O Historiador
Capítulo 55
N esses últimos anos, dei por mim varias vezes a rememorar a primeira visão que tive da casa de Anton Stoichev. Talvez essa imagem me tenha deixado uma impressão tão duradoura por causa do contraste entre a Sofia urbana e o refúgio dele fora da cidade, exatamente nos seus limites, ou talvez a lembrança seja tão recorrente por causa do próprio Stoichev — da natureza especial e sutil da sua presença. Acredito, contudo, que sinto uma expectativa tensa, quase arrebatadora, ao evocar a imagem do portão da frente da casa de Stoichev porque o nosso encontro com ele foi o ponto de viragem na nossa busca de Rossi.
M uito tempo depois, quando li em voz alta sobre os mosteiros situados fora das muralhas da C onstantinopla bizantina onde às vezes os seus habitantes buscavam asilo, a fim de escapar a editais que impunham dentro do perímetro urbano um ou outro ponto do ritual da igreja, e onde não contavam com a proteção das grandes muralhas da cidade mas ficavam um grau mais distantes do alcance tirânico do E stado, pensei em Stoichev — no seu jardim, nas suas macieiras e cerejeiras salpicadas de branco, na casa instalada dentro de um pátio comprido, nas folhagens novas e nas colmeias azuis, no velho portão duplo de madeira com um postigo que nos mantinha do lado de fora, na atmosfera calma do lugar, no clima de devoção, de retiro deliberado.
P aramos diante do portão enquanto a poeira assentava em volta do carro de Ranov. Helen foi a primeira a tentar abrir um dos ferrolhos antigos, Ranov deixara-se ficar para trás com ar rabugento, como se detestasse ser visto ali, até mesmo por nós, e eu tinha a estranha sensação de estar colado ao chão. P or um momento, fiquei hipnotizado pela vibração matinal de folhas e abelhas e por uma apreensão inesperada e nauseante. P odia ser que Stoichev afinal não contribuísse para coisa alguma, que ali fosse o fim da linha, e nesse caso voltaríamos para casa depois de percorrermos um longo caminho para nada. J á imaginara a cena milhares de vezes o voo em silêncio para N ova I orque de Sofia ou de I stambul eu iria querer ver Turgut uma vez mais, pensei e a reorganização da minha vida sem Rossi, as perguntas sobre onde eu estivera, os problemas com o departamento causados pela minha ausência prolongada, o retomar do meu trabalho sobre os mercadores holandeses aquelas pessoas plácidas, prosaicas — sob a supervisão de algum novo orientador imensamente inferior, e a porta fechada do escritório de Rossi. Acima de tudo, receava encontrar aquela porta fechada, e a investigação em curso, o interrogatório medíocre da polícia "Quer dizer, senhor... hum... P aul, não é? Quer dizer que foi viajar dois dias depois do desaparecimento do seu orientador?" a reunião de um pequeno grupo de pessoas perplexas numa cerimônia qualquer em sua memória, eventualmente a questão das obras de Rossi, dos seus direitos de autor, da sua herança.
V oltar com a minha mão entrelaçada na de H elen seria um grande consolo, é claro. P retendia pedir-lhe que se casasse comigo quando todo aquele pesadelo terminasse; teria de economizar algum dinheiro, se pudesse, e levá-la a B oston para conhecer os meus pais. Sim, voltaria com a mão dela na minha, mas não haveria um pai a quem pedi-la em casamento. Vi Helen abrir o portão de Stoichev através de uma névoa difusa de tristeza.
