distante a velar-lhe o olhar, e agora eu nem sequer sabia onde ele estava.

C ontudo, lembrava-me do lugar da estante onde ele voltara a pôr o livro, com ar

displicente, enquanto conversávamos. Deveria estar por baixo da caixa com a caveira, à esquerda. C orri o dedo pela borda da prateleira. B arley estava junto de mim (era impossível não ficarmos próximos naquele espaço diminuto, e desejei que ele saísse para a galeria), a observar-me com franca curiosidade. N o lugar onde o livro deveria estar, havia uma lacuna, como um dente que faltasse numa dentadura. Fiquei gelada: o meu pai jamais roubaria um livro, estava fora de questão; portanto, quem o teria tirado dali? Um segundo depois, porém, reconheci o livro, a um palmo de distância. Alguém com certeza o mudara de sítio desde que eu estivera ali no dia anterior. O meu pai teria voltado para o ver novamente? Ou teria sido outra pessoa a tirá-lo da estante? Olhei desconfiada para a caveira na caixa de vidro, mas ela devolveu-me um olhar ameno, anatômico. E ntão, tirei o livro com muito cuidado e lá estava a capa grande, cor de osso, com uma fita de seda negra a sair de cima. P ousei-o sobre a mesa e abri-o no frontispício: Vampires du M oyen A ge, B arão de Hejduke, Bucareste, 1886.

— O que é que quer dessa coisa mórbida? — Barley espreitava por cima do meu ombro. — Trabalho escolar — murmurei.

Segundo me lembrava, o livro estava dividido em capítulos: Vampires de la T oscane, Vampires de la Normandie, e assim por diante. Finalmente, encontrei o que queria: Vampires de Provence et dês Pyrenees. M eu Deus, estaria o meu francês à altura? B arley começava a olhar para o relógio. P ercorri rapidamente a página com o dedo, procurando não tocar nas magníficas letras nem no papel marfim. Vampires dans lês villages de Provence,.. De que estaria o meu pai à procura? N a véspera, estava a ler atentamente aquela primeira página do capítulo. "H y a aussi une legende..." Aproximei-me mais.

Desde aquele dia, vivi muitas vezes a experiência daquele momento. Até então, as minhas incursões ao francês escrito tinham tido apenas fins utilitários, quase como completar exercícios de matemática. Entender uma frase era meramente uma ponte para o exercício seguinte. N unca antes conhecera o frêmito repentino de compreensão que viaja da palavra para o cérebro e para o coração, a maneira como uma nova língua pode mover-se, serpentear, nadar para a vida perante os nossos olhos, o salto quase selvagem da percepção, a instantânea e exultante libertação do significado, a forma como as palavras se despem dos seus corpos impressos num clarão de luz e calor. Desde então, vivi essa hora da verdade com outros companheiros: alemão, russo, latim, grego e por um breve instante sânscrito.

M as aquela primeira vez encerrou a revelação de todas as outras. "I l y a aussi une legende...", sussurrei, e B arley inclinou-se para seguir as palavras. O que ele traduziu em voz alta, todavia, já eu assimilara com um sobressalto mental: "E xiste também uma lenda que diz que Drácula, o mais nobre e o mais perigoso de todos os vampiros, atingiu o seu poder não na região da Valáquia mas, através de uma heresia, no mosteiro de Saint-M a hieu-des-Pyrénées-Orientales, uma casa beneditina fundada no ano 1000 de Nosso Senhor."

— De que se trata, afinal?

— T rabalho escolar — repeti, mas os nossos olhares cruzaram-se estranhamente por cima do livro e ele parecia estar a ver-me pela primeira vez.

— O seu francês é muito bom? — perguntei, humildemente.

— C laro. — Sorriu e inclinou-se de novo para a página. — "Diz-se que Drácula visita o mosteiro em cada dezesseis anos para prestar homenagem às suas origens e renovar as influências que lhe permitiram viver na morte "

— Continue, por favor. — E agarrei-me à borda da mesa.

— C om certeza — disse ele. — Os cálculos feitos pelo irmão P ierre de P rovence no início do século dezessete indicam que Drácula visita Samt-M a hieu no quarto crescente do mês de Maio.

N ão havia mais nenhuma referência a Samt-M a hieu; as páginas restantes parafraseavam um documento de uma igreja em P erpignan sobre problemas com ovelhas e cabras da região em 1428, não ficava claro se o frade-autor culpava os vampiros ou os ladrões de ovelhas pelos problemas.

— Que coisa mais esquisita — comentou B arley. — É isso o que a sua família lê para se distrair? Quer que eu leia agora sobre os vampiros de Chipre

N ada mais no livro parecia relevante para os meus objetivos e, quando B arley olhou de

novo para o relógio, virei as costas as sedutoras paredes cheias de livros.

— M eu Deus, que programa animado! — disse B arley ao descer a escadaria. — V ocê é

uma rapariga invulgar, não é? — N ão percebi qual era o sentido do comentário dele, mas esperava que fosse um elogio.

