O Historiador

Elizabeth Kostova · Capítulo 78 de 83

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O Historiador

Capítulo 75

Depois da nossa aventura numa cripta, a sala de estar dos B ora era o paraíso. E ra um

alívio imenso estar lá de novo, com uma chávena de chá quente na mão a temperatura tinha estado surpreendentemente mais fresca naquela semana, embora já fosse J unho — e Turgut a sorrir para nós das almofadas do divã. H elen tinha descalçado os sapatos à porta do apartamento e calçado chinelos vermelhos enfeitados com borlas que M rs. B ora lhe trouxe. Selim Aksoy também lá estava, sentado num canto, calado, e Turgut procurou fazer com que ele e Mrs. Bora tivessem uma boa tradução de tudo o que tinha acontecido.

— Tem mesmo certeza de que a tumba estava vazia? — Turgut já tinha feito aquela

pergunta, mas não conseguia parar de a repetir.

— C erteza absoluta — lancei um olhar para H elen. — O que não sabemos é se o ruído

que ouvimos era o som de Drácula a escapar de alguma maneira quando entramos. Provavelmente já estava escuro lá fora e, portanto, era-lhe fácil movimentar-se.

— E podia ter mudado de forma, é claro, se a lenda estiver correta. — Turgut suspirou.

— M aldição! V ocês estiveram muito perto de o apanhar, meus amigos, mais perto que a G uarda do C rescente conseguiu chegar em cinco séculos. E stou extremamente feliz por não terem sido mortos, mas também lamento muitíssimo que não tenham podido destruí-lo.

— P ara onde lhe parece que ele tenha ido? — H elen inclinou-se para a frente, os olhos

intensos e escuros.

Turgut esfregou o seu queixo largo.

— B em, minha querida, não faço idéia. E le pode viajar rapidamente e para longe,

embora não saiba precisar até que distância iria. P ara outro lugar antigo, tenho certeza, algum esconderijo que tenha permanecido intocado durante séculos. Deve ter sido um duro golpe ter de abandonar Sveti G eorgi, mas ele sabe que esse local agora será vigiado durante muito tempo. Dava a minha mão direita para saber se ele ainda está algures na Bulgária ou se saiu mesmo do país. Fronteiras e política não significam muito para ele, tenho certeza.

A expressão carrancuda de Turgut não combinava com o seu rosto amável. — Acha que ele pode ter-nos seguido? — perguntou H elen simplesmente, mas

qualquer coisa no formato dos seus ombros fez-me pensar que a própria simplicidade com que formulara a pergunta lhe custara um esforço.

Turgut fez que não com a cabeça.

— E spero que não, Senhora P rofessora. E u diria que a esta altura ele deve estar com

algum medo de vocês os dois, pois encontraram-no, coisa que nunca ninguém conseguira.

H elen ficou calada, mas não gostei da dúvida no seu rosto. Selim Aksoy e M rs. B ora

também a olhavam com um carinho especial, pensei; talvez estivessem a perguntar a si próprios como é que eu permitira que ela se expusesse a uma situação tão perigosa, mesmo que tivéssemos conseguido voltar ilesos.

Turgut voltou-se para mim.

— E sinto profundamente pelo seu amigo Rossi. Gostaria de o ter conhecido.

— E sei que teriam gostado muito da companhia um do outro — afirmei com sinceridade, segurando a mão de H elen. Os olhos dela enchiam-se de lágrimas sempre que o nome de Rossi surgia, e desviou o olhar, como se procurasse privacidade.

— Também gostaria de ter conhecido o professor Stoichev.

Turgut suspirou novamente e pousou a chávena na mesa de metal dourado diante de nós.

— Teria sido magnífico — disse eu, sorrindo à imagem dos dois estudiosos comparando anotações. — V ocê e Stoichev poderiam ter explicado o I mpério Otomano e os B alcãs medievais um ao outro. Quem sabe, talvez um dia se encontrem.

Turgut abanou a cabeça.

— Acho que não — e completou: — As barreiras entre nós são tão altas e... espinhosas... como as que existiam entre um czar e um paxá. M as se algum dia voltar a falar com ele, ou se lhe escrever, faça-me o favor de lhe transmitir as minhas saudações.

Era uma promessa fácil de cumprir.

Selim Aksoy queria que Turgut nos fizesse uma pergunta, e Turgut ouviu-o com ar sério.

