O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 56 de 83

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O Historiador

Capítulo 53

O apartamento emprestado onde Turgut deixara M r. E rozan ficava talvez a uns dez

minutos de caminhada ou uns dez minutos de corrida, porque todos corremos, mesmo H elen, em cima dos seus saltos altos. Turgut resmungava (e praguejava, acho eu) em voz baixa. L evava consigo uma maleta preta, que presumi conter material de primeiros socorros, caso o médico não aparecesse, ou não chegasse a tempo. P or fim, subimos as escadas de madeira de uma casa velha, em tropel atrás de Turgut, que escancarou uma porta ao chegar ao cimo.

A casa parecia ter sido dividida em pequenos apartamentos encardidos; naquele, uma

cama, cadeiras e uma mesa mobilavam o quarto principal, iluminado por uma única lâmpada. O amigo de Turgut estava deitado no chão com um cobertor por cima e, ao seu lado, um homem balbuciante de cerca de trinta anos levantou-se para nos receber. E stava quase histérico de pavor e arrependimento; não parava de torcer as mãos e repetia incessantemente a mesma frase para Turgut. Turgut empurrou-o para o lado e ele e Selim ajoelharam-se junto de M r. E rozan. O rosto da pobre vítima estava cor de cinza, os olhos fechados e a respiração saía-lhe em estertores. T inha um corte muito feio no pescoço, maior do que aquele que tínhamos visto na última vez, mas mais horrível porque estava estranhamente limpo, embora com as bordas rasgadas, e apenas um traço de sangue nas pontas. Ocorreu-me que uma ferida tão profunda deveria sangrar copiosamente, e a percepção disso provocou-me uma onda de náusea no estômago. P assei um braço pelos ombros de Helen e ficamos a olhar, sem conseguirmos desviar os olhos.

Turgut examinou a ferida sem lhe tocar e depois olhou rapidamente para nós. — H á minutos atrás, esse desgraçado saiu para ir procurar um médico desconhecido

sem me consultar, mas o médico não estava. I sso, pelo menos, é uma sorte, porque não queremos um médico aqui agora. M as ele deixou E rozan sozinho exatamente ao pôr do Sol. — Falou com Aksoy, que se levantou inopinadamente e, com uma força que eu não teria imaginado, agrediu o infeliz vigia e arremessou-o para fora do quarto. O homem recuou e em seguida ouvimos os seus passos apavorados a descer depressa a escada. Selim trancou a porta depois de ele sair e foi à janela espreitar a rua, como se quisesse ter certeza de que o pobre coitado não voltaria. Depois, ajoelhou-se junto de Turgut e os dois conferenciaram em voz baixa.

M omentos depois, Turgut procurou qualquer coisa na bolsa que trouxera. V i-o tirar de

dentro dela um objeto que já se me tornara familiar: era um estojo de caça aos vampiros semelhante ao que ele me dera no seu gabinete mais de uma semana antes, só que este estava numa caixa mais requintada, ornamentada com caligrafia árabe e com o que me pareceu incrustações de madrepérola. Abriu-o e percorreu com o olhar os instrumentos no seu interior. Depois, levantou outra vez os olhos para nós.

— Senhores — disse ele, controlado, — o meu amigo foi mordido pelo vampiro pelo menos três vezes e está a morrer. Se morrer naturalmente nesta situação, tornar-se-á um morto-vivo. — E nxugou a testa com a mão enorme. — E ste é um momento terrível, e tenho de pedir-lhes que saiam do quarto. Minha senhora, não deve assistir a isto.

— P or favor, deixe-nos fazer qualquer coisa para o ajudarmos — comecei, hesitante, mas Helen deu um passo adiante.

— Deixe-me ficar — disse a Turgut em voz baixa. — Quero saber como se faz.

P or um momento, perguntei a mim próprio para que quereria ela saber, e dei por mim a lembrar-me — pensamento surreal que, afinal de contas, ela era antropóloga. E le lançou-lhe um olhar penetrante, depois pareceu concordar sem palavras e curvou-se de novo sobre o amigo. E u ainda esperava que o que adivinhava não fosse verdade, mas Turgut estava a murmurar qualquer coisa ao ouvido do amigo. P egou na mão do homem e afagou-a.

Então e isso foi talvez a pior de todas as coisas terríveis que se seguiram Turgut apertou a mão do amigo contra o seu próprio coração e rompeu num lamento fúnebre, com palavras que pareciam chegar-nos das profundezas de uma história não só demasiado antiga, mas que me era demasiado estranha para me permitir distinguir as suas sílabas, um gemido de dor semelhante à chamada do muezzin para a oração, que tínhamos ouvido sair dos minaretes na cidade, com a diferença de que o pranto de Turgut soava mais como uma inumação ao inferno, uma fiada de notas trespassadas de horror que pareciam erguer-se da memória de mil acampamentos otomanos, de um milhão de soldados turcos. V i os seus estandartes a esvoaçar, os salpicos de sangue nas pernas dos seus cavalos, a lança e o crescente, o brilho do sol nas cimitarras e nas cotas de malha, as magníficas cabeças, rostos e corpos jovens mutilados; ouvi os gritos dos homens entregando a alma a Alá e os queixumes distantes das suas mães e dos seus pais; senti o cheiro fétido das casas incendiadas e de sangue fresco, do enxofre dos tiros de canhão, dos rebentamentos de tendas e pontes e de carne de cavalo.

O que me causou mais estranheza foi ouvir, no meio desse clamor, um grito que eu compreendia muito bem: "Kaziklu B ey! O E mpalador!" E , no centro do caos, parecia ver uma figura diferente das outras, um homem a cavalo com um manto escuro girando entre as cores vivas, o rosto contraído num esgar de concentração e a sua espada a fazer a colheita de cabeças otomanas, que rolavam pesadas dentro dos seus elmos pontiagudos.