N o comboio, B arley divertiu-me a contar-me histórias sobre os seus colegas, um bando

de doidivanas, depois pegou na minha mala e subimos para bordo por cima da oleosa água cinzenta do canal da M ancha. E stava um dia límpido e frio e fomos sentar-nos nos bancos de plástico do interior, protegidos do vento.

— N ão tenho muito tempo para dormir durante o semestre de aulas — explicou

Stephen, e adormeceu imediatamente, com o casaco enrolado como uma bola sob um dos ombros.

C onvinha-me que ele dormisse umas boas horas, porque eu tinha muito em que

pensar, questões de natureza prática mas também escolares. O meu problema imediato não era uma questão de ligações entre acontecimentos históricos, mas M rs. C lay. E la estaria, firme como uma rocha, à espera no vestíbulo da nossa casa em Amsterdã, sufocada de preocupação pelo meu pai e por mim. A sua presença prender-me-ia em casa pelo menos até ao dia seguinte e, se eu não aparecesse depois da escola ao fim da tarde, iria no meu encalço como uma matilha de lobos, provavelmente levando consigo toda a força policial de Amsterdã para lhe fazer companhia. E havia também B arley. Olhei para o seu rosto adormecido à minha frente; ressonava discretamente encostado ao seu casaco. B arley iria tomar o ferry outra vez quando eu fosse para a escola, e tinha de ter cuidado para não me encontrar com ele no caminho.

 

Mrs. Clay estava de fato em casa quando chegamos. Barley parou comigo no degrau da

entrada enquanto eu procurava as minhas chaves; contemplava com admiração as velhas casas dos mercadores e a água que brilhava nos canais.

— Que maravilha! E todos esses rostos de Rembrandt nas ruas! Quando M rs. C lay abriu subitamente a porta e me puxou para dentro, ele quase ficou

do lado de fora. Fiquei aliviada ao vê-lo adotar as suas boas maneiras. E nquanto os dois desapareciam na cozinha para telefonar ao reitor J ames, corri para o andar de cima, gritando-lhes que queria lavar a cara. N a realidade e o pensamento fez-me bater o coração com uma velocidade cheia de culpa, a minha intenção era saquear imediatamente a cidadela do meu pai. Depois pensaria como lidar com M rs. C lay e com B arley. N aquele momento, tinha de encontrar o que achava que estava escondido ali.

A nossa casa, construída em 1620, tinha três quartos de dormir no segundo andar,

quartos que o meu pai adorava, estreitos e com vigas escuras no teto, porque, segundo ele, pareciam-lhe ainda habitados pelas pessoas simples e trabalhadoras que tinham outrora vivido neles. O seu quarto era o maior dos três, e continha peças admiráveis de mobiliário de época holandês. E le misturara os móveis espartanos com um tapete otomano e uma cama com cortinas, um pequeno esboço de Van G ogh e doze tachos de cobre trazidos de uma casa de quinta francesa — que formavam uma fila numa das paredes e captavam reflexos de luz do canal em baixo. H oje dou-me conta de como esse quarto era extraordinário, não só pelo gosto eclético que demonstrava, como pela sua simplicidade monástica. N ão havia ali um único livro; todos tinham sido relegados para a biblioteca, no andar de baixo. Nenhuma peça de roupa fora alguma vez pendurada nas costas da cadeira do século dezessete, nenhum jornal profanara a grande escrivaninha. N ão havia telefone nem mesmo um relógio o meu pai acordava naturalmente muito cedo todas as manhãs. Era apenas um espaço para viver, um lugar para dormir, acordar e talvez rezar embora eu não pudesse afirmar que ali ainda se rezasse — como tinha sido quando o quarto era novo. E u adorava aquele quarto, mas raramente lá entrava.

N aquele dia, entrei sem fazer barulho, como um ladrão, fechei a porta e abri a escrivaninha. Foi uma sensação horrível, como quebrar o lacre de um caixão, mas não me detive, tirando tudo de dentro dos escaninhos, vasculhando as gavetas, mas voltando a pôr no seu lugar cada objeto com o maior cuidado à medida que prosseguia — as cartas dos seus amigos, as suas belas canetas, o seu papel de carta com monograma. P or fim, a minha mão encontrou um pacote fechado. Abri-o sem escrúpulos e vi que lá dentro havia um curto bilhete dirigido a mim, advertindo-me de que só lesse as cartas que continha no caso da morte do meu pai ou do seu desaparecimento por longo tempo. N ão o tinha visto a escrever, noite após noite, algo que tapava com um braço quando eu me aproximava? P eguei no pacote sofregamente, fechei a escrivaninha e levei o meu achado para o meu quarto, com o ouvido atento aos passos de Mrs. Clay na escada.

O pacote estava cheio de cartas, cada uma delas bem dobrada dentro de um envelope e dirigida a mim com a morada da nossa casa, como se ele achasse que talvez precisasse de mas enviar, uma de cada vez, de algum outro lugar. M antive-as em ordem ah, eu aprendera coisas sem dar por isso e abri a primeira com cuidado. A data era de seis meses antes e parecia começar, não com meras palavras, mas com um grito vindo do fundo do coração. Minha querida filha a letra dele tremia diante dos meus olhos. Se estás a ler esta carta, perdoa-me. Parti para procurar a tua mãe.