— G ostávamos de saber — disse-nos — se, no meio de todo aquele perigo e caos, viram o livro que o professor Rossi descreveu, a vida de São J orge, não era? Os B úlgaros levaram-no para a universidade em Sofia?

H elen conseguia dar uma surpreendente risada de menina quando estava realmente alegre, e tive de me controlar para não a beijar em frente de todos. E la mal sorrira desde que deixáramos a sepultura de Rossi.

— Está na minha pasta — respondi. — Por enquanto.

Os olhos de Turgut dilataram-se, deslumbrados, e precisou de um minuto para retomar os seus deveres de intérprete.

— E como é que o livro encontrou abrigo aí?

Helen estava muda, sorridente, portanto eu expliquei.

N ão tinha voltado a pensar no livro até chegarmos a Sofia, ao hotel. N ão, não podia contar-lhes a verdade toda, por isso dei-lhes uma versão educada.

A verdade toda era que, quando finalmente conseguimos ficar sozinhos durante dez minutos no quarto de hotel de Helen, segurei-a nos meus braços e beijei o seu cabelo escuro, puxei-a de encontro ao meu peito, encaixando-a no meu corpo através das nossas roupas sujas da viagem como se ela fosse a outra parte de mim a metade ausente de P latão, pensei e, então, não só senti o alívio de termos sobrevivido juntos para nos abraçarmos naquele momento, e a beleza do seu corpo alto, e a respiração dela no meu pescoço, mas também algo inexplicavelmente errado naquele corpo, algo compacto e duro. Afastei-me, olhei para ela, assustado, e vi o seu sorriso esquisito. L evou o dedo aos lábios. E ra apenas um lembrete; nós dois sabíamos que num lugar qualquer do quarto devia haver um microfone.

N um segundo, ela levou as minhas mãos aos botões da sua blusa, que agora estava

amarrotada e suja das nossas aventuras. Desabotoei-a sem me atrever sequer a pensar, e tirei-a. J á disse que as roupas interiores das mulheres eram mais complicadas nessa época, com arames secretos e ganchos e estranhos compartimentos uma armadura interna. E mbrulhado num lenço e aquecido pela pele de H elen, havia um livro não o grande fólio que eu imaginei quando Rossi nos falou da sua existência, mas um livro suficientemente pequeno para caber na minha mão. A sua capa tinha um desenho muito elaborado a ouro sobre madeira pintada e couro. E ngastadas no ouro, havia esmeraldas, rubis, safiras, lápis-lazúlis, pérolas excepcionais um pequeno firmamento de jóias, todas para glorificar o rosto do santo colocado no centro. As suas delicadas feições bizantinas pareciam ter sido pintadas alguns dias antes, e não séculos, e os olhos grandes, tristes, capazes de perdoar dragões, davam a impressão de seguir os meus. As sobrancelhas subiam em finos arcos sobre eles, o nariz era longo e direito, a boca de uma severidade tristonha. O retrato tinha uma harmonia, uma plenitude, um realismo que eu nunca vira antes na arte bizantina, um ar de ancestralidade romana. Se não estivesse já apaixonado, diria que aquele era o rosto mais bonito que alguma vez vira: humano mas também celestial, ou celestial mas também humano. Na gola da túnica, vi palavras delicadamente escritas com tinta.

— G rego — disse H elen. A sua voz era menos que um sussurro, pairando no meu

ouvido. — São Jorge.

No interior, havia pequenas folhas de pergaminho em condições impressionantemente

boas, todas cobertas por uma elegante letra medieval, um texto também em grego. Aqui e ali, primorosas páginas de ilustrações: São J orge a atravessar com a sua lança o pescoço de um dragão que se contorcia, com uma multidão de nobres a assistir à cena; São J orge a receber uma minúscula coroa dourada de C risto, que se inclinava no seu trono divino; São J orge no seu leito de morte, cercado por anjos de asas vermelhas. C ada ilustração estava repleta de extasiantes pormenores em miniatura. H elen abanou afirmativamente a cabeça e aproximou novamente a sua boca do meu ouvido, mal respirando.

— N ão sou perita nisto — sussurrou, — mas acho que pode ter sido feito para o

imperador de C onstantinopla, resta saber para qual deles. E sta é a insígnia dos últimos imperadores.