A voz de Turgut extinguiu-se e vi-me de pé junto dele, os olhos postos no homem agonizante. H elen estava ao meu lado, uma presença abençoadamente real. Abri a boca para lhe fazer uma pergunta e vi que ouvira o mesmo horror na ladainha monótona de Turgut. Sem querer, veio-me à cabeça que o sangue do E mpalador lhe corria nas veias. V irou-se para mim por um segundo, a fisionomia abalada mas firme; e ocorreu-me no mesmo instante que a herança de Rossi — branda, patrícia, toscana e anglo-saxônica — também existia dentro dela, e vi nos seus olhos a incomparável bondade de Rossi. N aquele momento, creio eu e não mais tarde, no meu país, na insípida igreja castanha dos meus pais, diante de um pastor —, casei-me com ela, desposei-a no meu coração, uni-me a ela para o resto da vida.

Turgut, agora calado, pousara a fieira de contas de oração sobre a garganta do amigo, o

que fez o corpo estremecer um pouco, e escolheu no cetim manchado do interior da caixa um instrumento mais comprido do que a minha mão e feito de prata brilhante.

— N unca tinha tido de fazer isto antes, Deus me perdoe, em toda a minha vida —

disse ele, baixinho.

Abriu a camisa do amigo e vi a pele envelhecida, os pêlos do peito encaracolados e

grisalhos, cor de cinza, subindo e descendo de modo irregular. Selim procurou pelo quarto com silenciosa eficiência e trouxe a Turgut um tijolo que aparentemente fora usado para prender a porta, e este segurou o grosseiro objeto na mão, sopesando-o por um segundo. Apoiou a extremidade aguda da estaca no lado esquerdo do peito do homem e entoou um cântico em voz baixa, no qual percebi palavras de que me lembrava de algum lugar — livro, filme, conversa? "Allahu akbar, A llahu akbar: Alá é grande." Sabia que não podia forçar H elen a sair do quarto nem podia eu mesmo sair, mas puxei-a um passo para trás quando o tijolo desceu. A mão de Turgut era grande e firme. Selim manteve a estaca a prumo e, com um golpe surdo, de sucção e estilhaço, ela penetrou no corpo. O sangue espalhou-se lentamente em torno do ponto atingido e manchou a pele pálida. O rosto do bibliotecário contorceu-se horrivelmente por um segundo e os seus lábios arreganharam-se, mostrando os dentes amarelados, como os de um cão. H elen não despregara os olhos dele e eu não me atrevi a desviar a vista; não queria que ela visse alguma coisa que eu não pudesse ver com ela. O corpo do bibliotecário estremeceu, a estaca de prata desceu subitamente até ao punho e Turgut endireitou o corpo e sentou-se, como se esperasse. Os lábios tremiam-lhe e o suor espalhara-se por todo o seu rosto.

E m seguida, o corpo relaxou, depois o rosto; os lábios desceram pacificamente e a boca

fechou-se; um suspiro brotou-lhe do peito; os pés, dentro das meias pateticamente gastas, contraíram-se levemente e ficaram imóveis. E u segurava H elen com firmeza e senti-a tremer de encontro a mim, mas ela manteve-se em silêncio. Turgut ergueu a mão sem vida do amigo e beijou-a. V i as lágrimas descerem-lhe pelo rosto avermelhado, escorrerem-lhe para o bigode, e ele cobriu os olhos com uma das mãos. Selim tocou na testa do bibliotecário morto, depois levantou-se e apertou o ombro de Turgut.

P ouco depois, Turgut recuperou-se o suficiente para se pôr de pé e assoar-se com um

lenço.

— E ra muito bom homem — disse-nos, com a voz trêmula. — Um homem generoso,

amável. Agora, descansa na paz de M aomé, em vez de fazer parte das legiões do inferno. — V irou-se para enxugar os olhos. — C ompanheiros, temos de tirar este corpo daqui. H á um médico num dos hospitais que... pode ajudar-nos. Selim vai permanecer aqui com a porta trancada enquanto eu chamo o médico, que virá com a ambulância e assinará os certificados necessários.

Turgut tirou vários dentes de alho do bolso e colocou-os delicadamente dentro da boca do homem morto. Selim removeu a estaca, lavou-a no lavatório que havia num canto e guardou-a com todo o cuidado na bonita caixa. Turgut limpou todos os vestígios de sangue, enfaixou o peito do homem com um pano da louça e abotoou de novo a camisa, depois retirou um lençol da cama e deixou que eu o ajudasse a estendê-lo sobre o corpo, cobrindo o rosto já sereno.

— E agora, meus caros amigos, peço-vos um favor. V iram do que os mortos-vivos são capazes, e sabemos que estão aqui. Devem procurar proteger-se cada minuto. E precisam ir para a B ulgária o mais cedo possível nos próximos dias, se conseguirem. Telefonem-me para o meu apartamento quando tiverem feito os vossos planos. — Olhou intensamente para mim. — Se não nos virmos antes de partirem, desejo-vos a melhor sorte e a maior segurança possíveis. V ou pensar em ambos a cada momento. P or favor, liguem-me logo que voltarem para Istambul, se voltarem para cá.

T inha esperança que esta frase significasse: "se forem esses os vossos planos de viagem", e não "se sobreviverem à B ulgária". Apertou-nos calorosamente a mão e Selim fez o mesmo, beijando em seguida a mão de Helen muito timidamente.

— Vamos embora, agora — disse H elen simplesmente, dando-me o braço, e saímos daquele quarto triste e descemos as escadas para a rua.