P assado o portão, a casa de Stoichev afundava-se mansamente num terreno irregular
— em parte um pátio, em parte um pomar. As fundações da casa tinham sido construídas com uma pedra castanho-acinzentada assentada com argamassa branca; mais tarde, soube que essa pedra era uma espécie de granito com que a maioria dos velhos edifícios da B ulgária fora construída. P or cima das fundações, as paredes eram de tijolos, mas tijolos de um suave e ameno vermelho-dourado, como se tivessem estado mergulhadas na luz do sol durante gerações. O telhado era de telhas de canudo de barro vermelho. Tanto o telhado como as paredes estavam um tanto dilapidados. A casa inteira parecia ter brotado lentamente da terra e estar agora a voltar lentamente para dentro dela, como se as árvores tivessem crescido por cima dela apenas para lhe dar sombra a esse processo. O andar térreo desenvolvera-se numa ala mais elevada num dos lados e prolongara-se para o outro num caramanchão coberto pelas tenras gavinhas de uma parreira no cimo e por uma trepadeira de rosas pálidas na parte de baixo. Debaixo da treliça do caramanchão havia uma mesa de madeira e quatro cadeiras toscas, e imaginei como a sombra da parreira se iria adensando ali à medida que o Verão avançasse. Adiante, e debaixo da mais venerável das macieiras, pairavam duas colmeias fantasmagóricas; perto delas, sob o sol a pique, estendia-se um pequeno canteiro onde alguém plantara verduras translúcidas em filas ordenadas. Senti o cheiro de ervas aromáticas, talvez de lavanda, de relva fresca e de cebolas a serem fritas. Alguém tratava com carinho daquele lugar antigo que se ia afundando devagar, e quase esperei vislumbrar Stoichev metido num hábito de monge, ajoelhado na terra com um sacho de jardineiro na mão. E ntão, uma voz começou a cantar lá dentro, talvez perto da chaminé arruinada e das janelas do andar térreo. N ão era a voz de barítono de um eremita, mas uma voz feminina, doce e forte, uma melodia enérgica que fez até Ranov, de mau humor junto de mim com o seu cigarro, parecer interessado.
— Izvinetel — chamou ele. — Dobarden. O canto parou abruptamente e seguiu-se um estrépito e um baque surdo. A porta da
frente de Stoichev abriu-se e a rapariga que estava ali parada ficou a olhar para nós, espantada, como se a última coisa que pudesse imaginar aparecer no pátio da sua casa fossem pessoas.
E u ia adiantar-me mas Ranov passou-me à frente, tirando o chapéu, curvando a
cabeça, inclinando-se e cumprimentando-a com uma torrente de palavras em búlgaro. A rapariga pusera a mão na cara, olhando para Ranov com uma curiosidade que me pareceu misturada com desconfiança. Olhando-a melhor, não era tão nova como eu tinha pensado, mas havia nela uma energia e um vigor que me fizeram supor que talvez fosse a autora do luminoso jardinzinho e dos aromas agradáveis que vinham da cozinha. T inha o cabelo penteado para trás, mostrando o rosto redondo; tinha um sinal escuro na testa. Os olhos, queixo e boca pareciam os de uma bonita criança. Usava um avental por cima da blusa branca e da saia azul. E xaminou-nos com uma expressão perspicaz que nada tinha a ver com a inocência dos seus olhos e vi que, no seguimento das suas rápidas perguntas, Ranov tinha mesmo aberto a carteira e mostrara-lhe um cartão. Fosse ela filha de Stoichev ou sua governanta os professores universitários aposentados teriam governantas nos países comunistas?, não era nenhuma parva. Ranov parecia estar a fazer um esforço extraordinário para agradar; virou-se, sorridente, para nos apresentar.
— E sta é I rina H ristova — explicou, enquanto trocávamos apertos de mão. — É a sobrinha do professor Stoichev. A filha da irmã dele disse Ranov.
Acendeu outro cigarro e ofereceu um a I rina H ristova, que recusou com um gesto decidido da cabeça. Quando ele explicou que éramos da América, ela arregalou os olhos e examinou-nos com todo o cuidado. Depois deu uma risada, que eu nunca soube o que significava. Ranov ficou de novo carrancudo, acho que só conseguia parecer agradável poucos minutos de cada vez e ela virou-se e fez-nos sinal para entrarmos.