De fato, no lado interno da capa, fora pintada uma águia bicéfala, a ave que olhava

para trás, para o augusto passado bizantino, e para a frente, para o seu futuro sem limites; o olhar não tinha sido suficientemente aguçado para vislumbrar o colapso do I mpério causado por um infiel presunçoso.

— I sso significa que data, pelo menos, da primeira metade do século quinze — soprei.

— Antes da conquista.

— Ah, não, acho que é muito mais antigo do que isso — sussurrou H elen, tocando de

leve na insígnia. — O meu pai... o meu pai disse que era muito antigo. E repara que a insígnia menciona C onstantino P orphyrogenitus, que reinou em... — e H elen procurou num arquivo interior — na primeira metade do século dez. Reinou antes de Bachkovski manastir ter sido fundado. A águia deve ter sido acrescentada depois.

Mal consegui articular as palavras.

— Estás a querer dizer que isto tem mais de mil anos?

Segurando o livro nas duas mãos com todo o cuidado, sentei-me na beira da cama ao lado de H elen. N enhum de nós emitiu qualquer som; falávamos mais ou menos com o olhar.

— E stá num estado quase perfeito. E pretendes contrabandear este tesouro para fora da B ulgária H elen? — falei-lhe com o olhar, — perdeste o juízo. E quanto ao fato de pertencer ao povo da Bulgária?

Ela beijou-me, tirou-me o livro das mãos e abriu-o.

— Foi um presente do meu pai — sussurrou. O lado interno da capa tinha uma funda aba de couro sobreposta, e ela pôs a mão com delicadeza no interior. — Esperei para ver isto até podermos fazê-lo juntos.

T irou um maço de folhas de papel fino dactilografado com um texto compacto. E ntão lemos juntos, em silêncio, o doloroso diário de Rossi. Quando acabamos, nenhum de nós falou, estávamos ambos a chorar. P or fim, H elen embrulhou o livro novamente no lenço e colocou-o de novo no seu esconderijo, contra a própria pele.

Turgut sorriu quando terminei uma versão diluída desta história.

— M as ainda tenho mais coisas para contar, e é muito importante — disse. Descrevi o terrível encarceramento de Rossi na biblioteca. E scutaram com os rostos sérios e, quando mencionei o fato de que Drácula sabia da existência de uma guarda permanente formada pelo sultão para o perseguir, Turgut prendeu a respiração.

— Sinto muito — disse eu.

E le traduziu depressa para Selim, que baixou a cabeça e depois disse qualquer coisa numa voz muito suave. Turgut assentiu.

— E le diz o que também sinto. E ssas notícias terríveis significam apenas que devemos ser mais diligentes a perseguir o E mpalador e a afastar a sua influência da nossa cidade. Seria o que o G lorioso Refúgio do M undo nos mandaria fazer, se estivesse vivo. É verdade. E o que fará com o livro quando voltar para casa?

— C onheço uma pessoa que tem um contato com uma casa de leilões — respondi. — Seremos muito cautelosos, é claro, e vamos esperar algum tempo antes de fazer qualquer coisa. Espero que algum museu o compre, mais cedo ou mais tarde.

— E o dinheiro? — Turgut balançou a cabeça. — O que fará com tanto dinheiro?

— Ainda estamos a refletir sobre isso — respondi. — Alguma coisa ao serviço do bem. — Ainda não sabemos o quê.

O nosso avião para N ova I orque partia às cinco, e Turgut começou a olhar para o relógio assim que acabamos o nosso último enorme almoço nos divãs. E le tinha uma aula para dar à noite, "ai de mim, que pena", mas M r. Aksoy iria levar-nos ao aeroporto de táxi. Quando nos levantamos para sair, M rs. B ora trouxe uma écharpe da mais fina seda, de cor creme bordada a prata, e colocou-a à volta do pescoço de H elen. E scondeu o mau aspecto do seu casaco preto muito gasto e da gola encardida, e todos abafamos uma exclamação — pelo menos eu fi-lo, e não posso ter sido o único. O rosto que emergia da écharpe era o semblante de uma imperatriz.

— Para o dia do casamento — disse Mrs. Bora, pondo-se em bicos de pés para a beijar. Turgut beijou a mão de Helen.

— P ertenceu à minha mãe — disse ele com simplicidade, e H elen não conseguiu dizer

nada.

Falei por nós dois enquanto lhes apertava as mãos. Nós escreveríamos, nós pensaríamos

neles. Sendo longa a vida, voltaríamos a ver-nos.