A casa apanhou-me novamente de surpresa; podia ser uma velha e encantadora quinta vista de fora, mas lá dentro, imersa numa penumbra que contrastava fortemente com a luz do sol da entrada, era um museu. A porta abria-se diretamente para uma grande sala com uma lareira, onde a luz do sol batia nas pedras em vez do fogo. A mobília cômodas de madeira escura com ricos trabalhos de entalhe e guarnecidas de espelhos, cadeiras e bancos principescos teria sido impressionante por si só, mas o que chamou a minha atenção e despertou murmúrios de admiração em H elen foi a rara mistura de tecidos tradicionais e pinturas primitivas ícones, sobretudo, de uma qualidade que em muitos casos parecia superar o que tínhamos visto nas igrejas de Sófia. H avia madonas de olhar luminoso e santos tristonhos de lábios finos, grandes e pequenos, ornamentados com pinturas douradas ou emoldurados em prata batida, apóstolos de pé em barcos e mártires suportando pacientemente os seus martírios. As cores ricas, antigas, patinadas, repetiam-se por todos os lados em tapeçarias e painéis tecidos com padrões geométricos e até num colete bordado e um par de estolas orlados de pequeninas moedas. H elen apontou para o colete, que tinha filas horizontais de bolsos cosidos de cada lado
— Para balas — disse ela, simplesmente
J unto ao colete, estava pendurado um par de adagas. E u queria perguntar quem tinha usado o colete, quem juntara aquelas balas, quem manejara as adagas. Alguém enchera uma jarra de cerâmica numa mesa por baixo destas peças com rosas e folhagem, que pareciam sobrenaturalmente vivas no meio de todos aqueles tesouros desbotados O soalho estava perfeitamente encerado. P ercebi que mais adiante havia outra sala parecida com aquela.
Ranov também olhava em volta, e fungou, desdenhoso
— N a minha opinião, deixam o professor Stoichev guardar propriedades nacionais em excesso. Deviam ser vendidas para benefício do povo.
Ou I rin não compreendia inglês ou não se dignou responder-lhe, virou-lhe as costas e levou-nos até um estreito lanço de escada fora da sala. N ão sei o que esperava ver lá em cima Talvez fosse encontrar um cubículo atravancado, uma caverna onde o velho professor hibernasse, ou talvez, pensei — com aquela pontada de sofrimento a que já me ia acostumando —, encontrássemos um escritório arrumado, organizado, igual ao que camuflava a esplêndida e tumultuosa mente do professor Rossi. M al pusera de lado essa imagem quando a porta no cimo dos degraus se abriu e um homem de cabeça branca, baixo mas direito, saiu para o patamar da escada. I rina correu para ele, agarrando-lhe o braço com as mãos e dirigindo-lhe rápidas palavras em búlgaro entremeadas de um riso excitado.
O velho voltou-se para nós, calmo, calado, o rosto profundamente absorto, tanto que
tive a impressão de que olhava para baixo, para o chão, embora estivesse a olhar diretamente para nós. Adiantei-me então e estendi-lhe a mão. E le apertou a gravemente, virou se para Helen e apertou-lhe também a mão. Era educado, formal, demonstrava o tipo de deferência que não é de fato deferência mas dignidade, e os seus grandes olhos escuros iam de um de nós para o outro, até que deparou com Ranov, que ficara atrás a observar a cena. N esse ponto, Ranov aproximou se e trocou também um aperto de mão com ele com condescendência, pensei, gostando cada vez menos do nosso guia. Desejava ardentemente que nos deixasse para podermos falar a sós com o professor Stoichev. P erguntava a mim próprio como poderíamos ter uma conversa franca com Stoichev, receber alguma informação da sua parte, com Ranov a rondar a nossa volta como uma mosca.
O professor Stoichev virou-se devagar e convidou-os a entrar no aposento. E ste era
um dos muitos do andar de cima da casa. N unca ficou claro para mim, durante as nossas duas visitas, onde dormiam os seus habitantes. Até onde podia ver, o andar superior continha apenas a comprida e estreita sala de estar onde acabávamos de entrar e diversas pequenas divisões que davam para ela. As portas dessas divisões estavam escancaradas, e a luz do sol filtrava-se para dentro delas através das folhas verdes das árvores diante das janelas do lado oposto, acariciando as capas dos incontáveis livros, livros que cobriam as paredes, repousavam dentro de caixas no chão ou amontoavam-se por cima das mesas. N o meio deles, nas prateleiras, havia documentos soltos de todos os tamanhos e formatos, muitos deles visivelmente muito antigos. N ão, não era igual ao gabinete organizado de Rossi, e sim um laboratório desordenado, o depósito da mente de um colecionador. P or toda a parte, via o sol tocando o velino antigo, couro antigo, capas e lombadas filetadas, traços de ouro, folhas gastas, encadernações nodosas livros maravilhosos, vermelhos, castanhos e cor de osso livros e rolos e manuscritos numa desordem laboriosa. N enhum deles empoeirado, nada que fosse pesado apoiado em algo frágil, e no entanto esses livros, esses manuscritos, estavam absolutamente em toda a parte nos aposentos de Stoichev, e tive a sensação de estar cercado por eles de uma maneira que ninguém pode estar nem mesmo num museu, onde esses preciosos objetos teriam ficado dispostos mais espaçadamente, mais metodicamente.
N uma das paredes da sala de estar estava pendurado um mapa, pintado, para minha surpresa, em couro. Não pude deixar de me aproximar dele, e Stoichev sorriu.
— G osta? — perguntou. — É o I mpério B izantino em cerca de 1150. — E ra a primeira vez que falava, e usou um inglês pausado e correto.
Quando a B ulgária ainda era um dos seus territórios — disse H elen, contemplando-o pensativa.
Stoichev lançou-lhe um olhar rápido, claramente satisfeito.
— Sim, exatamente. P enso que esse mapa foi feito em Veneza ou G énova e depois levado para C onstantinopla, talvez como presente para o imperador ou para alguém da sua corte. Este é uma cópia que um amigo me fez.
Helen sorriu, tocando o queixo e refletindo. Então, quase lhe piscou o olho.
— O imperador Manuel I Comnenus, talvez?
Fiquei pasmado e Stoichev também pareceu espantado. Helen deu uma risada.
— Bizâncio costumava ser quase um passatempo para mim.
O velho historiador abriu um largo sorriso e curvou-se diante dela, cortês Apontou para as cadeiras em torno de uma mesa no meio da sala e sentamo-nos. De onde estava, podia ver o quintal atrás da casa, o terreno a descer gradualmente até à orla de um bosque e as árvores de fruto, algumas já carregadas de pequenos frutos verdes. As janelas estavam abertas e o mesmo zumbir de abelhas e restolhar de folhas chegava até nós. P ensei como deveria ser agradável para Stoichev, mesmo no exílio, sentar-se ali com os seus manuscritos e ler ou escrever enquanto ouvia aqueles sons, que nenhum governo opressivo podia abafar, ou de que nenhum burocrata resolvera afastá-lo ainda. E ra uma prisão feliz e talvez mais voluntária do que tínhamos maneira de saber.
Stoichev não disse mais nada por algum tempo, apesar de olhar atentamente para nós, e tive curiosidade em saber o que pensava do fato de termos aparecido ali, e se planeava descobrir quem éramos.
Depois de alguns minutos, achando que ele nunca se dirigiria a nós, dirigi-me a ele.
— P rofessor Stoichev, perdoe-nos por invadirmos a sua solidão. E stamos muito gratos ao senhor e à sua sobrinha por permitirem que os visitemos.
E le olhou para as próprias mãos sobre a mesa eram finas e cobertas de manchas da idade — e depois para mim. Os seus olhos, como já disse, eram muito escuros, e eram os olhos de um rapaz, apesar de o seu rosto bem barbeado e moreno ser velho. As orelhas eram extraordinariamente grandes e sobressaíam dos lados da cabeça no meio do cabelo branco bem aparado; captavam um pouco da luz das janelas, de modo que ficavam translúcidas, com os contornos rosados como as de um coelho. Aqueles olhos, em que a brandura e a cautela se combinavam, tinham também algo de animal. Os dentes eram amarelados e tortos, e um deles, na frente, estava coberto de ouro. M as estavam todos no lugar, e o seu rosto tornava-se quando sorria iluminado e surpreendente, como se um animal selvagem assumisse subitamente uma expressão humana. E ra um rosto maravilhoso, um rosto que na juventude devia ter tido um brilho invulgar, um grande e visível entusiasmo — devia ter sido um rosto irresistível.
Depois Stoichev sorriu, com tanta intensidade que nos fez sorrir também, a mim e a
H elen. I rina olhou para nós. Sentara-se numa cadeira debaixo de um ícone de um santo — presumo que fosse S. J orge que atravessava vigorosamente com a espada um dragão subnutrido.
— E stou muito contente que tenham vindo ver-me — disse Stoichev. — N ão
costumamos receber muitas visitas, e visitas que falem inglês são ainda mais raras. E stou satisfeito por poder praticar o meu inglês convosco, embora receie que já não seja tão bom como era dantes.
— O seu inglês é excelente — disse eu. — Onde o aprendeu, se não se importa que
pergunte?
— Oh, não me importo — disse o professor Stoichev. — T ive a sorte de estudar no
estrangeiro quando era novo, e alguns desses estudos foram feitos em L ondres. H á alguma coisa em que possa ajudá-los ou desejam apenas visitar a minha biblioteca?
Disse aquilo com tanta simplicidade que me apanhou de surpresa. — Ambas as coisas — respondi. — G ostaríamos de visitar a sua biblioteca e de lhe fazer
algumas perguntas para a nossa pesquisa. — Fiz uma pausa, procurando as palavras. — M iss Rossi e eu estamos muito interessados na história do seu país na I dade M édia, embora eu saiba muito menos desse assunto do que devia, e estamos a escrever uns... — e comecei a gaguejar porque me ocorreu que, apesar da breve preleção de H elen no avião, eu nada sabia sobre a história da B ulgária, ou sabia tão pouco que tudo o que dissesse só pareceria absurdo àquele homem erudito que era o guardião do passado do seu país; e também porque o que tínhamos a discutir era extremamente pessoal, terrivelmente improvável e de maneira alguma algo que eu quisesse mencionar diante de Ranov, que nos observava com o seu sorriso escarninho por cima da mesa.
— Quer dizer que estão interessados na B ulgária medieval? — perguntou Stoichev, e
tive a impressão de que também ele relanceava os olhos na direção de Ranov.
— Sim — disse H elen, vindo rapidamente em meu auxílio. — E stamos interessados na
vida monástica da B ulgária medieval, que temos vindo a pesquisar o melhor que podemos para alguns artigos que gostaríamos de escrever. M ais especificamente, gostaríamos de saber sobre a vida nos mosteiros da B ulgária no último período medieval, e sobre algumas rotas que trouxeram peregrinos à B ulgária, bem como sobre as rotas que os peregrinos da Bulgária seguiam quando viajavam para outras terras.
Stoichev iluminou-se, sacudindo a cabeça com prazer evidente, de tal modo que as
suas grandes orelhas delicadas captaram a luz.
— É um tema muito bom — declarou. O seu olhar perdeu-se ao longe, e imaginei que
estivesse a ver um passado tão longínquo que era realmente o poço do tempo, e a ver com mais clareza do que qualquer outra pessoa no mundo o período a que nos referíamos. — H á alguma coisa em especial sobre a qual querem escrever? Tenho muitos manuscritos aqui que lhes podem ser úteis, e terei o maior prazer em deixar que os examinem, se quiserem.
Ranov mexeu-se na cadeira e pensei de novo como me aborrecia tê-lo ali a observar-nos. Felizmente a sua atenção concentrava-se no lindo perfil de I rina, do lado oposto da sala.
— Bem — disse eu —, gostaríamos de saber mais sobre o século quinze, o final do século quinze, e a doutora Rossi fez um bom trabalho sobre esse período no país natal da sua família...
— Que é a... Romênia — completou Helen. Mas fui criada e educada na Hungria.
— Ah, sim, então é nossa vizinha. — O professor Stoichev voltou-se para H elen e dirigiu-lhe o mais amável dos sorrisos. — E é da Universidade de Budapeste?
— Sou — respondeu Helen.
— Talvez conheça um amigo meu lá. O professor Sándor.
— Oh, sim, é o diretor do nosso departamento de História. É muito meu amigo.
— Ah, isso é ótimo, ótimo — disse o professor Stoichev. — P or favor, transmita-lhe os meus mais calorosos cumprimentos quando tiver oportunidade.
— Com prazer — e Helen sorriu-lhe.
— E quem mais? Acho que não conheço mais ninguém que esteja lá agora. M as o seu nome, professora, é muito interessante. C onheço esse nome. N os E stados Unidos — voltou-se para mim outra vez, e novamente para H elen; inquieto, vi os olhos de Ranov fixos em nós —, há um famoso historiador chamado Rossi. Será parente seu?
P ara minha surpresa, H elen corou violentamente. P ensei que talvez ela não gostasse de admitir isso em público, ou ainda sentisse um resto de dúvida se devia fazê-lo ou não, ou talvez tivesse notado o súbito interesse de Ranov na conversa.
— Sim — respondeu ela, lacônica. — É o meu pai, B artholomew Rossi. — P ensei que seria muito natural Stoichev interrogar-se por que razão a filha de um historiador inglês alegava ser romena e ter sido criada na H ungria. E ntretanto, se ele tinha essas dúvidas, guardou-as para si.
— Sim, é esse mesmo o nome dele. E screveu livros muito bons. E abrangendo um espectro tão amplo de assuntos! — P assou a mão pela testa. — Quando li alguns dos seus primeiros trabalhos, pensei que daria um ótimo historiador dos B alcãs, mas vi que abandonou essa área e foi para muitas outras.
Foi um alívio ouvir que Stoichev conhecia o trabalho de Rossi e tinha boa opinião dele, isso podia dar-nos credibilidade aos seus olhos e também tornar mais fácil conquistar a sua simpatia.
— É verdade — disse eu. — N a realidade, o professor Rossi não só é o pai de H elen como também é o meu orientador. E stou a trabalhar com ele na minha tese de doutoramento.
— Que sorte a sua — Stoichev dobrou uma das mãos cobertas de veias sobre a outra. — E a respeito de que é a sua tese?
— B em — comecei, e dessa vez fui eu quem corou; esperava que Ranov não estivesse
a observar estas mudanças de cor com muita atenção —, é sobre os mercadores holandeses do século dezessete.
— Excelente — disse Stoichev. — É um tema muito interessante. Então, o que o trouxe
à Bulgária?
— É uma longa história — respondi. — M iss Rossi e eu estamos interessados em fazer
algumas pesquisas sobre as ligações entre a B ulgária e a comunidade ortodoxa de I stambul depois da conquista otomana da cidade. M esmo sendo um desvio do assunto da minha tese, temos escrito alguns artigos sobre isso. N a verdade, acabei de fazer uma palestra na Universidade de B udapeste sobre a história de... certas partes da Romênia sob o domínio dos Turcos. — I mediatamente, percebi que cometera um erro, talvez Ranov ainda não soubesse que tínhamos estado em B udapeste, além de I stambul. H elen estava tranquila, porém, e segui-lhe o exemplo. — G ostaríamos muito de terminar a nossa pesquisa aqui na Bulgária e achamos que o senhor talvez nos possa ajudar.
— C laro — disse Stoichev, pacientemente. — Talvez pudessem dizer-me exatamente
o que lhes interessa mais na história dos nossos mosteiros medievais e das rotas de peregrinação, e no século quinze em particular. É um século fascinante da história da B ulgária. Sabem que, depois de 1393, a maior parte do nosso país estava sob o jugo otomano, se bem que algumas partes da B ulgária só tenham sido conquistadas quando o século quinze já ia bem avançado. A nossa cultura intelectual nativa foi preservada a partir dessa época em grande parte nos mosteiros. Fico contente que se interessem pelos mosteiros porque são uma das fontes mais ricas da nossa herança na B ulgária. — Fez uma pausa e dobrou de novo as mãos uma sobre a outra, como se esperasse para ver até que ponto essa informação nos era familiar.
— Sim — concordei. N ão havia outra maneira. Teríamos de conversar sobre algum
aspecto da nossa pesquisa com Ranov sentado mesmo à nossa frente. Se eu lhe pedisse para sair, ficaria logo desconfiado dos nossos objetivos. A nossa única esperança era fazer as perguntas soarem tão acadêmicas e impessoais quanto possível. — Acreditamos que existam certas ligações interessantes entre a comunidade ortodoxa de I stambul no século quinze e os mosteiros da Bulgária.
— Sim, isso é certamente verdade — disse Stoichev, — sobretudo desde que a I greja
búlgara foi colocada sob a jurisdição do patriarca de C onstantinopla por M ehmed o C onquistador. Antes disso, é claro, a nossa igreja era independente, com o seu próprio patriarca em Veliko Trnovo.
Senti uma onda de gratidão por aquele homem com a sua maravilhosa erudição. Os
meus comentários tinham sido pouco mais que frívolos, e contudo ele respondera com uma delicada além de informativa circunspeção.
— E xatamente — disse eu. — E estamos especialmente interessados... encontramos
uma carta... isto é, estivemos recentemente em I stambul — tive o cuidado de não olhar para Ranov — e descobrimos uma carta que tem a ver com a B ulgária... com um grupo de monges que viajou de C onstantinopla para um mosteiro na B ulgária. P ara os objetivos de um dos nossos artigos, estamos interessados em reconstituir o percurso deles através da Bulgária. Talvez andassem em peregrinação, não temos certeza.
— E ntendo — disse Stoichev. Os seus olhos estavam cheios de cautela e mais luminosos do que nunca. — H á alguma data nessa carta? P odem falar-me um pouco sobre o seu teor ou sobre quem a escreveu, se é que sabem quem foi, e onde a encontraram? A quem estava endereçada, e assim por diante, se souberem essas coisas?
— C ertamente — disse eu — De fato, temos aqui uma cópia. O original está em E slávomo, e um monge em I stambul copiou-o para nós. E stá guardado no arquivo estatal de M ehmed I I . Talvez queira ler a carta pessoalmente. — Abri a minha pasta e tirei a cópia da carta, entregando-lha e esperando que Ranov não pedisse para a ver depois
Stoichev pegou na carta e vi os seus olhos dispararem pelas primeiras linhas
— I nteressante — disse, e, para minha decepção, colocou a em cima da mesa. Talvez ao fim e ao cabo não fosse ajudar-nos, nem ao menos ler a carta
— M inha querida — disse ele, virando se para a sobrinha. — Acho que não podemos examinar velhas cartas sem oferecer as visitas alguma coisa para comer e beber. P odes trazer nos raktya e um almoço leve? — E curvou a cabeça com especial cortesia para Ranov
Irina levantou-se prontamente, sorrindo
— C laro, tio — disse ela, num bonito inglês. N unca mais acabavam, pensei, as surpresas naquela casa — M as preciso de ajuda para trazer tudo aqui para cima — Olhou de relance para Ranov com os seus olhos claros e ele levantou-se, ajeitando o cabelo
— Terei muito prazer em ajudá-la — disse ele, e os dois desceram juntos, Ranov batendo ruidosamente com os pés nos degraus e Irina tagarelando com ele em búlgaro
L ogo que a porta se fechou atrás deles, Stoichev inclinou se para a frente e leu a carta com ávida concentração. Quando terminou, ergueu os olhos para nós. O seu rosto perdera uns dez anos, mas estava tenso.
— I sto é extraordinário — disse, em voz baixa. I nstintivamente, eu e H elen levantamo-nos ao mesmo tempo e fomos sentar-nos junto dele na extremidade da mesa comprida. — Estou espantado por ver esta carta
— Sim como? — disse eu, ansioso — Tem alguma idéia do que ela pode significar?
— Alguma. — Os olhos de Stoichev estavam enormes e olhou firmemente para mim — Sabe — acrescentou —, eu também tenho uma das cartas do irmão Kiril.